MAYA - ENTRE DOIS MORROS

1379 Palavras
Maya Eu chego em casa arrastando o pé, o corpo pesado como se tivesse carregado o morro inteiro nas costas. A noite na laje do Russo foi mais uma daquelas, ele chegou tarde, cheirando a uísque e fumaça, me puxou pro colo sem dizer nada, me beijou como se o mundo fosse acabar, e depois dormiu virado pro outro lado. Eu fiquei acordada olhando pro teto, ouvindo o ronco dele, sentindo aquele vazio que sempre fica quando ele apaga. Acordei cedo, saí quietinha, desci a ladeira com o sol ainda nascendo, e agora tô aqui, no morro do meu pai, sentindo o cheiro de café fresco e o som do rádio tocando baixo na cozinha. Abro a porta devagar. A casa é grande, mas muito bem organizada. Tudo no lugar. Diferente da laje do Russo, que parece sempre prestes a explodir: copos espalhados, cinzeiro cheio, arma na mesa como se fosse controle remoto. Aqui no morro do meu pai Ben, tudo tem regra. Hierarquia clara. Previsível. Não é bom, mas é estável. Ninguém some por dias sem dar satisfação. Ninguém chega machucado sem explicar. Aqui o perigo tem horário. Minha mãe, Keyla, tá na cozinha de avental, passando café. Ela vira pra mim na hora que eu entro. O olhar dela é daqueles que vê tudo sem precisar perguntar. — Bom dia, filha. Dormiu bem? Eu jogo a bolsa no sofá, forço um sorriso. — Bom dia, mãe. Mais ou menos. Ela não insiste. Pega uma xícara, serve café preto forte, coloca na mesa na minha frente. Senta do outro lado, me olha quieta. — Tá com cara de quem não pregou o olho. — Tô de boa, mãe. Só cansada. Ela assente, mas não acredita. Mãe nunca acredita quando a gente mente assim. — Come um pãozinho. Tem manteiga e frios na geladeira. Eu pego o pão, mas não tenho fome. Mastigo devagar, olhando pro nada. O peito aperta. Culpa por esconder dela, por esconder do meu pai, por esconder de mim mesma. Eu amo o Russo. Amo de um jeito que dói. Mas cada vez que volto pra cá, sinto que tô traindo essa casa. A porta da sala abre com força. É o Ben. Meu pai. Alto, ombro largo, cicatriz no rosto que ele nunca me explicou como conseguiu. Ele entra sem falar nada, vai direto pra cozinha, pega uma caneca, serve café. Me olha de canto. — Chegou agora, Maya? — É. Ele toma um gole, encosta na pia. — De onde? Eu suspiro. Já sei pra onde isso vai. — Do morro de cima, pai. Ele não diz nada por uns segundos. Só me encara. Olhar dele pesa mais que qualquer grito, que qualquer bronca. — Tá andando muito por lá ultimamente. — Ando sim. E daí, pai? Keyla se levanta, tenta amenizar. — Ben, deixa a menina tomar café em paz. Ele ignora. — Eu sei quem manda lá em cima, Maya. Sei o tipo de homem. E sei que você tá se metendo em território que não é seu. Eu levanto o olhar pra ele. A raiva sobe. — Território que não é meu? E o seu território é o quê, pai? Aqui também tem bala, tem sangue, tem regra que mata quem vacila. Você não tem moral pra julgar ninguém. Ele ri baixo, sem graça. — Eu sei muito bem quem eu sou, filha. Não finjo ser santo. Mas eu cuido dos meus. Cuido da família. Não some por dias, não chego cheirando a outra, não deixo ninguém esperando como um cachorro. — Você acha que o Russo não cuida de mim? — Cuida? Ele te usa, Maya. Te mantém por perto porque você é conveniente. Quando ele se cansa, ele some. Quando quer, brotar ele brota. Isso não é cuidar. Isso é possuir. Eu sinto o rosto queimar. — Você não conhece ele. — Conheço o suficiente. Homem como ele não muda. E você sabe disso. Keyla põe a mão no ombro dele. — Chega, Ben. Deixa ela. Ele olha pra ela, depois pra mim. Balança a cabeça. — Só tô avisando, filha. Quando a parada apertar, não vem chorar aqui dizendo que não sabia. Porque