Eu fiquei parada e atordoada com o celular ainda na mão. Ainda não acreditava que tinha tido a coragem de ligar para Luke e o chamar para sair, só que não queria ficar em casa sozinha, eu queria sair com ele. Não seria uma coisa r**m, pelo menos eu esperava. Não tinha nada de r**m nisso.
Estávamos indo devagar, nos conhecendo melhor a cada dia que passávamos juntos e mesmo com o buraco que ainda havia no meu coração, ele parecia querer abrir espaço para algo novo. Era como se eu tivesse esquecendo a existência desse buraco e passado a me preocupar com algo melhor. Algo que valeria a pena e me faria sentir bem e não algo que me destruía.
Era verdade que eu me sentia quebrada. Mas dependia só de mim se iria me recuperar de uma decepção ou não, porque é a gente que escolhe se uma dor vai nos tornar mais forte ou mais fraco.
Alguns minutos depois ele estacionou na frente de casa, peguei a minha bolsa e fui até ele. Esperava que ele fizesse alguma piada sarcástica sobre algo, mas ele apenas me entregou o capacete.
— Então, vamos para onde?
— Qualquer lugar está bom pra mim.
Saímos daí e ele me levou para outro lugar, eu não sabia aonde queria ir, só sabia que qualquer lugar estava bom, eu queria fazer alguma coisa para me distrair e não importava o que, contando que fosse divertido.
Não conhecia o caminho para o qual ele estava indo, pensando bem, eu não conhecia nenhum dos lugares que ele me levava, e eu gostava disso — de me surpreender — por mais que fosse um lugar simples, no final recompensava muito as lembranças, conseguir me distrair um pouco. Era bem o que eu precisava.
Parando para pensar, eu estava começando a ficar sentimental, não tinha chorado quando recebi a noticia do meu pai, porque no fundo tinha esperança e precisava acreditar que ele estaria bem, eu tentava ser forte para não desabar. Ele era a única pessoa que eu tinha da família, e não podia perdê-lo. Estávamos quase entrando no mês de agosto e esse mês, meio que mexia com os meus sentimentos, uma hora eu queria ficar sozinha e pensar, mas tinha medo, outra hora queria companhia. E nesse momento, eu realmente precisava de companhia.
Luke estava dirigindo para fora do centro da cidade, era um lugarzinho mais afastado, lembrava de ter passado por ali só uma vez em um passeio da escola, era o caminho para uma montanha que tinha ali perto, estava tarde e eu devia voltar logo. Mas queria ir com ele. Não seria um problema afinal.
Chegamos lá uns vinte minutos depois, estava aliviada por ter levado o celular, assim, se alguma coisa acontecesse e meu pai ou Arielle ligasse, eu poderia atender.
Como havia notado, era um lugar afastado, nenhum carro passava por ali e eu não conseguia ver nenhuma casa, estava tentando adivinhar o motivo de ele ter escolhido aquele lugar, não estava em pânico interiormente, então isso só podia significar uma coisa. Eu não estava com medo. Depois de descer da moto, seguimos todo o caminho a pé, até pensei em perguntar sobre o lugar, mas queria me surpreender, então esperei.
Passamos por um caminho bem estreito quando consegui ver melhor o lugar, tinha uma cabana feita de madeira no lado esquerdo, parecia ter sido construída a um bom tempo, do lado direito tinha uma grama que cobria metade do lugar e tinha uma linda vista para a cidade. Como tinha pouca iluminação por ali, as estrelas eram muito mais brilhantes do que na cidade. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
— Nossa! Isso é...
— Lindo! — completou, enquanto colocava a moto perto da cabana — Eu sabia que você iria gostar.
— Espera! Esse lugar... É seu?
— Na verdade é dos meus pais. É mais da minha mãe. Depois que o Joe morreu, meu pai... ele quis destruir esse lugar. Eles fizeram um acordo e minha mãe ficou com o lugar. Assim ele não pode mais tocar aqui.
— Joe era seu irmão?
— É. Costumávamos vir aqui quando ele era vivo. Meus pais sempre brigavam, então muitas vezes passávamos a noite aqui. Adorávamos esse lugar.
— Por que você me trouxe aqui? Deve ser difícil para você...
— Achei que iria preferir um lugar mais quieto, aqui é bem sossegado. É perfeito pra pensar.
