Capítulo 07

1404 Palavras
Por Lirabela  Trevas e dor me cercaram nos dias que se seguiram e inundaram meu coração de sentimentos que eu nunca havia sentido. Eu não sabia como lidar com isso e não tinha ninguém para me explicar como fazê-lo. Valente também estava longe de superar a perda, e desde que velamos meu pai, cremando-o e lançando suas cinzas no lago de Naim, ele não queria comer direito e dormia constantemente. Seu maior sofrimento foi não ter estado ao lado de meu pai naquele momento para ajudá-lo. Muitos animais foram prestar homenagem à Kiroshi junto a mim naquele dia, inclusive os animais resgatados os quais Valente protegeu. Estava nublado e o céu parecia querer chorar também, mas não choveu. Depois disso, ajudei a cuidar de cada animal ferido, incluindo Observador. Agora só o tempo poderia curá-los física e emocionalmente. Eu esperava, de coração, que essas feridas cicatrizassem e essa dor fatigante passasse. A espada de meu pai agora passara para mim, bem como suas funções e sonhos. Quem eu iria liderar e o que eu faria agora? Ao meu redor estavam dezenas de casas esculpidas e projetadas para abrigar pessoas, mas estavam todas vazias. Naim estava extinta e eu como a última sobrevivente deveria dar continuidade a esse legado de alguma forma. O que meu pai queria de mim? O que ele sempre quis era me manter segura e, por causa disso, eu ficava confinada a viver aqui. Só agora eu entendia que isso era fundamental para que o nosso sangue não fosse apagado e, de alguma forma eu pudesse reconstruir Naim. Além disso, me pediu antes de morrer para proteger Valente, e eu faria isso não só com ele, mas com todos os animais desse território. — Quanta saudade, pai! Observador voou em círculo por cima de mim e pousou do meu lado. Eu estava deitada de frente para a porta de minha casa, esperando que, de alguma forma, papai fosse brigar comigo me mandando entrar para ir dormir. Nada, a não ser o silencio da noite! “Ele também te pediu para ser corajosa”. Observador fez questão de me relembrar isso, mas era tão difícil.... Forcei-me a ficar de pé e fui até o quarto de meu pai pela primeira vez desde sua morte. Estava tudo como ele tinha deixado, desde a cama desarrumada até as calças e camisas dele jogadas por cima de uma estante de madeira no canto do quarto. Só que a cama estava um pouco fora do lugar. Aproximei-me e, por trás, havia um quadro de madeira jogado no chão de qualquer jeito e uma a******a na parede, com diversos tipos de armas e uma capa de cor escarlate com um capuz. Atrás da capa, o símbolo de Naim estampado em n***o, que era um leão com asas e dois chifres. Peguei a capa na mão. Era um tecido bem suave, com bordas em um tom mais claro e um tipo de costura muito mais refinada que as roupas que papai costumava fazer. Não me segurei e acabei provando a capa. Na parte de dentro havia pequenos bolsos, perfeitos para esconder alguns tipos de armas. — Valente, pode vir aqui um minuto? — Chamei-o em alto tom. Ele se aproximou da porta e entrou, vindo em minha direção até ficar a dois passos de mim. Olhei profundamente nos olhos dele, que pareciam vazios e sem vida. — Quem fez esta capa? Sabe me dizer? — Estendi a mão suavemente sobre a cabeça dele, acariciando-o. Observador entrou em seguida pela porta e pousou nas costas de Valente. — Observador, já lhe disse centenas de vezes para não implicar com ele. “Ele tem algo a dizer e estou aqui para interpretar.”, acenei positivamente com a cabeça e aguardei. Valente começou a emitir sons que para mim não significavam nada, mas que minha águia era completamente capaz de compreender. “O legado de Kiroshi lhe pertence agora, assim como esse manto que já pertenceu a várias gerações de líderes de Naim. Você é a nova escolhida e deve vesti-la sempre que sair em ação, para que a honra de Naim se manifeste mais uma vez.” — A honra de Naim? Valente virou-se sem dizer mais nada e saiu correndo, obrigando Observador a sair de suas costas. No momento em que eu ia correr atrás dele, Observador me alertou: “Ele precisa de um tempo agora, mas há de voltar.” “Tudo bem...”