Maya
Eu vi a tatuagem no peito dele e meu coração se derreteu de amor.
Maya.
Meu nome. Escrito ali, na pele dele, perto do coração. A tinta ainda estava vermelha, a pele ao redor meio inchada, fresca. Ele tinha feito aquilo por mim.
Na hora, tudo o que eu pensei foi que ele pode mudar. Ele pode ser diferente.
Porque homem que não sente nada não tatua nome de mulher no peito. Homem que só quer sexo não marca a própria pele com o nome de ninguém. Aquilo era prova. Prova de que eu significava algo. Prova de que, no meio de toda aquela brutalidade, existia um cara que sentia algo por mim.
E naquele momento, deitada na cama dele depois de t*****r, com a mão ainda passando devagar pelo meu nome no peito dele, eu esqueci de tudo.
Esqueci do Gael. Esqueci da promessa que fiz pra mim mesma. Esqueci do medo. Esqueci da Tati. Esqueci do meu próprio bebê.
Só lembrei do amor.
E pensei comigo mesma, vou tentar de novo. Só mais uma vez. A última.
—
Aquele dia de manhã, eu acordei cedo em casa. Minha mãe já tava na cozinha fazendo café, meu pai tinha saído cedo pro QG, Gael ainda dormia. Eu coloquei no ombro a mochila com os cadernos, igual faço todo dia, gritei um "tchau mãe" e desci a ladeira.
Só que no pé do morro, ao invés de pegar o ônibus pra faculdade, eu abri o aplicativo no celular.
Chamei um carro de aplicativo pra me levar pro morro do Russo.
O motorista chegou rápido. Um homem mais velho, calvo, com aliança no dedo. Me olhou pelo retrovisor quando falei o endereço.
— Ali em cima, moça? — ele perguntou, meio desconfiado.
— Isso.
Ele não falou mais nada. Só dirigiu.
Quando chegou no pé do morro, ele parou o carro, olhou pra ladeira, olhou pra mim.
— Quer que eu suba mais um pouco?
— Não precisa. Aqui já ajuda e também não quero que arrume confusão, o pessoal aqui não gosta de carros desconhecidos.
Ele pegou o dinheiro, me deu o troco com mão meio trêmula.
— Toma cuidado, viu?
— Tô acostumada.
Ele saiu cantando pneu, igual todo motorista de aplicativo que deixa passageiro na boca de morro dominado por facção.
Eu comecei a subir. O sol tinha acabado de aparecer, batia nas casas de tijolo aparente, no asfalto irregular, nos cachorros magros que já começavam a andar pelas vielas.
A gravidez tá me matando.
Não é só enjoo. É cansaço. É um peso nas pernas que não existia antes. É tontura se eu ando rápido demais. Eu parei no meio da ladeira, passei a mão na testa suada, respirei fundo.
— Dona, quer uma carona?
Um mototáxi parou do meu lado. Moleque novo, magro, boné virado pra trás.
— Quanto pra subir até perto da casa do Russo?
Ele riu.
— Cinco conto. Sobe aí.
Subi na garupa, segurei leve no ombro dele. A moto subia rápido, cortando as vielas que eu conhecia bem. Em dois minutos, ele parou na porta da casa.
— Chegou, princesa.
Eu desci, fui pagar. Ele pegou o dinheiro, me olhou de cima a baixo.
— Ah tu é a mina do Russo. Mó cara de patricinha. Pensei que tinha errado de casa.
Eu não disse nada. Só guardei o troco, agradeci com a cabeça e entrei pelo portão.
A casa tava destrancada, como sempre.
Entrei devagar. Silêncio. Só o barulho do ar condicionado lá no fundo. Passei pela sala, pela cozinha, pelo corredor. A porta do quarto dele tava aberta.
Ele tava jogado na cama.
Só de cueca. O corpo largado, um braço cobrindo os olhos, o peito subindo e descendo devagar. Dormindo.
