No domingo, acordamos com uma batida insistente na porta. Como Arielle não iria e não queria responder, levantei e fui até a porta. Fiz o favor de abrir. Julia estava parada toda arrumada do outro lado. Usava um vestido chique em vermelho escuro e segurava uma bolsa.
— Bom dia, Julia!
— Bom dia, Verônica! Arielle ainda não acordou?
Saí de frente da porta, passando a mão no rosto e em seguida arrumando o cabelo. Apontei para Arielle, ainda deitada na cama, toda espalhada e com um travesseiro em cima da cabeça.
— Creio que ela esteja com preguiça, como sempre — disse, dando espaço para Julia passar.
Ela foi até a cama de Arielle, puxando o cobertor e tirando o travesseiro de cima dela. Arielle resmungou alguma coisa e puxou o cobertor de volta.
— Acorda! Gostaria que vocês fossem comigo a um lugar. Preciso comprar um vestido novo para usar no noivado. Seria bom ouvir a opinião de vocês. As lojas do centro fecham cedo hoje, preciso resolver isso o quanto antes.
— Você tem mais de bilhões de vestidos no seu closet, mãe — resmungou Arielle, enfiando a cara de baixo do cobertor.
— Eu preciso de algo novo e diferente! Todos os parentes do Will vão estar aqui. Quero que tenham uma boa impressão.
— Você causaria boa impressão mesmo se não usasse nada — disse ela e Julia a encarou, constrangida.
Eu sorri
A verdade era que Julia era mesmo chique. A família de Arielle vivia bem, o pai dela vinha de uma família rica, assim como a mãe, que herdou algumas coisas da família. Quando eles se separaram, o pai dela deixou a casa e algumas outras coisas. Ele costumava visitá-la mensalmente. E a mãe dela sempre se sentia incomodada com isso, mas no fundo compreendia, pois ele era pai.
Julia era bonita e atraente, não muito diferente de Arielle, a não ser no temperamento e na hora de falar. Julia pensava bem antes de responder a alguém ou conversar, já Arielle era mais impulsiva e falava as coisas sem pensar.
Ela não era o tipo de pessoa mão-fechada. Julia era bondosa e não hesitava em doar algumas de suas roupas caso fosse preciso. Ela tinha um coração bom, assim como a filha. Mas não deixava de ser verdade a parte de ter milhões de roupas no closet, pois ela fazia compras toda semana, mesmo que um tempo depois doasse as antigas roupas. Ela tinha um novo emprego, trabalhava e ganhava o próprio dinheiro. Se ela tinha coisas boas era por mérito próprio.
Fui até o banheiro me arrumar enquanto Julia foi até a janela abrindo as cortinas deixando o sol que está brilhando lá fora entrar. A única maneira de fazer com que Ariel desistisse e levantasse logo.
Era domingo, algumas lojas do shopping fechavam cedo, e Julia queria comprar o vestido naquele dia, pois a semana seria corrida com os preparativos para o noivado, etc., e talvez ela não tivesse tempo para comprar depois.
Fomos no banco de trás enquanto Julia ia dirigindo. O carro era um conversível vermelho e chamava a atenção por onde passava. Ariel tinha enfiado os fones de ouvido e aumentando o volume enquanto fechava os olhos e tentava, sem êxito, voltar a dormir. Ela tinha acordado de mau-humor, então preferi nem mexer com ela.
O trânsito na cidade estava fluido. A mãe dela parou o carro e pagou o manobrista para guardar o carro no estacionamento do shopping.
Julia foi até uma loja chique de noivas, e uma das moças sorriu para ela quando a viu. Com toda certeza ela já tinha ido ali antes.
Esperamos enquanto ela escolhia os vestidos, foram várias trocas até chegar aos que ela mais tinha gostado.
— Eu acho o preto exageradamente exagerado — comentou Ariel. — Até parece que vai para um velório.
— Ah! É mesmo, né? — exclamou Julia, indecisa, olhando-se no espelho.
— Eu não acho. Roupas pretas não são só para velório. Esse ficou lindo em você. Mas acho que o branco fica ainda melhor.
— Eu o achei muito branco. Escolhe outro.
— Até parece que você está tentando contrariar sua mãe — falei, encarando-a.
— Não estou! Hoje é domingo. Eu tinha o direito de ficar em casa dormindo, mas agora estou aqui em um shopping com a minha mãe. Tomara que ninguém nos veja aqui.
— Não seja tão chata. Eu adoraria fazer compras com a minha mãe, se eu tivesse uma. Eu nem me importo com o que os outros vão pensar. Temos que aproveitar a presença das pessoas enquanto elas ainda estão ao nosso lado.
