Às novas horas da manhã, do dia nove de março, Cesar já estava pronto para ir à casa ao lado.
— Pai — disse Cesar caminhando para a sala e encontrando o seu pai concentrado a ler a Bíblia —, cadê o Waldir? Nunca mais o vi.
Seu Cosme fechou o Livro Sagrado.
— Seu irmão tem andado muito suspeito, ultimamente. Estou muito preocupado.
— Como assim, meu pai?
— Não sei dizer. Ele não para mais em casa, parou de jogar vídeo game e recentemente, flagrei ele contando muito dinheiro no quarto, não por querer, a porta estava aberta e eu havia entrado em casa sem fazer barulho, eu sei que nesse horário vocês dormem.
— Onde ele ganharia tanto dinheiro? Não trabalha. Falar em dinheiro, era sobre isso que eu queria falar contigo — Cesar entregou um pequeno envelope nas mãos do seu pai. — Meu salário saiu.
— Cesar, eu não posso aceitar. É seu salário...
— Eu insisto, pai.
— Você não está pagando pela moradia aqui.
— Mas tenho que ajudar na renda.
Seu Cosme suspirou, não por não ter gostado daquela atitude, mas por saber que não convenceria o seu filho do contrário. Ele tomou a liberdade de abrir o envelope e se assustou.
— Tudo isso? Quanto tem aqui?
— O mesmo valor que o senhor ganha de aposentadoria.
— Cinco mil reais?
— Exatamente.
— E já tirou o dízimo?
Cesar revirou os olhos e sorriu.
— Já, meu pai.
— Não desdenhe, dízimo é coisa séria — repreendeu Seu Cosme.
— Tudo bem, meu pai, desculpa.
— Filho, a agência paga tudo isso? Você está tirando fotos p****o? Porque se estiver, eu jamais vou...
— Não, não, meu pai. Que isso? Eu realmente sou bonito.
Seu Cosme parou no tempo, como se estivesse processando aquele comentário, depois, ambos deram risadas sobre aquilo e o pai teve a iniciativa de abraçá-lo.
— Quem diria, hein!? Meu filho, um prodígio.
— Você quem fez — esse comentário de Cesar foi mais um motivo de rirem alegremente.
Finalmente, as coisas mudariam para eles. Cesar não ganharia dinheiro como jogador de futebol, mas ganharia como feiticeiro, e não tinha nenhuma porcentagem de noção dessa possibilidade.
Ele saiu da sua casa e foi para a casa ao lado, como tinha a cópia da chave, entrou sem precisar chamar por alguém. Agora era uma pessoa totalmente confiável, apenas a Dulca era antipática com ele, insistia em dizer que aceitá-lo daquela maneira era uma irresponsabilidade.
***
— Você não contou que o filho da irmã da Tia Márcia também era dele, Cesar? — berrou Talita depois que Cesar relatou tudo o que ocorreu no velório.
Cesar a encontrou na cozinha, como sempre, assim que chegou e deram início a uma conversação. Talita era uma ótima cozinheira, aprendeu muito com a mãe a fazer comida mineira, e agora estava aprendendo a fazer comida baiana, as Feiticeiras Prodígios se interessaram mais.
— Pensei melhor sobre isso, e julguei correto não contar — respondeu Cesar os gritos de Talita.
— Que gritaria é essa? — questionou Bala ao aparecer bem humorada.
— Bala — falou Cesar com bastante entusiasmo, ele se levantou da cadeira e foi abraçá-la, Talita fingiu que não se importou, mas Bala sabia que ela escondia os ciúmes. — Estávamos falando sobre o velório ontem, foi bem agitado.
— Interessante... Olha, apareça na sala de reunião daqui a uns dez minutos, vou fazer o questionário sobre as aulas de ontem.
— Perfeito.
Bala se retirou a olhar para Talita de maneira significativa, Talita retribuiu o olhar de outra maneira, era como se elas estivessem a se comunicar, Cesar a nada percebeu e se tivesse percebido, não entenderia.
