Russo
Dias atuais...
Eu sou o Russo.
Nicolas Porto, trinta e dois anos, dono do morro. Não peço licença pra entrar na sua cabeça, não peço perdão por existir. Só chego. E fico. Porque aqui em cima, quem manda não pede.
Quem manda toma.
Aprendi cedo que sentimento é fraqueza. Meu pai sumiu quando eu tinha sete anos, minha mãe chorou até secar as lágrimas e depois virou uma cachaceira. Eu vi os dois lados da moeda: o lado que chora e o lado que ri por cima. Escolhi o segundo. Porque chorar não cobra divida, não compra fuzil, não cala inimigo. Poder resolve quase tudo. O resto a gente engole seco e segue.
O morro é meu desde os vinte e poucos. Não foi presente de ninguém. Foi conquistado na bala, na faca, na palavra que pesa mais que chumbo. Respeito? Conquistei no medo. Temido pelo nome? Sempre fui. Desejado pelo que represento? Isso é consequência. Grana entra fácil quando você controla a boca de fumo, a descida pro asfalto, as cargas que vêm e vão sem pergunta. Eu cuido dos meus: pago conta de vó que não tem mais ninguém, mando remédio pro cria doente, dou emprego pros moleque que não quer virar bandido mas não tem escolha. Sou o rei, o pai, o carrasco. Tudo junto. E ninguém reclama.
Inimigos? Tem. Sempre tem. Mas mantenho eles à distância. Uns no fundo do poço, outros com o r**o entre as pernas. Quem vacila some. Quem trai some mais rápido. Simples assim.
Mulheres? Passam pela minha cama como se fosse rotina. Chegam quentes, saem quietas. Eu não prometo nada. Nunca prometi. Elas sabem. Veem o peso do meu nome, ouvem o meu vulgo na boca da galera, sentem o cheiro de pólvora e uísque que eu carrego. Brotam porque querem. Vão embora porque eu deixo. Algumas voltam. A maioria não. E eu nem lembro o nome delas no dia seguinte, então f**a-se.
Mas tem uma que não vai embora.
Maya.
Eu não chamo ela de namorada. Não chamo de mulher. Chamo de “a única que fica”. Porque é isso que ela faz: fica. Mesmo quando eu sumo por dias, mesmo quando chego cheirando a outra, mesmo quando falo que não sou homem pra isso. Ela fica.
Ela tá aqui agora, no sofá da minha laje, pernas cruzadas, celular na mão, fingindo que tá vendo vídeo mas na real tá me esperando voltar da cozinha com o copo de gelo. Eu volto pra sala só de bermuda, corpo marcado de tatuagem e cicatriz, pego o controle e aumento o som do funk que toca baixo. O grave bate no peito. Ela levanta o olhar.
— Chegou tarde ontem — ela fala, voz calma, mas com aquela ponta de acusação que só ela sabe colocar.
— Tava resolvendo umas paradas — respondo, sem olhar pra ela. Sento do lado, jogo o braço no encosto do sofá, encosto nela de leve.
— Parada que durou até o sol raiar?
Eu rio baixo, debochado.
— Tá bolada, é? Relaxa, mermão. Foi só trabalho.
Ela bufa, vira o rosto pro outro lado.
— Trabalho com perfume de mulher, Nick?
Eu pego o queixo dela, viro de volta pra mim. Olho nos olhos dela. Castanhos claros, profundos, cheios de coisa que ela não fala.
— Você sabe quem eu sou, Maya. Sempre soube. Não vem com essa agora.
Ela sustenta o olhar. Não treme. Nunca treme.
— Eu sei. Mas saber não significa que eu gosto.
Eu solto o queixo dela, me levanto, vou até a geladeira pegar uma long neck. Abro com os dentes, viro metade de uma vez. O gelo desce gelado, queima a garganta. Volto pro sofá, sento mais perto.
— Então por que tu fica?
Ela demora pra responder. Olha pro chão, pro teto, pra qualquer lugar menos pra mim.