A tatuagem aparecia no meio do peito. "Maya". A tinta ainda escura, a pele vermelha no entorno.
Eu me aproximei sem fazer barulho. Sentei na beirada da cama. Passei o dedo de leve em cima da tatuagem.
A pele dele tava quente.
No mesmo segundo, a mão dele agarrou meu pulso com uma força que doeu.
— AI! — eu gritei, assustada. — QUE DROGA RUSSO, QUE SUSTO!
Ele abriu os olhos rápido, me olhou com aqueles olhos azuis acizentados, e soltou a mão na hora. Riu.
— p***a, gata. Tu que me assusta. Chega de fininho e me toca, tá louca?
Ele coçou os olhos, se ajeitou na cama. O corpo ainda meio mole de sono.
— Desculpa, eu não...
Ele não deixou eu terminar.
Me puxou pelo braço, me jogou em cima dele. A mão dele passou pelas minhas costas, subiu pro meu cabelo, puxou minha boca até a dele.
O beijo foi quente. Faminto. Do tipo que diz mais que qualquer palavra.
— p***a, que saudade que eu tava de você, gata — ele falou entre o beijo, a voz rouca de sono.
A mão dele já tinha subido meu vestido até a cintura. Agarrou minha b***a com força, apertou, me puxou mais contra ele, me esfregando na própria ereção.
Eu devia parar.
Eu devia pedir pra conversar.
Eu devia falar do bebê, da briga, do medo, de tudo.
Mas eu amo tanto esse o****o que não consigo negar nada pra ele.
Eu carrego o filho dele. Vim aqui pra resolver nossa situação. Mas também vim pra matar a saudade. E naquele momento, com a mão dele me tocando, a boca dele na minha, o corpo dele quente debaixo de mim, a saudade falou mais alto.
Deixei.
Deixei ele afastar minha calcinha pro lado.
Deixei ele me guiar até sentir ele entrando em mim.
Deixei.
Porque é isso que ele faz comigo, sempre me faz esquecer de tudo.
Ele me segurou pela cintura, me guiando no ritmo dele. As mãos dele na minha b***a, apertando, abrindo, guiando. Eu gemia alto, sem conseguir controlar. Minhas mãos apoiadas no peito dele, exatamente em cima do meu nome.
Maya.
Escrito ali.
Enquanto ele me comia.
Enquanto eu cavalgava nele.
Enquanto a gente se movia junto igual sempre fez.
Ele puxou a parte de cima do meu vestido pra baixo, liberou meus p****s. Pegou um na boca, chupou forte, mordiscou o bico.
— Tão maiores — ele murmurou, a boca no bico do meu peito. — Que delícia.
Eu gelei por dentro.
Será que ele percebeu que o meu corpo tá mudando? Será que ele sabe? Será que ele vai ligar os pontos?
Mas antes que eu pudesse pensar, ele apertou minha cintura mais forte, acelerou o ritmo, e eu perdi o chão de novo.
Gozamos juntos.
Eu desabei em cima dele, suada, ofegante, o coração batendo na boca. Ele passou a mão nas minhas costas devagar, um gesto quase carinhoso. Ou quase.
Depois ele tentou me afastar pra pegar o cigarro na mesinha.
Eu rolei pro lado. Ele acendeu, tragou fundo, soltou a fumaça pro teto.
Ficamos em silêncio uns minutos. Eu olhando pra ele. Ele olhando pro nada.
Levantei, fui tomar banho.
Quando voltei, já tinha trocado de roupa — uma das que eu deixava lá pra essas ocasiões. Sentei na beirada da cama.
— Precisamos conversar.
Ele ainda tava nu, meio sentado, ainda fumando.
— Conversar? — ele riu, sem graça. — Maya, a gente brigou, você voltou, e tá tudo bem. Não vem com papo de DR uma hora dessas, pô. Acabei de gozar gostoso, não vem querer estragar o meu dia, não.
— Não é assim, Russo.
Ele me olhou, franzindo a testa.