— Sim — continuou Talita —, volte ao que você estava falando.
— Olha, eu imaginei que aquela verdade virá à tona em algum momento. A irmã de Tia Márcia não vai esconder esse segredo para sempre.
— Entendi, até que faz sentido.
— Não é!? Agora, eu nunca vi uma família tão conturbada.
— E aquela criança dando em cima de você na cara de p*u.
— Quem, Larissa?
— Ela mesma. Ela tentou te beijar na cozinha, não foi?
Cesar imaginou que seria melhor se não revelasse que Larissa havia o beijado.
— Eu a rejeitei — revelou Cesar, e percebeu um leve sorriso de canto de boca da Talita. — Ela ficou chateada.
— Ao ponto de não trazerem as minhas guloseimas.
— Ela jogou na pia.
— Vixe! Surtada.
— Demais.
Ambos riram.
— E você disse que tinha caído na pia para encobrir o surto dela — protestou Talita.
— Você queria que eu fosse sincero? Fiquei com vergonha.
O tempo passou e Cesar foi para a sala de reuniões, Bala ainda não tinha aparecido, então ele pegou uma livro para ler qual a Naty havia traduzido e ficou ali por quase duas horas até o seu estômago roncar. Nesse exato momento, Layra entrou na sala com a Bala.
— Cesar, se apronte que vamos sair em alguns minutos — avisou a porta-voz.
— Mas... Eu estava esperando a Bala, ela preparou um questionário para mim...
— Ahhh! Que seja, depois do questionário nós vamos, te dou trinta minutos. Não daria se não fosse importante.
— E estou com fome também.
— Você vai comer durante o questionário. Vou pedir para Talita trazer um prato para você, não temos tempo a perder — por fim, Layra se retirou.
Bala fez uma careta, como se estivesse sem acreditar.
— Não acredito que ela está te tratando como um filho.
— Como assim? — Cesar ficou bastante curioso com aquele comentário.
Bala sentou-se no sofá, ao lado do rapaz.
— Cesar, depois que você chegou aqui, Layra mudou completamente, ela era tão rígida, parece que amoleceu, mas só um pouquinho, o bastante para a gente descansar. É como se ela estivesse menos tensa com você presente, por favor não vai embora nunca mais.
Cesar riu.
— Sério? Eu fico muito lisonjeado.
— Sem dúvida, você é muito especial.
Cesar sorriu para ela, dessa vez, sem mostrar os dentes, de uma maneira que expressasse o quanto ele achava aquilo tudo muito fofo. Ele m*l sabia o que aquele sorriso causava nas mulheres ali daquela casa.
Em alguns minutos de questionário, Talita apareceu com a comida, e como ordenado, Cesar comia e respondia as questões. Talita ficou para assistir e se impressionou por Cesar ter respondido todas as perguntas corretamente.
Tudo o que faltou foi uma salva de palmas.
Depois disso Cesar e Talita se arrumaram para sair, aguardavam na sala de estar.
— Vocês não têm televisão aqui? — indagou o rapaz.
— É uma pena, eu gostava de assistir as novelas — disse Talita.
— E o que fazem para se divertirem?
— Magia.
Cesar a olhou de soslaio e ela riu.
— Hum! — exclamou ele. — Boa resposta.
— A gente lê muito, Cesar.
— Cheguei no momento certo — disse Naty ao aparecer no local, usava um vestido comum, para Cesar. Ela o entregou um livro muito grande enrolado num tecido e amarrado num barbante. — Este livro é basicamente uma enciclopédia, tudo o que você precisa saber sobre Dorbis está aqui. Na verdade, não tudo, o necessário.
— Hei! — protestou Talita. — Por que comigo a tradução foi efêmera? Eu também queria ganhar uma enciclopédia.
— Não fique com ciúmes, tenho certeza que o Cesar vai te emprestar o livro.
