Todos e todas começaram uma oração. Oraram pelos familiares que estavam, praticamente, todos presentes, oraram para não se desestabilizarem, para não se deprimirem, para que tivessem os seus corações confortados. Fagner era um provedor e agora que se foi, as coisas mudariam. Oraram para que tudo ficasse bem no fim, e que continuassem a seguir com as suas vidas, ainda que prosaicas.
Cesar a tudo observava, não entendia por que sentiu a necessidade de olhar enquanto o pessoal rezava com os olhos fechados. De repente, o seu dom despertou e ele passou a enxergar a outra dimensão, tudo estava azulado.
— Oxe! — exclamou Cesar a sussurrar.
De todos os corpos emanava uma aura vermelha, exceto a de Talita. Ele a chamou e ela atendeu, imediatamente se assustou ao ver os seus olhos totalmente brancos, apenas as escleras se via.
— Fecha esses olhos, Cesar — ordenou Talita ao desesperadamente sussurrar de volta, se alguém visse aquilo, a noite seria mais longa que o esperado.
O rapaz obedeceu, mas virava a cabeça para tudo quanto era lado e avisou que ainda enxergava tudo. Para ele, nem pareceu que havia fechada os olhos. Uma habilidade proporcionada pelo seu dom.
— Isso é incrível — admirou-se o rapaz.
— Você está muito estranho, Cesar. Finge que está rezando.
— E vou ficar com os olhos fechados até passar o efeito do meu dom?
Talita teve uma ideia, ela colocou os seus óculos escuros nele.
— Assim está melhor, ninguém vai desconfiar, agora já pode abrir os olhos.
Cesar abriu os olhos e mesmo aconteceu com os óculos escuros, enxergava tudo do mesmo jeito. Ele reclamou por ser um "óculos de mulher", mas ela mandou ele se contentar com o que tinha e disse que ninguém iria perceber, menos ainda se importar.
— Por que está com esses óculos de mulher? — perguntou Leandro.
Cesar suspirou e não respondeu ao irmão.
Foi nesse momento que, quando o padre encerrou a oração, a Dona Márcia, mãe de Eusébio e de Larissa, ex-esposa de Seu Fagner, desdobrou uma folha de papel para ler uma dedicatória que havia escrito para ler em memória do falecido.
Entretanto, um homem desgrenhado apareceu de lugar nenhum com uma faca na mão, ele apontava para as costas de Márcia e quando estava prestes a enfiar nela, Cesar gritou com a mão estendida:
"Não!"
O homem se assustou e hesitou. Uma coisa Cesar não havia percebido de antemão, que a aura dele era azul, e depois do seu grito, a sua visão voltou ao normal, as auras sumiram e estava tudo mais escuro por conta dos óculos. O homem havia sumido.
Por somente ele ter visto aquilo, o seu súbito grito deixou a todos espantados. Fizeram silêncio e olharam para ele a esperar que se justificasse, mas ele não sabia o que dizer.
— Gente, eu... Eu... Era que...
— Eu acredito que o rapaz queira dizer que não é bom que leiam a dedicatória agora, será melhor que fique para o final — disse o padre, o que surpreendeu o garoto. — Não é, rapaz?
— Ham... — Cesar tinha que confirmar, não havia nada melhor para falar. — É isso mesmo, padre, obrigado, e me perdoem pelo grito, gente, eu queria muito falar e me empolguei.
Algumas pessoas seguraram os risos, afinal, era um velório, não podiam vacilar. O padre ordenou que se sentassem, ele tinha algumas palavras a dizer. E assim foi.
— O que foi que você viu? — perguntou Talita sutilmente no sofá, sentada com as mesmas pessoas de antes, exceto o Eusébio, ele havia sumido.
— Eu vi um espírito, estava com uma faca na mão e ia atingir a Tia Márcia — respondeu Cesar.
— Por que está falando assim? Não é óbvio que era a alma penada de Seu Fagner? Ele virou um fantasma e por isso está aqui ainda, por isso que o seu irmão e eu sentimos um calafrio perto do caixão.
— Por que ele ia querer m***r a própria esposa? E não parecia ele, estava muito bagunçado.
— Ele morreu atropelado, Cesar.
— Eh... Parece que agora fez sentido.
— As almas das pessoas se aparentam com o seu último estado — Talita analisou as próprias palavras. — Não sei o porquê.
— Sobre o que vocês estão falando? — perguntou Leandro.
— Nada demais — respondeu Talita, ela observou que Cesar fazia uma careta, como se estivesse a sentir um incômodo no seu ventre. — O que foi? — preocupou-se.
— O meu dom está querendo despertar — avisou Cesar. — Estou resistindo.
— Isso não vai te fazer bem, tem que deixar acontecer, senão o Universo pode te punir. Aqui, toma.