Ariel me encarou sem dizer nada e tirou os fones de ouvido. Julia ficou esperando uma resposta.
— Vamos, meninas! Eu compro alguma coisa para vocês.
— Certo. Adorei os dois, fica com eles. No dia você escolhe, o que der vontade de usar você usa — respondeu ela, levantando-se. — Agora, vamos ao meu.
Eu cutuquei seu braço.
— Eu estava brincando, boba!
Saímos dali algum tempo depois. Julia tinha comprado os dois vestidos e mais alguns pares de sapato combinando, conseguimos convencê-la a não comprar nada para nós e em troca poderíamos ir comer alguma coisa na praça de alimentação.
Eu não gostava muito de fazer compras, não que fosse r**m, mas não tinha paciência em ter que ficar escolhendo; experimentar e voltar a fazer tudo de novo… mas não era mentira a parte de que queria fazer compras com a minha mãe. Nunca tive a oportunidade e nunca teria. Arielle precisava aproveitar a presença da mãe enquanto ela ainda estivesse ali. As pessoas não vivem para sempre, chega uma hora em que elas simplesmente saem de nossas vidas, deixando somente saudades.
— Eu quero um refrigerante, um lanche com tudo que eu tenho direito e batata frita. Não se esqueça do molho. E tira o bacon. Eu odeio bacon.
A mãe dela a encarou, assustada, assim como eu. Não estávamos acreditando que ela comeria tanta porcaria ao mesmo tempo. Ela estava mesmo de mau-humor.
— Vou querer um lanche e suco de morango — declarei, ainda encarando Ariel.
Duvidava muito que o mau-humor fosse por causa do que tinha acontecido na noite anterior. Ela não era de se chatear com essas coisas, e também duvidava que tivesse a ver com o fato de que a mãe dela a acordou cedo. Eu não sabia se ela queria falar sobre o assunto em frente da mãe, então esperaria até que estivéssemos a sós.
A mãe dela pediu um x-salada e suco. Ela não comia muita porcaria, ainda mais tão perto do casamento. Talvez estivesse querendo ficar em forma para o dia – não que ela precisasse.
Saindo dali, voltamos para casa de Ariel e eu arrumei as coisas para voltar para minha casa. O combinado era só o final de semana e, se não voltasse naquele dia, meu pai poderia ficar preocupado, mesmo deixando um recado.
— Você quer conversar? O dia todo pareceu um pouco… frustrada. Ou chateada com alguma coisa — pontuei.
Ela me fuzilou com os olhos, como se tivesse dito algo errado, e então continuou a me ajudar a arrumar as coisas na minha mochila.
— É sobre ontem.
— Sobre a parte do Luke ou…
— Sobre o parque. Foi estranho. Eu não consegui parar de pensar nisso a noite toda. Tipo, o Drake é um i****a. Sempre que nos vemos trocamos ofensas um com o outro. Mas tipo, ele pareceu um cara legal, ontem. Eu não consigo entender.
— Se vocês parassem para conversar ao invés de brigar, poderiam chegar a algum lugar — apontei, observando-a.
Ela estava pensativa.
— Não! O que está insinuando com isso?
Ela guardou as roupas na mochila com tanta força deixando evidente não estar conseguindo disfarçar o nervosismo.
— Eu? Nada? Só falei isso por falar… Sabe…
— Ai, eu acho que vou vomitar. Tira isso da cabeça! Sem chance.
— Eu não disse nada.
— Mas pensou.
Ela levantou e me ajudou a arrumar a mochila. Eu não tinha levado tantas coisas, então não estava nada pesado. Ela conversou com a mãe dela e fomos para a minha casa.
Chegando lá o carro estava parado do lado de fora e a porta estava aberta, o que insinuava que o meu pai estava em casa. Entramos. Ele estava jogado no sofá assistindo a um jogo que passava, algumas caixas de pizzas estavam jogadas sobre a mesinha de centro da sala.
— Já estão de volta? Achei que voltariam só à noite.
— Decidi voltar mais cedo. Pelo que vejo, passou o final de semana comendo pizza. Sabe que isso não é saudável né, pai? Poderia ter ligado para um restaurante e encomendado alguma coisa.
— Acha que eu faria isso? Tenho o final de semana todo para aproveitar e comer coisas que você não me deixa comer quando está em casa. Não tem como ficar mais saudável do que já estou — disse ele sorrindo.
— É isso aí, senhor Sinckler — incentivou Ariel ao meu lado. — Ela tem que deixar de ser tão séria. Isso sim, não é saudável.
— Sabe muito bem que pode me chamar apenas de George, Arielle. Você já é de casa.
— Desculpe. É costume — falou ela, abrindo um sorriso que mostrava todos os dentes em forma de desculpa. Em seguida ela subiu para o meu quarto.