Talita olhou para o rapaz que negou com a cabeça.
— Não vou, não — brincou Cesar.
— Então eu vou roubar de você — ameaçou Talita a brincar de igual modo.
— Ladrona.
— O termo certo é "ladra".
— O termo certo é o termo que eu usar e os meus conterrâneos me entenderem.
— Parece que ele está certo, Talita — apoiou Naty o comentário de Cesar.
— De que lado você está, traidora?
Nessa hora, Layra entrou pela entrada principal da casa, também com um vestido comum e muito bonito e estava com uma peculiar bolsa de couro pendurada no ombro esquerdo.
— Estão prontos? Vamos?
Talita foi a primeira a se levantar do sofá, porém, Cesar continuou sentado.
— Porta-voz, eu não estou entendendo nada — disse ele. — Você ainda não me explicou.
— É verdade — Layra sentou-se numa cadeira da sala —, sinto muito, eu me ocupei tanto que esqueci. É o seguinte, primeiro vamos na casa da garota qual você falou que namorava para vermos se ela aceita a nossa solicitação.
Cesar arregalou os olhos.
— Vamos o quê?
— É sério que você vai me fazer repetir?
— Não... Espera... Por que ela tem que participar?
— Estamos em escassez, Cesar, o pessoal das trevas tinham centenas de adeptos. Por que nós, das luzes, temos que estar em falta? Qualquer ajuda será bem-vinda.
— Por que eu não fui bem-vindo?
— Porque você é um caso à parte. Não tem mesmo noção do quanto és um jovem intrigante para nós feiticeiras? Fora que, depois de muito tempo no anonimato, aparece você com todo esse dom especial para nos ajudar. Se não estivéssemos vindo para cá de propósito, diria que foi obra dos Trealtas mandar você, e ainda acredito que é.
— Por que vieram para cá de propósito?
As outras que estavam em pé se sentaram, parecia que haveria uma discussão antes de saírem.
— Já falamos isso Cesar, a magia é atraída por ela mesma. Aqui, nesta região, a magia das luzes oscilou bastante, isso significa que há foco de feiticeiros das luzes. Nós sentimos essa oscilação muito forte, por isso viemos para cá. Se fosse em qualquer outro lugar deste país, ou continente, ou mundo, provavelmente estaríamos lá também.
— Muito bem — Cesar se levantou do sofá subitamente —, então vamos.
— Oh! Acabamos de sentar — resmungou Talita.
— Pensei que vocês teriam uma longa e chata conversa, como sempre, antes de sair — também disse Naty.
— Vamos, resmungonas — chamou Cesar a brincar.
Ele era um rapaz bem humorado, quem sabe isso acabou trazendo uma luz diferente para aquela casa. Todas as meninas comentaram com a porta-voz o quanto a presença dele as fazia bem, exceto Dulca, todas o queriam com elas.
— De quem é esse carro? — falou Cesar bem alto ao se deparar com um carro azul-marinho novinho estacionado na porta da casa das feiticeiras.
— É nosso — respondeu Layra ao entrar no automóvel.
— Uau! — Cesar ficou deslumbrado, já viu muitos carros caros, mas aquele era sem dúvida o mais caro de todos e o mais bonito e espaçoso, entrou no automóvel com tanto carinho, namorou cada pedaço dele. — Onde você mantém esse Nissan Frontier?
— Escondo na quarta dimensão com magia.
— Uau, de novo. Você precisa me ensinar a fazer isso, só assim para eu esconder as minhas coisas dos meus irmãos.
Layra sorriu de uma maneira que ninguém percebesse.
— Ensino depois — ela acionou a ignição e partiram dali.
— Onde você aprendeu a dirigir? — Cesar era um rapaz muito interessado nos assuntos delas e a porta-voz gostava desta curiosidade.
— Em Londres há alguns anos.
— Eu aprendi com o meu pai. Posso dirigir este carro algum dia?
