📖 Almas de Fera
Capítulo 107 – Preparativos
O amanhecer chegou tranquilo.
Os primeiros raios de sol iluminaram os jardins do Reino das Raposas, ainda cobertos pelas gotas da chuva da noite anterior.
Zaira despertou lentamente.
Por alguns instantes, permaneceu deitada, observando o teto.
Instintivamente, pousou as mãos sobre o ventre.
— Bom dia, pequeninos...
Como resposta, sentiu um movimento suave.
Sorriu.
— Vocês acordam sempre antes de mim.
Com calma, sentou-se na cama.
A barriga estava tão grande que precisou de apoiar uma das mãos no colchão para conseguir levantar-se sem esforço excessivo.
Nesse momento, ouviu uma batida suave na porta.
— Entre.
Selene entrou acompanhada de duas criadas.
Cada uma carregava caixas de madeira.
Zaira inclinou a cabeça.
— O que é isso?
Selene sorriu.
— Está na altura de começarmos os preparativos.
— Preparativos?
— Para a chegada dos teus filhotes.
Os olhos de Zaira brilharam.
As criadas abriram as caixas.
Lá dentro havia pequenos cobertores muito macios, almofadas bordadas com símbolos das Raposas Reais, mantas de lã e pequenos brinquedos de madeira feitos pelos artesãos do reino.
Zaira levou as mãos à boca.
— São tão pequenos...
Pegou num dos cobertores.
Era incrivelmente macio.
Passou os dedos pelo tecido com cuidado.
— Foram feitos especialmente para eles — explicou Selene.
Zaira sorriu emocionada.
— São lindos...
Uma das criadas mostrou uma pequena almofada bordada com uma raposa dourada.
Outra trouxe uma manta onde também havia um leão dourado bordado ao lado da raposa.
Zaira acariciou o bordado durante alguns segundos.
— Eles vão crescer conhecendo os dois reinos...
Selene assentiu.
— Exatamente.
---
Mais tarde, Arion entrou nos aposentos.
Trazia consigo um velho baú.
— Encontrei isto nos depósitos do palácio.
Colocou-o sobre a mesa.
Abriu lentamente a tampa.
Lá dentro havia pequenos brinquedos antigos.
Zaira aproximou-se curiosa.
— Eu conheço estes...
Arion sorriu.
— Claro que conheces.
Eram teus.
Ela pegou numa pequena raposa esculpida em madeira.
Sorriu imediatamente.
— Eu dormia com ela...
— Sim.
Arion riu.
— Durante anos.
Zaira olhou para o brinquedo durante vários segundos.
Depois colocou-o cuidadosamente junto dos cobertores.
— Quero guardá-lo para eles.
Selene emocionou-se.
— Tenho a certeza de que vão adorá-lo.
---
Na parte da tarde, o curandeiro voltou para a visita habitual.
Depois de verificar a pulsação e a energia mágica de Zaira, pediu-lhe:
— Se não te importares, gostaria que caminhasses um pouco.
Ela assentiu.
Com a ajuda de Kael ausente apenas nas lembranças e do apoio da mãe, começou a andar lentamente pelo quarto.
Cada passo era dado com calma.
A barriga obrigava-a a manter o equilíbrio com bastante cuidado.
Depois de alguns minutos, parou.
Respirou fundo.
— Já chega...
O curandeiro sorriu.
— Muito bem.
Não precisamos de mais por hoje.
Zaira sentou-se novamente.
Suspirou.
— Estou completamente cansada.
Selene aproximou-se com um copo de água.
— Descansa.
Ela bebeu alguns goles.
Depois voltou a acariciar o ventre.
Nesse instante...
Um pequeno movimento.
Depois outro.
Ela riu.
— Parece que caminhar também os acordou.
---
Quando a noite caiu, Zaira pediu papel e tinta mais uma vez.
Sentou-se junto à janela.
A lua iluminava o pergaminho.
Ela começou a escrever para Kael.
Contou-lhe sobre os cobertores.
Sobre os brinquedos.
Sobre o baú da sua infância.
Escreveu que o quarto começava a ganhar um ar diferente.
Mais acolhedor.
Mais preparado para receber uma nova vida.
No final da carta, acrescentou:
"Hoje encontrei um brinquedo de madeira que era meu quando era pequena. Decidi guardá-lo para os nossos filhotes. Espero que um dia possamos vê-los brincar juntos, correndo pelos jardins do Reino das Raposas e do Reino dos Leões. Estou ansiosa para te ver chegar. Todos os dias imagino esse momento."
Ela dobrou cuidadosamente a carta.
Sorriu.
— Amanhã segue viagem.
Antes de dormir, abriu a janela.
Olhou para o céu estrelado.
Fechou os olhos.
— Volta depressa, meu leão...
Depois voltou para a cama.
Acomodou-se entre as almofadas.
As mãos permaneceram sobre o ventre.
Pouco a pouco, o sono venceu-a.
Enquanto dormia, um brilho dourado muito suave envolveu o quarto por apenas alguns segundos.
Nem Zaira nem Selene, que adormecera na poltrona ao lado, perceberam.
Mas, do lado de fora da janela, uma pequena raposa branca observava silenciosamente o quarto.
Permaneceu ali apenas por um instante.
Depois desapareceu entre as árvores do jardim tão silenciosamente quanto tinha chegado.
Continua...