Capítulo 11

3144 Palavras
Cesar leu o livreto quase todo, mais da metade, quando alguém entrou no quarto, ele pensou que fosse a Bris, mas era a Talita e foi o motivo para ele ter se alegrado muito, principalmente porque ela trazia uma bandeja com suco e guloseimas. Ela pôs a bandeja em cima da mesa de centro e se acomodou numa cadeira. — Não gostei dessa brincadeira de estar te servindo como uma empregada, não, ouviu!? Cesar sorriu. — E por que você fica servindo a estas meninas? — Não sabem fazer nada, a vida delas foi estudando para serem as melhores súditas de Zadahtric. Sempre foram servidas e eu gosto de fazer comida, de ajudar. Por enquanto, está tudo tranquilo. — Pensei que vocês faziam comida com magia. — Como assim? Fazer uma comida aparecer do nada? — Sim. Isso não é possível? Talita gargalhou. — Olha, é possível sim, nesse caso, eu não iria criar, eu iria fazer uma transferência, mover uma comida já pronta, de algum lugar, para a minha cozinha. Isso se chama "roubo mágico" se não for um ato permitido pelo dono ou dona, além de ser um protocolo fazer isso, mas eu uso magia, sim, para preparar as refeições, é bem mais honesto e mais fácil. — Creio que ainda tenho muito o que aprender com vocês. — Muito... — disse Talita de maneira prolongada. — Mas, me diga aí, o que você contou para a Bris que ela entrou em uma reunião séria com a porta-voz e a braço-direito? — Falei como o meu dom começou a aflorar... — enquanto comia, Cesar relatava tudo o que havia contado para a Bris de maneira resumida e a cada palavra, Talita se impressionava mais. — Cesar, pelo amor de Deus, você sabe o quanto isso é importante? — Não sei. — Você só pode ser um Immortalis. — Eu não sou isso aí que vocês estão falando. — Como você vai saber? As suas memórias devem ter sido alteradas — sugeriu Talita. — Eu me recuso a acreditar nisto também. O que é um Immortalis? É uma espécie de elfo, híbrido de humano? — Onde você ouviu falar sobre elfos híbridos? Cesar pegou o livro que Bris havia lhe dado para ler, estava atrás dele, e o mostrou para Talita. — Bris quem me deu para ler. — Hei! — Talita protestou e arrebatou o livreto da mão dele. — Naty fez esse livro com muito carinho, e magia, para mim. — Calma aí, ciumenta, ela só me deu para ler enquanto passava o tempo. — Sou ciumenta mesmo. O quanto você já leu? — Quase todo. Faltam as últimas páginas que começavam a falar sobre Animacaes, só deu para eu ler um pedaço — Cesar olhou para o relógio na parede. — Nossa! Nem me dei conta de que se passaram quase três horas. — Menino, você lê rápido, hein!? Eu demorei vinte e quatro horas para terminar. Como consegue armazenar tanta informação assim? Cesar deu de ombros. — Amo muito ler. Talita suspirou e entregou o livro para ele. — Toma, pode terminar de ler, só me devolva inteiro, certo!? — Opa! — Cesar pegou o livro com muito apreço. — Pode deixar — ele terminou de tomar o seu suco e, desajeitadamente, deixou que algumas gotas caíssem na capa. — Ops! — exclamou aflito com a reação de Talita. Ela apenas olhou para ele de soslaio e se levantou para pegar o livro, mas Cesar foi mais rápido e esticou o braço para trás para ela não alcançá-lo. Estavam a brincar e a rir quando Layra, Naty e Bris entraram no quarto e encararam os dois naquela i********e que nenhuma delas tinha. Talita ruborizou e ficou de pé, de frente para elas. — Eu só vim... — ela se ajeitou e tentou se explicar, mas nada saiu. — Com licença — andou até a porta, porém, foi impedida por Layra que a fechou imediatamente. — Agora que já está aqui, fique — disse Layra, e sutilmente, piscou um olho para Talita. Talita sorriu e afirmou com a cabeça, ficou surpresa, na verdade, depois se sentou na cadeira qual estava sentada antes. As outras fizeram o mesmo a sentarem-se no sofá maior. — Muito bem, Cesar — iniciou Brisanctis a conversação —, as meninas e eu conversamos sobre você e o que relatou para mim, desculpa a demora, é que precisávamos peneirar todas as sugestões que possivelmente poderiam explicar o seu dom. Eu ainda penso que você é um Immortalis. — Gente, o que é um Immortalis? — indagou Cesar já incomplacente. — Ninguém explicou ainda? — questionou Naty. — Já vi que vou ter que traduzir outro livro. É muito cansativo, mas vou fazer isso. — Se estivesse escrito em dorbiano, quem sabe ele poderia ler por causa da