Russo
Eu sinto antes de saber.
É sempre assim.
A Maya tá estranha.
Desde o baile.
Não é coisa grande, não. É detalhe. É jeito de olhar. É silêncio demais. É mensagem respondida de forma seca. É uma visita mais curta. É o corpo dela na minha cama, mas a cabeça longe.
E isso me corrói.
Eu odeio quando eu não entendo o que tá acontecendo.
Hoje eu acordo com uma inquietação que não me deixa nem fumar em paz. O morro tá barulhento como sempre — moto subindo, radinho tocando pagode velho, moleque correndo atrás de pipa — mas dentro de mim tá um silêncio r**m.
Silêncio de presságio.
Eu mando mensagem pra ela.
📲 Eu: Saudade de tu minha delicinha.
Visualiza. Não responde imediatamente.
📲 Maya: Também.
Só isso. Ela tá se fazendo de difícil?
Meu maxilar trava.
Não sou de ficar cobrando mulher. Nunca fui. Mulher que quer ficar, fica. Quem quer sair, sai. Eu não imploro.
Mas com ela… é diferente.
Eu sinto que alguma coisa tá saindo do meu controle.
E eu odeio não controlar.
No dia seguinte ainda é de manhã quando chega mensagem dela.
O celular vibra.
📲 Maya: Posso ir aí?
Eu repondo na hora, igual um bobão.
📲 Eu: Sempre gata, só colar. Tô te esperando.
Eu fico parado encarando a mensagem.
Ela não falou mais nada.
Meu peito aperta.
Eu levanto da cadeira devagar, passo a mão no cabelo, ando de um lado pro outro no quarto. Eu nem preciso chamar. Ela vem.
Isso devia me deixar tranquilo.
Mas não deixa.
—
Quando ela entra no meu quarto, eu sei na hora.
Tem alguma coisa errada.
Ela tá mais pálida. Olho meio inchado. A boca sem aquele sorriso debochado que sempre me provoca.
— E aí, princesa — eu puxo ela pela cintura, já querendo tirar aquela roupa dela toda, mas me contenho.
Ela deixa eu puxar ela.
Mas não se encaixa em mim.
Isso é o que me acende.
— Tá doente? — eu pergunto, analisando o rosto dela.
— Tô bem.
Tá nada.
Eu puxo ela mais pra perto.
Ela resiste.
É sutil. Mas eu sinto.
Meu peito esquenta.
— Qual foi? — eu solto, já ficando ríspido.
— Nada, Russo.
— Nada é o c*****o. Tu tá estranha tem dias.
Ela desvia o olhar.
E quando a Maya desvia o olhar de mim, eu perco o chão.
Eu seguro o queixo dela.
— Olha pra mim quando eu falo contigo, p***a.
Ela olha.
E tem medo ali.
Medo de mim.
Isso mexe com um negócio feio dentro de mim.
— Eu tava pensando… — ela começa.
Eu cruzo os braços.
— Pensando o quê?
Ela senta na ponta da cama. Eu fico em pé.
Ela fala baixo:
— Sobre a gente.
Eu rio de canto.
— A gente tá bem.
— Tá?
O jeito que ela fala me atravessa.
— Tá querendo terminar? — eu já parto pra porrada verbal.
— Não! — ela responde rápido demais.
Mas tem algo ali.
Algo que eu não alcanço.
— Então fala logo, Maya.
Ela passa a mão no rosto, nervosa.
— Russo… tu já pensou em… família?
Eu fico em silêncio.
Ela continua:
— Tipo… casar um dia. Ter filho.
Eu sinto meu corpo endurecer.
— Que papo torto é esse?
— Não é torto. É normal.
— Normal pra quem?
Ela respira fundo.
— Tu nunca fala dessas coisas.
— Porque eu não vivo em conto de fada.
Ela levanta.
— Não é conto de fada querer saber se o homem que eu tô imagina um futuro comigo!
Eu começo a andar de um lado pro outro.
— Futuro tu já tem. Tá comigo. Tá protegida. O que mais tu quer?
— Eu quero saber se tu me vê como algo além de… — ela trava — além de posse.
Eu paro.
Encaro ela.
— Tu é minha.
— Eu sou tua, Russo. Mas eu sou mais do que isso.
Meu peito começa a queimar.
— Tu tá querendo me dizer o quê? Que eu não te dou valor?
— Eu só quero saber se um dia tu pensou em ter filho comigo.
A palavra ecoa.
Filho.
Filho.
Eu vejo um flash.
Tati chorando.
Sangue.
