CAPÍTULO 32 – Quando o Amor é Prova

1017 Palavras
O quarto cheirava a remédio e chuva velha. As paredes, brancas demais. O tempo, lento demais. Sofia abriu os olhos e viu apenas a claridade filtrada pela cortina. Por um segundo, pensou estar sonhando. Mas a dor no braço e o som dos monitores a trouxeram de volta — à vida, à guerra, à saudade. — Você está segura — disse uma voz calma. Era Helena, sentada na poltrona ao lado, o olhar cansado e terno. — Está no hospital central. Ficou desacordada quase doze horas. Sofia tentou se levantar. Helena a impediu com delicadeza. — Devagar, filha. O corpo ainda não entendeu o que o coração passou. — O Aurora? — perguntou, a voz rouca. — Está salvo. — Helena sorriu de leve. — Lorenzo cuidou disso. Ao ouvir o nome dele, algo dentro de Sofia doeu — não dor física, mas aquele tipo de ferida que o amor abre e o tempo não fecha. — Onde ele está? Helena respirou fundo. — No fogo. Do lado de fora, o hospital era uma fortaleza. Jornalistas, câmeras, flashes, boatos. Lorenzo atravessava o corredor com o mesmo olhar que usava antes de uma reunião de guerra — frio por fora, em ruínas por dentro. Dois seguranças o escoltavam até a saída lateral, mas ele parou na porta, respirou fundo e voltou. Não conseguia deixar Sofia ali, mesmo que o mundo o exigisse. Vera apareceu com o tablet na mão. — Precisamos ir, Lorenzo. A imprensa está dizendo que você manipulou os dados do Aurora. — Patrícia — ele disse, sem precisar pensar. — Só ela teria coragem de distorcer o que ainda nem foi revelado. — E mais: o juiz que assinou o mandado foi afastado, e um novo despacho ordenou sua detenção para depoimento. Lorenzo fechou os olhos por um instante. O amor sempre vem com preço, pensou. E, às vezes, o preço é o próprio nome. — Eu não vou fugir. — A voz saiu firme. — Mas não antes de vê-la. Sofia estava acordada quando ele entrou. O som da porta foi um alívio e uma sentença ao mesmo tempo. — Você devia descansar — ele disse. — Você devia mentir melhor — ela respondeu, com um sorriso pequeno. — Achei que tinha perdido você. Lorenzo se aproximou. Os olhos dele diziam o que as palavras não conseguiam. Ele se ajoelhou ao lado da cama e segurou a mão dela — o gesto mais humano do mundo. — Você quase me perdeu — confessou. — Mas foi você que me salvou. — Eu? — Ela riu baixinho. — Eu só sobrevivi. — E isso é mais do que metade das pessoas consegue fazer quando o mundo desaba. — A voz dele vacilou. — Sofia… eles querem me levar. O sorriso dela sumiu. — O quê? — Vão me interrogar. Patrícia virou o jogo. Está dizendo que eu criei o Aurora para manipular o mercado. Sofia ficou em silêncio, como se tentasse segurar o chão com o olhar. — E você vai deixar? — Eu não tenho escolha. — Sempre tem. — A voz dela cresceu, mesmo fraca. — Você pode lutar. Pode dizer a verdade. Pode me deixar lutar com você! Ele abaixou a cabeça. — Não quero te arrastar pra isso. — Lorenzo… — ela segurou o rosto dele, com lágrimas e raiva. — O amor não é arrasto. É aliança. Ele fechou os olhos, e, por um instante, o tempo parou. O toque dela era o único lugar do mundo que ainda fazia sentido. — Eu te amo — disse, por fim, baixo, sincero, doído. — Então prova. — Sofia sussurrou. — Não desaparecendo. Mas ficando. As lágrimas dela caíram sobre a mão dele, como pequenas confissões de coragem. Na sala de imprensa, Patrícia Prado sorria. Diante das câmeras, vestida de cinza e calma, ela parecia a imagem viva da razão. — A empresa M&M precisa de estabilidade — dizia. — O ex-presidente Lorenzo Martins será ouvido pelas autoridades. Acreditamos que a verdade prevalecerá, mas é necessário cautela. Os jornalistas anotavam, fascinados. Ninguém percebia o brilho frio nos olhos dela. Ao seu lado, um assessor cochichou: — A segunda camada do Aurora já começou a subir. — Deixe subir — ela respondeu, serena. — Toda verdade precisa de um herói… e de um vilão. — E quem é você? — o assessor perguntou, quase em sussurro. Ela sorriu, mirando a câmera. — Eu sou o meio. E o meio sempre vence. À noite, o hospital ficou em silêncio. Sofia dormia, e Lorenzo ficou ali, ao lado dela, contando as respirações, os segundos, os batimentos. A chuva tinha parado, mas o vento ainda sussurrava do lado de fora, lembrando que paz era coisa rara. Ele pegou o caderno que estava sobre a mesa e o abriu. A última frase escrita por ela: “O amor só é real quando o medo não é maior do que ele.” Ele leu, fechou o caderno, e, com voz trêmula, disse o que nunca conseguiu dizer no tempo certo: — Mesmo que o mundo me leve, eu volto. Sempre volto. Encostou os lábios na testa dela. E saiu, levando a coragem que ela plantou nele. Quando amanheceu, os jornais estampavam manchetes em letras grandes: “CEO da M&M é preso em investigação sobre o Aurora.” Sofia acordou com a notícia piscando no celular. O coração dela afundou — mas o olhar, não. Ela levantou devagar, ignorando os fios e os avisos dos médicos. Pegou o caderno, o casaco e o colar de orquídea que Lorenzo havia lhe dado. E, diante do espelho, disse à própria imagem: — Se o amor é prova, eu sou testemunha. Saiu do hospital sem olhar pra trás. A ponte ainda estava de pé. E ela, enfim, aprendera: Alguns amores não salvam — eles ensinam a lutar. Do outro lado da cidade, na cela fria, Lorenzo olhava o amanhecer por uma janela pequena demais. O mesmo sol que tocava o rosto dela agora atravessava as grades e pousava sobre o dele. E, naquele instante, mesmo separados, eles estavam sob o mesmo céu.
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