Jacob correu como um homem que já tinha aceitado o pior.
Não havia Clara nos boxes.
Não havia mensagem no telefone.
Não havia mais nada para proteger.
A equipe percebeu no instante em que ele entrou no carro.
— Jacob, hoje é corrida de pontos. Nada de riscos desnecessários. — o engenheiro avisou no rádio.
Ele não respondeu.
Quando as luzes se apagaram, Jacob acelerou com violência. Cada curva era feita no limite absoluto. O carro derrapava, os pneus gritavam no asfalto.
O público vibrava.
A equipe entrava em pânico.
— Você está forçando demais!
— Segura esse ritmo!
— Cala a boca. — Jacob respondeu, seco. — Eu sei o que estou fazendo.
Mentira.
Ele não queria ganhar.
Queria sentir alguma coisa.
Sebastian percebeu rápido.
Emparelhou na reta, sorrindo dentro do capacete.
— Ela foi embora mesmo? — provocou no rádio. — Uma pena. Você fica previsível quando está sozinho.
Jacob acelerou ainda mais.
Na curva seguinte, ignorou o aviso da equipe e mergulhou por dentro. Foi por centímetros que não houve um acidente grave.
Na arquibancada, Clara assistia tudo pela transmissão no celular, sentada no quarto escuro do hotel, mala aberta no chão.
Cada manobra fazia seu coração falhar.
— Para… — ela sussurrou. — Por favor…
Na última volta, Jacob ultrapassou Sebastian com uma manobra absurda. Arriscada. Perigosa.
Ganhou a corrida.
Mas saiu do carro com o rosto fechado, sem comemorar.
As manchetes foram imediatas:
“Jacob Rivera vence corrida histórica em atuação suicida.”
“Equipe preocupada com estado psicológico do piloto.”
E então, a pior delas:
“Sebastian Wolfe é visto com Clara Monteiro horas após a corrida.”
Clara viu a foto e sentiu o chão desaparecer.
Ela lembrava perfeitamente daquele momento.
Sebastian havia aparecido “por acaso” no saguão do hotel quando ela saía para respirar. Ele havia falado baixo, calculado.
— Você parece um alvo fácil hoje.
— Tira essa foto agora. — ela havia dito quando percebeu o celular dele erguido. — Ou eu grito.
— Já foi. — ele respondeu, tranquilo. — E agora… o estrago está feito.
A internet explodiu.
Jacob viu a foto no vestiário.
Não ouviu o que o chefe da equipe dizia.
Não sentiu quando alguém tentou segurar seu braço.
Saiu andando.
Foi atrás de Sebastian.
Encontrou-o no estacionamento.
— Você ultrapassou o limite. — Jacob disse, a voz baixa e perigosa.
Sebastian sorriu.
— Eu avisei que você perderia tudo.
Jacob o empurrou contra o carro.
— Você está usando ela.
— Ela se deixou usar. — provocou. — Porque no fundo… ela escolheu fugir de você.
Foi preciso três seguranças para impedir Jacob de fazer algo irreversível.
A punição veio rápido.
Investigação oficial. Multa. Suspensão provisória.
A equipe se afastou.
Os patrocinadores congelaram contratos.
Jacob ficou sozinho.
Clara fez as malas naquela noite.
Mas antes de sair, recebeu um e-mail anônimo.
“Você foi manipulada. Veja os anexos.”
Havia mensagens.
Prints.
Conversas entre Sebastian e um assessor de mídia.
Planos. Fotos armadas. Provocações calculadas. A proposta da universidade… intermediada por patrocinadores ligados a Sebastian.
Clara sentou na cama, o ar faltando.
— Meu Deus… — sussurrou.
Ela lembrou do olhar de Jacob.
Da forma como ele havia implorado, mesmo sem pedir.
Pegou o celular.
Ligou.
Caixa postal.
Ligou de novo.
Nada.
A última manchete da noite apareceu na tela:
“Jacob Rivera pode abandonar a temporada após suspensão.”
Clara sentiu o pânico tomar conta.
Ela correu.
Chegou ao autódromo tarde demais.
O carro de Jacob estava sendo retirado do box.
A garagem vazia.
Encontrou Lucas do lado de fora.
— Onde ele está? — perguntou, desesperada.
— Sumiu. — o irmão respondeu. — Disse que precisava ficar longe de tudo antes que fizesse besteira.
Clara sentiu o peito apertar.
— Eu fiz a escolha errada. — chorou. — E agora posso ter perdido ele pra sempre.
Naquela noite, Jacob dirigia sem destino pela estrada, longe das câmeras, longe do barulho.
Pensava em desistir de tudo.
Foi quando o telefone vibrou.
Mensagem desconhecida:
“Você merece a verdade. Clara também.”
O jogo ainda não tinha acabado.
Mas pela primeira vez…
a virada começava a se formar no silêncio.