Comecei a me arrepender no exato momento em que aceitei.
Eu não deveria ter aceitado sair com Luke por onde quer que ele fosse, para mim ele era um estranho, para ele eu também deveria ser uma. Eu não fazia esse tipo de coisa, não aceitava sair com estranhos, e ainda mais um cara. Um cara que eu só sabia o nome, que tinha um fraco por corridas clandestinas e que com toda certeza tinha perdido alguém importante. Isso a gente conseguia ver no olhar da pessoa.
— Espera! Eu não vou subir nessa moto de novo. Eu estou de vestido, isso é...
— Se a sua preocupação é essa, não tem problema. Eu não vou olhar. — E novamente aquele sorriso provocativo no rosto ao mesmo tempo ele piscou pra mim, e desviei o olhar, constrangida.
— Não é só isso. E-eu… Tenho medo. Só aceitei da última vez porque sai correndo com você por causa daqueles guardas.
— Está com medo? — perguntou ele em tom de deboche e divertimento na voz, me encarando.
Eu não me importava se ele estava querendo rir da minha cara, mas eu estava com medo. Talvez… Um pouco.
— Essa é a chance de você fazer algo diferente e emocionante, ou pode continuar vivendo a sua vida com fortes emoções, tipo, chegar tarde em casa ou tiro ao alvo em um parque.
Eu sabia que ele estava debochando de mim de novo. Eu, toda cuidadosa, que não me atrevia a fazer coisas perigosas e ele, todo confiante, vivendo a vida no limite do perigo e da adrenalina. Minha vidinha poderia ser até sem graça, mas eu gostava dela.
Sem contar que não deixaria que ele tivesse a chance de me chamar de sem graça.
Eu peguei o capacete da mão dele.
— Vou te mostrar que não sou tão sem graça quanto pareço ser.
Um sorriso se formou nos lábios dele. Luke devia ter achado interessante. Mas eu estava realmente com medo, não queria agir por impulso e não deveria.
Mas uma pequena parte de mim implorava para que eu embarcasse nessa.
Seria só uma noite.
Essa noite.
Não poderia ser tão problemático, não é?
Ele tinha me ajudado antes, ele não me machucaria se tivesse a chance.
Isso não seria nada demais…
Subi na moto ajeitando o vestido, minha sorte é que ele era colado ao corpo, então não tinha perigo de voar e eu passar vergonha. Coloquei o capacete e respirei fundo, em seguida enlacei minha mão na cintura dele.
Estava um pouco nervosa, mas ignorei e me concentrei. Sabia do fundo do coração que as chances de me arrepender daquilo eram grandes, mas eu queria fazer algo diferente. E Luke parecia ser o único cara que realmente não me incomodava.
Era justamente o contrário. De alguma forma eu conseguia me sentir à vontade na presença dele e isso era muito estranho. Era novo pra mim esse tipo de sentimento.
Ele deu partida na moto. Quando saiu da área movimentava perto do parque, Luke acelerou. Tive que me segurar para não gritar, pois não estava acostumada com velocidade. Meu coração acelerou e pude sentir a adrenalina no corpo, uma vibração excitante que parecia gritar para ir mais rápido. Era uma sensação boa e diferente, e eu estava gostando. A velocidade era um tanto viciante, e agora entendia o porquê de ele gostar tanto disso.
Tudo à nossa volta se transformou em borrão, e apesar da velocidade em que estávamos, eu sabia que ele estava se segurando. Aquela com toda certeza não era a velocidade que ele costumava correr.
Alguns minutos depois, a velocidade foi reduzida e ele parou. Eu tirei o capacete, tentando entender onde estávamos. Era a praia, o lugar onde observamos o pôr-do-sol na primeira vez.
O lugar estava deserto e isso me deixou um pouco nervosa, mas não o suficiente para querer voltar. Eu o entreguei o capacete e ele o prendeu na moto, estacionando-a em um lugar mais à frente.
Tirei o coturno e me sentei na mureta enquanto esperava, olhando em direção à praia. Àquela hora, não havia ninguém por ali. Só era possível ouvir o som das ondas quebrando quando chegavam ao final.
— Vai ficar sentada aí ou vai vir aqui?
Luke já tinha atravessado a mureta e caminhava em direção à praia. Deixei meu sapato na mureta e pulei em direção areia à praia. Ele já estava parado onde as ondas se quebravam, a sensação da água batendo no meu pé e chegando até o meu tornozelo, primeiramente me provocou arrepio e depois uma sensação boa. Respirei fundo gravando cada sensação na memória e só percebi que estava de olhos fechados tempo demais, quando ouvi a voz de Luke.
