>> Pablo Kaue - PK >>
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— Ninguém sabe fazer uma comida decente nesse lugar? — Pergunto com uma careta ao mesmo tempo que derramo o arroz com uma vibe de “unidos venceremos” que estava na minha colher de volta ao prato — Ou será que eles pensam que somos animais? Namoral, vey! Tá tudo uma merda.
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— Cara, namoral. Por que você não senta em outra mesa? Para se enturmar, encher o caso de outro… qualquer coisa, sabe? — Rafael - meu colega de cela - perguntou enquanto apontava para alguma das outras mesas ao nosso redor. Não me dei o trabalho de olhar para onde ele estava apontando. Mó preguiça.
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— To bem aqui… mas, é sério, quem contratou essa droga de cozinheiro só podia tá fumando uns beck — Resmunguei outra vez e o mesmo respirou fundo como se estivesse pedindo aos céus um pouco de paciência.
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— É feito pelos detentos, pô! Revezamos em grupo quem fica na cozinha durante a semana — Ele informou, fazendo com que eu olhasse para o arroz com carne moída no meu prato.
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— Isso explica muita coisa… — Comentei enquanto mexia no arroz empapado com molho de carne em cima. Tava pior que a papinha que a Maya fazia para as meninas quando saíram do peito. Só Deus sabe o quanto eu tô com saudades da comida daquela talarica pequena…
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Rafael negou com a cabeça rindo e eu respirei fundo enquanto percorria o meu olhar por todo o lugar, uma presença impossível de não ser notada entrou no refeitório, junto com outros quatro detentos que eu já havia notado que andava sempre na sua cola. Era como se ele fosse o rei e os outros seu harém.
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— Quem é a celebridade? — Perguntei com sarcasmo enquanto apontava com o queixo para o delinquente. Rafael - assim como todos - já estava olhando para ele.
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— Braga e sua gangue. Os cara praticamente comanda a cadeia. Se você precisar de droga, celular, comida ou qualquer coisa do lado de fora, é com ele que você tem que falar. Pelo preço certo, ele traz até a sua mãe pra cá pra dentro — Respondeu como se não fosse nada demais e colocou uma colher transbordando de arroz na boca. Olha só, o cara tem senso de humor… — Mas você não vai querer se meter com essa gente.
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— Você não me conhece...— Disse enquanto olhava para o homem de quase dois metros de altura e muito mais largo do que eu do outro lado do refeitório.
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— Só não me meta nos teus problemas e nem me arrume confusão com a Donovan. — Ele disse, apontando para mim como se estivesse me dando um aviso e eu franzi a testa ao olhar para ele. O medo que esse cara sente pela morena tá em outro patamar.
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— Um assassino que tem medo de uma mulher engravatada… sabia que eu nunca tinha visto um assim antes? — Zombei da cara dele rindo e ele apenas me mostrou o dedo do meio.
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— Brinque o quanto quiser, mas eu não quero está perto quando esses cara quebrar essa sua cara feia e a Donovan te jogar na solitária até você terminar de apodrecer — resmungou e eu olhei para ele com a minha melhor cara de ofendido.
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— Terminar de apodrecer? Assim você me ofende! — Impliquei, fazendo o mesmo revirar os olhos.
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— Só posso ter jogado pedra na cruz… te conta viu — ignorei o seu comentário indesejado.
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— Mas diz aí… quem você matou? — Perguntei como quem não queria nada, colocando o prato de comida que estava na minha frente para o lado.
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— É coisa minha, cara! Para de ser abusado! — Respondeu sem paciência — Você também foi acusado de homicídio e nem por isso eu fico perguntando o dia todo quem você matou.
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Olhei para ele por alguns segundos e senti a minha garganta se fechar ao mesmo tempo em que cerrava a mandíbula. Abrir um sorriso de escárnio enquanto olhava para ele.
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— Me fala quem você matou e eu te dou uma lista de todos os nomes que eu carrego nas costas. Na ordem alfabética se preferir. — Falei como se não desse a mínima para o que ele falou, como se isso não me assombrasse, todos dias, quando eu ponho a minha cabeça no travesseiro ou como se eu também não tivesse morrido naquele dia.