Talita o entregou novamente os óculos escuros e ele os usou, depois se entregou ao despertar do seu dom e segurou um grito, pois, o mesmo homem com a aura azul estava na sua frente. Talita tinha razão. Era o Seu Fagner, pai de Eusébio. A alma dele ainda estava ali, apegado ao corpo, aos familiares. Ele ficou curioso para saber qual deles não queria deixar aquela p***e alma partir, não colocou muita fé nem na esposa viúva e nem nos filhos.
— Cesar, você está muito estranho — comentou Leandro.
— Shhh! — exclamou Talita, ela precisava acobertar o dom do rapaz.
Aquele homem desgrenhado, como se houvesse sofrido um acidente — e de fato sofreu —, de aura azul ofegava na frente de Cesar.
"Oi Cesar" saudou Fagner. "Eu sei que você consegue me ver."
Cesar olhou para todos os lados, ficou preocupado, não podia responder senão poderiam o considerar como louco por falar sozinho, fora o seu irmão Leandro perceber que havia algo estranho.
— Só eu que estou vendo ele agir estranho? — indagou Leandro.
— Shhh! — repreendeu Talita mais outra vez. — O padre está falando, menino — sussurrou.
"Creio que você n******e responder, então siga-me." Fagner caminhou, era como se ele não tocasse o chão.
Cesar ficou preocupado, ele não queria ir naquele momento para que ninguém fizesse perguntas, mas era agora ou nunca. Ele se levantou e seguiu a alma. Passaram por um corredor e subiram umas escadas até uma porta no fim.
— E agora, para onde ele vai? — indagou Leandro.
***
Eusébio estava sentado na cama dos seus pais que agora seria apenas da sua mãe, ele olhava uma foto de Fagner antes do acidente. Não amava o pai como pensava que deveria amar, afinal, Fagner era muito severo, o ensinou a não ser uma pessoa emotiva e afetuosa com ele, pois, um homem devia se comportar como tal, era a ideia dele sobre masculinidade.
De qualquer maneira, era o pai dele, foi quem o criou, nunca deixou nada faltar, mesmo faltando demonstração de amor, agora, parecia que jamais saberia o que se passava na cabeça dele.
Eusébio lembrava dos momentos que passou em família, eram únicos e memoráveis. Fagner fazia questão de pagar tudo o que eles queriam, apesar de ter sido austero e brigão, apresentava uma boa índole.
Nesse momento, ele ouviu passos na escada, imaginou que fosse a sua mãe quem o procurava para convidá-lo a falar algumas palavras bonitas em memória de Fagner, e se escondeu dentro do guarda-roupa, não tinha nada de bom para falar sobre ele, não queira ser sincero, mas também não queira mentir.
Foi lá dentro que ele viu o Cesar entrar, estava usando óculos escuros. Quem sabe, o mandaram para chamá-lo, mas Cesar continuou ali, parado, a olhar para o nada, e a parte mais estranha foi quando Cesar começou a conversar com ninguém.
Eusébio não sentiu medo, mas ficou curioso e queria saber o que ocorria com o amigo. Quase não respirou, ficou imóvel, sem movimentos bruscos, a sua curiosidades estava no auge.
Cesar viu aquela alma penada de aura azul atravessar a porta no fim da escada, ele colocou a mão na maçaneta e a abriu.
Ao entrar, se deparou com um quarto de casal bem arrumado. A beira da cama estava um pouco bagunçada, como se alguém estivesse sentado ali e se levantado. Também, havia uma foto de Seu Fagner antes do acidente.
A alma de Seu Fagner parou ao lado da cama e Cesar se aproximou.
— Oi, Tio Fagner, como está? — perguntou Cesar.
"Estou morto, não é, filho!?" respondeu Fagner ironicamente.
— Desculpa, força do hábito.
"Preciso te contar uma coisa, pois, parece que você é o único que consegue se comunicar comigo" continuou Fagner. "Por que, afinal de contas?"
— Longa história.
"Muito bem, lá vai: foi a Márcia quem me matou."
— O quê? — Cesar falou sem acreditar, sua voz saiu alta, depois pôs as mãos sobre a boca para abafar o som e tentou falar mais baixo. — Por que ela faria isso?
"Cesar, eu fiz uma coisa muito triste. Eu a traí por anos, e um dia desses ela descobriu um dos meus maiores segredos. Eu mantinha em sigilo outra família..."
— Espera aí Tio Fagner, está contando a história rápido demais.
"Não gosto de enrolar. Foi isso o que aconteceu, ela me seguiu de carro, me viu sair da casa da outra, me despedi dos outros dois filhos que fiz e quando virei a esquina para entrar no meu carro ela me atropelou com o dela. Maldito dia em que a ensinei a dirigir."