— Acho que nunca fez isso antes — constatou.
Abri os olhos quando percebi que tinha feito isso inconscientemente. Ele estava me observando com uma expressão meio curiosa no rosto.
Eu sorri, um pouco constrangida.
— Na verdade não. Nunca tive a chance.
— Sua mãe? — perguntou ele, voltando a olhar para o horizonte.
Ele tinha perguntado de uma forma que deixou claro que eu decidiria se responderia ou não. Ele sabia que isso poderia me incomodar, mas eu não me importava em explicar.
— Ela morreu quando eu tinha seis anos de idade. Não tive muitas chances como essa.
Luke assentiu.
Ele começou a tirar a bota e a camiseta. Tive que me controlar para não olhar; eu estava certa quando deduzi que ele malhava. Luke exibiu um abdômen perfeitamente definido e uma tatuagem que não consegui identificar.
Ele parou ao meu lado quando viu que eu não estava me mexendo, mas não era medo, era cuidado. Estava ficando tarde e eu não mergulharia em uma praia àquela hora. Sem contar que eu estava sem biquíni, e não faria isso de vestido.
— Está com medo?
Okay, talvez eu estivesse arrumando motivos para não fazê-lo, mas tinha meus motivos...
— Não! — disse — Eu não vou entrar nessa água.
— O que aconteceu com o “vou te mostrar que não sou tão sem graça”?
Ele estava me provocando, mas não iria funcionar. Eu conseguia ter autocontrole quando quisesse.
— Isso não vai funcionar. Eu não vou entrar.
Ele abaixou-se sem dizer nada
— Olha! Deixa eu te mostrar uma coisa
— O quê? — perguntei, curiosa. Ele só podia estar de brincadeira com a minha cara.
Quando Luke não respondeu, eu abaixei. Ele puxou meu braço e cai diretamente na água.
— E-eu… Eu não acredito que você fez isso — gaguejei. — Que truque mais infantil.
Eu acabei rindo, mais de nervosismo do que de qualquer outra coisa. Estava tentando achar motivos para ficar chateada, mas não conseguia. Era uma atitude infantil, mas era divertido.
Eu peguei água e joguei nele, bom, ele tinha começado, não eu. Sem contar que eu já tinha me molhado toda… mesmo se eu quisesse, não tinha como voltar atrás.
Ele começou a entrar na água e de repente parou, observando-me.
— Você sabe nadar, não é?
Eu o encarei e virei o rosto, constrangida.
— É sério? Você não... não sabe nadar?
— Pode rir se você quiser, eu não me importo. Nunca me interessei por praias ou coisas assim, então nunca tive a chance de aprender. Quer dizer, não é que não me interessava, mas tinha receio...
Ele assentiu e mergulhou na água de calça e tudo. Eu fiquei observando até que ele saiu lá na frente. Luke balançou a cabeça para que eu entrasse, mas a beirada era o meu limite. Ele nadava de forma graciosa, devia estar acostumado a fazer isso há muito tempo, tinha muita experiência naqueles gestos.
Ele mergulhou mais uma, duas, três vezes, e na última estava demorando mais do que o normal. Qual o tempo limite que uma pessoa consegue ficar submersa?
Entrei em pânico. Eu não entendia muito sobre o assunto, mas tinha certeza absoluta que uma pessoa não podia ficar tanto tempo debaixo d’agua sem respirar. O que eu faria?
— Luke?— Comecei a chamar, indo até a beirada do mar, onde as ondas se quebravam aos meus pés. Adentrei mais, olhando para os meus pés. — Luke, isso não tem graça.
Eu esperei e o chamei de novo.
Comecei a ficar mais desesperada. Eu não sabia nadar, mas também não poderia deixar ele se afogar sem fazer nada para ajudar. Não havia ninguém passeando pela praia e eu estava ficando sem escolhas. Eu entrei no mar, tremendo, até a água ficar na altura dos meus joelhos.
Se eu entrasse mais, com certeza me afogaria também.
— Luke? Para com isso.
Esperei mais um pouco, mas não houve respostas. Estava prestes a entrar quando alguma coisa emergiu à minha frente e eu gritei, caindo na água e terminando de me molhar inteira.
— Isso não teve graça! — exclamei enquanto ele me observava sorrindo.
— Desculpe, mas foi divertido.
— Só pra você, né?
