Capítulo 15 - Nos Bastidores da Mentira

1348 Palavras
Narrado por Raví Rocha Fortaleza fervia em todos os sentidos, calor da miz3ra. Sol rachando no céu, música estourando nos testes de som e gente correndo pra lá e pra cá organizando os detalhes do festival. Era o tipo de dia em que ninguém parava e mesmo no meio da correria, ela tava ali, Clara. Linda como sempre, vestida num conjunto todo rosa claro, cabelo preso num coque alto e um jeito de olhar que fazia qualquer um abaixar a cabeça, inclusive eu. Ela sempre foi o tipo de mulher que me colocava no eixo, me ajudava a me comportar nos lugares, mas não com gritaria ou drama. Era no silêncio, no olhar atravessado, nas frases curtas e afiadas. E naquele ensaio, eu já sentia que tinha alguma coisa entalada entre nós. Só fui entender direito quando uma das bailarinas do balé do Niltinho, um dos cantores que ia se apresentar comigo, veio até o camarim onde eu tava bebendo água e puxou assunto. — Ai, Raví, posso tirar uma foto com você rapidinho? — ela perguntou, já colando o corpo no meu, o sorriso forçado, o decote enorme fazendo os p****s quase encostar no meu braço. — Claro, pode sim. — respondi, mantendo a pose de sempre. Gosto de sempre ser respeitoso, não sou de ficar olhando e nem soltando gracinhas. Por mim a mulher pode andar nua na rua, é direito dela, ninguém tem que mexer não, só não gosto se for a minha mulher andando nua por aí mas de resto? quero que se fod4, tô nem aí. A foto foi rápida, mas o jeito dela de continuar ali depois, puxando assunto, fazendo perguntas, elogiando minha voz, ajeitando o cabelo e jogando charme descarado... aquilo já me deu preguiça. — Tá certo, viu? Obrigado pelo carinho meu amor. — falei, cortando o papo com um sorriso educado e me afastando. Foi aí que vi, de longe, Clara observando tudo. Pela sua expressão já sabia que coisa boa não vinha. Alguns minutos depois, já no canto lateral do palco montado, ela me puxou pelo braço. — O que foi meu amor ? — perguntei, já conhecendo aquela cara fechada de quem tava pronta pra me matar ali mesmo. — Vamos conversar ali — disse, apontando com o queixo pro cantinho onde tinham umas caixas de som empilhadas, afastadas da confusão. Não tinha ninguém por perto, só nós dois. Assim que chegamos lá ela já veio soltando os cachorros pra cima de mim. — Cê acha bonito, Raví? — perguntou cruzando os braços. — Bonito o quê? — — Aquela mulher se jogando em cima de você. E você sorrindo como se fosse o dono do mundo. Mais um pouquinho e ela tirava a roupa pra tu comer ela. — — Ah, não começa… — Clara é toda exagerada às vezes, negócio nada a ver. — Tu não acha desrespeito, não? Dela vir daquele jeito, toda oferecida? — — Ela só pediu uma foto, Clara. — tentei me aproximar dela mas ela se afastou fazendo sinal de para com a mão pra mim. — Só pediu uma foto? Tu tava com a mão na cintura dela, Raví! Eu vi! — E, ala a doida. — Minha mão m*l encostou! Tu sabe que foto com fã é assim mesmo! — Ela passou as mãos no rosto, impaciente. — Tu sabe que eu não sou doida. Aquela mulher não é fã, ela trabalha aqui. É do balé do Niltinho. Ela veio se oferecendo, e tu não fez questão nenhuma de cortar, ela se oferecendo e tu gostando que eu vi. Não sou doida não visse? — — Tu queria que eu fizesse o quê? Empurrasse ela e negasse uma foto? — — Não sei, só queria que tu colocasse limite, tu é um homem comprometido quero tá levando fama de corna não que eu não sou b***a. — Suspirei, já perdendo a paciência. — Não vem com essa não. Eu nunca desrespeitei tu, Clara, tu me conhece, nunca te dei motivo pra tu desconfiar de mim.Tu sabe do meu jeito, sabe que