Língua Universal, mas ficamos com textos em latim, os meninos que ficaram com os textos em dorbiano — disse Layra com aversão. — Parece que estamos progredindo mais que eles, os superestimados. — Vou responder a sua pergunta, Cesar — continuou Naty. — Um Immortalis é o nome que se dá a alguém que foi imortalizado por uma entidade. No nosso mundo existem sete animais gigantes chamados de as Sete Criaturas Primevas, cada uma concede uma benção que feitiço ou dom nenhuma pode dar: o poder, o desdobramento, a cura, a ressurreição, a sabedoria, a imortalidade e a morte, esse último não é considerado benção, óbvio, mas sim, punição. Esses seres são entidades enviadas há muitos séculos pelos deuses quais chamamos de Trealtas para ajudarem a humanidade, eles eram como espíritos, depois encarnaram como animais e por último ganharam nomes para que o acesso a eles fosse mais pragmático. Por serem palpáveis, decidiram montar a base deles em Umnari, continente dos sete reinos do Império de Icobax, tanto que cada reino abriga um Primevo e as suas imagens estão gravadas nas moedas, entre outras coisas. Enfim, cada pessoa que foi abençoada por uma Criatura Primeva recebeu antonomásia para identificação: um Immortalis é aquele que recebeu a imortalidade, um Potensis recebeu o poder, um Transcendentis recebeu o desdobramento, um Resurgentis recebeu a ressurreição, um Saneturis recebeu a cura e um Sapiensis recebeu a sabedoria. Não há um nome dado para quem recebeu a morte, pois, qualquer um que foi morto pelo Primevo n******e mais ser ressuscitado, assim como quem foi ressuscitado n******e ser morto, somente por causas naturais, diferente de quem foi imortalizado, não morre de causas naturais, a sua matéria não prece como a nossa, às vezes ele pode entregar a própria imortalidade por algo julgado ser maior, mas geralmente eles escolhem virar estrelas. — Uau! — Cesar se calou por uns segundos. — Agora, eu fiquei curioso com uma coisa que a porta-voz falou. Por que eu poderia ler e entender um texto em dorbiano e não em latim? — questionou Cesar. — Porque dorbiano é uma língua viva, enquanto que o latim é uma língua morta, apesar de ainda ser falada neste mundo. A magia universal que se manifesta em nós, feiticeiras e feiticeiros, nos permite entender todas as línguas de uma comunidade falante de todo o nosso Sistema Solar. — Olhe, eu sei que o latim é uma língua morta, eu estudei sobre isso, eu até li muito sobre, ela foi quem deu origem à minha língua, mas por que vocês estudam latim também, se não tem nada a ver com o mundo de vocês? — Você não sabe, caro amigo — disse Naty —, a língua que deu origem ao latim, a indo-europeia, é derivada da língua dorbiana, modificada pelos ancestrais de Dorbis para poderem fazer magia na Terra. — O quê? — aquela informação bagunçou a mente de Cesar. — Sim, e ela morreu justamente porque os Vinte e Quatro Anciões descobriram e a cancelaram. Não puderam remover a magia na língua, mas não permitiram que se propagasse para as línguas derivadas, a sua e mais outras. As línguas mais antigas foram usadas para praticar magia. — Isso é... Inacreditável. — Você não imaginava o motivo de usarem tanto o latim para fazerem magia — disse Bris. — Não é? — Na verdade, sempre aprendemos que a magia não existe, ou nunca existiu. — E por isso que o cosmos tem pouquíssima conexão com este mundo, a quarta dimensão está extremamente distante da terceira — falou Naty. — Acreditar é uma das virtudes mais antigas e poderosas dos tempos, a falta da credibilidade afasta a magia, pois, crer é a cautela oculta. Para praticar magia, tem que, acima de tudo, crer. — "Terceira e quarta dimensão" — recobrou Cesar. — Isso é física quântica? — É sim — afirmou Naty, depois o olhou com curiosidade. — Como você é inteligente, Cesar. Espero ter a oportunidade de falar sobre isso com você mais tarde. — Obrigado, e eu também espero. — Eu já não sei mais sobre o que vocês estão falando — disse Layra e as outras concordaram. — Vamos logo ao que interessa, o dom de Cesar. — Enfim, Cesar, nós vamos precisar um pouco do seu sangue para explorar a sua genealogia e descobrir quem da sua família tem, ou tinha, magia — avisou Bris. — Porque, se você não for um Immortalis, pode ser um Escolhido dos Trealtas para se tornar o Sumo-Sacerdote. — Sumo-Sacerdote? — indagou Cesar. — Sim. Lembra