Ele abaixou-se, enlaçando uma mão na minha cintura e outra no meu tronco, e me ajudou a levantar. Ficamos a poucos centímetros um do outro, olhos nos olhos e respiração ofegante. Afastei um passo enquanto agradecia. Tinha sido um toque quente, apesar da temperatura da água, e ao mesmo tempo acolhedor e eletrizante, o que me deixou confusa, pois não sabia descrever o que estava sentindo naquele momento. Nunca havia sentido esse tipo de coisa que me deixa tão confusa.
Saímos da água e nos sentamos na areia da praia. Eu estava começando a sentir frio, meu cabelo estava encharcado e a água escorria pelo ombro, fazendo com que eu me arrepiasse.
Não podia negar que aquilo tinha sido divertido.
— Você vem sempre aqui? Parece ser um lugar que você conhece bem.
— Eu sempre venho aqui. Mais para pensar do que qualquer outra coisa.
Ele apoiou as mãos na areia e jogou a cabeça para trás, fechando os olhos.
O cabelo dele brilhava, provavelmente por causa da água que ainda o estava encharcando. O rosto dele parecia mais sereno, quase como se ele fosse uma estatua.
Tive vontade de tocá-lo, e não sabia o que estava me impulsionando a isso, já que geralmente preferia evitar contato.
— Ah, então você usa a cabeça para pensar — brinquei. — Achei que as palavras simplesmente saíam.
Ele sorriu
— Não sou tão impulsivo quanto pareço. Consigo fazer as coisas direito quando quero.
— Mas prefere de outra forma.
— Qual a graça de viver com tantas regras? Não pode correr porque é perigoso, não pode comer tal comida porque não é saudável ou engorda, não pode fazer uma coisa que você gosta só porque os outros dizem ao contrário… Eu não me importo em quebrar regras se isso me faz feliz.
— Algumas regras foram feitas para serem quebradas — citei, e ele me encarou como se tentasse entender de onde vinha aquilo. — Que foi?
— Só estou tentando entender como uma garota como você disse algo assim.
— Não sou tão sem graça. Eu saberia aproveitar se quisesse.
— Mas não quer — observou ele.
— Não é isso. Eu só não me incomodo em viver assim. Estou bem.
Ficamos sentados ali por algum tempo, calados. A expressão no rosto dele era serena, não sabia dizer se estava com raiva, chateado ou se simplesmente só estava tentando não pensar em nada.
Algum tempo depois ele levantou-se, batendo a mão na roupa e tirando quase toda a areia. Eu fiz o mesmo, ficando de pé ao lado dele.
— Acho que está na hora de levar você para casa — falou ele com um meio sorriso no rosto.
— Eu posso chamar um táxi.
— Tem certeza? Com o quê?
Eu automaticamente congelei. Não tinha levado meu celular comigo, tinha esquecido com Arielle e não havia nenhum telefone público por ali. Eu duvidava muito que ele pudesse emprestar ou estivesse com algum celular.
— Tudo bem, eu aceito.
Atravessamos a mureta para sair da praia, pegamos nossas coisas e seguimos até a moto. Eu estava incomodada com uma coisa: se aparecesse na casa de Arielle com Luke essa hora da noite, ela viria com perguntas estranhas. Bom, um pouco porque ela me conhecia bem, mas com toda certeza ela me intimidaria por isso. Ariel não gostava de caras como ele, os típicos bad-boys.
Sem contar que, se a mãe dela estivesse acordada, poderia achar estranho. Arielle deveria estar muito preocupada comigo, tinha saído do parque sem falar nada com ela após praticamente agredir um menino. Eu estava com razão, claro, ele é que tinha começado. Mas mesmo assim. Deveria estar passando das 23h.
Nunca tinha ficado fora de casa até essa hora.
A não ser quando dormia na casa dela, mas isso não contava.
☼
Alguns minutos depois, Luke estacionou em frente à casa de Arielle. Durante todo o caminho, Luke tinha dirigido devagar, talvez porque tínhamos entrado naquela água fria da praia e a velocidade poderia acabar nos deixando com frio. Mas tinha quase certeza que ele não se importava com isso, talvez só tivesse feito para que eu não sentisse tanto frio.
— Tenho quase certeza de que essa não é a sua casa — disse ele. — Se sua intenção é me despistar, não se preocupe, não vou invadir sua casa no meio da noite.
Eu desci da moto e o entreguei o capacete.
— Na verdade, é a casa de uma amiga. Estou passando o final de semana aqui.
— Noite das garotas?
— Quase isso. — Sorri.