eu sou brincalhão, trato todo mundo bem mas eu nunca te fiz de b***a. — — Nunca me fez de b***a? Então por que tem hora que eu me sinto exatamente assim? Que tu me faz de gato e sapato. — O silêncio caiu entre nós. Ficamos só nos encarando. Eu com o peito apertado, ela com os olhos úmidos. — Eu tô aqui, Raví — ela disse, mais baixo. — Sempre estive. Desde antes da fama, desde os primeiros shows nos barzinho. Sempre estive lá por você porque eu sempre te amei. — — Eu sei disso, mulher… — — Eu nunca te pedi nada, só peço que tu me respeite… — Quis responder, mas na hora não saiu nada. No fundo, eu sabia que ela tava certa e mais do que isso… eu sentia a dor dela. Porque por mais que eu gostasse da Lorena, por mais que ela mexesse comigo de um jeito inexplicável, era a Clara que tava ali comigo desde o início. No dia a dia, nas rotinas, nos momentos difíceis e de necessidade, ela sempre esteve ali. Ela limpou os olhos discretamente, ajeitou os brincos e saiu andando de volta pro meio do povo. Eu fiquei ali por alguns segundos, respirando fundo, tentando entender como algo tão pequeno podia virar uma tempestade. Isso porque foi só uma foto, imagina se ela descobrisse sobre a Lorena? Vige Maria. Horas depois, o vídeo caiu na internet. Alguém que tava lá, provavelmente alguém das equipes dos outros cantores, ou algum dançarino… filmou escondido a nossa conversa no canto do palco. A gravação era de longe, tava sem áudio, mas com uma imagem nítida o suficiente pra causar confusão. Clara apontando o dedo na minha cara, eu respondendo ela já sem paciência. Ela enxugando as lágrimas… Os sites de fofoca ficaram tudo doido. “Flagra! Casal do momento, Raví Rocha e Clara têm briga feia nos bastidores do festival do Forró em Fortaleza. “ “Suposta traição: será que Raví tem uma amante?” “Cantor de forró Raví Rocha foi visto em discussão com namorada por suposto envolvimento com outra mulher. “ Peguei o celular e fui direto pros stories, tinha o festival e não podia ficar criando confusão, tinha que resolver logo. Meu sangue já fervia, mas eu me contive. — Fala, galera… tô aqui pra falar de um vídeo que tá rolando por aí — comecei, eu já tava no hotel, tinha conversado com o meu empresário e já sabia o que falar. — Sim, é verdadeiro. Eu e a Clara discutimos. Foi uma conversa privada nossa, coisa íntima que infelizmente, virou público. — Respirei fundo. — Mas deixa eu deixar uma coisa bem clara: não teve traição, não teve amante, não teve nada disso que tão dizendo por aí. Foi uma conversa de casal, coisa normal do dia a dia, de quem convive e que deveria ter ficado entre nós. — — Quem me conhece sabe que eu respeito a mulher que tá comigo, sabe que ela é a mulher que eu amo, que eu sou louco pela minha mulher.— Eu e Clara já havíamos conversado e nos entendido. Depois que eu postei o meu vídeo ela veio logo em seguida e postou o pronunciamento dela. — Oi, pessoal. Passando aqui só pra dizer que tá tudo bem, tá? O vídeo que tão divulgando é real, sim, mas foi só um desentendimento como qualquer casal tem. A gente tá junto, a gente se ama. Não teve traição e nem nada disso. — A mídia tentou manter a chama acesa, mas logo o foco mudou pra outras polêmicas do festival. Ainda assim, por dentro, aquilo me deixou preocupado. Eu já tinha me resolvido com a Clara, já tava tudo certo mas o problema era outro, Lorena. Tentei falar com ela mas ela não respondeu. Não me mandou nenhuma mensagem, só tinha visualizado meus stories e sumido. Tava com saudades dela, sentia falta das nossas conversas, dos seus beijos, do jeitinho dela…
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR