Enquanto o Cesar dirigia, Naty se distraía com o passeio a olhar às ruas pela janela do automóvel e Layra contava quantas cartas existiam dentro da bolsa. Tainara decidiu puxar um assunto com Talita, pois, estava sentada ao lado dela.
— Estou muito emocionada, nunca pensei que algum dia eu iria para Dorbis.
Talita conheceu a Tainara através do Cesar, ou seja, estava um passo à frente dela, imediatamente entendeu que a partir daquele assunto, ela tentaria saber se ela e o Cesar estavam namorando ou não.
— Posso imaginar que a sua mãe nunca permitiu — disse Talita para entrar no jogo dela.
— E minha vó nunca se intrometeu como fez hoje, sempre disse que a minha hora não havia chegado.
— A sua vó é maravilhosa.
— É sim... — Tainara coçou a cabeça e ficou nervosa para procurar uma maneira de mudar de assunto. — Há quanto tempo que Cesar está com vocês?
— Não sei dizer, devia saber já que eu o encontrei primeiro, me perdi no tempo desde... — Talita se aproximou para sussurrar. — O primeiro beijo.
Ela percebeu Tainara arregalar os olhos e lançar-lhe um sorriso amarelo, não ficou nada contente e ela entendeu isso na mesma hora.
— E agora... Vocês estão... Namorando? — Tainara fez o possível para não parecer nervosa e o sorriso irritante no rosto de Talita a deixava desconcertada.
— Eu só o beijei porque ele me pediu em namoro.
— Ahhh! — a exclamação de Tainara soou tão desprovida de graça que não foi mais falso porque ela não permitiu que fosse. — Que bom, parabéns.
— Olha, eu soube que vocês namoraram, espero que não fique um clima estranho entre nós...
— Não... — Tainara bufou e deu de ombros como se aquilo não fosse importante. — Foi passado, a gente terminou — ela arriscou em dizer uma coisa para saber qual seria a reação de Talita, a nova namorada do seu ex-namorado. — Imagino que você já saiba.
Talita virou o rosto para o lado oposto, como se tivesse a se distrair com a rua assim como a Naty, e falou:
— Com certeza.
A ex-namorada de Cesar ficou boquiaberta e olhou para Talita com as sobrancelhas arqueadas, não acreditou na hostilidade e ousadia daquela menina baixinha que era a versão melhorada dela.
Tainara estava disposta a fazer duas coisas: magia com as Prodígios e reconquistar o amor que ela própria perdeu.
Chegaram ao local, Cesar estacionou o carro e desceram apenas Layra e ele. Lembrava-se perfeitamente de tudo o que ocorreu no primeiro dia que entrou ali e os seus olhos se encheram de lágrimas quando pensou no menino Rafael.
"Que ele esteja feliz" pensou.
— Está tudo bem? — perguntou Layra ao sentir a sua tristeza.
Ele secou as lágrima e respondeu que estava bem, apenas uma lembrança o emocionou. Entraram finalmente no estabelecimento.
De primeira, encontrou a garçonete qual foram atrás a procurar.
— Olha ali — apontou Cesar —, é ela.
— Aquela criança? — indagou Layra ao ver a jovem n***a, era magra e pequena, possuía s***s tão pequenos o que a enquadrava em estereótipos, porém, o seu comportamento denunciava que se tratava de uma mulher, mesmo muito jovem.
— Ela não é uma criança, só aparenta, é p******o contratar menores para os serviços prestados aqui, tem muito cigarro e muita bebida. — Aquele comentário soou estranho e Cesar reformulou: — Ela só serve as mesas. De qualquer forma, há bebidas e cigarros, um ambiente nada propício para uma criança trabalhar.
Eles se aproximaram dela quando ela abria com agilidade uma garrafa de cerveja para uns clientes.
— Com licença — disse Cesar e a garota virou-se imediatamente.
— Oi, posso ajudar? — ela olhou para Cesar e apertou os olhos, pois, havia o reconhecido.
— Sim, mas antes, me diga o seu nome.
— É Gisele — a garçonete não estava entendendo a abordagem daqueles dois e ficou um pouco assustada. — Se vieram me cobrar o dinheiro daquelas calcinhas eu já falei que só vou poder pagar amanhã.
Cesar segurou uma risada.
— O quê? Não... — Layra abriu a bolsa e entregou para ela um papel selado. — Precisamos da sua ajuda.