Escutei um barulho no andar de cima, vindo do quarto de Ariel. As luzes da casa estavam acesas e era possível ouvir a conversa dela.
— Eu não sei. Estávamos no parque juntas. A Verônica não é de sair por aí assim, muito menos se eu não estiver por perto.
— Você já ligou para ela? — perguntou alguém, era a Julia.
— Não! Ela esqueceu o celular comigo.
— Então liga para o pai dela.
— Eu não posso ligar para o pai dela e dizer que perdi a filha dele em um parque. O amigo dele é policial, e se eles me prenderem e começarem a fazer perguntas? Eu fico nervosa com isso. Pior, e se me acusarem de…
— Deixa de drama, Arielle. Quando você a viu pela última vez? Precisa ficar calma, a Verônica deve estar bem.
— Bem coisa nenhuma! Ela tinha ido comprar alguma coisa na barraquinha do parque e o i****a do amigo de um colega de classe foi junto com ela.
— E você deixou os dois a sós? Você sabe muito bem como ela se sente com isso. Da última vez em que um garoto ficou só com ela, ele…
— Mãe, para. Ela está bem! — gritou Arielle.
Luke estava me encarando com curiosidade, e eu comecei a me sentir sem graça. Não sabia o que dizer. Arielle estava discutindo com a mãe por minha causa. Elas dificilmente faziam isso, a não ser quando ela tinha que arrumar o quarto e não o fazia.
— Parece que estão preocupadas com você.
— Acho melhor eu entrar. — Tentei não encará-lo.
Se ele fizesse alguma pergunta sobre aquela conversa, eu não saberia como responder. Saí de perto dele e esperei no portão até que ele desse partida na moto.
De certa forma me senti grata por ele não ter perguntado mais nada.
E também por aquela noite.
Eu entrei na casa dela indo até o quarto, Arielle estava sentada na cama com um celular na mão enquanto a mãe a encarava. As duas me encararam surpresas quando me viram.
— Meu Deus do céu, Verônica, onde é que você estava? — perguntou Arielle, se aproximando e checando se eu estava bem.
Ela começou a me cutucar como se tivesse alguma coisa errada comigo. Mexeu no meu cabelo e afastou a mão quando percebeu que estava molhado.
— Por que você está molhada? Nem está chovendo…
— Você está bem? — perguntou Julia. Sua voz soou calma, mas eu sabia que ela estava preocupada.
— Eu estou bem. Estava… Na praia — respondi à pergunta.
— Escutei o barulho de moto lá em baixo. Acredito que alguém deve ter lhe trazido — disse Julia me observando.
Era obvio que ela já sabia.
— Você estava andando de moto? Desde quando faz isso? — Quis saber, Arielle com uma expressão horrorizada no rosto.
— Um colega de classe me trouxe até aqui. Eu esqueci o celular com Arielle e não consegui ligar para avisar.
— Um colega? Desde quando vocês, especialmente você, tem amigos… Meninos?
Julia me observou, esperando uma resposta, e eu sabia que ela não estava tentando me constranger ou qualquer coisa parecida, ela só estava preocupada.
— Eu… encontrei com ele por lá. Estava sem dinheiro para o táxi e sem o celular. Eu aceitei a carona até aqui, mas foi só isso.
Ela caminhou até mim e pousou a mão no meu ombro com cautela.
— Sabe, querida, se tiver acontecendo algo… qualquer coisa, você pode falar com a gente. Não precisa ter medo. Ninguém mais vai te machucar. Não tem que proteger ninguém. Aqui você está segura.
— Não tem nada acontecendo, Julia. Eu estou bem. Eu juro. — Tentei abrir um sorriso.
Ela assentiu e saiu, fechando a porta atrás de si.
Arielle estava me encarando de braços cruzados e uma expressão séria.
— Porque você saiu do parque? Espera! Aquele i****a do A... An... Andrew. Isso! Aquele i****a não fez nada, não foi? Eu perguntei para o Drake sobre ele e ele disse que na verdade o Andrew é um i****a. Ele fica tentando dar em cima das garotas. Eu me arrependi de tê-lo deixado ir com você. Procuramos vocês o parque todo, e nada. E eu quero saber a verdade do por que você está molhada, como se tivesse acabado de sair de um temporal. Eu fiquei preocupada com você, estava quase enfartando. Quando você entrou por aquela porta, já estava com o dedo em cima do número do seu pai. Eu não sabia o que fazer.
— Eii, calma.
— Calma nada, Verônica. Poxa, eu quase morri de preocupação com você. Quero a verdade. Eu exijo e mereço saber.