dos Trealtas? Então, esses deuses não se revelam para ninguém a não ser para alguém que eles escolherem para representá-los. — Existe um problema com as nossas hipóteses — disse Layra. — Para se tornar um Sumo-Sacerdote, você tem que ser dorbiano e tem que passar um período da sua vida vivendo com o Sumo-Sacerdote atual para ver se será aprovado pelos deuses e assim, começar o processo para o sacerdócio, além de possuir o dom do Escolhido qual não sabemos, mas pode ser o seu. Você está entendendo, rapaz? — Por enquanto estou conseguindo acompanhar — respondeu Cesar. — Agora, eu tenho certeza de que não sou um Immortalis, e pelo visto, não posso ser um sacerdote também. — Já aconteceu de um feiticeiro se apresentar para o Sumo-Sacerdote a dizer que era escolhido sem precisar passar pelo processo de aprovação, às vezes, você já nasce sendo quem é no futuro. Mais tarde descobriremos sobre você — assegurou Bris. Ela pegou uma agulha e pediu para que Cesar estendesse a mão, iria espetar o seu dedo e coletar um pouco de sangue. Ele obedeceu sem pestanejar. Assim que Bris espetou o dedo de Cesar, rapidamente, uma pequenina bolha de sangue se formou e Naty apertou para que caísse uma gota num pequeno fraco de vidro com um líquido transparente que se tornou carmesim. — Como vocês vão fazer isso? — quis saber Cesar. — Eu quero ver. — Zera é a responsável pelo encantamento — respondeu Layra. — É magia das trevas, magia com sangue, somente ela pode fazer. — A loirinha? — Cesar, elas não têm o costume de se referirem às pessoas no diminutivo — advertiu Talita. — Ops! Foi m*l, mas me digam, a loira é feiticeira das trevas? — as outras confirmaram. — Vocês não têm medo de ela se voltar conta vocês, tipo, trair? — Ela é uma das servas mais leais de Zadahtric — explicou Layra. — As trevas nem sempre representam a negatividade em nosso mundo. Ser das trevas não significa ser do m*l, as trevas é apenas diferente da luz, o antônimo, e ambas são necessárias para que haja equilíbrio no Universo. — Ahhh! — Cesar exclamou a sua compreensão. — Havia outra garota das trevas no nosso g***o — prosseguiu Layra —, ela era muito boa. Ainda não sabemos o que aconteceu com ela. Quando fomos embora, antes de vetarem a permissão de portais no Reino de Ic, ela ficou para trás. O nome dela é Asqueva. — Aquela vaca — sussurrou Talita, mas puderam ouvi-la e encararam-na. — Me desculpem. — Talita, você já explicou que o que passou com ela não foi nada agradável, mas segundo os seus próprios relatos, se nada daquilo houvesse acontecido, você não estaria hoje conosco. — É verdade, mas ela não deixa de ser uma vaca. — Talita, essa vaca quem você tanto se refere de maneira pejorativa é uma das Prodígios mais astutas do Castelo, quem sabe do Reino. A rainha gosta muito dela. — Eu sei que você e a Naty também gostam dela, mas ela é manipuladora, a magia dela comigo não funciona. — Vamos encerrar este assunto, certo!? Naty, já pode enviar o frasco para a Zera e depois de vários dias vamos saber sobre a genealogia de Cesar e finalmente vamos saber o que ele é além de ter um dom muito avançado para a idade qual não temos certeza que tem. Amanhã, Bris, se empenhe, você vai ensinar o Cesar a usar o dom dele com eficiência, ele vai localizar feiticeiros das luzes para a gente, como ele, neste mundo está repleto de Feiticeiros Oprimidos, podem ser muito úteis para a gente. Hoje à noite se prepare — ela disse diretamente para Cesar —, vou te explicar os nossos planos. A reunião foi encerrada e as outras saíram a deixarem apenas o Cesar e a Talita sozinhos, novamente, e se encararam por longos segundo. — Meu livro — cobrou Talita. *** Cesar foi para a sua casa, voltaria às sete da noite para a casa das feiticeiras, havia muito o que aprender. Era final da tarde e toda a família estava reunida, entretanto, Cesar m*l chegou e foi cochilar na sua cama para que na hora que fosse se encontrar com as meninas, estivesse com mais disposição. Faltavam trinta minutos para as sete horas. Enquanto os irmãos, na sala, comiam e assistiam a televisão ao mesmo tempo, Seu Cosme conversava com Cesar. Estavam encostados na janela. — Meu filho, por que não me contou que aceitou a proposta de ser modelo? Cesar arregalou os olhos. Apesar de Talita ter inventado uma desculpa bem convincente, ele não entendia nada sobre