— Como o senhor conseguiu esconder isso durante anos?
"Eu disse que ajudava uma família alheia e necessitada, mas na verdade era minha e não passavam por necessidade alguma, a mulher trabalha para mim... Ou trabalhava."
— O que o senhor espera que eu faça? — Cesar perguntou já sabendo a resposta.
"Que faça a Márcia confessar que me matou."
— Deus que me livre. E se ela me m***r também? Vocês são bons em guardar segredos, ouviu!? Uma família extraconjugal, uma morte...
"Ela não vai te m***r, menino, ficou doido?"
— Sei lá. Não estou no coração de ninguém. E como eu vou explicar que sei o que aconteceu?
"Tente convencer o Eusébio, ele é tão emotivo, mas é esperto. Ele vai querer resolver isso."
— Creio que ele não gostava muito do senhor — ele foi direto, creu que agora que ele estava morto, não faria muita diferença.
"Por quê? Eu só quis que ele crescesse, parece que falhei."
— Uau!
"Tem mais uma coisa que precisa contar."
— O quê? Espero ter estômago para isso...
"O filho de Marilene, irmã da Márcia, é meu também."
— O filho de Marilene? — esse grito de Cesar foi a gota d'água.
— Que m***a é essa? — berrou Eusébio ao sair do guarda-roupa.
Cesar se assustou e deixou de ver a outra dimensão. Tudo voltou ao normal.
— Eusébio? Você estava aí escondido?
— O que você está fazendo, Cesar? — Eusébio parecia extremamente preocupado.
Ele apenas pôde ouvir o Cesar, mas algumas coisas estava a fazer sentido para ele. Ele ficou com lágrimas nos olhos e não sabia o motivo.
— Calma, amigo, eu posso explicar.
— Eu ouvi você falar o nome do meu pai. Cesar, que brincadeira é essa?
— Amigo, eu jamais iria brincar com uma coisa dessas.
— Então explica aí.
Cesar esperou um pouco antes de revelar.
— Eu sei falar com os mortos.
Já Eusébio, deu um tempo para absorver a informação, depois soltou um breve sorriso.
— O quê? Desse quando? Quer dizer que a alma do meu pai está aqui?
— Você acredita nessas coisas?
— Depende. Prove que ele está aqui.
— Como eu vou fazer isso?
— Sei lá, a bruxaria é sua.
— Eu poderia perguntar uma coisa que só vocês sabem.
Eusébio ficou sério, o bastante ao ponto de ser considerado extremamente bipolar.
— Só houve uma coisa que fizemos juntos e que nem eu nem ele nos atrevemos a contar para ninguém.
Cesar se concentrou, fechou os olhos e depois os abriu. Estava aprendendo a controlar o próprio dom. Já via o plano astral.
Fagner estava ao lado do filho, como se fosse um Espírito Perseguidor, mas os seus olhos estavam carregados de arrependimento, tentou tocá-lo, mas a sua mão o atravessou.
— Anda, estou esperando — apressou Eusébio.
"Diga para ele que por nossa culpa Márcia abortou o terceiro filho. Ele foi comprar o produto e eu o coloquei na bebida dela, foi triste." Fagner falava cheio de pesar. "Márcia quase morreu, e agora está traumatizada."
Cesar pôs as mãos sobre a boca.
— Por que vocês fizeram isso? — interrogou o rapaz sem acreditar, para ele, aquilo foi um crime absurdo.
— O quê? — questionou Eusébio a olhar na direção aonde Cesar olhava.
"Meu outro filho havia acabado de nascer, eu não podia sustentar outra criança tão cedo, estava apertado com despesas, não estava nada fácil."
— Isso não justifica — comentou Cesar.
— O quê? — insistia Eusébio.
"Não justifica, mas foi necessário."
— E se a Tia Márcia tivesse morrido também?
— Cesar... — falou Eusébio de uma maneira que partiu o coração do rapaz feiticeiro. — Ele realmente está aqui? — Cesar respirou fundo antes de responder que sim. — Ele contou?
— Contou, e você sabe que é verdade — Eusébio não disse nada, apenas ficou de cabeça baixa, mas Cesar insistia: — Por que, Zebra?
— Eu era imaturo, Cesar, irresponsável, queria ser filho único porque a minha vida ficou pior quando chegou a Larissa...
— Espero que você tenha percebido aonde o seu egoísmo te levou.
"Conte para ele" pediu Tio Fagner.
— O seu pai pediu para te contar uma coisa.
Esse mistério fez com que Eusébio prestasse toda atenção para Cesar. Ele se preparou para ouvir como se soubesse que não seria coisa boa.
— O quê?
