MAYA - LUGAR SEGURO

1430 Palavras
Maya ... O carro tava estacionado na porta. Um sedan preto, discreto. Ele abriu a porta de trás. — Entra. Deita no banco. Não levanta a cabeça por nada. Eu obedeci. Deitei, encolhida igual bicho, os olhos fixos no teto do carro. — Vai dar tudo certo. — ele disse tentando me acalmar. — Juro. Ele fechou a porta. Entrou no banco da frente. Ligou o motor. Quando olhei pro lado, vi as motos. Seis. Três na frente, três atrás. Os vapô do meu pai, armados, prontos pra tudo. Descemos o morro. Cada curva era um susto. Cada esquina podia ser ele. Cada vulto na rua podia ser um dos capangas do Russo. Meu coração batia tão forte que eu ouvia no ouvido. A mão apertava minha barriga, protegendo, como se pudesse esconder o bebê do perigo. A gente foi passando. As ruas, os becos, a boca de fumo, a entrada do morro. Quando chegamos no asfalto, as motos pararam. O líder da escolta acenou pro Edy. — Segue em paz, Edy. Cuidado. — Valeu, irmão. O carro acelerou. Só quando vi o movimento da cidade, o trânsito comum, as pessoas normais fazendo coisas normais, é que eu respirei. Respirei fundo. Sentei no banco. — Já pode? — perguntei. — Já. Tamo longe. Me ajeitei, passei a mão no cabelo, limpei o rosto com as costas da mão. A bochecha ainda doía. A marca do tapa devia estar roxa. — Pra onde a gente vai? — Tenho um apê em Copacabana. Fechado há um tempo. Lá você vai estar segura. Copacabana. A palavra soou estranha na minha cabeça. Eu cresci no morro. Minha vida sempre foi ladeira, viela, laje, baile. Copacabana era outro mundo. Outra vida. — Copacabana... — repeti, como se tivesse testando a palavra. — Mas uma coisa, Maya. — A voz dele ficou séria. — Não conta a localização pra ninguém. Nem pro seu pai. Quanto menos gente souber, mais segura você fica. — Entendi. Ficamos em silêncio por um tempo. O carro cortava a cidade. Prédios passando. Gente na rua. O mar aparecendo no horizonte, azul, imenso, completamente diferente do cinza do morro. — Por que você tá fazendo isso? — perguntei, baixo. Olhei pelo retrovisor. Ele me encarava. — Você não lembra de mim? Franzi a testa. — Lembrar? — Do baile. No morro do Jogador. A gente se falou no corredor dos banheiros, quando o Russo te forçava a voltar pro camarote. Pensei. A imagem veio devagar. O corredor escuro. O som do funk abafado. Um cara interferindo. O Russo dando soco nele. A glock. — Você é o braço direito do Jogador? O que tava no camarote? — Isso. Fiquei em silêncio, processando. — Você lembra de mim? Depois de tanto tempo? — Lembro, pô. Um sorriso escapou. Pequeno, fraco, mas sincero. Pela primeira vez desde que entrei naquele carro. — Você é muito corajoso. — Não sou não. Só não consigo ver mulher sendo maltratada e ficar de boa. Olhei pra ele por mais tempo. Depois desviei, mas o sorriso ficou. — O prédio era antigo, mas bem localizado. Porteiro na entrada, elevador pequeno, corredor comprido. Edy abriu a porta do apartamento e o cheiro bateu na cara. Mofo. Poeira. Tempo. — Desculpa o cheiro — ele falou, indo abrir as janelas. — Faz tempo que ninguém entra aqui. Entrei devagar. Sala simples: sofá velho, mesa de centro, TV antiga. Cozinha pequena do lado. Um corredor pros quartos. — Posso... posso arrumar? — Pode. Pode mudar o que quiser. É seu por enquanto. Não hesitei. Fui direto pro quarto, puxei os lençóis da cama, levei pra máquina. Depois peguei um pano no banheiro, água, comecei a limpar os móveis. Passar pano no chão. Arejar. Organizar. Edy ficou me olhando, parado na sala, meio sem jeito. — Vou ali comprar umas coisas — ele falou. — Comida, produto de higiene, essas paradas. — Tá bom. — Quer algo específico? Alguma marca? Parei de limpar. Pensei. — Gosto de sabonete Nivea de leite. Shampoo e condicionador da Pantene. Se der, pega umas barras de Kit Kat Dark. É meu preferido. Ele sorriu. Um sorriso bobo, meio sem graça. — Anotado. Desceu. Fiquei ali, sozinha, no apartamento estranho, longe de tudo que eu conhecia. E comecei a trabalhar. — Quando