A garçonete Gisele pegou o papel desconfiada.
— É um recibo? Também só vou pagar amanhã. A luta do p***e acontece a cada hora.
Cesar não resistiu e se entregou aos risos.
— Abre logo, e deixa as suas contas com a gente que a gente paga — disse ele totalmente à v*****e com aquela garota.
— É sério? Quem são vocês? — ela se empolgou com o comentário de Cesar e quebrou o selo sem mesmo analisar a figura esboçada.
Assim que começou a ler, foi mudando o seu semblante de séria e cansada para radiante e feliz. Ela gritou e deu um pulo, o que chamou a atenção dos fregueses.
— Sim, sim, sim — repetiu a garota bastante agitada. — O meu pai estava certo. Um dia, alguém de lá iria me enxergar e mudar a minha vida. Com certeza eu estou dentro.
— Que bom — Disse Layra aos risos.
— Agora que estou percebendo que você está falando em outra língua.
— Então, quando você pode ir para a minha casa?
— Pode ser agora?
O momento delas foi interrompido quando um homem de meia idade e com cara de fumante ativo há muitos anos apareceu a reclamar:
— Hei! Gisele, o que está acontecendo aí? Volte ao trabalho — era o gerente do estabelecimento.
Gisele se virou revoltada, arrancou o avental e o rumou na cara dele.
— Cala a boca, seu i****a, eu me demito — e se retirou dali da maneira mais dramática a puxar os seus novos patrões para longe dele. — Eu sempre quis fazer isso — falou a segurar uma risada.
Já o gerente, envergonhado, principalmente por os clientes terem gargalhado e batido palmas, gritava com a garota a chamá-la de "preta desaforada".
Entraram no carro, houve saudações e apresentações. Gisele teve que se apertar nos bancos de trás com as outras, ela e Tainara eram mais magras, então não ficaram muito desconfortáveis. Cesar ligou o carro e partiram dali, quando Talita perguntou:
— Para onde estamos indo agora?
— Vamos para a casa dela — respondeu Layra a apontar para a recém-chegada. — Resolver uns assuntos para ela.
Gisele não morava em Salvador, morava numa cidade metropolitana chamada Candeias, era um lugar nada desenvolvido comparado à primeira Capital do Brasil. Demorava, basicamente, uns trina minutos para chegar lá.
A garota fez o mesmo que Tainara, se resolveu com a família, demorou bastante, e voltou com uma bolsa preta e surrada pendurada no ombro direito.
— Vamos? — disse Gisele.
— Demorou para convencê-los? — indagou Cesar quando a menina entrou no automóvel.
— Quem disse? — negou a ex-garçonete. — Eles se convenceram bem rápido, o problema é que eles conversam demais. Só precisei mostrar o dinheiro que vocês me deram e eles praticamente me botaram para fora. Cansativo é ser p***e — disse com graça.
Antes de partirem, um casal apareceu na janela do andar de cima, apenas para olhar, nem sequer deram um adeus.
No caminho de volta para casa das Feiticeiras Prodígios, Naty conversava com a Tainara enquanto Talita conversar com a Gisele.
— Quer dizer que os seus pais falam demais — reafirmou Talita as palavras de Gisele.
— Com certeza — disse Gisele, bem simpática. — Na verdade, a mulher é minha mãe de verdade. Biológica que fala, não é? Enfim, o homem que mora com ela é meu padrasto. Eles não me deixam fazer nada, me querem trancada dentro de casa toda hora. Não posso sair, não posso chegar tarde e eu já sou maior de idade, ouviu!? Eu sei que eu moro na casa deles, mas eu não posso ficar sufocada assim. E a minha saúde mental?
— Vixe! Que contraditório. Você trabalha tão longe, e agora vai estar mais longe ainda, e eles deixaram.
— Sim! Mas se e o assunto for dinheiro, para eles não terá nada para me impedir de sair, eu só não posso me divertir, me distrair, sair para rir com os amigos, não sei o que se passa na mente deles. Estranha é a vida do p***e.
Talita sorriu.
— Onde está o seu pai biológico?
— O meu pai, mora em Salvador, ele quem arranjou esse emprego para mim, eu só venho para cá dias de segunda, terça e quarta. Quinta, sexta e sábado é outra menina, às vezes a gente trocava alguns dias para cobrirmos o expediente uma da outra quando a gente precisava sair.