Passamos o resto da tarde no meu quarto, ela estava concentrada pintando a unha com um esmalte que provavelmente tinha trazido de casa e eu aproveitei para dar uma arrumada no meu quarto. Enquanto isso, conversávamos sobre várias coisas enquanto o tempo passava. À noite, eu preparei o jantar e nos sentamos à mesa. Ela ficou para acompanhar.
— Como foi o final de semana das garotas? Animado? — perguntou meu pai.
Ela tinha acabado de levar o garfo com comida na boca e me encarou de olhos arregalados. Em seguida disfarçou tomando um pouco de suco.
— Foi… Bem animado.
— Por que sinto um clima estranho no ar? Não estão me escondendo nada, estão?
— Não é nada demais, pai. Foram coisas de garotas, maratona de uma série shopping, parque…
— Parque? Aquele que voltou à cidade? Mas ele não fica lá no centro? —perguntou apreensivo.
— Minha mãe estava junto. Não tinha problema. Só fomos nas barraquinhas e voltamos. Verônica tirou toda a minha vontade de andar nos brinquedos. Até parece que só criança faz isso.
Ela tinha mais facilidade em mentir do que eu, que nunca precisei fazer isso. As coisas em casa funcionavam na base da sinceridade, sempre que precisava sair para algum lugar longe de casa, tipo a área central dali, meu pai ou Arielle estavam juntos. Eu não escondia nada dele e nem ele de mim.
Praticamente não havia segredos entre eu e meu pai e o mesmo acontecia comigo e Arielle.
Eu não podia contar a ele sobre o Luke, ainda não. Até porque não havia nada demais para contar, ele faria tempestade em um copo de água.
— Que bom. Não quero vocês duas andando naquele lado da cidade sozinhas. Ainda mais à noite.
— Não tem com que se preocupar. Estamos cem por cento avisadas — assegurou ela.
Depois do jantar, Arielle ligou para que a mãe dela a buscasse, pois não queria voltar para casa sozinha àquela hora, mesmo que a casa dela estivesse só a algumas quadras dali.
Na manhã seguinte, levantei um pouco mais tarde do que esperava. Era segunda-feira, e eu teria que me apressar para chegar na casa de Arielle e irmos para a escola, sobre o café da manhã, teria que comprar alguma coisa no caminho ou comer na escola mesmo, o que eu não gostava de fazer.
Peguei a minha mochila e desci, meu pai já tinha saído, havia um bilhete em cima do balcão:
Bom dia,
Tive que sair mais cedo hoje então não tive tempo de preparar alguma coisa para você. Sinto muito.
Talvez eu chegue mais tarde hoje, então se cuide, e não espere por mim para o jantar.
Eu acabei rindo com o bilhete. Ele não era tão bom na cozinha quanto a minha mãe era, eu que fazia as coisas por ali. Mas com o café da manhã, ele já estava acostumado. Eu cresci com ele fazendo isso para mim, mas a imagem dele tentando fazer alguma coisa diferente era até engraçada.
Peguei uma maçã, lavei e sai dali.
Chegando até a casa de Arielle, ela já estava do lado de fora me esperando. Parecia impaciente, a mãe dela também estava lá. Eu me desculpei e pegamos uma carona com Julia, o que nos deu algum tempo, assim não nos atrasaríamos.
Pelo menos eu achava.
Na escola, a maioria dos alunos já tinha entrado, Ariel correu para o banheiro para retocar o gloss novamente enquanto esperei do lado de fora. Raquel passou por mim com Lucianna e esbarrou, fazendo com que os livros que eu segurava caíssem.
Ela tinha feito de propósito.
Abaixei, encarando-a enquanto ela ria com Lucianna. Eu realmente não entendia porque ela fazia esse tipo de coisa, só podia ser em busca de atenção.
Comecei a pegar os livros até alguém aparecer na minha frente e me ajudar.
— Bom dia, ruivinha!
— Não sabia que gostava de bancar o bom samaritano — disse enquanto levantava.
— Você não sabe muitas coisas sobre mim. Além disso, só estava ajudando alguém que precisa de ajuda. Que m*l tem nisso? — perguntou ele novamente com aquele sorriso provocante no rosto. — E eu disse: Bom dia!
— Bom dia! — respondi.
Ele me entregou os livros e foi em direção à sala de aula. O sinal já tinha tocado e todos os alunos que estavam por ali já tinham entrado. Mais uma vez seriamos as “atrasadinhas” da escola.
Culpa de quem?
Exatamente! Ariel.