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— Eu já sei quem você matou. Não ligo. Mas se isso chegar no ouvido de certos caras… aí sim você vai está no fundo do poço — Ele sussurrou a segunda parte enquanto se inclinava em minha direção. Eu já estou lá há muito tempo…
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— Não se importa? — Arqueei uma das minhas sobrancelhas surpreso e ele respirou fundo.
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— Eu já disse, só quero cumprir minha pena e meter o pé. Não to aqui para ficar julgando crime alheio — Falou como se não desse a mínima e eu assenti um pouco com a cabeça. Não sei se agradeço ou se me preocupo com o fato dele não dar a mínima.
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— Tô ligado…
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{...}
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>> Emily G. Donovan >>
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Nunca fui pessoa aberta para falar sobre sentimentos. Eu tinha isso dentro de mim. Tinha esse costume de guardar tudo até que evaporasse por si só e dizia para as pessoas que estava tudo bem como se esperasse que de fato as coisas ficassem. Mas não com a Pam, ela era a única pessoa a qual eu sempre contei tudo.
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— Tá tudo bem entre você e o Nathaniel? — Ela perguntou assim que chegamos na área que tinha fora da minha sala, onde ficava a mesa dela e alguns banquinhos de espera. Era incrível a forma que ela me olhava e já fazia um raio-x completo para saber se eu estava bem ou não.
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— A única coisa que está bem entre nós é o sexo. Desde que aceitei esse cargo todas as nossas conversas terminam em discussão sobre detentos ou no perigo que eu tô correndo todos os dias vindo para cá — Desabafei em um tom exausto e apoiei o meu quadril em sua mesa, sorrir cansada ao encarar a parede num tom de marrom claro — Às vezes me pergunto se fiz a coisa certa em aceitar o cargo… Sei que ele está preocupado, mas custa muito ao menos fingir que apoia a minha decisão? Fingir que acredita na minha capacidade?
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— Uma coisa é está preocupado… outra coisa completamente diferente é ser um escroto que quer mandar na sua decisão e na sua vida — Ela diz enquanto se apoia na mesa ao meu lado e eu dou risada negando com a cabeça suavemente — Já pensou na possibilidade dele está com ciúmes de você ficar a maior parte do tempo rodeada de homens?
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— Ciúmes de um bando de criminosos? — Perguntei com a sobrancelha erguida, como se isso fosse algo surreal, por que – de fato – era.
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— Bom, alguns não passam de traficante e outros nem são feios… — Ela fala como se não fosse nada demais e eu dou risada negando com a cabeça.
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— Não existe isso de "só traficante", continua sendo bandido. Mesmo se tivesse alguma possibilidade de eu trocar o Nathaniel por alguém, um desses detentos está longe de ser considerado um pretendente — Falei o óbvio, encarando a mesma até que a minha atenção foi tomada pelo Roberjan.
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— O novo detendo pediu para vê-la — Ele avisou, fazendo com que eu franzisse a testa.
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— De novo? — Perguntei e ele assentiu com a cabeça — O que ele quer?
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— Disse que era assunto de vida ou morte, coisa séria, e que só poderia tratar com a senhora — Seu tom era sério e eu respirei fundo, olhando para ele e desviando o meu olhar para Pam por um segundo, ela estava com a boca em uma linha reta e uma expressão duvidosa.
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— Mande-o trazer então… — Me dei por vencida e caminhei em direção a minha casa. Prometi que não tiraria os direitos humanos de ninguém e que trataria os detentos de forma justa. Mas estou começando a me arrepender disso.
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Me sentei na minha cadeira e recolhi alguns documentos importantes que estavam em cima da minha mesa e guardei eles na gaveta. Demorou cerca de quinze minutos para que Roberjan trouxesse o tatuado até a minha sala e me deixasse sozinha com ele.
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— Essa é a segunda vez que você vem à minha sala afirmando ter um assunto importante… — eu disse séria enquanto cruzava as pernas a minha frente e encarava o mesmo — Sabe o que vai acontecer se você continuar brincando com a minha boa vontade? Eu não vou mais permitir a sua presença na minha sala.