eu sei. E você também sabe muito bem que isso não vai terminar bem. Ele sai da cozinha, vai pro quintal falar com os cria. Eu fico olhando pro café esfriando. O meu peito dói. Porque ele tá certo. E eu odeio isso. Mais tarde, as meninas chegam. Isadora, Viviane e Marcelly. Elas brotam sem avisar, como sempre. Entram rindo, trazendo salgadinho e refrigerante. Tentam animar o clima. — Coé, Maya! Tá sumida, hein? — Isadora fala, jogando a bolsa no sofá. — Tô aqui, né? — respondo, forçando sorriso. Viviane senta do meu lado, abre o pacote de salgadinho. — Tá com cara de enterro, mermã. O que rolou? Marcelly já vai direto. — Deixa eu adivinhar: o Russo de novo. Eu suspiro. — Sempre ele. Isadora cruza os braços. — Menina, acorda. Ele te humilha na cara dura. Some, chega com cheiro de outra, te come e te manda embora como se você não fosse nada pra ele. — Não é assim — defendo, mas a voz sai fraca. Viviane ri debochada. — É exatamente assim. Ele não assume nada. Nunca te leva pra baile como "a fiel dele". Nunca fala "essa é minha mina" pra ninguém. Você vive em função dele, Maya. Ele é sua prioridade. Você é apenas uma, entre várias opções pra ele. Marcelly concorda. — E o pior, Maya, você aceita. Toda vez que ele manda "brota aqui", você vai correndo. Como se fosse um cachorrinho dele. Eu sinto os olhos arderem. — Vocês não entendem. A vida dele é pesada. Ele manda no morro, tem inimigos em cima o tempo todo, tem muita responsabilidade. Ele não pode ser igual aos outros caras. Isadora bufa. — Pesada é a sua vida agora, Maya. Você tá sempre justificando. "Ele é complicado", "a vida dele é assim", "ele me ama do jeito dele". Amor que dói não é amor, amiga. É prisão. Viviane pega minha mão. — A gente te ama, tá ligado? Mas ver você assim dói. Você merece mais. Merece um cara que te coloca em primeiro. Não um que te deixa esperando enquanto ele tá no baile com outra. Eu puxo a mão devagar. — Eu sei que é tóxico. Eu sei. Mas eu amo ele. Amo de verdade. Quando ele me olha, quando me toca... parece que o mundo para. Ele diz que sou a única que fica. Que sou diferente. Marcelly balança a cabeça. — Diferente pra quê? Pra ser a que sofre quieta? A que entende tudo? A que perdoa tudo? Silêncio. Elas me olham esperando resposta. Mas eu não tenho. — Eu tô tentando — murmuro. — Tô tentando entender se aguento mais ou se é hora de ralar. Isadora se aproxima. — Então rala, mermã. Antes que ele te destrua de vez. A conversa morre aí. Elas mudam de assunto, falam de baile, de roupa nova, de fofoca. Eu finjo rir. Mas por dentro tá tudo girando. Mais tarde, as meninas vão embora. Eu fico na sala, olhando pro celular. A tela acende. Mensagem dele. Seca e direta como sempre. 📲 Nick ❤️: Brota aqui hoje. Preciso de tu. Meu coração acelera. Aquele impulso automático de sempre, largar tudo, descer a ladeira, subir pro morro dele, me jogar nos braços dele. Como se nada mais importasse. Mas eu olho pro quintal. Meu pai tá lá conversando com o Gael, meu irmão gêmeo. Os dois rindo de alguma coisa. Gael me vê olhando, acena. Eu aceno de volta. E penso, se eu for agora, se eu continuar indo toda vez que ele me chama... Eu tô cruzando uma linha que, quando eu voltar, talvez não exista mais casa pra mim. O celular vibra de novo. Outra mensagem. 📲 Nick ❤️: Não demora, Maya. Eu fico parada no meio da sala. Mão tremendo. Olhando pro meu pai, pro meu irmão, pra minha mãe na cozinha. Pra essa casa que ainda é segura. Ainda é minha. Mas o Russo puxa mais forte. Sempre puxa. Eu respiro fundo. Fecho os olhos. E aperto "responder". ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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