Na sala, foi meio estranho, Ariel desviou o olhar quando Drake deu um aceno de cabeça, o que vindo dela era totalmente novo. Geralmente ela ignorava coisas assim e não saia de cabeça baixa. Raquel e Lucianna ainda estavam rindo, provavelmente acharam alguém melhorar para tirar sarro. Luke piscou para mim enquanto eu ia até a minha mesa e tudo o que consegui fazer foi corar e sentir minhas pernas bambear, e, também, me sentir totalmente sem graça. Algumas pessoas estavam nos encarando, mas ele pareceu nem notar, diferente de mim. Era como se ele não tivesse prestando atenção à sua volta e tivesse só um foco.
No final da primeira aula, quando estavam trocando de professores, Drake veio até a nossa mesa.
— Queria pedir desculpas por ontem. Conversei com Andrew e ele realmente agiu como um i****a. Não achei que ele fosse dar em cima de você.
— Diga ao seu amiguinho que se eu o vir de novo eu vou arrancar o coração dele — ameaçou Ariel. — Ele não tinha nada que ter feito aquilo. Se quiser alguém para pegar, vá até um bordel.
Eu a encarei sem graça, algumas pessoas da classe pararam o que estavam fazendo e estavam nos encarando. As pessoas do outro lado da sala pareceram nem escutar.
— Eu sei disso. Ele terminou com a namorada recentemente, está passando por uma fase difícil.
— Não é motivo para tentar agarrar os outros à força.
— Tá bom. Agora, para — adverti. — Não tem problema, sei que você não tem nada a ver com isso. O fato de ele ter terminado com a namorada não o dá o direito de fazer o que quiser com outras pessoas. Mas vamos dar o assunto por encerrado. A classe toda está nos encarando.
Eu sabia que ela estava tentando me ajudar, mas já estava ficando sem graça, quase todo mundo estava nos olhando tentando entender o que acontecia ali. Eu não gostava que chamassem a atenção para mim.
Drake voltou à sua mesa e Arielle começou a rabiscar coisas aleatórias no caderno. Para disfarçar o meu constrangimento, fingi escrever alguma coisa até todos os olhares se voltarem para longe.
Na aula de educação física, o professor Louis tinha faltado, e a professora auxiliar estava dando aula no lugar dele, então as flexões eram livres. Eu estava desanimada para fazer a aula, então fiquei sentada em um dos bancos. Ariel estava na quadra fazendo flexões, ainda chateada comigo por tê-la advertido enquanto ela falava aquelas coisas na sala de aula.
Estava observando os alunos nas flexões quando vi Luke.
Ele saiu do banco que estava sentado, veio até onde eu estava e sentou ao meu lado. Fiquei um pouco nervosa com o movimento repentino, então mantive meu olhar na quadra.
— Dia difícil? — perguntou ele, olhando em direção a Ariel, obviamente ele já tinha percebido que ela estava chateada comigo. Dificilmente nos separávamos.
— Ela está chateada. Mas até a última aula provavelmente volta a falar comigo.
— Ela só estava tentando proteger você. Não é isso que as amigas fazem? — perguntou ele, virei o suficiente para olhá-lo. Ele estava esperando uma resposta.
— É! Eu sei. E eu agradeço por isso. Mas às vezes ela exagera e acaba chamando atenção. Eu fico constrangida e sem graça.
— E eu? — perguntou ele.
Virei o suficiente para olhá-lo novamente, ele estava me encarando, e eu automaticamente me afastei.
— Você o quê?
— Você fica sem graça quando eu te observo?
Eu desviei o olhar dele, estava começando a ficar nervosa. Tinha sido uma pergunta repentina e eu realmente não sabia a resposta. Eu não sabia o que dizer a ele.
— Não precisa responder! Eu já tenho uma resposta.
— Não tire conclusões precipitadas sobre os outros, — falei na defensiva — aquela pergunta foi repentina, é claro que me deixou sem jeito.
Estava prestes a apoiar uma das mãos no banco quando percebi que toquei na dele. Acabei congelando e puxando rapidamente. Meu coração estava acelerado; se ele já tirava conclusões precipitadas antes, o que pensaria sobre aquilo? A essa altura meu rosto já estava completamente vermelho.
— Se quer sair comigo de novo, é só chamar. Eu confesso que tenho um fraco por ruivas.
— O quê? Não! I-Isso foi…foi sem querer. Eu não…eu não estava flertando com você.
— Eu aceito — disse ele
— Aceita o quê?
— Sair com você!
— Eu não te chamei para sair — me defendi.
Que convencido!
— Eu te pego hoje às nove.
— Você não sabe onde eu moro — retruquei.
Ele levantou-se e sorriu, piscando para mim enquanto saía, ele não virou para me responder, mas eu sabia que ele estava com aquele sorriso no rosto.
— Eu descubro!