📖 Almas de Fera
Capítulo 108 – O Pressentimento
Os primeiros raios de sol atravessaram as cortinas dos aposentos reais.
O quarto ainda estava silencioso.
Zaira continuava profundamente adormecida, abraçada a uma das almofadas.
A respiração era calma.
As orelhas de raposa mexiam-se de vez em quando, como se estivesse a sonhar.
Selene abriu os olhos na poltrona onde adormecera na noite anterior.
Levantou-se devagar para não acordar a filha.
A primeira coisa que fez foi aproximar-se da cama.
Sorriu ao vê-la dormir tão tranquilamente.
— Finalmente estás a recuperar...
Cobriu-lhe melhor os ombros com a manta e saiu do quarto em silêncio para deixar que descansasse mais um pouco.
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Já no corredor, encontrou Arion.
— Ela ainda dorme?
Selene assentiu.
— Dormiu a noite inteira sem acordar uma única vez.
O rei sorriu aliviado.
— Isso é um ótimo sinal.
Os dois caminharam juntos até à sala de refeições.
Enquanto tomavam o pequeno-almoço, conversavam sobre os preparativos para a chegada dos filhotes.
— O antigo quarto ao lado dos aposentos da Zaira já está pronto? — perguntou Selene.
— Quase.
Mandámos aumentar as janelas para entrar mais luz.
Também colocámos uma lareira menor para manter o quarto sempre quente durante o inverno.
Selene sorriu.
— Ela vai gostar.
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Enquanto isso, nos aposentos...
Zaira começou lentamente a despertar.
Ainda de olhos fechados, espreguiçou-se com cuidado.
Logo sentiu o peso do ventre.
Soltou um pequeno suspiro.
— Ainda está pesada...
Passou delicadamente as mãos sobre a barriga arredondada.
— Bom dia, pequeninos...
Como resposta, sentiu um movimento suave.
Sorriu imediatamente.
— Já acordaram...
Com algum esforço, sentou-se na cama.
Demorou alguns segundos apenas a recuperar o equilíbrio.
A barriga parecia ocupar muito espaço.
Ela olhou para baixo e riu baixinho.
— Vocês estão mesmo a crescer...
Levantou-se devagar.
Atravessou o quarto lentamente.
Cada passo era cuidadoso.
Ao chegar à janela, abriu as cortinas.
O jardim brilhava sob a luz da manhã.
As flores balançavam com a brisa.
Pássaros voavam entre as árvores.
Era uma manhã tranquila.
Mas, de repente...
Algo chamou a atenção dela.
Junto à grande árvore branca que existia no centro do jardim...
Havia uma pequena raposa completamente branca.
O animal estava sentado.
Imóvel.
Observava diretamente a janela dos aposentos.
Zaira franziu a testa.
— Quem és tu...?
Piscou os olhos por um instante.
Quando voltou a olhar...
A raposa tinha desaparecido.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Estranho...
Nesse momento, alguém bateu à porta.
— Entre.
Selene entrou sorrindo.
— Vejo que já acordaste.
— Sim.
A rainha aproximou-se.
— Dormiste bem?
— Muito melhor.
Selene reparou na expressão pensativa da filha.
— O que aconteceu?
Zaira voltou a olhar pela janela.
— Pensei ter visto uma raposa branca no jardim.
Selene aproximou-se também.
Olhou para o jardim.
Não havia ninguém.
— Talvez fosse uma das raposas selvagens da floresta.
Zaira abanou lentamente a cabeça.
— Talvez...
Mas, no fundo, tinha a sensação de que havia algo diferente naquele olhar.
Como se aquela pequena raposa a estivesse a observar por algum motivo.
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Mais tarde, depois do almoço, Zaira decidiu passear um pouco pelos jardins.
Duas guardas acompanhavam-na discretamente.
Ela caminhava muito devagar.
Parava de vez em quando para descansar.
Quando chegou perto da árvore branca, olhou à volta.
Nada.
Nem sinal da pequena raposa.
Sorriu para si mesma.
— Deve mesmo ter sido imaginação.
Sentou-se num banco de pedra à sombra da árvore.
O vento fazia as folhas dançarem.
Ela fechou os olhos por alguns instantes.
Foi então que sentiu um aroma muito familiar.
O perfume das flores que cresciam na fronteira entre o Reino das Raposas e o Reino dos Leões.
Abriu os olhos.
À sua frente, sobre o banco, havia apenas uma única flor branca.
Perfeitamente fresca.
Zaira pegou nela com cuidado.
Olhou em volta.
Não havia ninguém.
As guardas também pareciam não ter visto quem a deixara ali.
Ela sorriu.
— Seja quem for... obrigada.
Levantou-se lentamente e levou a flor consigo.
Ao regressar aos aposentos, colocou-a dentro de um pequeno vaso ao lado das cartas de Kael.
Olhou para a coleção de pergaminhos cuidadosamente guardados.
Depois sorriu.
— Quando voltares... tenho tantas coisas para te contar.
Longe dali, no Reino dos Leões, Kael terminava a última reunião do dia.
O conselheiro aproximou-se.
— Majestade, resta apenas um último documento.
Kael assinou-o.
Fechou a pasta.
Respirou profundamente.
— Finalmente...
O general sorriu.
— Então...
Kael levantou-se imediatamente.
Um brilho de expectativa surgiu nos seus olhos.
— Está na hora de voltar para casa.
Continua...