Maya
Eu nunca vi meu pai daquele jeito.
Não que o Ben seja um cara calmo, tranquilo, de sorriso fácil. Longe disso. Ele é o dono do morro. Cresci vendo ele resolver treta com olhar, com palavra, com presença. Vi ele mandar recado sem precisar levantar a voz. Vi ele acalmar pivete nervoso só com a mão no ombro.
Mas nunca vi ele perdido.
Nunca.
Até hoje.
Quando eu entrei no QG, eu devia estar um caco. Os meus cabelos bagunçados, o rosto vermelho de tanto chorar, a marca do tapa ainda quente na bochecha, o corpo tremendo igual vara verde. Eu atravessei a sala dos fundos e me joguei nos braços dele.
— Papai! — a voz saiu espremida. — O Russo tá vindo! Disse que só sai daqui comigo!
O corpo dele endureceu na hora.
Senti os músculos travarem, o peito parar de respirar por um segundo. Quando ele me afastou pra me olhar, os olhos dele estavam escuros. Escuros de um jeito que eu conhecia — mas nunca tinha visto direcionados a mim.
— Calma, filha. Calma. — A voz dele saiu controlada, mas dava pra sentir o tremor por baixo. — O que aconteceu?
— Ele... ele tava bravo. Me xingou. — As palavras saíam aos pedaços, entre soluços. — Ele deu um tapa no meu rosto e... e eu fugi. Corri. Corri até conseguir sair do morro.
Vi a ficha caindo. Vi o sangue subindo. Vi o homem por trás do pai processando a informação.
— Ele bateu em você? — Ele estava sem acreditar, a voz dele saiu grossa.
Grossa daquele jeito que antecede tempestade.
Eu assenti, chorando.
E ele ficou parado.
O Ben.
O homem mais temido desse morro. O cara que resolve briga com presença, que faz vacilão tremer só de ouvir o nome dele. Parado. Imóvel. Sem saber o que fazer.
Porque o agressor era o Russo.
Porque o Russo é um problema dos grandes. Até mesmo pro meu pai.
Porque enfrentar ele é declarar guerra. E guerra entre morro não é briga de rua — é sangue, é fogo, é enterro de uma das partes.
Eu vi a luta dentro dele. O pai querendo proteger a filha. O dono do morro calculando risco. O homem pai de família e o dono do morro, ferido no orgulho. Tudo ao mesmo tempo.
E ele não sabia o que fazer.
Foi aí que uma voz cortou o silêncio.
— Ben.
Eu olhei pro lado.
Tinha um cara.
Ele tava lá, sentado numa cadeira no canto. Ele levantou devagar. Veio na nossa direção.
— Deixa que eu levo ela. — Ele disse calmo.
Meu pai franziu a testa.
— O quê? — Meu pai perguntou meio sem entender.
— Levo ela pra um lugar seguro. Longe daqui. O Russo não vai encontrar.
— Edy, você é louco? — a voz do meu pai subiu um tom. — O Russo é encrenca. Se descobrir...
— Não vai descobrir. — o tal Edy falou, confiante.
Meu pai hesitou. Olhou pra mim, depois pro cara.
— Ela é minha filha. Eu protejo. — Meu pai disse meio hesitante.
— E vai continuar sendo. Mas agora, se ela ficar, ele pega ela. Você sabe. — Edy falou calmo, sem pressa. — Não tem como bater de frente com o dono do morro por onde entra o que vendemos...
A frase ficou no ar.
Meu pai sabia. Sabia que enfrentar o Russo agora, sem preparo, sem estratégia, era suicídio. Sabia que eu tava no meio de um jogo que não era meu. Sabia que, por mais que doesse, talvez a melhor proteção fosse me tirar de perto, sair do morro.
Eu me soltei do abraço dele. Olhei pro cara.
Os olhos dele eram doces, diferentes dos outros caras que costumam negociar com o meu pai. Os olhos dele tinham uma calma, uma certeza, que me fez respirar fundo pela primeira vez desde que saí correndo da casa do Russo.
— Você faz isso? — perguntei, a voz ainda fraca.
— Faço. — Ele disse decidido, sem hesitar.
— Por quê? — Perguntei, sem entender nada. Afinal nem nos conhecemos.
Ele me olhou por um segundo. Um segundo longo, estranho, como se tivesse procurando palavras certas.
— Porque mulher nenhuma merece passar por isso. E porque... — ele pausou, como se estivesse percebido que estava falando demais. — Depois te explico.
Olhei pro meu pai.
Ele tava ali, o homem que me criou, que me protegeu a vida inteira, tendo que tomar a decisão mais difícil da vida dele, deixar a filha ir com um estranho pra garantir que ela viva.
Ele respirou fundo.
— Tão arrumando uma grande confusão — murmurou, mais pra si mesmo do que pra gente.
— Sei. Mas é a confusão certa. — O cara respondeu, sério. — Conheço bem a fama do Russo.
Meu pai ficou em silêncio. Depois pegou o radinho.
— Aqui é o Ben. — A voz dele voltou a ser de comando. A voz do dono do morro. — Escuta aqui, rapaziada. O Edy vai sair do morro com a Maya. Quero escolta até a saída. Se o Russo aparecer, distrai ele. Não deixa ele chegar perto do carro. Entendeu?
O radinho chiou.
— Entendido, chefe. — alguém respondeu do outro lado.
Meu pai largou o rádio. Encarou o cara.
— Cuida dela. Se acontecer alguma coisa... — Meu pai fechou os olhos com força, reprimindo o pensamento.
— Não vai acontecer. Prometo. — o cara disse e eles deram um aperto de mão.
— Vai. — A voz dele quebrou um pouco. — Depois a gente se fala, filha. Agora você precisa ir com ele.
— Pai... — eu tentei dizer algo em meio às lágrimas.
Ele me puxou pra perto, me abraçou forte. Senti o corpo dele tremendo — meu pai, tremendo.
— Me perdoa — ele sussurrou no meu ouvido. — Me perdoa por não conseguir te proteger direito, Maya.
— Pai, não é culpa sua...
— É sim. Eu que deixei você se envolver com ele. Eu que não puxei sua orelha na hora certa.
— Pai...
Ele me soltou, segurou meu rosto.
— Vai. Fica viva. Depois a gente resolve.
O Edy segurou forte a minha mão.
Eu estava tremendo.
Ele me puxou pra fora.
CONTINUA...
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