— Aposto que o seu pai é feiticeiro.
— E acertou, ele me ensinou tudo sobre feitiçaria e magia.
Talita ficou um pouco emotiva.
— O meu pai era feiticeiro também. Infelizmente ele morreu quando eu era criança, nesse caso, cresci sem saber de nada. Na verdade, eu só descobri quando Asqueva, uma integrante das Feiticeiras Prodígios, me encontrou por acaso e me falou, só aceitei minha condição depois que vim para cá. Aprendi muito aqui.
— Sinto muito, eu perdi uma prima, não sei se é a mesma coisa, mas perder um ente querido dói demais.
— Sim! — respondeu Talita, mas ela pensou em falar sobre outra coisa para afastar aquele clima fúnebre. — E então, tem algum dom?
— Olha, o meu pai disse que eu tenho o dom da leitura.
— Eu também, na verdade, eu tenho vários dons — gabou-se Talita.
— Como assim? É possível? Achei que só se podia ter um.
— Na verdade — intrometeu-se Naty —, pode se ter até sete dons, porém, é impossível usar dois ao mesmo tempo.
— Você tem quantos? — Gisele perguntou a Naty.
— Tenho três, inclusive o da leitura também. Estou praticando muito pra chegar no estágio avançado deste dom, é super difícil.
— Gente, todo mundo tem o dom da leitura é? — questionou Gisele. — E o que acontece no estágio avançado?
Talita fez questão de responder, precisava mostrar que sabia do que ela estava a falar.
— Você consegue ter a capacidade de ler o seu futuro ou a sua sorte.
— E como faço pra chegar nesse estágio aí? — perguntou Gisele entusiasmada.
— Olha: estudar magia, praticar magia, subir de grau de magia.
— Tomara que eu consiga.
— E o que tem aí na bolsa? — perguntou Tainara para participar da conversa.
A garota Gisele sorriu para ela sem mostrar os dentes, abriu a bolsa e mostrou vários cosméticos femininos, produtos de beleza e limpeza de pele.
— Aqui estão as minhas sobrancelhas, meus cílios, minha boca, minha cara, meu cabelo...
Enquanto Gisele falava, Talita ria sem parar, uma nova amizade floresceu entre elas.
Tainara apegou-se mais a Naty que era mais calma, menos agitada, parecia estar sempre em torpor, mas era apenas o seu jeito de ser. Se identificou mais. Também, não queria muita i********e com Talita, era o único obstáculo que a impedia de ter o seu amor de volta.
Cesar estacionou o carro no muro da casa das feiticeiras. Layra foi quem abrira a porta de metal para as outras entrarem.
— Quero ver como você esconde esse carro — disse Cesar para a porta-voz.
— Eu faço isso pela noite, quando ninguém está vendo. É difícil passar pelo Véu Do Abstrato, senão eu faria isso a qualquer hora, mas esconder o carro na Quarta Dimensão durante o dia é r**m, pode haver muitas testemunhas.
Talita e Naty foram levar as recém-chegadas para apresentarem-nas às demais meninas a pedido da porta-voz.
— O que é esse Véu aí? — quis saber Cesar quando estavam no gramado.
— O Véu do Abstrato é um termo que damos para a passagem semelhante ao movimento de um véu que nos esconde na segunda dimensão, onde ficamos invisíveis como fantasmas, no entanto, ainda somos palpáveis — respondeu Layra ao trancar a porta. — A nossa matéria é ocultada pela Realidade, ou seja, quem está de fora n******e nos ver nem nos ouvir, porém, pode nos tocar, pois, toda matéria ocupa espaço. É super difícil atravessar o Véu. Uma das nossas conseguia com proeza, a Asqueva era muito poderosa e cheia de dons.
— Onde ela está?
— Asqueva? Ficou para trás de propósito quando viemos para cá antes de os Vinte e Quatro Anciões bloquearem os portais interplanetários. Espero que ela esteja bem.
— Estou entendendo. E é lá atrás do Véu que você esconde o seu carro?
— Não, o Véu não serve para isso, apenas para ocultar feiticeiros, fora a questão da sustentação do encantamento, se você não resistir, você acaba se revelando. Eu o escondo na quarta dimensão em termos dorbianos, onde nenhum feiticeiro ou feiticeira com grau elevado a sete ousa ir, mesmo com um bastão, é mais fácil esconder objetos ou coisas. Em Dorbis, muitos pais feiticeiros das trevas escondem os seus filhos com magia das trevas lá para não serem desmagnificados. É um procedimento seguro que mantém o seu filho seguro da maldade enquanto ele tiver o grau sete de magia.