Ele tirou uma chave do bolso e abriu a porta da cabana fazendo sinal para que eu entrasse. De primeira, achei que fosse encontrar um lugar abandonado e empoeirado, mas estava incrivelmente limpo. As pessoas preferiam evitar um lugar, quando tinha uma boa memória de lá com uma pessoa e de repente ela desaparecesse, mas ali estava bem cuidado.
A cabana era pequena em compensação ao lado de fora; tinha uma pequena salinha do lado esquerdo e um sofá dividindo a área de entrada com uma porta que dava a algum lugar, atrás desse sofá havia um grande carpete felpudo preto.
— Na outra porta tem uma área com um quarto e banheiro, mas sempre acabávamos dormindo no carpete. — Esclareceu, apontando. — Às vezes o pegávamos e colocávamos ali fora e ficávamos observando as estrelas e a cidade.
Eu gostei do lugar, era confortável e bem sossegado, como ele havia dito era perfeito pra pensar.
Ele entrou na cabana e pegou o carpete.
— Vamos.
Ele voltou para fora e colocou na beirada da grama onde a vista dava direto para a cidade, a iluminação vista de onde estávamos ficava lindo e colorido, as luzes da cidade e a movimentação, tinha exatamente aquele ar de cidades grandes e a vista era perfeita.
Ele sentou no carpete e fez sinal com a cabeça para que eu me sentasse ao lado dele, e foi isso o que eu fiz. A sensação de tranquilidade era ótima e eu não importava se ficasse o resto da noite daquele jeito. Nenhum de nós dizia nada, mas não era preciso, a noite falava por si só.
Deitei no carpete observando as estrelas, lembrava de fazer isso com a minha mãe e meu pai, conhecia a maioria das constelações por causa deles.
— Cruzeiro do sul. — Comentei, apontando para um das constelações no céu, observei que ele também tinha se deitado, deveria ter ficado um pouco envergonhada, mas me sentia bem com a situação em si.
O bom de Luke é que mesmo ele sendo tão imprevisível ele não me fazia sentir desconfortável quando estava perto dele, era o contrário, ele me transmitia tranquilidade, o que era uma tremenda ironia já que ele é bem imprevisível.
— Escorpião. — disse. — Então também conhece as constelações? Cada vez que te conheço mais me surpreendo.
— Não acha que viríamos aqui só ficar conversando, não é? — Indagou, desviei o olhar constrangida.
Eu estava tentando entender o que ele disse, quando compreendi que ele se referia ao irmão dele.
— Então vocês também faziam isso?
— Às vezes. As brigas de nossos pais afetava muito a gente. Mas Joe era uma pessoa incrível, tinha um enorme coração, ele sempre foi melhor que eu. Enquanto ele era calmo e compreensivo eu era explosivo, meus pais brigavam e eu chegava ao meu limite, ia participar de corridas enquanto estava de cabeça quente. Pode parecer loucura, mas isso me acalmava, sempre me acalmou. Eu consigo pensar melhor enquanto estou correndo.
— Imagino que deve ter sido r**m. — Constatei.
Observei quando ele levantou-se, pensativo e não sabia se isso era bom ou r**m, o lugar devia trazer boas lembranças para ele, mas também devia ser doloroso, estava na cara que ele gostava do irmão dele. Obvio que seria sim, perder alguém, nunca é fácil. E nunca seria.
— Só estamos falando sobre mim. — Queixou-se.
Ele estava olhando para a cidade, mas desviou o olhar para me olhar.
Eu sabia que ele não estava colocando pressão, estava deixando claro que eu poderia falar se quisesse, mas ele tinha razão, eu sempre me retraia quando tinha que falar de mim, era difícil. Complicado demais.
— O que você quer saber?
— Qualquer coisa.
— Tipo...
— Você disse que a sua mãe morreu há mais ou menos onze anos, quando ela morreu você estava com 6 anos. Foi um grande choque. Isso pode explicar o seu trauma por hospitais, quero dizer, olhar pra ele e imaginar sua mãe... Vi o quanto você ficou pálida.
Então era isso...