. Segui para o meu quarto e procurei algo entre as coisas que pudessem combinar com a capa. Comecei a tirar várias coisas do meu baú, desde blusas velhas até algumas sandálias que já estavam com a correia arrebentada. No meio dessas coisas, um tecido n***o que me chamou a atenção. Era uma faixa de pano que eu acostumava usar como capa quando eu era pequena. Envolvi ela em torno da minha cabeça, prendendo meu cabelo, escondendo meus lábios e depois levantei o capuz. Peguei a lendária espada esmeralda, coloquei-a na bainha junto a minha cintura e saí para fora de casa. “O que acha desse visual, Observador?”. Ele não teve tempo de achar nada, pois Valente estava voltando apressadamente, assustado. “Invasores, andando na floresta.” — Vá, Observador! — Ele voou na frente enquanto eu corria tentando segui-lo. Não era necessário que nenhum animal me dissesse a posição, pois era quase certo o destino deles. Só não entendi porque demoraram tantos dias. “Devem estar atrás dos companheiros desaparecidos! Vou me esconder em uma árvore ali perto e aguardar.”, avisei ao Observador. Ele também já sabia o que fazer e pousou numa árvore por perto, aguardando a aproximação. Precisávamos ter um bom controle para não sermos percebidos. Desde o dia da luta, não ousei a tocar em nenhum dos corpos inimigos que, nesse instante, já estavam em estado de decomposição. Imaginei que alguém viria atrás, mas estavam demorando para isso. Agora finalmente minhas suspeitas se confirmavam. Dois zafisianos se aproximaram do lugar e quando avistaram os corpos ficaram perplexos e completamente horrorizados. — Quem poderia ter feito isso? — Perguntou um homem a seu companheiro enquanto reconheciam e identificavam a cada um. — Só um monstro! É melhor pegarmos eles e sairmos daqui o quanto antes. — Ah... com certeza eu não permitiria que fossem embora sem um aviso prévio. Queria que nunca mais voltassem, então saltei rapidamente para trás desse homem, encostando a ponta de minha espada em suas costas. — É melhor não se mexer ou vai acabar como eles. Ele ficou imóvel enquanto o parceiro dele me encarava sem saber o que fazer. Acho que no fundo sabiam que se tentassem qualquer coisa, acabariam como os companheiros que vieram buscar. — A noite me favorece. Tenho todos os ângulos de visão possíveis. — Tentei engrossar minha voz para parecer mais com a de um adulto. — Esses homens se atreveram a invadir meu reino e não quiseram sair por bem. Sugiro a vocês fazerem diferente se quiserem sair vivos. — Não viemos brigar! — O homem que eu ameaçara se pronunciou. — Chamo-me Caemon, da tribo de Rau e viemos com a missão de levar esses guerreiros de volta. Como membros do clã Rau, devem ser sepultados dignamente no território ao qual pertencem. — Muito bem, Caemon. — Tirei a espada e recuei alguns metros, saltando para trás. — Sou protetora desta floresta e qualquer um que perseguir a qualquer animal aqui novamente, terá um destino igual ou pior do que essas pessoas. Apenas se abstenham ao território de vocês e nada lhes acontecerá. — Faremos isso! Antes que o grande Arvi nasça no horizonte estaremos em Rau novamente. — Muito bem! — Em seguida saltei floresta a dentro, desaparecendo da vista deles. Eu não era um monstro e em meu coração jurei a mim mesma não me perder nas trevas, contudo, essa fama poderia ser útil para manter as pessoas afastadas da floresta. Para o mundo eu seria só uma pessoa bárbara e má, mas para essa floresta eu seria a guardiã. Nada mais seria como antes e, de agora em diante, eu usaria de todas as minhas forças para proteger o que é valioso para mim, me tornando cada dia mais forte e lutando pelo que me é importante, assim como meu pai me pediu. Sem dor e pesar, eu me tornaria uma mulher digna do manto de meu pai.
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