— Creio que estou entendendo.
Antes que continuassem, uma das prodígios apareceu a caminhar ao encontro deles. Ela era muito magra, poderia ser julgada anoréxica se não parecesse tão saudável.
— Terza, algum problema? — perguntou Layra.
— Não, porta-voz — respondeu a magérrima. — Apenas aproveitei o momento para saber se tenho um tempo para falar com o Cesar.
— Sim, com licença — Layra se retirou de diante deles, eram garotas com muita etiqueta.
— Quer falar comigo? — perguntou Cesar já animado.
— Creio que você quer falar comigo, disseram-me que você deseja saber sobre os Vinte e Quatro Anciões.
***
De volta à sala de reuniões, lugar este que também era espaço para a pequenina biblioteca das feiticeiras, entre outras atividades.
As prateleiras parafusadas nas paredes estavam repletas de exemplares, observou o único rapaz da casa.
Terza prosseguia com o que queria contar.
— Cesar, no meu mundo, um ancião é tratado com bastante respeito e reverência, eles carregam a nossa cultura, a nossa sabedoria, a nossa história, a nossa essência, as nossas raízes. Como você sabe, o nosso poder mágico aumenta de acordo com o grau de magia que nós possuímos, quanto maior o grau, mais poderosos ficamos, e podemos chegar até ao vigésimo primeiro grau, que é o último para quem está vivo, pode se tornar uma pessoa poderosa, porém, nesse caso, vamos envelhecendo até lá. Tem gente que morre de velhice e não chega até ao último grau, ou seja, é um privilégio chegar lá, não mais que um Potensis, que ganha o último grau sem muitos estudos e práticas. Sabe o que é um Potensis, não é?
— Uma pessoa mágica que foi abençoada com o dom do Poder por uma das Criaturas Primevas.
— Exatamente, o problema de ser um Potensis é que ele nunca terá a chance de se tornar parte da Ordem dos Anciões, nunca terá a chance de passar do último grau. Quando um ancião chega até ao último grau de magia e continua a praticar magia, ele pode conseguir ultrapassar esse limite, qual chamamos de Grau Vinte e Dois. Ao aumentar para o vigésimo segundo grau, ainda vivo o ancião se torna parte do Universo, o seu corpo se torna uma matéria e translúcida, de uma cor azulada, como nas suas visões. Eles não estão mortos, mas também não estão vivos. E por serem parte do Universo, eles têm a capacidade de mexer com a Magia em si e afeta todo o nosso mundo. A magia que nós podemos fazer aqui é permitida pelos Anciões. Vou te dar um exemplo: se eles decidirem bloquear a Magia do Porvir, não haverá nada que possamos fazer para prever o futuro, o que já é uma tarefa difícil. Sabemos que existem outras maneiras de burlar esse bloqueio, mas é super difícil e perigoso, muitos morrerem por causa disso, chamamos de Clandestino.
— Os Anciões são eternos?
— Sim, e são comparados aos Immortalis, mas com bastantes diferenças. Embora um Immortalis não possa mexer com a Magia Universal, ele pode viver para sempre com o resto da humanidade, enquanto os Anciões estão fadados a viverem eternamente na Organização, uma instituição localizada em Sabanthera, um dos oito continentes de Dorbis. Quando surge um novo Ancião Grau Vinte e Dois, o mais velho da Organização vai para o Além, portal qual eles próprios abrem, para dar lugar ao outro. Eles ensinam aos feiticeiros o caminho da Sabedoria e da Ordem, é óbvio que se você for um Sapiensis, não vai precisar dos conselhos deles.
— Eu entendi sobre a questão dos Anciões Grau Vinte e Dois, mas agora, me fale sobre a benção dos Primevos, fiquei bastante interessado. Um Immortalis n******e ser morto? No começo, o pessoal aqui estava pensando que eu era um immortalis, não sei como provar que não sou.
