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>> Emily G. Donovan >>
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Eu cheguei do presídio exausta. Tudo o que eu queria nesse momento era tomar um banho de banheira por no mínimo meia hora e tomar uma taça de vinho para esquecer todos os meus problemas. Eu estava odiando a sensação de ter sido grossa com alguém, eu odiava quando eles me obrigavam a explodir, mas não me sentia culpada por fazer o que era necessário para fazer bem o meu trabalho. Não quero que esse bando de idiotas que se puseram contra mim estejam certos. Quero mostrar que sou capaz!
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Às vezes eu me sinto insegura e penso em largar tudo. Mesmo que eu tenha passado anos estudando e fazendo das tripas coração para me tornar capacitada para receber essa vaga. Mas é normal uma pessoa se sentir insegura quando todo mundo ao seu redor é contra as suas escolhas, certo? Quando todo mundo ao seu redor está torcendo para a sua derrota. Quando o seu próprio namorado parece querer que você desista daquilo que sonhou e lutou por tantos anos.
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Coloquei a banheira para encher e peguei uma taça de cristal e uma garrafa de vinho que escondia em um dos armários de canto da minha cozinha. Nathan odeia álcool e como namorada dele eu tento respeitar isso ao máximo. Caminhei até o meu quarto, tirei toda a minha roupa e coloquei um som alto o suficiente para que eu pudesse escutar do banheiro, mas não o suficiente para incomodar os vizinhos. Me servi com vinho e deitei na banheira, fechando os olhos para relaxar e pensar em qualquer coisa que não envolvesse celas, presídios, Nathaniel ou…
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“Por que nenhum deles é me deixa tão e******o quanto você...“
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…aquele i****a.
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Respiro fundo e afundo a minha cabeça na água com esperança de afastar todos os meus problemas.
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Quando cheguei no presídio — no dia seguinte — fui direto preparar um café bem forte para mim, bebi demais. Entrei na minha sala e respirei fundo quando vi que a minha mesa estava cheia de relatórios para eu ler. Nada como uma manhã de correria em um dia de ressaca…
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— Preciso da sua aprovação para uma visita para o Pablo Kauê Lima de Azevedo ou, como ele gosta de ser chamado, PK. É uma garota! — Pamela disse enquanto entrava na minha sala como um furacão na mesma hora que eu sentei na minha cadeira. Eu nunca mais vou beber.
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— Se for para visita íntima, negue. Já disse que ele não vai pegar nenhuma mulher aqui dentro até segunda ordem — Falei séria enquanto tirava meus óculos escuros e tomava um gole do meu café.
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— Não é para íntima. Uma garota, se chama Maya de Souza. A tal Arlequina da rocinha — Ela colocou a ficha do pedido em minha mesa e eu respirei fundo. A menina tinha uma ficha tão limpa quanto a minha, mas foi conhecida como Arlequina por ser “fiel” do maior terrorista do tráfico na Rocinha. O coringa.
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— Só permita se for visita supervisionada, não confio nem um pouco nesse homem — Avisei para ela que apenas assentiu com a cabeça — Teve algum resultado com as revistas?
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— Não. Sabemos que é o Braga que está trazendo essas merdas para cá, mas não sabemos como e nem temos provas… — Ela se lamentou e eu respirei fundo enquanto me encostava na cadeira, começando a massagear as minhas têmporas com as pontas dos meus dedos — Vou avisar ao detento sobre a visita. Você vai querer supervisionar ou…
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Apenas assenti com a cabeça e respirei fundo, fechando os olhos, a ressaca estava me matando e esse problema com o Braga estava me deixando sobrecarregada. Eu ainda tinha que ligar para o Nathaniel daqui a pouco por não conseguir atender a sua ligação hoje de manhã e sabia que isso seria mais um motivo para nós dois discutimos. Sinto falta do tempo em que era eu e ele contra o mundo, hoje eu sinto que é ele e o mundo contra mim.
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— Esse trabalho está mexendo com você… — Ela analisa, fazendo com que eu abrisse os olhos e olhasse para ela com um sorriso sem humor — Tem certeza que é isso que você quer?
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— Sinceramente? Sinto como se o meu mundo estivesse a um passo de se deteriorar. É difícil quando não tem ninguém ao seu lado para lhe dar apoio, sabe? — Perguntei para a mesma que respirou fundo e segurou minha mão que estava em cima da mesa.
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— Eles fazem isso por que não aceitam o mulherão da p***a que voce é. Eu te apoio! Dane-se o resto! — Ela disse, me fazendo sorrir e afirmar com a cabeça para dizer que eu havia entendido o que ela falou.