— Porque eu te amo, seu i****a. E porque acho que um dia você vai cansar dessa palhaçada e vai querer algo de verdade.
Eu rio de novo. Mas dessa vez não tem deboche. Tem um aperto no peito que eu ignoro.
— Amor não conserta nada, gata. E eu não sou consertável.
Ela se vira pra mim, corpo todo virado agora.
— Você some por três dias, chega machucado, com sangue na camisa, e acha que eu vou fingir que tá tudo sussa?
— Eu chego vivo. Isso já é muito.
— Pra você talvez.
Silêncio. O funk continua batendo. Eu pego a mão dela, entrelaço os dedos. Ela deixa. Sempre deixa.
— Eu não prometi ser fiel, Maya. Nunca te prometi isso.
— Eu sei. Mas você também não me deixa ir embora de verdade.
Eu aperto a mão dela mais forte.
— Porque você é minha.
Ela puxa a mão devagar, mas não solta.
— Sua o quê, Russo? Sua mina? Sua propriedade?
— Minha... minha distração favorita. Só minha.
Ela balança a cabeça, triste.
— Você me afasta quando eu chego perto demais. Me beija como se eu fosse a única no mundo. Depois some. E volta como se nada tivesse acontecido. Isso não é ser dono. Isso é ser covarde.
Eu fico quieto. Porque ela tá certa. E eu odeio quando ela tá certa.
Eu me levanto, vou até a varanda. O morro lá embaixo tá vivo: luzes piscando, som de moto subindo ladeira, risada de cria na boca. Eu acendo um beck, dou um trago longo. A fumaça sobe pro céu escuro. Maya vem atrás, encosta no batente da porta.
— Você já pensou no que acontece quando eu cansar?
Eu viro pra ela.
— Você não cansa.
— E se cansar?
— Aí eu te trago de volta.
Ela ri, mas é riso sem graça.
— Você acha que é tão simples assim, Nick?
— Aqui em cima, tudo é simples. Ou obedece, ou some p***a.
Ela cruza os braços.
— Eu não sou do seu morro, Nicolas. Eu não sou obrigada a te obedecer.
— Mas você fica mais aqui do que no morro do seu pai.
Ela não responde. Só me olha. Longo. Profundo. Como se estivesse vendo algo que eu não vejo.
Eu termino o beck, jogo a bituca pra longe. Volto pra dentro, pego a camisa no sofá, visto.
— Vou sair.
— Festa?
— É.
— Com os cria?
— Com quem eu quiser, Maya.
Ela assente devagar.
— Tá bom.
Eu paro na porta, olho pra ela.
— Você vem?
— Não.
— Por quê?
— Porque eu tô cansada de ver você se destruir e fingir que tá tudo bem.
Eu dou um passo pra trás dela, encosto o corpo no dela. Beijo o pescoço devagar. Ela fecha os olhos, mas não se mexe.
— Volta cedo — ela murmura.
— Talvez.
Eu saio. Desço a escada, o morro me engolindo de novo. O ar tá quente, cheiro de esgoto misturado com maconha. Juninho me espera na moto.
— Coé, chefe. Partiu?
— Partiu.
Eu monto atrás, dou um tapa no ombro dele.
— Pro baile.
A moto desce a ladeira, vento batendo na cara. Eu fecho os olhos por um segundo. Penso nela lá em cima, sozinha na minha laje, esperando um homem que nunca chega inteiro.
Eu nunca prometi amor.
Ela nunca pediu fidelidade.
Mesmo assim, cada vez que eu virava as costas, tinha a sensação de que estava empurrando Maya para um limite que nem ela sabia que existia.
E eu? Eu seguia em frente. Porque parar não é opção. Porque sentir é fraqueza. Porque o morro não espera.
Mas no fundo, bem no fundo, eu sabia: uma hora o limite chega. E quando chegar, nem o poder, nem o nome, nem a grana vão segurar o que vem depois.
Eu sou o Russo.
E o morro ainda é meu.
💌 Lançamento Oficial: 09/02
Spinoff de: Desejo Diferente
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