Layra parou o carro no meio da rua e desceu.
— Venha, você vai dirigir agora.
— Sério? — Cesar sorriu e imediatamente saiu do banco de trás para o banco da motorista.
Primeiro ele admirou todo o painel, o volante, os botões, todo o controle do carro em suas mãos.
Talita limpou a garganta e falou:
— Não podemos ficar aqui parados o dia todo, temos que ir, Cesar, e espero que você saiba mesmo dirigir, não cause um acidente, pelo amor que você tem no coração.
Cesar não esperou nem mais um segundo, segurou na marcha, pisou no acelerador e dirigiu como um verdadeiro piloto da Fórmula 1.
— Devagar, rapaz — pediu Naty.
— Uh! — esbravejou Talita no banco de trás com Layra que colocou o cinto de segurança. — Já temos um motorista.
— Não mesmo — disse Layra com os olhos arregalados.
***
Chegaram na porta da casa de Tainara. Cesar já imaginou que ela estivesse em casa, pois, não estudava mais, ou poderia estar na igreja, mas por sorte a encontraram sentada num banco em frente à própria porta, uma amiga a acompanhava e ambas cortavam uns papéis coloridos.
Alguns vizinhos ficaram a bisbilhotar para saberem quem eram as pessoas do carro, e quando a Tainara, também curiosa, viu que se tratava do Cesar, bem arrumado, a descer daquele belo carro, e a pôr uns óculos escuros muito elegantes, ela ficou boquiaberta e se levantou vagarosamente.
Depois saíram mais três meninas de dentro do carro a acompanhá-lo, andavam em direção a ela e o seu coração bateu mais forte.
Um rapaz aleatório se aproximou e perguntou:
— E aí Cesar, ficou rico?
— E aí, Cabeça? — ambos se cumprimentaram. — Só trabalhei para ter o que é meu.
— E ainda vai trabalhar muito — intrometer-se Talita a puxá-lo para cancelar qualquer possibilidade de um diálogo. — Vamos, não temos tempo.
Tainara, quando viu aquela cena, imediatamente tentou arrumar o cabelo, era cacheado, mas como estava à v*****e perto de casa, estavam sem pentear, ela ficou constrangida.
— Este é o Cesar, o filho do suplente que você traiu e por isso ele terminou com você? — perguntou a amiga de Tainara nada conveniente, o seu nome era Janete.
— É sim — respondeu a garota bastante triste pelo arrependimento que bateu forte em seu coração. Quase que a dor foi física.
— Você é louca?
— Cala essa boca, Janete.
— Oi, Tainara — saudou Cesar ao retirar os óculos.
Tainara se derreteu, mas imediatamente voltou a se entristecer quando percebeu que Talita segurava o seu braço. Nunca se sentiu tão humilhada.
— Oi, Cesar? Querem alguma coisa comigo?
— Sim, minha querida — Layra fez questão de responder. — Somos de Dorbis.
— Que língua é essa que ela está falando? — perguntou Janete.
O semblante de Tainara decaiu naquele mesmo instante, pareceu que ela vomitaria a qualquer momento.
— Janete, vá embora — ordenou para a amiga.
— Está bem — Janete largou a tesoura e os papéis no banco e se despediu apenas do Cesar, ela o conhecia e também o pai dele.
Cesar se despediu da garota e voltou a atenção para a pequena reunião ali. Os vizinhos até fizeram plateia para verem o que aquelas pessoas chiques queriam naquela casa.
— O que vocês querem? — questionou Tainara, Layra abriu a bolsa de couro e entregou um papel selado para ela. — Para que isto?
— Formalidades — respondeu Layra.
Antes que Tainara quebrasse o selo, uma mulher branca e gorda apareceu na porta.
— Quem são vocês... — a mulher não terminou de falar quando reconheceu o garoto e se alegrou. — Cesar, meu querido. A que devo a honra da sua presença? Como está o teu pai? Está bem?