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— E como sabe que o que eu tenho para falar não é nada sério? — Ele perguntou com uma das suas sobrancelhas erguidas e se sentando na cadeira à minha frente, eu sou dou risada pela narina.
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— Fiquei sabendo que você ficou meia hora reclamando da cama ser muito dura para um dos carcereiros e da última vez que esteve aqui, reclamou do arroz estar "empapado" demais, do feijão que não era dos melhores e de ter pouco tempo ao ar livre. Se você realmente tiver algo sério para falar, acredite, eu ficarei feliz em te ouvir. — Disse cada palavra enquanto encarava seus olhos azuis esverdeado ou verde azulado, sinto que nunca saberei ao certo qual o seu tom.
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— Tem razão, eu não tenho nada sério para falar. Mas eu tenho uma pergunta… — Ele confessou e olhou para mim como se esperasse a minha permissão. Eu mexi umas das minhas, lhe dando permissão para falar — Por que uma mulher bonita como você escolheu passar a maior parte dos seus dias tomando conta de um monte de marmanjo?
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— Isso não é da sua conta — Respondi seca e até um pouco grosseira. Fazendo com que o folgado respirasse fundo, parecendo cansado e negasse com a cabeça — Nem isso e nem nada que se refira a minha vida pessoal.
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— Você deveria arranjar um namorado, sabia? Esse teu mau humor chega a ser preocupante. Se você quiser eu…
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— Preocupante é você achar que tem moral o suficiente para vim aqui e me dar conselhos sobre a minha vida amorosa — Interrompi o mesmo que reprimiu os lábios.
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— Ei, calma aí! Eu só estou tentando criar uma amizade legal aqui… — Falou como se estivesse tentando acalmar um pinscher e eu reviro os olhos.
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— Não estou aqui para ser sua amiga, estou aqui para fazer o meu trabalho. Tem inúmeros detentos nesse presídio, por que você não vai fazer amizade com um deles? — Encarei seus olhos e senti a minha garganta se fechar quando os olhos desceram para a minha boca.
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— Por que nenhum deles me deixa tão e******o quanto você ... — Voltou o seu olhar para o meu e eu soltei um riso incrédulo. É muita cara de p*u…
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— Sabe o que eu acho sobre você? — Perguntei com a sobrancelha erguida. Não esperei que ele respondesse — Que você está passando dos limites, Pablo! Da próxima vez que você me faltar com o respeito eu lhe darei uma advertência… e acho que não preciso lhe dizer com quantas você vai para na solitária. Não é?
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— Elogiar agora é falta de respeito e eu não tô sabendo? — Retrucou.
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— Eu avisei para você que tudo o que você dissesse aqui dentro ia lhe trazer uma consequência. Eu não sou a sua colega de cela e nem uma detenta. Não preciso de seus "elogios". Exijo que você me respeite ou eu farei você me respeitar, fui clara? — Meu tom era sério e eu não me dei ao trabalho de tentar não parecer grossa. Eu tenho que impor limites, porque sei que quanto mais corda eu der, pior vai ser quando eu puxar — Você já sabe onde fica a porta…
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Ele continuou me olhando com indignação, como se não estivesse acreditando. Eu confesso que uma pontada de medo de qual seria a sua próxima reação me atingiu, mas eu apenas respirei fundo, fazendo o possível para não desviar o olhar porque sabia que isso poderia significar fraqueza.
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— Ótimo, Hitler 2.0 — Ele murmurou e eu respirei fundo, pegando o bloco de notas e começando a escrever nele — tá escrevendo o que aí?
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— Sua advertência!
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— Mas eu nem fiz nada, vey! — Protestou e eu dei risada com descrença, olhando para o mesmo.
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— Vai ter muito tempo para descobrir o que você fez na sua cela… agora, você vai sair por boa vontade ou eu vou ter que chamar o guarda para te tirar? — Perguntei para o mesmo que apenas me olhava sério, apontei para a porta. Ele se levantou e olhou para mim por mais alguns segundos e com todo o seu sarcasmo e cara de p*u. Acenou para mim antes de começar a caminhar em direção a porta.
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Soltei um ar nasal de descrença quando ouvi o mesmo resmungar um "megera do cão" antes de passar pela porta e sair da minha sala.
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Qual é a desse cara?