— Foi a sua mãe quem atropelou o seu pai — revelou Cesar, ainda com os óculos escuros no rosto, pois, ainda enxergava a outra dimensão.
Nesse exato momento, Márcia entrou no quarto bem séria, com os olhos arregalados de preocupação. Ela encarou os dois, depois, fechou a porta e a trancou com a chave.
— Como você sabe disso? — perguntou Márcia para Cesar com as mãos nos quadris.
Ela falou bastante segura, não vacilou nem demonstrou hesitação. Apenas os seus olhos avermelhados mostravam o quanto ela estava preocupada.
Cesar teve medo, se ela matou o próprio marido e não teve remorso, o que não poderia fazer com ele ali e agora?
— Olha, Tia Márcia... — começou Cesar, mas foi interrompido pelo amigo.
— Foi a outra mulher do meu pai quem contou — disse Eusébio, ele livrou o Cesar de ter que explicar aquilo para as pessoas, não poderia saber como inventar outra história que fizesse sentido.
Cesar se alegrou, mesmo a saber que o seu amigo era um "fura olho", sempre quis pegar todas as meninas que ele beijou, mas no fundo, se mostraria que não era uma pessoa tão podre.
— Como ela poderia ter visto? — indagou Tia Márcia confusa. — E por que ela não me denunciou?
— Ela disse para o Cesar que reconheceu o seu carro, afinal, era amante de papai e conhecia tudo sobre ele. Também, se ela te denunciasse iria se expôr demais, fora o medo que sentiu.
Cesar nem imaginou se poderia inventar uma mentira "melhor".
— Aquela v*******a trabalhava para ele — falou Tia Márcia com rispidez.
— Ela sabia também que o papai gostava muito de Cesar e sabia que ele era amigo da gente, aí mandou ele me dar esse recado.
— Que mulher desgraçada!
— Ô, mãe, por que a senhora fez isso? Sujando as suas mãos...
Márcia não conseguiu se segurar por muito tempo. Ela chorou e se lançou na cama. Eusébio se apressou em abraçá-la na tentativa de a consolar.
— Eu não sei, meu filho, eu não sei. Algo me dominou naquele dia e eu não pude controlar, e eu já sabia que ele me traía. Naquele dia, foi como se eu sentisse que ele me devia alguma coisa e tinha que me pegar. Eu já perdoei várias traições do seu pai, mas parece que essa foi a gota d'água.
Cesar e Eusébio se encararam, os dois pensaram a mesma coisa com aquele discurso de Márcia.
— Chegou a hora de contar para ela — calou Cesar.
Márcia secou as lágrimas para não borrar a maquiagem e encarou o filho.
— Contar o que, filho?
Cesar apenas deu as costas, abriu a porta e saiu do quarto, eles precisavam de um tempo a sós, conversariam por longos minutos.
Assim que Cesar trancou a porta, se deparou com a alma de Fagner.
"Obrigado, Cesar" agradeceu Fagner.
— Não foi nada demais — Cesar tentou ser modesto e ele era muito bom nisso.
"É claro que foi, eu gostaria de te recompensar, mas estou morto. Não foi à toa que sempre gostei de você."
— Fico feliz em saber disso... — antes que pudessem continuar o diálogo, o ar vibrou ao redor deles, foi tão intenso que a madeira da escada rangeu, depois a visão de Cesar voltou ao normal. Ele estranhou e tentou despertar o seu dom novamente, conseguiu, mas não viu mais o Tio Fagner. Procurou e não teve respostas.
Pareceu que se foi para sempre, agora poderia ficar tranquilo. Foi para a sala, se sentou ao lado de Talita no sofá e respirou como se estivesse descansando de um trabalho árduo.
— O que houve? — questionou a garota.
— Depois eu te dou detalhes — avisou o rapaz.
— Certo.
O velório duraria a madrugada inteira, Eusébio e Tia Márcia demoraram uma hora dentro do quarto. Assim que apareceram, ambos estavam com uma aparência de que havia chorado muito e o pessoal na sala imaginou que estavam a vivenciar o momento a sós, ou precisavam de um tempo juntos.
Em seguida, Tia Márcia, Eusébio e Larissa discursaram sobre a morte de Fagner, foi um momento de pranto, pelo menos, pareceu que as dores e as mágoas foram lavadas para longe. Cesar até mesmo usou o seu dom para ver se a alma daquele homem ordinário ainda estava por ali, mas entendeu que ele, literalmente, foi embora.
Eram duas horas da madrugada quando Talita insistiu que fossem para casa, o enterro começaria às sete horas da manhã e eles tinham muito o que fazer.
— Cesar, depois você vai me contar tudo o que houve — disse Talita antes que saíssem.
Eles não poderiam conversar sobre aquilo com o Leandro presente.