— Está bem, sim senhora — respondeu Cesar com bastante pompa e educação.
— Que maravilha, diga a ele que mandei a paz.
— Vou dizer, sim senhora.
— Mãe — Tainara mostrou o papel selado para a mulher que fechou a cara na hora.
— O que é isto? — a mulher se assustou ao ver o símbolo no selo, uma serpente. — Vocês não são deste mundo, não é?
— Não somos — respondeu Naty. — Exceto o Cesar e a Talita, são descendentes, assim como você e a sua filha.
— Mas ela não é feiticeira — disse Cesar a pôr os óculos.
— Como você sabe? — indagou a mulher, não mais simpática como antes.
— Ele tem um dom que o permite saber — respondeu Talita no mesmo tom que aquela mulher.
A mãe de Tainara estendeu a mão para Cesar para devolver o papel selado, porém, ele não o pegou. Não foi a ela que foi dado.
— Não me importo, a minha filha não vai participar de nada.
— Mãe... — Tainara tentou protestar, mas a sua mãe estava muito decidida.
— Não, Tainara, imagina só, a minha filha, uma feiticeira?
— Mas é o que eu sou, a senhora n******e tirar isso de mim.
— Posso e vou, por isso te coloquei na igreja, desde o dia em que mamãe me contou essas maluquices e o que você se tornaria, eu quis de uma vez por todas exterminar esta maldição da sua vida.
— O dom da magia pulou uma geração — sussurrou Talita para Cesar e a mãe de Tainara percebeu.
— E você, Cesar, logo você, o filho do suplente do pastor compactuando com essas diabruras...
— Quê? — intrigou-se Layra, a magia Vox Universalem não traduziu aquela expressão linguística.
— Estou decepcionada — continuou a mãe da garota, Cesar apenas ergueu as sobrancelha.
— Mãe, por favor, deixa eu ser quem eu sou por um momento, eu quero fazer magia — insistia Tainara.
— Não repita essa sandice, menina, não vou deixar você se transformar numa aberração.
Cesar, ainda a usar o seu dom, olhou para dentro da casa e avisou:
— Há mais outra feiticeira aí.
Todas voltaram a atenção para uma senhora que saía vagarosamente de dentro da casa, ela usava um vestido longo e branco, cheio de babados, o seus cabelos brancos estavam amarrados, enrolados atrás da cabeça, usava uns óculos com um grau muito forte, a parte direita era totalmente preta, pois, um dos seus olhos eram brancos, não enxergava de um olho e se apoiava numa bengala de madeira bem artesanal, com a ponta superior em forma da cabeça de uma serpente. A chamavam de Vó Matilda.
— Então quer dizer que também sou uma aberração para você? — perguntou a senhora, a presença dela alegrou aos presentes, exceto a própria filha.
— Ma... Mamãe — gaguejou a mãe de Tainara. — Eu não quis dizer isso. Jamais...
— Se tu ofendes uma feiticeira, ofendes a todas as outras.
— Eu jamais te ofenderia mamãe...
— Me dê esta carta — ordenou a senhora Matilda.
A mãe de Tainara a entregou sem relutância, temia a mãe mais que tudo, até se impressionou por vê-la andar, depois que passou a usar a cadeira de rodas, só levantava para ir tomar banho e dormir.
Vó Matilda cheirou o papel selado com os olhos fechados, depois o entregou a Tainara e disse:
— Chegou a sua hora, filha, ajeite as suas coisas e vá.
Tainara abraçou a sua vó muito contente e correu para dentro.
— Mas... — a mãe de Tainara ainda insistia no assunto. — Mamãe... O que vou dizer para o meu marido?
— Ora, eu sempre ludibriei aquele palerma. Isso vai ser moleza e não me diga mais nada, estou cansada de ouvir a sua voz irritante por hoje.