— Eu vou contar tudo. Mas depois que tomar um banho.
Ela me observou com uma expressão estranha, como se quisesse que eu desabafasse logo, mas não queria falar. Ela sentou na cama de braços cruzados e pulou em seguida.
— d***a, que coisa é…— começou ela, em seguida tirou um livro de baixo da coberta. — Ah! Seu livro.
— Ele estava dentro da minha bolsa — disse, indo até a minha mochila e pegando uma roupa e a toalha.
— Eu abri a sua bolsa para procurar seu celular, quando lembrei que estava na minha bolsa. Desculpe, como disse, realmente estava preocupada.
— Não tem problema! — falei enquanto seguia até o banheiro.
Tirei a roupa e entrei debaixo da água morna do chuveiro. Estava tentando manter minha mente concentrada, quando escutei um grito vindo do quarto. Era Arielle. Em seguida ouvi uma batida repetitiva na porta.
— Você está bem? — perguntei.
— Eu é que te pergunto. Quem é esse tal de L? E... Espera! Não pode ser. Não pode ser o Luke. Diga que eu estou errada.
Oh... O número do Luke na contracapa do livro.
— Ah, isso.
— É, isso! — Ela pareceu chocada. — Oh! Agora tudo faz sentido. A moto... O colega de classe... É o Luke. Eu acho que você me deve algumas explicações.
Alguns minutos depois, sai do banheiro com a toalha enrolada no cabelo. Já tinha me arrumado e colocado o pijama. Ela estava sentada na cama de braços cruzados e ainda com uma expressão séria. Estava muito chateada.
— Desde quando temos segredos? Eu estou quebrada. Quer dizer, meu coração está quebrado. Eu não acredito que você esconde essas coisas da sua melhor amiga. Sinto que vou morrer.
Comecei a rir. Ariel tinha tendência a fazer drama além da conta.
Ela continuou me encarando sem dizer nada.
— Eu não estava escondendo nada. Eu juro. Sobre o número, eu só vi isso hoje, eu juro que ia te contar, só tinha esquecido.
— Eu quero uma explicação convincente com o máximo de detalhes possíveis. Quero saber até como estava a grama onde você foi.
Eu a encarei, tentando descobrir se ela estava brincando, mas parecia realmente estar falando sério.
Sentei ao lado da cama, tentando decidir se começava explicando sobre o número do Luke na capa de um dos meus livros ou sobre toda a confusão com Andrew, amigo do Drake. Decidi começar pela última parte, sobre o número eu explicaria depois.
— Então quer dizer que aquele i****a realmente tentou dar em cima de você? Se eu o vir de novo, juro que arranco seu coração. Foi por isso que ele não voltou. Só não entendo como Luke estava em um lugar daquele. E por que ele te levou até a praia?
— Eu não sei. Você parecia estar se divertindo com o Drake, eu não queria atrapalhar. E também não queria incomodar tendo que explicar a confusão com o Andrew e estragar a noite. Então… eu aceitei.
— Eu não estava me divertindo com o Drake — disse ela, na defensiva, parecendo ofendida. — Estávamos no meio de uma aposta. Eu tinha que ganhar.
— Não era o que parecia. Vocês estavam lá, rindo um para o outro. Se não te conhecesse poderia jurar que rolou um clima.
— Vira essa boca pra lá. Cruzes. Até parece que eu vou me interessar por aquele… por aquele garoto. Mas, terminando…
— É só isso. Eu te contei tudo.
— Então você aceitou a carona. Ele te trouxe até aqui e foi embora. E o número do celular dele na capa do seu livro? Lembro muito bem que você estava procurando por ele e Luke te devolveu.
— Ele deve ter anotado lá antes de me devolver.
— E você…
— Não! Eu não liguei para ele. Por que ligaria?
— Eu não sei — disse ela, levantando os braços como se dissesse que não tinha nada com isso. — Eu também não sei o que deu na sua cabeça para aceitar sair com ele.
— Pode conferir as ligações realizadas. Você sabe que eu nunca apago o histórico de chamadas, nem mesmo anotei nos contatos.
— Eu confio em você. — Ela sorri.
— Desculpe ter deixado você no parque e não ter avisado nada.
— Eu te perdoo. Mas se fizer isso de novo, quem vai ficar sem coração é você. Mais importante, vamos ou não continuar com a nossa maratona sobrenatural?
— É claro que sim.
Pelo menos tinha sido fácil explicar a situação a ela. O bom é que ela era compreensível, então me entendia bem.