— Foi à primeira noite que ela não foi para casa, eu sempre esperava por ela porque ela lia pra mim à noite. Passou uma tarde inteira e ela não chegou, meu pai pediu que eu ficasse no quarto quando os policiais chegaram para avisar, eu sai correndo quando escutei o nome dela. O incêndio foi a algumas casas dali, na mesma rua, ela devia estar salvando alguém lá. Eu só tinha seis anos, mas sabia que algo estava errado, eu corri até a casa quando vi os bombeiros saindo com um corpo. — Contei — Eu não entendi o que estava acontecendo, mas me sentia triste. Lembro de ter visto meu pai correr até o local, chorando, enquanto os policiais o impediam de passar, e no meio da multidão, aquele cabelo ruivo escorregando, então soube que algo estava errado. Eu corri e tentei alcançá-la, mas fui impedida pelo meu pai e os policiais. Eles tentaram me tirar de lá, mas era tarde. Eu sabia que era ela, ninguém mais por ali tinha o cabelo ruivo como o que ela tinha.
— Então era uma criança esperta, um pouco inconsequente, claro.
— E bastante s*******o. Eu... não me arrependo de ter feito aquilo, mas de alguma forma queria que não tivesse sido a minha última lembrança dela. Mas eu e meu pai conseguimos continuar com a vida, eu sei que deve ter sido difícil para ele me criar sozinho, mas tento recompensá-lo todo dia.
— Ser o orgulho da família. — completou — Depois de certo tempo fica difícil e você só pensa em desistir e ser você mesmo.
— Mas eu gosto de ser assim. Não é como se eu fosse obrigada, faço porque eu quero. Meu pai não exige isso de mim.
— Ele parecesse ser uma pessoa bastante séria.
— Ele nem sempre foi assim. Meu pai era uma pessoa bastante extrovertida ele às vezes até fazia algumas piadas com os meus amigos e ficava assistindo a jogos com o... Caleb. Mas meu pai é uma pessoa incrível.
— Você ainda o ama? Fala nele como se...
— O quê? Não, sem chance. Eu não o amo mais como amava antes, é mais... Decepção. Eu confiava muito nele. Fiquei traumatizada com tudo o que aconteceu. Não acho que chegamos a nos amar como deveria, acho que por causa da nossa amizade, confundimos as coisas. Era amor de amigos, só isso.
— Se ele voltasse, você daria outra chance? — ele mantinha o olhar no meu quando perguntou aquilo, sabia que era mais por curiosidade do que qualquer outra coisa, mas a resposta que eu tinha dado foi muito mais do que sincera.
— Não! Não seria capaz. E você? Daria uma chance a sua ex?
— Obviamente não.
— Por quê? Você a amava! — Falei. Não era uma pergunta.
— Conseguiria confiar de novo no seu namorado se o pegasse dormindo com outra garota?
— Eu... não.
— Exatamente. Eu não confio mais nela. Mesmo se ela quisesse voltar, eu não a amo mais. A situação agora é outra. E mesmo assim, se de alguma forma pudesse perdoá-la a dúvida sempre ficaria na cabeça quando ela saísse. Será que ela está com outro? Deve estar bastante ocupada agora. Eu não sou capaz de viver assim, desconfiando das pessoas, um relacionamento se baseia em confiança. — Ele arqueou uma sobrancelha — E por que você não?
— É diferente. Ele... eu não seria capaz de perdoá-lo, mesmo se quisesse. — Dei de ombros, frustrada — O amor acabou me machucando.
Ele me encarou firmemente deixando claro que não desviaria o olhar do meu.
— Você está errada! O amor não machuca, o que machuca são as pessoas. O amor é a coisa mais linda que existe. É puro, é verdadeiro e motivacional. Ele inspira as pessoas, as faz mudar, construir coisas e se revelar. Mas como nada é perfeito as pessoas usam isso para se machucar, quando tudo o que deveriam fazer é amar, amar como se não houvesse amanhã. Não deixe que um coração quebrado te impeça de fazer as coisas. Corra atrás, e mostre que você é muito mais do que aparenta ser. Você vai perceber o quão longe pode chegar. É você que decide se sua dor vai te tornar mais fraco ou mais forte.
Eu o encarei, surpresa, sem saber o que dizer. Ele tinha razão, o amor era um sentimento puro, sabia disso porque amava Arielle e amava mais ainda meu pai, e amá-los não me machucava, me fortalecia, cada dia mais. Eram as pessoas que usavam isso de forma errada ou exagerada.