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{...}
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>> Pablo Kauê - PK >>
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— Ta fazendo o que aqui? — Perguntei para a morena de cabelos cacheados à minha frente. A Talarica pequena não tinha mudado nada desde a última vez que eu a vi. Só parecia bem mais abatida pelo que havia acontecido há seis meses. Parece que eu não era o único que estava sendo consumido pela dor.
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— 6 meses sem me ver e é assim que você me recepciona? — Ela pergunta com a sobrancelha erguida e eu dou risada, mordendo os meus lábios com um sorriso alegre pela saudades que eu estava sentindo.
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— Aqui não é lugar para você, mãezinha! — Afirmei sério, me sentando na cadeira que estava na sua frente e encarei a mesma que analisava cada pedacinho do meu rosto como se estivesse procurando alguma coisa, como se não estivesse acreditando que eu estava na frente dela.
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— Você é meu irmão, PK! Qualquer lugar onde eu precise ir para te ver, eu irei! — Ela disse séria, com o seu jeito teimoso de sempre e eu engoli em seco ao mesmo tempo que passava a língua entre os lábios.
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— Como estão as coisas lá? E as meninas? — Perguntei enquanto colocava minhas duas mãos algemadas em cima da mesa. Maya ficou encarando elas como se as algemas estivessem pesando toneladas nas suas costas. Seus olhos estavam começando a lacrimejar — O MC já comprou uma casa para ele e a tampa de binga?
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Ela soltou uma risada abafada enquanto mordia os lábios e desviava o olhar, como se não quisesse olhar para mim enquanto uma lágrima solitária escorre pelas suas bochechas. Ela limpou a lágrima do seu rosto na mesma hora e se forçou a rir. Algo que me quebrou ainda mais. Odeio quando ela finge ser durona.
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— É do mesmo MC que estamos falando? — Ela perguntou me fazendo rir e eu engoli as lágrimas que queria escorrer. Eu estava quebrando. Mas me recuso a chorar na frente dessas filhas da p**a que estão do outro lado da tela de vidro. Maya segurou a minha mão, mas afastou na mesma hora que a sirene que alerta não poder contato físico apitou — Como você está?⠀⠀⠀
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Acho que é a primeira vez que alguém me pergunta isso a meses…
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— O mundo vai parar por mim se eu não estiver bem? — Perguntei com um sorriso tristonho e me escorei na cadeira, fazendo com que a mesma olhasse para mim como se estivesse com pena. Como se eu fosse a p***a de um filhotinho na chuva a beira da estrada — Pare de me olhar assim, talarica pequena. Eu não sou nenhum santo, nós já sabia que uma hora outra eu iria parar aqui.
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Resmunguei para a mesma como se estivesse bravo e ela respirou fundo, deslizando a sua mão na minha direção como se quisesse que eu sentisse que ela estava segurando a minha.
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— Você pode não ser um santo, PK, mas nós dois sabemos que você jamais iria machucar uma mulher. Não é justo você pagar por um crime que também foi vítima. Todos nós perdemos ela naquele dia, então por que você tá aí? — Ela disse enquanto olhava nos meus olhos e eu senti toda a armadura que eu construí nos últimos sete meses querer se desmontar.
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Quase me coloquei de joelhos e agradeci a Deus quando avisaram que a visita tinha acabado. A gente se levantou e tudo o que eu fiz foi resmungar um "Não venha mais me visitar" antes de sair pela porta.
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Eu não suportava saber que a Maya tinha que ficar pelada na frente de desconhecidos e se agachar no espelho para vim aqui. Trataram ela como a p***a de uma criminosa e eu não quero que ela passe por isso de novo. E sabia que o Coringa não tinha sido completamente a favor disso por causa da forma que a sua mulher estava sendo exposta. Ela é a mulher de um dos bandidos mais procurados do Rio de Janeiro, não pode vacilar.
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— Quero falar com a diretora — Falei sério para um dos guardas que olhou para mim na mesma hora e respirou fundo. Pegou o seu radinho e fez uma chamada para o guarda que ficava na porta da Donovan. Não demorou muito para que a diretora, nitidamente a contragosto, mandasse que me levasse até a sua sala.
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Não gosto da forma que os carcereiros me empurram para a sala da diretora todas as vezes que eu peço para ir lá, é como se eu fosse a p***a de um animal. Eu cumprimento a secretaria da Morena assim que passo por ela e a mesma apenas revira os olhos para mim em resposta. m*l educada. A porta da sala é aberta e não demora muito para o filhote de cruz credo praticamente me jogar lá dentro e fechar ela.