ele voltou, uma hora depois, o apartamento tava outro. Janelas abertas, ar fresco circulando, sala impecável. Os lençóis secando na máquina, a poeira sumida, o chão brilhando. Eu tava na cozinha, organizando os armários vazios, esperando ele chegar. — Trouxe as coisas — ele mostrou as sacolas. — Me ajuda a guardar? Guardamos juntos. Eu organizando, ele seguindo ordens. Rimos quando ele colocou o arroz no lugar errado. — É ali, bobo — apontei. — Desculpa, sou desorganizado. — Tô vendo. Depois de guardar tudo, ele entregou a sacola com os itens de higiene pessoal. Coloquei no quarto. Voltei pra sala. Sentei no sofá. O silêncio voltou, mas agora era menos pesado. Mais quieto. Mais calmo. Falei primeiro. — Edy... me desculpa. — Desculpa por quê? — Por te colocar nessa confusão. Você não tem nada a ver com isso. Ele me olhou. — Eu escolhi ajudar. Não precisa pedir desculpa. Baixei a cabeça. — Eu amo ele, sabe? O Russo. Amo de verdade. — Sei. — Mas ele é... abusivo. Sempre foi. Desde o início. Eu achava que podia mudar ele. Que com amor, com paciência, ele ia melhorar. — E mudou? Balancei a cabeça. — Só piorou. Ele ficou em silêncio. Depois: — Esquece ele. Começa uma vida nova. Aqui. Longe. Olhei pra ele. Senti os olhos enchendo d'água de novo. — Acha que é fácil assim? — Não é fácil. Mas é possível. Coloquei a mão na barriga. Acariciei, instintivamente. Protetora. O olhar dele foi direto pro meu gesto. — Maya... — ele começou, a voz mudando. — Tô grávida. — Falei antes que ele perguntasse. — Espero um filho dele. Vi a ficha caindo. Vi o susto. Vi o medo. — Por isso você saiu fora? — Sim. Com medo. Medo que ele me obrigasse a abortar. Ele não quer ser pai. Falou isso na minha cara quando eu ia contar... disse barbaridades... Ele levantou. Passou a mão na cabeça, andou de um lado pro outro. Nervoso. Agitado. — Edy? — chamei, assustada. Ele parou. Me olhou. — Escuta. — A voz dele tava séria demais. — Você não podia ter contado pra ele. Sobre o bebê. Sabe por quê? Fiquei quieta. — Porque eu sei histórias. Histórias de garotas grávidas dele. E não são histórias boas. — Eu não contei. Só meu irmão sabe. Eu soube de uma história... uma mulher, Tati, que... — Eu sei de pelo menos meia dúzia. Meu coração gelou. — Meu Deus... Ele sentou do meu lado. Segurou minha mão. — Nada vai acontecer com você. Enquanto eu tiver vivo, nada. Juro. Eu desabei. Chorei. Chorei tudo que não tinha chorado. O medo, a raiva, o amor, a confusão, a gravidez, o futuro incerto. Chorei nos braços de um estranho que virou meu anjo da guarda. Chorei até não ter mais lágrima. Ele segurou. Firme. Passando a mão nas minhas costas. Sem pressa. Ficamos assim até eu me acalmar. — Mais tarde, o celular dele vibrou. Ele olhou a tela. Atendeu. — Edy, onde você se meteu? — a voz do outro lado era grossa, direta. Reconheci, era o Jogador. — Preciso ficar longe do morro por um tempo, chefe. Tô resolvendo umas paradas pessoais. Silêncio. Depois: — Tá liberado. O tempo que for preciso. Qualquer coisa, liga. — Valeu, chefe. Desligou. — Ele não perguntou nada — falei. — É o Jogador. Confia em mim. — Ele parece ser uma boa pessoa. Edy sorriu, assentindo. — Vamos pro quarto. Você chorou tanto que deve estar desidratada. Ele me levou até o quarto. Ajeitou os travesseiros. Puxou a coberta. — Dorme. Amanhã a gente vê o que faz. Deitei. Cansada. Exausta. Vazia. Ele foi saindo. — Edy. Ele parou na porta. — Obrigada. Mesmo. — De nada. Ele fechou a porta. Fiquei ali, no escuro, ouvindo o barulho da cidade lá fora. Longe do morro. Longe dele. Longe de tudo. Minha mão foi pra barriga de novo. — A gente vai ficar bem — sussurrei. — Eu prometo. Mas no fundo, bem no fundo, eu não sabia se era verdade. Eu só sabia que tinha acabado de colocar minha vida nas mãos de um desconhecido. E que, pela primeira vez em muito tempo, eu me senti segura. COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR REDE SOCIAL: @crisfer_autora
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