— Na verdade, é um termo um pouco contraditório — Terza explicou: — Quando alguém é abençoado com a imortalidade, o seu corpo se torna como o dos Elfos, imperecíveis, ou seja, o corpo não envelhece e não morre como é a nossa natureza, porém, podem ser mortos sim, para ser mais específica, assassinados, ou destruídos, por exemplo: feridas e machucados e doenças não podem m***r um immortalis, nem mesmo envenenamento, também, nem todas as armas o matam, precisa ser por uma a**a feita do Ouro ou da Prata da Ilha de Noveanor, e é necessário que golpeie no coração ou no cérebro para matá-lo, e se certificar de que todo o sangue escorra, senão, o Immortalis pode ser salvo por outra pessoa. Ainda assim, o corpo continua imperecível, mas pode ser destruído, esquartejado e queimado por muitos graus Celsius. Entendeu? A morte de um immortalis é provocada, não acontece de maneira natural como nós comuns.
— Muito interessante. Eu tenho uma pergunta: existe uma maneira de você ter o seu corpo imperecível e indestrutível?
— Existe, quando você é abençoado por outro Primevo, mas não sei se devo contar.
— Ah, não! Conta, por favor, conta — implorou Cesar.
— Tudo bem, mas se você sentir dor de cabeça eu paro — a simpatia de Terza era arrebatadora. — Quando você é abençoado de maneira complexa pela Grande Serpente, o seu corpo se torna indestrutível, você pode envelhecer e morrer como é da natureza, mas nunca adoecerá, e se for ferido, se curará sozinho e bem rápido. Para você ter seu corpo imperecível e indestrutível, você precisa ser abençoado pelos dois Primevos, o da Cura e o da Imortalidade, nada pode te m***r, nem mesmo uma a**a feita do Ouro ou da Prata da Ilha de Noveanor. É extremamente raro isso acontecer, mas não é impossível.
— Que demais, regeneração acelerada — admirou-se o rapaz. — Por que ouvi dizerem que a cura não te impede de ficar doente de novo?
— Kuraĝa cura de duas formas, a simples e a complexa. Na forma simples, ela te cura de doenças, feridas, problemas físicos e mentais, tanto que o Reino de Ic é considerado como a população mais perfeita do mundo mágico, quando a Grande Serpente está no castelo, muita gente aparece para ela curar de algum m*l ou problema, é divertido de se ver. De qualquer maneira, a pessoa pode adoecer novamente, pode se acidentar novamente, adquirir outros problemas, nesse caso, ou a pessoa procura uma maneira de resolver, ou fica por isso mesmo, ou espera a Grande Serpente aparecer outra vez, e ela demora tanto que você nem sabe se ela ainda existe. Por fim, há a forma complexa de a Primeva conceder a cura, te torna imperecível como um Immortalis, porém, você não contrai doenças, não sofre por acidentes fatais, uma espada n******e te m***r, é o sonho de todo mundo ter está benção, contudo, no final, acaba morrendo de velhice, pois as suas células oxidam apesar de se regenerarem bem rápido, é complexo mesmo até de se explicar. Isso nos mostra que no final, tudo o que é vivo morre.
— Uau! — exclamou Cesar bastante intrigado, ele leu algumas coisas, mas pareceu que nem tudo estava escrito nos livros. — Me diga, é verdade que todo abençoado perde uma coisa importante?
— É muito verdadeiro isso, o problema de ser um Immortalis é que o abençoado não sente mais o tato, a sensibilidade s****l, entre outros aspectos afins. O Rei Ic fez inseminação para ter as filhas, acredita? Não sei o que deu nessas meninas em pensarem que você era um Immortalis, os sintomas da benção aparecem com o tempo, mas no seu caso, já era para terem se manifestado, você pode ser um Potensis. Ninguém falou isso?
— Não.
— Enfim, o bom de ser Immortalis é que você pode escolher não ir para o Além se não quiser, pode ascender ao céu e viver eternamente como uma estrela. Há um ritual que dizem que podem trazer de volta um ascendido, mas como um humano comum, sem magia mesmo. Isso somente se a estrela quiser, fora que elas só podem se comunicar com os Anciões, e eles nunca aprovam um retorno.
— E qual é a perda dos outros abençoados?
— Não sei de todos, mas sei que um Sapiensis perde as suas melhores emoções, se torna incapaz de amar e ser amado, entre outros coisas. Também sei que um Ressurgentis se torna estéril, nada no mundo poderá fazê-lo gerar um filho, a vida lhe repudia, mas a morte se torna sua amiga, complexo isso também.