A mãe da mais nova integrante das Feiticeira Prodígios entrou na casa tão triste, e nem se deu ao trabalho de olhar para trás para não se sentir mais envergonhada.
Cesar e as meninas seguraram o riso, não podiam ser infantis, mas a Vó Matilda desfez a carranca e foi a primeira a cair na gargalhada. As demais não resistiram e se entregaram aos risos também.
— Quando eu envelhecer quero ser igualzinha a senhora — disse Naty.
— E vai ser, minha querida, ainda melhor — falou a Vó, ela apontou o dedo indicador para Layra e para Naty. — De onde vocês são? E não respondam de Dorbis, isso eu já sei.
— Somos de Sipritiah, mas atualmente, somos Prodígios do Reino de Ic em Umnari — respondeu Naty.
— Ic Laú zál pamtúd — recitou Vó Matilda em dorbiano e as meninas nativas se curvaram e responderam de igual modo e em uníssono:
— Gá dál Ará sái-zâ.
— Muito bem, eu entendi que vocês falaram em dorbiano, nem sei por que, mas por que a magia Vox Universalem não traduziu para mim?
— Nem para mim — falou Talita.
— A magia Vox Universalem que vos engloba permitiu que entendessem qual foi a língua qual usamos porque é uma língua viva, mas não traduziu porque é uma saudação em desuso, e se tornou outra coisa, como vocês sabem, ela não traduz músicas, poesias, ditados, provérbios, entre outros tipos afins — explicou Vó Matilda. — A expressão ocorria nos primeiros anos depois que o Grande Rei Ic ascendeu, pararam com essa saudação depois de muitos meses, quase um ano.
— Como a senhora sabe disso tudo? — quis entender Cesar.
— Eu sou nativa de lá. Vim morar aqui por ter construído uma família. Dizia para o meu marido, pai da rabugenta, que viajava a trabalho, mas ia cuidar das coisas do castelo. No fim, decidi morar aqui até ao findar dos meus dias. Tinha informantes de lá, infelizmente eles pararam de vir, mas eu sei que Zadahtric foi destronada e os portais para o outro mundo foram bloqueados — Vó Matilda se aproximou mais para sussurrar. — Vocês precisam de muita força, poder e inteligência, pois, a esperança está com aqueles que estão a fazer alguma coisa para reverter esta situação.
Nesse momento, Tainara apareceu saltitante, havia trocado de roupa bem rápido e segurava uma mochila nos ombros.
— Obrigada, Vó — a neta deu um beijo no rosto de Matilda e foi embora com as meninas para o carro, antes a reverenciaram, pois, era assim que eram tratados os anciões e as anciãs em Dorbis.
Antes que pudesse se afastar, Vó Matilda segurou a mão de Cesar e disse:
— Você tem muito poder, jovem.
— Eu?
— Estou a falar apenas com você.
— Sim, desculpe.
— Você é o único que pode impedir Audaxy, se apresse antes que seja tarde, ela está mais perto do que você imagina.
— Quem é Audaxy?
Vó Matilda soltou a mão do rapaz e não falou mais com aquele ar de mistério na voz.
— Eu sei lá — ela sorriu e entrou na casa, tão vagarosamente que Cesar chegaria no carro antes que ela pudesse atravessar o umbral da porta.
— Eu, hein! — exclamou confuso o rapaz, não entendia de profecias, mas sabia que uma das Feiticeiras Prodígios entendia e mais tarde perguntaria para ela.
Ele voltou a dirigir o carro, Layra o achou imprudente no volante, mas confessou que ele era mais rápido.
Próxima parada, o bar e restaurante de Paulo Antônio, o amigo de Waldir. Cesar contou para elas que foi lá onde bebeu pela primeira vez por causa da garota que agora ele levava no banco de trás do carro. Foi onde ele ajudou a sua primeira alma a encontrar o caminho do Além. E também, foi onde ele viu pela primeira vez a aura de uma feiticeira das luzes.