Eu empurro a memória pra dentro da cova onde eu enterrei.
— Eu não quero p***a de filho nenhum — eu falo seco.
Ela engole em seco.
— Nunca?
— Nunca.
— Nem comigo?
A pergunta dela é quase um sussurro.
Mas corta como faca.
Eu pego o copo de uísque na mesa.
— Eu não sirvo pra ser pai.
— Isso não é escolha só tua.
Eu giro pra ela.
— Como é que é?
— Se um dia acontecer, não vai ser só tua decisão.
Meu braço aperta o copo.
O vidro racha na minha mão.
Eu arremesso na parede, do lado dela.
O estrondo ecoa no quarto.
Ela se encolhe.
— Eu não quero merda de filho nenhum! — eu grito. NUN CA!
Ela começa a chorar.
— Russo…
— Eu não sirvo pra isso! Tá entendendo? Eu não presto pra criar ninguém!
— Mas…
— Mas nada, Maya! Eu mato a desgraçada que ousar seguir com uma gravidez minha!
O silêncio cai pesado.
Eu percebo o que eu disse.
Mas não volto atrás.
Eu nunca volto.
Ela tá chorando de verdade agora.
E aquilo… aquilo me desmonta por dentro.
— Tu tá falando sério? — a voz dela quebra.
Eu passo a mão no rosto, irritado.
— Eu não nasci pra isso, Maya. Eu destruo tudo que eu encosto.
Ela dá um passo pra trás.
— Então eu sou o quê?
— Tu é diferente.
— Não parece.
Ela vira de costas.
Eu sinto o desespero subir.
— Maya, fica.
Ela não para.
— Tu sempre fica — eu falo mais baixo.
Mas dessa vez…
Ela não fica.
Ela sai correndo.
Tropeça no degrau.
Eu vou atrás, mas paro na porta.
Meu orgulho segura meus pés.
Ela nunca vai embora.
Sempre volta.
Sempre.
Eu volto pro quarto.
A parede tá o líquido escorrendo e o chão com vidro espalhado.
Minha mão tá sangrando.
Eu nem sinto.
Eu puxo a gaveta.
A droga tá ali.
Eu faço uma carreira na mesa.
Eu nunca precisei disso pra aguentar mulher nenhuma.
Mas hoje eu preciso.
Eu penso na pergunta dela.
“Nem comigo?”
Se fosse ela…
Se fosse a Maya…
Meu peito aperta.
Eu passo a mão no rosto.
Eu lembro da Tati.
Eu lembro da decisão dela de insistir.
Eu lembro da frieza que eu bati nela.
Eu lembro do jeito que ela me chamou de monstro.
Talvez eu seja.
Eu pego o celular.
Ligo.
Ela não atende.
Eu mando mensagem.
📲 Eu: Volta aqui, Maya. Vamos conversar.
Nada.
📲 Eu: Maya, para de bobagem. Volta logo.
Nada.
📲 Eu: Qual foi Maya? Responde.
Visualizado.
Ignorado.
Eu nunca insisti com ninguém.
Nunca.
Mas eu mando outra.
📲 Eu: Tu sabe que eu falei de cabeça quente. Um dia a gente pode voltar nesse assunto.
Nada.
Eu jogo o celular na cama.
Ando pelo quarto como bicho enjaulado.
Eu não gosto dessa sensação.
Eu não gosto de não saber.
Eu não gosto de imaginar ela chorando por minha causa.
Eu fecho os olhos.
E a pior coisa me atravessa:
E se ela tivesse grávida?
Eu paro.
O pensamento entra como tiro.
E se esse papo todo não fosse aleatório?
E se…
Se fosse ela?
Eu mudo?
Eu conseguiria mudar?
Eu sento na cama.
Eu encaro o nada.
Se fosse qualquer outra…
Eu não deixava seguir uma gravidez.
Mas a Maya…
A Maya é diferente.
Ela me enfrenta.
Ela não abaixa a cabeça.
Ela me faz querer ser menos lixo.
Talvez…
Talvez por ela…
Eu mudasse tudo.
Mas eu não posso deixar essa confissão sair.
Eu não posso mostrar fraqueza.
Eu não posso admitir medo.
Eu pego o celular de novo.
Nada.
Silêncio.
Ela não me respondeu.
E pela primeira vez desde que eu conheci a Maya…
Eu sinto medo.
Medo real.
Medo de perder o que é meu.
E o pior?
Eu começo a perceber que talvez…
Ela nunca tenha sido posse.
Talvez eu que esteja tentando segurar com força demais.
E coisa que a gente aperta demais…
Escapa.
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