— Acho que eu seria um Ressurgentis de boa — brincou Cesar.
— Eu também seria se apenas esse fosse o caso, é que quando você ressuscita, ou ressurge dos mortos, você perde o dom da vida, e você sente a falta, e por sentir falta, sente d****o, um d****o que jamais será realizado. Alguns disseram que você sente que não tem mais propósito em viver, que você tem plena consciência de que existe apenas por existir.
— Agora me pareceu desvantajoso. Você não me disse sobre o que recebe a benção da cura.
— Um Saneturis, o que recebeu a cura de forma complexa, vive até os setenta e três anos, depois morre. Todos os Saneturis registrados morreram com essa idade. Os outros abençoados, não sei.
— Vixe! Que sinistro.
— É um preço a ser pago, Cesar, e você só recebe a benção se quiser, exceto quem foi ressuscitado, a não ser que tenha combinado antes com alguém para invocar o Primevo da Ressurreição. Cesar, agora que cheguei até aqui, preciso te contar outra coisa: cada Primevo tem a sua maneira e seu critério para abençoar, no entanto, todos aceitam um Sacrifício Excelso.
— E qual é?
— Pode parecer c***l, mas todos aceitam uma pessoa viva em troca da benção.
— Meu Deus, como assim? — Cesar ficou com os olhos esbugalhados.
— Não fique horrorizado — apressou-se Terza em dizer. — Deixe eu te explicar, apenas dois tipos de pessoas são apresentadas aos Primevos para serem aceitas, uma é impelida e a outra é voluntária. Um Sacrifício Excelso chamado de Impelido são pessoas consideradas de impura índole, nem preciso te explicar o que isso significa, já um Sacrifício Excelso chamado de Voluntário são pessoas consideradas de pura índole. De qualquer maneira, é raro um Primevo aceitar um Sacrifício Excelso, geralmente, eles abençoam alguém que fez algo grandioso e que favoreceu ou favorecerá a humanidade mágica, ou se fizer algo digno, são muitas as circunstâncias. Atualmente, é mais raro vê-los abençoando alguém. Para deixar você mais confortável com essa informação, um impelido ou um voluntário não sente dor alguma só tem consciência de que vai morrer. O que não é raro é ver o Vigla, o Grande Morcego, deixar de m***r, nem me pergunte nada sobre ele, porque eu não sei.
— E eu nem quero saber, já não gostei desse daí.
— Ninguém do mundo inteiro gosta, mas é praticamente adorado no Reino-Império de Umnari, nas terras de Icobax. Ele é o Primevo que habita o Grão-Castelo.
— Menina, você me disse tanta coisa agora que eu acredito que sou incapaz de memorizar.
Terza sorriu graciosamente.
— Não precisa memorizar, você vai ouvir tanto falar sobre tudo isso que futuramente vai estar no meu lugar explicando para outra pessoa.
— Assim eu espero — Cesar limpou a garganta, ele queria perguntar mais uma coisa, mas não sabia se seria respondido da mesma maneira doce e gentil como Terza estava a ser, elas eram garotas inteligentes e poderosas e o intimidavam de certa forma, não mais que Dulca. — Terza, pode me responder uma última pergunta?
— Depois desta? — indagou Terza com graça, e por isso, Cesar não ficou mais tão apreensivo.
— Sim... Olha... Pode me dizer o seu nome de verdade?
— Não deixa Layra saber que te contei, senão ela vai me dar um sermão histórico. O meu nome verdadeiro é Terzavany, sou de Syanastiah.
Finalmente deram fim para aquele diálogo e antes que saíssem daquela sala, Terzavany falou para Cesar que se algum momento ele se encontrar com um Primevo, exceto o Grande Morcego, que ele implore por um Plenário Solene, pois, se julgar digno, Cesar poderá conversar com os Sete Primevos de uma vez a tentar convencê-los de que ele é digno de receber mais de um dom. Cesar pirou com essa ideia, mas Terza o impediu de conversarem mais, outro momento poderiam falar sobre aquilo.
Cesar jamais esqueceria do "Plenário Solene", ele queria ser poderoso, mas nem ele próprio sabia que carregava bastante poder.
Quando Terza abriu a porta, Talita, imediatamente, entrou na sala para pedir ao Cesar que ficasse mais um pouco, ela tinha algo muito importante para falar com ele a mando de Layra, pois, a própria havia recebido uma ligação.