— Como é que é, então? Fala aí.
— Você não me leva a sério. — Eu levantei, já sentindo o arrependimento de ter subido esse morro. — Eu nem sei o que tô fazendo aqui.
Peguei minha mochila.
No mesmo segundo, ele levantou da cama. Nu. Veio na minha direção.
— Tu não sai daqui, gata.
A voz dele mudou. Ficou mais grave. Mais pesada.
— Não disse que podia sair.
Ele segurou meus ombros, me forçou a encarar ele.
— Me larga, Russo. — Eu tentei puxar o braço. — A gente não dá certo. Foi um erro eu ter vindo.
— Erro? — Apertou mais meus ombros. — Você veio ver minha tatuagem, não foi? Veio voltar comigo. Agora eu tô falando que tu não vai sair daqui, p***a. Tu tá entendendo?
A voz dele já tava alterada.
Eu olhei de relance pra mesinha. Pino vazio. Pó. Ele tinha cheirado.
Merda.
— Me solta, Russo. Não quero discutir com você assim. Me deixa ir.
— Te deixar ir pra você sumir por dias de novo? Tá louca? Você fica, já disse. Obedece, Maya.
Ele tava bravo. Daquele jeito que eu conhecia. Daquele jeito que antecedia coisa pior.
— Me solta.
Eu não pensei duas vezes. Tava desesperada, com medo dele.
Acertei meu joelho bem no meio das pernas dele.
Na hora ele me soltou, dobrou o corpo, soltou um gemido de dor. Ficou lá, segurando os ovos, puto da vida.
Mas ele é a p***a do Russo.
Mesmo com dor, a mão dele veio.
Rápida. Pesada.
O tapa pegou em cheio no meu rosto.
Eu caí no chão.
O quarto girou. Meu ouvido zumbiu. A bochecha queimava.
— Você vai me pagar, sua p**a!
Ele tava lá, dobrado, mas gritando ameaças.
Eu levantei rápido, tonta, e saí correndo.
— VOU TE MATAR, SUA VAGABUNDA! — a voz dele ecoou atrás de mim. — VOU TE CAÇAR ATÉ O FIM DO MUNDO!
Corri.
Corri como se o d***o tivesse no meu calcanhar.
Desci a ladeira sem olhar pra trás. As vielas passavam borradas. Gente me olhando, eu nem via. Só corria. Corria. Corria.
Minhas pernas doíam. A barriga doía. O rosto doía. O peito doía mais que tudo.
Consegui chegar no pé do morro.
Parei, ofegante, suando de pingar. Puxei o celular. Mão tremendo. Abri o aplicativo. Pedi um carro.
O motorista chegou em cinco minutos que pareceram cinco horas.
Entre no banco de trás. Tranquei a porta. Olhei pra trás, esperando ele aparecer no meio da ladeira com a glock na mão.
Não apareceu.
— A senhora tá bem? — o motorista perguntou, me olhando pelo retrovisor. — A senhora tá chorando.
Eu tava? Nem percebi.
— Tô bem.
— Quer que eu leve na delegacia? No hospital?
— Não. Só... só me leva pro endereço.
Ele dirigiu em silêncio. Eu chorei o caminho inteiro.
Quando ele me deixou no pé do morro do meu pai, eu ainda tava tremendo. Paguei, desci, e antes de começar a subir, o celular vibrou.
📲 Russo: nem que eu tenha que matar todo mundo nessa p***a de morro do seu pai eu vou te pegar, Maya. Você é minha. Tô chegando.
Eu li três vezes.
O medo gelou meu sangue.
Guardei o celular. Subi correndo. Não parei até chegar no QG.
A porta tava entreaberta. Entrei. Os cria me olharam estranho — eu devia estar um caco, cabelo bagunçado, olho inchado de chorar, marca de tapa no rosto.
— Cadê meu pai? — perguntei, a voz falhando.
— Tá na sala dos fundos.
Fui reto.
Empurrei a porta.
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