Ele voltou a deitar no carpete e fiz o mesmo. Ficamos por ali, desse jeito por vários minutos, até a fome começar a surgir. Eu tinha feito o jantar para o meu pai, mas como ele saiu rápido, não queria ficar e jantar sozinha, então não tinha comido nada.
— Que tal um jantar? — sugeri
— Está me convidando para jantar? Sinto que acabei de ser ultrapassado agora, geralmente é os rapazes que convidam as garotas para jantar. Duas vezes em uma noite só — Ele assobiou surpreso.
— Não se preocupe, eu divido a conta com você. — Brinquei e ele sorriu.
☼
Saímos dali voltando para a cidade, poderíamos ficar e pedir uma pizza, mas depois de jantar teria que voltar para casa, deveria fazer companhia para o meu pai, ele estava bem, mas ainda assim, era solitário ficar só naquela casa.
Luke parou em frente aquele restaurante que ficava perto da praia, nunca tinha ido ali, uma porque não costumava frequentar restaurantes e outra porque nunca tive vontade. Mas iria jantar com o Luke aquela noite, então não via nada demais em fazer isso.
— Espero que restaurantes não esteja incluído na sua lista de lugares que prefere evitar. — Falou enquanto abria a porta para eu passar e eu sorri entendendo o que ele quis dizer.
— Na verdade não. Eles são calmos, está ai um lado bom disso.
Agradeci mentalmente por ali não precisar fazer reserva, o dia estava tranquilo e o movimento por ali estava normal, a atendente nos levou até uma mesa e pediu que aguardássemos até o garçom vir e nos entregar dois cardápios.
— Espero que não seja vegetariana. O cardápio deles não tem muitas opções para pessoas vegetarianas, o que eu acho um absurdo. — Disse Luke.
Abaixei o cardápio o suficiente para olhá-lo, ele sorriu e piscou para mim, tinha quase certeza que eu tinha corado.
Estava prestes a deixar o cardápio sobre a mesa quando ele bateu na taça com água, ela rodopiou e quase caiu, mas consegui segurar ao mesmo tempo em que outra pessoa o fez.
— Continua desastrada.
Eu congelei com a mão na taça, na verdade parecia que todo o meu interior tinha congelado, que meu coração tinha parado de bater e que eu tinha parado de respirar, um calafrio percorreu toda a minha coluna até a nuca por causa do toque dele.
Automaticamente tirei a minha mão da taça e consegui levantar a cabeça, ele estava parado ao meu lado todo uniformizado, estava mais alto, o cabelo estava todo desgrenhado e o sorriso provocativo ainda continuava o mesmo.
— Você ficou mais bonita desde a última vez em que te vi. É bom ver você por aqui, eu senti a sua falta. Acho que qualquer dia desses deveríamos continuar o que começamos há um ano trás. — Provocou Caleb, mantendo o olhar no meu.
Eu estava tão chocada que não sabia o que fazer, uma parte de mim queria correr para um canto e chorar e a outra queria gritar e esfregar na cara dele tudo o que deveria ter feito antes. Mas eu não consegui fazer isso, era orgulhosa demais para chorar na frente dele, para chorar na frente daquelas pessoas e do Luke, que naquele momento estava me encarando confuso.
Mas eu precisava ter forças para sair dali.
Peguei a taça que estava em cima da mesa e joguei o conteúdo na cara dele, as pessoas começaram a me encarar e eu simplesmente sai correndo dali. Eu não aguentaria ficar ali nem mais um minuto, não aguentaria olhar para o rosto dele de novo. O que ele estava fazendo ali? Por que ele estava trabalhando ali? Ele não tinha ido embora? Ele não estava em outra cidade? Por que voltou?
Eu achava que todo o pesadelo tinha acabado, mas na verdade ele estava só começando.
Por que ainda doía tanto? Por que algo que acontece quase um ano atrás ainda me afetava?
Corri para fora do restaurante. Eu queria chorar, mas não podia fazer isso na frente do Luke, eu não... não conseguiria. Atravessei a rua correndo sem olhar para trás e um carro freou bruscamente buzinando e dizendo alguma coisa, eu corri até a praia. Eu queria ficar sozinha, eu não conseguia aceitar que Caleb tinha simplesmente voltado.
Não podia ser verdade.
— V, espera! — Gritou Luke me puxando
Eu já tinha atravessado a rua e corria pela areia da praia, ele me abraçou por trás e eu simplesmente desabei na areia, não conseguiria olhá-lo, não suportaria.
