Larissa Narrando
Chegamos e já vejo os meninos, meus amores. Com certeza tão me esperando pra eu não entrar sozinha. O carro parou.
Loba: Prontas, meninas?
Elas balançam a cabeça e saímos do carro. Todo mundo ficou olhando. Guilherme e Luan ficaram encarando as duas, e elas colaram do meu lado, todas sem jeito.
Guilherme: Tu tava onde, mano? O tio tá atrás de ti.
Rafael: Tava onde, Larissa Fernanda? — Falou no meu ouvido.
Quando ele me chama assim é porque tá puto.
Luan: Tá ficando doida, é? Assim é sua, pirralha?
Victor: Mane, tu tava onde?
Loba: Oi pra vocês também. Tá vendo que eu tô acompanhada, bando de m*l-educado? Meninos, essas são a Beatriz e a Ana, moradoras novas.
Luan: Prazer, sou o Luan.
Ele fala pegando na mão da Ana. Ela responde um “oi” todo tímido. E eu vi o jeitinho dele olhando pra ela de lado… conheço esse olhar.
Guilherme: Prazer, Guilherme.
Ele pega na mão da Beatriz. Ela dá um sorrisinho. Os outros se apresentam e elas falam “oi”.
Loba: Bora, meninas.
Pego na mão das duas e entramos. Os meninos vêm atrás. Assim que a gente pisa no baile, o pessoal abre caminho. Palmas começam. O DJ avisa que a princesa do morro chegou.
Eu amo isso. Sim. Mas às vezes dá uma vergonha absurda.
Subimos pro camarote e já vejo meu pai sentado, com aquela cara fechada de sempre. Passo por ele, pego um copão. As meninas também. Ficamos curtindo de boa, até Guilherme e Luan chegarem e sentarem perto.
Guilherme: Quem são as gatinhas aí, parceira?
Loba: Moradoras novas, eu não falei? Chegaram hoje.
Luan: A Ana é uma fofa.
Loba: Nem vai pra cima da menina se for pra usar e depois fingir que ela não existe. Pelo que eu vi, as duas já sofreram pra c*****o na vida.
Luan: Tá achando que eu sou tão canalha assim, Loba?
Loba: Sim, Luan. Tu é canalha pra c*****o. Então deixa as meninas de boa.
Guilherme: Tu é chata, mane.
Loba: Chata nada. Elas são de boa. Eu não quero ver elas m*l. Vocês iam gostar se fosse comigo?
Eles balançam a cabeça negando.
O camarote tava todo decorado com o tema que eu pedi. O bolo tinha acabado de chegar. Eu já tava no terceiro copão, as meninas ainda no primeiro. Chamei elas pra dançar. Elas só riam e diziam que não.
Meu pai não parava de me olhar.
Comecei a dançar. Eu sempre gostei, e todo mundo sabe. Ninguém liga.
Rafael: O tio tá te chamando.
Loba: Não quero ir, Rafael.
Ele me olha sério.
Rafael: Vai logo, mane. Tu sabe como ele é.
Concordo. Aviso as meninas que já volto — Desço e vou até a salinha do baile. Entro.
Barão: Vai ficar assim até quando, Larissa?
Loba: O senhor brigou comigo porque eu ajudei duas pessoas.
Barão: Antes de fazer isso, tu tem que me perguntar se pode ou não.
Loba: Mas eu queria ajudar, pai. O senhor viu como elas são.
Barão: Tu não pode ajudar quem m*l conhece. Como vai ser dona do morro desse jeito? Não posso deixar meu morro nas tuas mãos assim.
Subiu um ódio. Ele ajuda todo mundo quando quer. Eu não posso?
Loba: Quantas vezes eu já ajudei alguém aqui dentro? Nunca errei, nunca.
Barão: Abaixa o tom. Tu pensa que tá falando com quem?
Eu me viro e fico em silêncio.
Barão: Se continuar com isso de ajudar os outros, eu não passo o morro pra ti.
Viro pra ele.
Loba: Então eu não quero mais. Porque eu não vou poder ajudar ninguém? Não vou poder fazer do meu jeito? Sempre fiz tudo como o senhor ensinou. Sempre fui a pessoa certa pra assumir isso aqui. Só porque ajudei alguém eu tô errada? Então não quero mais, Barão. Posso pelo menos curtir meu aniversário?