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— Sente-se, Pablo! — Me dá um arrepio na espinha todas as vezes que essa mulher fala o meu nome, é como se ela tivesse jogando uma praga. Obedeci a mesma e olhei para a mulher à minha frente. Emily era uma morena bonita para c*****o, não era magra e nem gorda, ficava no meio termo. Seu cabelo cacheado ia, aparentemente, até a metade das suas costas e eram bem cheios. Sua boca era carnuda e suas bochechas um pouco avantajadas — No que eu posso te ajudar?
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— Quero cancelar essa parada de visita… Principalmente se for da mina que veio aqui hoje, não quero mais ela aqui. — Falei firme enquanto encarava seus olhos castanhos escuro. Ela franziu a testa como se não tivesse entendido e respirou fundo, se ajeitando na cadeira e começando a mexer no computador.
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— Algum problema com a visita? — Perguntou enquanto colocava o óculos que a fazia parecer uma atriz pornô e começava a mexer no computador.
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— Para alguém que estava reclamando que eu tava se metendo na sua vida. Você tá querendo saber demais, acha não? — Perguntei com a sobrancelha erguida e a mesma respirou fundo, tentando parecer está calma, mas no fundo eu sabia que seus pés estavam tremendo igual a um pinscher com raiva.
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— quase sete meses sem ver ninguém e agora quer cancelar todas as visitas… eu só achei estranho, não quero me meter na sua vida — Deixou claro.
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— Não gosto de pensar nela sendo revistada, ainda mais pelada — Confessei e ela olhou para mim parecendo um pouco surpresa.
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— A revista é feita por mulheres e nada do que acontece naquela sala é gravado, pode ficar tranquilo em relação a dignidade da sua amiga — Ela tentou justificar e eu olhei para ela com uma cara de: Idai?
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— Mesmo assim, eu não quero, já é? — Falei sério e ela assentiu com a cabeça, digitando algumas coisas a mais no seu teclado. — Quando vão mudar o cozinheiro?
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Ela é pega desprevenida pelo meu comentário e eu acredito que esse foi o único motivo dela ter soltado o riso. Sorriso esse que durou tão pouco que em menos de um segundo ela já estava com a sua expressão carrancuda de novo. Mulher dificil pra p***a, ta doido.
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— Você sabe que a comida é feita pelos detentos, não sabe? A maioria dos seus colegas ficariam bem chateados se soubessem que você fala tão m*l da comida deles… — Ela comentou enquanto continuava digitando algo em seu teclado.
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— E eles vão fazer o quê? Colocar mais pedra no feijão? — Perguntou com uma expressão debochada e a mesma revirou os olhos para esconder o riso — Não deveria ser tão sériam. Seu sorriso é bem bonito, pô!
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Disse com sinceridade e a mesma olhou para mim como se quisesse ver qual era joguinho por trás das minhas palavras. Mas, dessa vez, não tinha joguinho. A vida fica menos bosta quando alguém ri de minhas piadas e fazer essa mulher que está na minha frente rir é o maior desafio que eu tenho desde muito tempo.
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— Não quero os seus elogios, para isso tenho meu namorado. Agora se você não tem mais nada para falar… por favor, retire-se da minha sala! — Disse com seu tom sério e eu respirei fundo.
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— Você é mó seria. Fico surpreso que ainda não tenha nenhuma ruga — Comentei divertido.
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— E eu fico surpresa que ninguém tenha quebrado o seu pescoço e dito que foi um acidente…
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— Específico demais, tá me ameaçando? — Perguntei com a testa franzida e encarei seus olhos, que ao contrário do resto do seu rosto pareciam brilhar em divertimento.
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— Não sou tão rancorosa, embora suas visitas à minha sala tenham me feito repensar todos os dias os meus princípios — Ela comentou enquanto mexia a sobrancelha e um sorriso ladino, divertido, surgiu em meus lábios.
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— É nisso que você anda pensando? Na minha desgraça? Que pessoa maldosa você é, senhorita Donovan… — Falei como se estivesse lamentando e a mesma soltou um rápido - até demais - sorriso antes de revirar os olhos.
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— Nesse momento tudo o que eu penso é em você dentro da sua cela, vai esperar que eu chame um guarda para te escoltar? — Perguntou com a sobrancelha erguida e eu fecho o sorriso na mesma hora. Megera!
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Me levantei da sua mesa e olhei para de relance para a sua sala, reparando nas janelas e nas estantes cheias de livros que tinha ali antes de retornar o meu olhar para ela.
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— Tenha um bom dia, Morena! — Desejei enquanto acenava para ela com um sorriso e fiquei satisfeito quando a mesma revirou os olhos, irritada.
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Ainda foi fazer ela engolir toda essa marra...