aquilo. — Olha, pai, vou ser sincero. Não entendo nada sobre isso. Eu queria ser jogador de futebol e ainda quero, mas também, preciso trabalhar, preciso de dinheiro, de uma independência financeira. Eu não posso ser sustentado pelo senhor para sempre. A agência de modelos qual Talita trabalha vai me pagar muito bem, fora as viagens para o exterior, vai ser muito legal. Ele jamais mentiu daquela maneira para o seu pai, queria contar toda a verdade, contudo, sabia ele que poderia ser arriscado, fora Seu Cosme abominar qualquer conversa que abordasse feitiçaria por ser um homem muito religioso. Seu Cosme olhou para a rua banhada pela noite e suspirou. — Filho, eu estou feliz por você, e saiba que também estou muito orgulhoso, independente das suas escolhas, mas preciso confessar que nunca quis que você fosse jogador de futebol, não profissional, e depois do que você contou, temi por você. Temi que algo pior lhe acontecesse. — Eu não entendo, pai. Por quê? — Porque não é uma profissão muito decente. Você joga bola, fica famoso, ganha muito dinheiro. É difícil não se corromper. — Pai, vamos encontrar a corrupção aonde quer que formos. Até mesmo na igreja. — Tudo bem, filho, eu entendo, mas há caminhos que já sabemos para onde levam. — Por que o senhor colocou os nomes dos seus filhos em homenagem aos jogadores da seleção brasileira da década de oitenta? — nem mesmo Cesar sabia por que estavam a discutir sobre aquilo. — Não foi bem uma homenagem, e isso foi há mais de vinte anos, eu tinha outra mente. Tanto que fiz o que fiz com a sua mãe. — Pai, se eu te perguntar sobre isso, o senhor vai se chatear? — Não — Seu Cosme não hesitou em respondê-lo, disse da maneira mais tranquila. — O que aconteceu para o senhor ter traído mainha? — Sinceramente, nada. Não houve motivos, de certa maneira. Talvez, por isso ela não consegue me perdoar — ele respirou fundo. — Vou contar o que houve: A mãe de Adriana tinha me chamado para consertar a pia da casa dela e eu fui, mesmo sabendo que ela não se dava bem com a sua mãe, mas era minha vizinha há muito tempo. Ela tinha me implorado para ajudar e disse que seria rápido, eu fui e ela simplesmente trancou a porta e tirou a roupa, depois tirou a minha e eu deixei que tudo acontecesse. Poderia ter evitado, afinal, ela havia bebido e terminado um relacionamento naquele dia. Tudo podia ser evitado, tanto que ambos se envergonharam um do outro no dia seguinte. Depois de um mês, ela me contou que estava grávida e não queria o bebê. Eu pedi para ela deixar para mim que eu tomaria as providências para cuidar da criança. O resto da história você já sabe. — Por que nunca nos contou sobre isso? — Isso é muito vergonhoso e frustrante para mim, não sabe como me dói ter que tocar nesse assunto uma hora ou outra. — Então, deixa para lá, não quero que o senhor fique desconfortável. E aí? Os outros, provavelmente, ainda não sabem sobre a minha nova profissão, não é!? Senão já estariam me falando meio mundo de coisas. Seu Cosme riu. — Sim, os seus irmãos são abusados, mas eu prefiro revelar quando você estiver de viagem. — Talita te contou para onde a gente vai e quando? — Não, ela disse que provavelmente vocês vão para a Itália, mas a data de partida é imprevisível. — É exatamente isso — Cesar falou sem graça alguma, não gostava de mentir, mas parecia ser necessário. — Pai, tem certeza que tenho a sua benção para partir? — Sim, meu filho. Por que não? Se você não estiver seguro disso, pode desistir quando quiser. Estaria aqui para te apoiar sempre. — Obrigado, meu pai — ambos se abraçaram de maneira efêmera, não era uma despedida. Cesar ajeitou os óculos e olhou as horas no seu relógio de pulso. — Ainda faltam dez minutos para as sete, eu vou comer alguma coisa. — Vá, aproveite e lave os pratos que você e a sua namorada deixaram, ninguém teve coragem de lavar — ele disse de maneira bem audível para os outros ouvirem. — Cada um lave o seu — gritou Adriana e Seu Cosme pôs-se a rir. — Não sou obrigada a lavar o prato que a namorada de Cesar sujou. — Gente, ela não é a minha namorada — avisou Cesar. — É, sim — intrometeu-se Waldir. — Cala essa boca, i****a — brincou Cesar. — "Cala a boca" já morreu, quem manda na minha boca sou eu — recitou Waldir. — Meu Deus! — exclamou Adriana. — Parecem duas crianças.
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