— Espera!
— Eu... eu.. — Comecei a soluçar.
Não conseguia formar nenhuma frase inteligível porque simplesmente não saia, parecia que elas estavam entaladas na minha garganta. Ele continuou me segurando, mas de uma forma delicada, sabia que eu não sairia dali, não tinha forças. Ele estava me confortando e não queria que parasse.
— Você pode chorar. Eu não vou rir de você ou fazer alguma piada i****a, pode confiar em mim. — Falou todo afetivo.
— Eu não... eu não quero chorar na sua frente. Eu não... posso.
Ele me soltou e levantou-se ficando ao meu lado, eu o encarei de soslaio com medo de que, se olhasse nos olhos dele, as lagrimas começassem a cair.
— Você pode gritar. É fácil, ajuda a aliviar a dor.
Eu não olhei para ele, mas sabia que estava me ajudando, a dor parecia querer esmagar meu coração, eu não conseguia suportar pensar em tudo que incluía Caleb, eu realmente queria gritar, eu queria, tanto que até comecei chorar.
E foi exatamente o que eu fiz.
Chorei, liberando toda dor dentro de mim.
Parecia que aquele buraco n***o estava me arrastando de volta, como havia dito antes, sempre que achava que pudesse continuar, alguma coisa me derrubava, eu queria mesmo gritar, chorar e desabar. Eu fui a única pessoa que sofreu aquele ano, Caleb parecia bem, muito bem na verdade. Eu era a única i****a que viveu pensando nas mágoas, eu é que tinha sido a ingênua da história e ele simplesmente conseguiu seguir em frente. O problema era que o assunto ainda não estava resolvido e no fundo era isso o que ainda me machucava.
Luke sentou-se ao meu lado me abraçando, eu escondi meu rosto na jaqueta dele, eu era orgulhosa e me fazia de forte porque não queria que as pessoas me vissem chorar, mas Luke viu esse meu lado, e eu não estava tão incomodada como esperava estar.
Para ser sincera, estava aliviada.
Durante todo o ano, eu guardei a dor pra mim. Meu pai, Arielle, a mãe dela e até as pessoas deviam ter notado, mas eu nunca consegui conversar diretamente sobre isso com outra pessoa que não fosse Arielle, nunca consegui seguir em frente, ou simplesmente despejar todo o peso e a dor, mas agora, tudo pareceu muito simples. Eu estava tentando ser forte e não chorar por causa dele, mas agora que o fiz, era como se tivesse tirado toda essa bagagem de cima de mim. E talvez tivesse doido mais para mim do que para ele, porque ele foi meu primeiro amor. Meu melhor amigo e a pessoa que eu mais confiava, e tudo isso veio acompanhado com um punhal nas costas.
— Eu não acredito que ele voltou. Eu não sei por que ele está aqui.
Luke passou a mão pelo meu cabelo e virou meu rosto de frente para o dele, ele limpou minhas lágrimas com o polegar, ainda sem dizer nada. Eu sabia que devia uma explicação a ele, mas não conseguia, não conseguiria falar nada naquele momento.
E ele sabia. Então ele simplesmente me confortou.
E naquele momento, ele não soube o quanto tinha ficado grata por ele ter me acolhido. Por ter me oferecido seu ombro e não me censurado ou tentado forçar que eu dissesse alguma coisa.
Ele apenas me apoiou.
Ficamos sentados daquele jeito por um tempo até meu celular tocar, era o meu pai. Ele já devia ter chegado em casa. Ao invés de atender, mandei uma mensagem dizendo que estava bem e que já estava voltando.
Levantei batendo a mão na roupa e tirando toda a areia que tinha grudado no vestido, eu esperava estar com raiva. Mas realmente estava bem, tirando somente o fato de ele ter voltado, porque isso ainda me deixava confusa.
— Eu esperava estar frustrada com isso. Mas eu realmente me sinto bem. Obrigada por... por me confortar. — Agradeci — Eu não... — Gaguejei — Eu não esperava encontrá-lo ali.
Ele ainda estava segurando a minha mão, pensei que começaria a tremer e ficar nervosa, mas estava bem com isso, era confortável e sempre me transmitia paz.