Ele me encara.
Barão: Tu vai assumir essa p***a, sim. Vou deixar essa passar. Mas na próxima eu coloco o morro na mão de qualquer um. As meninas podem ficar. Mas vou tirar o resto do teu dinheiro. Pode ir.
Saio batendo a porta. Era alívio e ódio misturado.
Abro a bolsa, pego um baseado e vou pra trás do baile. Fico ali, vendo a paisagem do morro e fumando.
Ouço passos. Me viro.
Um menino alto, branquinho, cabelo na régua. Blusa branca, calça preta, tênis branco, corrente no pescoço, relógio brilhando. Cara de asfalto. E essa boca…
Saio do transe.
Loba: Quem é tu?
Falo com a voz alterada.
X : Foi m*l. Só vim pegar um ar. Lá dentro tá muito barulhento.
Claro que tá, é um baile, né.
Loba: Lá é sufocante às vezes. Primeira vez por aqui?
Nunca vi ele. Eu tô aqui todo fim de semana.
X : Primeira vez. Nunca vim pra esse tipo de festa.
Filhinho de papai. Mas lindo demais. E essa boca… Meu Deus.
Loba: Quer?
Ofereço o baseado.
X : Não, valeu. Não uso isso.
Playboy certinho. Reviro os olhos. Termino e me viro pra sair.
Loba: Curte a vista aí, playboy.
Ele sorri. Que sorriso…
Volto pra entrada e dou de cara com Luan.
Luan: Tava onde?
Ele começa a me cheirar.
Luan: Tava usando droga, Larissa?
Meu pai sempre disse pra eu nunca usar isso. Mas ajuda a aliviar. Eles não sabem. Se souberem, eu tô ferrada.
Loba: Eu tava dando uma volta. Já tô aqui. Vamos entrar, meu amorzinho.
Puxo ele pelo braço. Assunto encerrado.
Mas amanhã vai ser interrogatório dos quatro, certeza.
Subo pro camarote. As meninas tão mais soltas na grade.
Loba: Desculpa a demora, gatinhas.
Elas sorriem.
Olho pra baixo.
Vejo o playboy chegando perto de duas meninas e um cara. Uma delas abraça ele.
Sobe um ódio.
Ciúme? Dele?
Que p***a é essa, Loba?
Começo a dançar pra distrair, mas não adianta. Saio da grade e sento emburrada.
Hora de subir no palco.
Descemos por trás. Eu tava nervosa.
Barão: Tá nervosa, filha?
Concordo. Ele me puxa pra um abraço. O DJ para a música. Os meninos tão com a gente, como sempre estiveram em todos os momentos da minha vida.
Subimos no palco. O DJ passa o microfone pro meu pai.
Barão: Fala, minha comunidade!
A galera grita. Eu olho pra onde o playboy tá. Ele parece assustado. A menina ainda agarrada nele.
Fecho a mão. Respiro.
Guilherme: Ei, princesa. Qual foi?
Nego com a cabeça.
Barão: Hoje minha primogênita faz 18 anos!
Palmas. Gritos. “Parabéns!”
Barão: Hoje começa um novo capítulo. Com todo cuidado que tive por anos, hoje eu passo a coroa pra minha filha. Loba é a nova Dona do morro da Rocinha.
Fogos. Tiros pro alto. Gritos.
Ele me abraça. Os meninos também. Me entrega o microfone.
Sem volta agora.
Respiro.
Loba: Fala, minha comunidade. É com muito prazer que me apresento como a nova Dona do morro da Rocinha. E agora… vamos curtir o baile. Solta o som, DJ!
Guilherme me abraça e beija meu rosto. Voltamos pro camarote.
Beatriz: Parabéns, Lari
Ana: Parabéns, Lari. Felicidades pra nova Dona disso tudo.
Elas já tão meio bêbadas com três copões. Claramente não bebem muito.
Meu pai sai do camarote.
Olho pra baixo.
Victor tá conversando com um menino.
O mesmo que tá com playboy.
Meu estômago vira.
Não pode ser.
Sento.
E começo a beber.