Capítulo 08

1284 Palavras
Por Elliot O sol estava forte hoje, muito mais forte do que de costume. Quase não havia aves voando desde que várias tribos começaram uma caçada às espécies diferentes de nós por simples diversão. Essa prática já estava proibida e eu como príncipe herdeiro do reino Sul me dispunha a ir constantemente entre as tribos com minha guarda real, para averiguar se as leis estavam sendo cumpridas. — Príncipe Elliot, para onde está indo? Eu era o primogênito, e sobre mim recaiam muitas responsabilidades. Eu não vivia mais por mim e estava constantemente embarcando em jornadas diplomáticas. Estávamos agora retornando do reino Norte, onde fui ter com a Rainha Talya, uma mulher de coração duro, amarga, irredutível e de pouca conversa. Era sempre desagradável ter que visitar a Cidade Real do reino Norte, com tantos olhares rancorosos nos cercando. Sentia-me sufocado com tanta energia negativa e era visto pelos empregados do palácio como alguém sem valor. Talya ao invés de tornar a situação o mais amistosa possível, parecia fazer pouco caso das pessoas e da vida. Apesar disso, eu deveria baixar a cabeça com humildade e agradecer por não haver mais batalhas. — Retornando por Naim. De onde estamos é o caminho mais perto. — Não podemos passar por lá, é contra o protocolo. Naim é território proibido por lei, um território de preservação! Além disso, dizem que um assassino perigoso espreita por aquelas terras e seria muito inconveniente para nós uma luta agora. — Disse Quizan, meu braço direito e fiel amigo. Apesar de ser bem mais velho que eu, nos dávamos muito bem, com exceções a ocasiões como esta, em que ele se tornava muito inoportuno, por conta do excesso de p******o. — O mito do guardião escarlate? Não sabemos nem se ele é real. Além disso, sempre que chegamos aqui acabamos fazendo um longo contorno e acabei nunca passando por esse território. Naim faz parte do nosso reino Sul e quero conhecê-lo, então respeitem minha decisão! — Depois de uma jornada tão fatigante eu não deixaria nada e ninguém tirar esse momento de mim. Ao menos uma vez eu queria seguir meu coração, e sem pensar em mais nada, comecei a correr floresta a dentro. Protocolos? Eu já estava farto deles. Além disso, não há nenhuma pretensão de minha parte de dar uma volta enorme por causa de uma coisa que ninguém sabe se existe de fato. Não compensava! Não dessa vez... — Príncipe Elliot! — A voz do segundo comandante do reino Sul ecoava bem longe de mim, cada vez mais inaudível e distante. A sensação de liberdade me inundava à medida que eu corria, cada vez mais rápido. O vento soprando e a sensação do toque dos meus pés na terra me enchiam de vigor. — Ordeno que não me sigam! Encontro vocês em casa! Sentia-os desacelerando. O excesso de p******o sempre me sufocava, ainda mais porque na maior parte do tempo era completamente desnecessário. Percebi que meus homens ainda estavam em conflito entre exercer sua função ou obedecer a seu superior. Tanto faz, já que estavam longe o suficiente para eu despistá-los, caso ainda teimassem em me seguir. Depois eu me veria com meu pai. A vegetação a frente ficava cada vez mais densa e tudo ao redor era verde demais, diferente de muitas terras as quais visitei. Atualmente as tribos pareciam querer desprezar aquilo que a natureza nos dava e partir para um tipo de cultura mais agressiva e controladora. Todo o problema que existia nesse planeta girava em torno da ambição e a relação entre as tribos se estreitava cada vez mais por quererem ser umas mais que as outras. No passado, as tribos se enfrentavam apenas entre Norte e Sul e quando a pressão em determinar qual reino era mais forte aumentou, a guerra estourou. Como não se concretizou a sugestão do rei Cyrus em unir ambos os reinos através do casamento, a guerra persistiu até que negociações, envolvendo chantagens, fossem realizadas. Agora a paz entre reinos foi firmada por meio de um acordo que estipula o envio de relatórios anuais contendo todas as informações do reino, desde comércio, número de habitantes, situação das tribos, etc. Isso acontecia em ambos os lados, para que a elite estivesse sempre à margem dos acontecimentos a nível global. Devido a isso, a tomada de decisões era coletiva, para que o Norte e o Sul zelassem por esse mundo “em harmonia”. Traduzindo, um reino opinava sobre o reino do outro e a partir dali criavam-se regras que determinavam a conduta de todos. Isso a curto prazo foi maravilhoso, mas agora o maior problema eram os conflitos internos. Cada tribo queria ter um destaque maior do que a outra, e ostentar seu poder nos relatórios. Com isso, não se importavam com a forma como iriam enriquecer e aumentar sua eficiência. Devido à proibição de invasão territorial e respeito entre tribos, muitos expandiam sua área habitada para dentro da natureza, acabando com o habitat dos animais. Somente na conferência realizada há cerca de cinco anos é que foi determinado área mínima de preservação e pena de morte para caça ilegal. Às coisas estavam começando a melhorar, mas ainda havia muito o que se fazer. — LIVRE! —Tive que gritar isso com toda minha voz. — Era um alívio tão grande me sentir sozinho, longe de toda a realeza, poder e dos deveres reais. Agora era só eu e a natureza, em toda a simplicidade e naturalidade e, quanto mais eu adentrava esse território tão rico, mais rápido o meu coração batia de emoção. Sem nada a temer, elevei meus instintos básicos, aumentando meus sentidos e velocidade. Havia muitas lendas sobre o povo a quem pertencia esse território, de sua coragem, força e a forma como determinaram o rumo da guerra. Devíamos muito a eles e é por isso que esse território permanece intacto, sem redistribuição de área para os territórios vizinhos. Quanto mais eu adentrava o território, mais arrepiado eu ficava. Tantos sons de animais de todos os lados e tanta biodiversidade! No meio de tudo isso pude vislumbrar plantas que haviam sido dadas por extintas, mas... lá estavam! Entre a folhagem espessa consegui visualizar o brilho do Arvi batendo em gotículas de água. Seria o famoso lago de Naim? Diminuí o ritmo e pude perceber entre as árvores a existência de restos de casas. Pedras estavam derrubadas e enegrecidas com as marcas da destruição, que mesmo depois de tantos anos, permaneciam ali para nos lembrar do ocorrido. Era dever real zelar por todas as famílias do Sul e falhamos com Naim. Mesmo que eu fosse apenas um bebê quando a guerra começou, não conseguia não sentir culpa pela falha dos meus pais. Em meu coração, um interesse muito grande pela história desse povo despertou. Meus olhos se atentavam a cada detalhe e, dentro de mim, sentia esperança de que, destas ruínas, despertasse a semente que faria desse mundo um lugar melhor. Em meio aos meus devaneios, uma imagem me chamou a atenção. Uma sombra deitada à margem do lago de Naim, tranquila e despreocupadamente. Parecia-me uma mulher, mas o que fazia nesse lugar? Saltei entre alguns galhos de forma silenciosa e sorrateira, esperando não ser visto. Era realmente uma linda e jovem mulher, com vestes simples em tons de cinza com faixas douradas na cintura, costurados de forma artesanal, sem qualquer refinamento. Seu rosto era harmonioso e arredondado, com lábios carnudos, uma pele em um tom mais claro. Seus cabelos castanho escuros desciam ondulando, cacheando na região do quadril e estavam levemente bagunçados. De onde ela tinha vindo já não me importava. Quanto mais eu a olhava, mais encantado ficava com seus traços e sua beleza.
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