Luke colocou a mão no meu rosto acariciando lentamente e se aproximou, ele tinha parado a centímetros de mim, ainda me observando e eu sabia o que o gesto significava, ele estava esperando um consentimento meu, se devia ou não continuar, mas naquele momento eu não era contra. Meu coração estava acelerado e minha respiração entrecortada, eu estava esperando por ele.
Eu queria isso.
Muito.
Ele aproximou o rosto do meu lentamente, mantendo os olhos no meu, era como se fosse um pedido de consentimento, como se ele quisesse, mas sentisse que fosse errado por causa do momento, mas não era. Eu só estava abalada por vê-lo ali — Caleb —, mas naquele momento, eu queria, queria aquilo que ele estava me oferecendo e sentia que ele queria tanto quanto eu.
Pelo menos assim eu pensava, antes de ele afastar o rosto do meu, mas continuar parado ali, com as mãos em cada lado do meu rosto e a testa encostada na minha.
— Não... — soou contrariado — Não posso! Não nesse momento. d***a, eu quero, quero muito, mas não é certo.
— Luke, tudo bem! — Falei, sem desviar os olhos do dele. — Eu quero.
Ele não piscou enquanto olhava pra mim, mas sua respiração estava irregular, e parecia que ele travava uma batalha interior, eu queria aquilo tanto quanto ele, e sabia o motivo de ele estar se contendo. Ele se sentiria culpado por causa da situação, eu estivera chorando há poucos minutos por causa de um ex-namorado, e, naquele momento estávamos um nos braços do outro quase nos beijando. Ele sentia que era errado.
— Não quero fazer as coisas dessa forma.
— Fazer o que? — Perguntei, tentando desviar a atenção dos lábios dele que me convidavam, mas ao parar no olhar dele me senti mais atraída ainda.
O olhar dele é intimidante, me hipnotiza de uma forma que me faz querer ficar olhando pra ele sempre assim, ou nesse caso, faz com que eu queira ser observada por eles sempre.
— V... Verônica... Eu... — Balançou a cabeça tentando clarear as ideias — Quando estou perto de você me sinto confuso, quando estou correndo é seu rosto que tenho vontade de ver na linha de chegada. Penso nesse seu sorriso que me enlouquece, nesse cabelo de fogo que tira o foco de todo o resto do mundo, nessas sardas no seu rosto que te deixa tão fofa. É sério, — riu, nervoso — Não consigo dormir, você não sai da minha cabeça, e até que eu descubra o que tudo isso significa quero estar ao seu lado. Independente de como for.
— Luke...
— Eu não sei se é o momento certo, mas... Eu gosto de você e não quero que isso acabe. Eu estou pronto para tentar, só não sei você. Eu sei que passou por um relacionamento difícil, sei que é algo repentino de se dizer, mas eu quero arriscar. Quero ser a pessoa que vai fazer você esquecê-lo. Quero ser a pessoa que vai estar ao seu lado se você cair, que vai estar lá para te levantar. Ruiva, eu não quero ser só o seu amigo, mas estou disposto a aceitar isso enquanto nos conhecemos, até que esteja pronta pra mim. E não vou forçar a barra, eu quero continuar te conhecendo, mais e mais. Claro, se for o que você quer.
Eu fiquei sem palavras, não só porque o que ele disse foi repentino, mas também porque realmente não esperava que ele dissesse algo assim, ainda mais pra mim. Éramos exatamente o oposto um do outro, ele gostava da adrenalina e de se arriscar enquanto eu preferia estar em casa lendo. Mas por mais que fossemos diferentes, de alguma forma nos completávamos. Eu entendia a dor dele, tinha passado por isso, e mesmo que ele não soubesse a intensidade da minha dor, eu tinha certeza que ele também entendia.
Éramos assim, diferentes e ao mesmo tempo iguais.
— Não sei como eu me sinto sobre tudo isso. É muito confuso pra mim também, Luke. Passei por algo difícil no passado que me deixou traumatizada, que me faz ficar com um pé atrás. Mas eu gostaria de saber mais de você, de te conhecer melhor e deixar levar, ver onde isso pode nos levar — sugeri — Eu... Eu gostaria de tentar. Quero fazer isso dar certo. — Consegui dizer.
E, então, ele abriu um sorriso que registrei como “enlouquecedor”, porque me fazia perder os sentidos quando ele sorria daquela forma pra mim.