Em Uberlândia, Valéria, Sarah e Alejandro estavam a conversar numa casa de madeira que mais parecia-se com uma cabana, sentados no sofá da sala com os seus bastões mágicos em mãos.
Pagaram quase uma fortuna para transformarem a sua loja de artefatos de feitiçaria em um loja de roupas.
Ideia da Sarah.
Do lado de fora estaria tudo muito escuro se não fosse pelas lâmpadas colocadas lá por eles. Como a cabana, feita por eles por magia, era isolada das demais casas da cidade, se encontrava em um local desabitado, mas era apenas um logradouro livre de pessoas e automóveis, o que o tornava um lugar adequado para praticar magia sem serem flagrados.
Alejandro olhou para o seu relógio dourado de pulso e falou:
— Faltan diez minutos para las siete en punto.
— Perfeito — disse Sarah. — Essa magia de p******o funciona melhor neste horário.
— Já sabemos, Sarah — brincou Valéria. — Você precisa narrar tudo?
— Me deixa, como você é insuportável.
Valéria deu risadas e perguntou:
— E a Pétala, já está dormindo?
— Já, a poção funcionou. É melhor que ela durma, essa magia é muito pesada, pode deixar ela confusa, você sabe o que acontece quando os Immunus são expostos a magia muito forte, é como uma radiação. Quando você fez o encantamento pela primeira vez lá na loja, ela recebeu uma carga muito forte, ficou tão desnorteada que não conseguiu falar direito, e olhe que ela usa a pulseira com encantamento de p******o.
— Só quero saber o que é que não deixa essa menina confusa — Valéria riu da situação.
— Por isso eu penso que é melhor ela voltar a morar com os pais dela. Por que ela precisa morar com a gente?
— Ela é a minha melhor amiga, mas não fique enciumada.
— Eu não estou com ciúmes.
— Olha, eu não vou deixar ela morar naquela casa de pobres outra vez, aqui ela tem tudo do bom e do melhor. As aulas dela já começaram e ela não precisa mais pegar ônibus para ir estudar.
— Tudo bem, eu já entendi que você trata ela como se fosse a sua filha, só que eu acho que estar com a gente é meio perigoso. E você já está sustentando tanta magia poderosa, se não fosse uma Allogaj já teria colapsado há muito tempo.
— Sarah, eu sou o perigo e tenho o poder. Quem teria coragem de nos atacar?
Antes que Sarah pudesse responder, tudo ficou escuro de repente.
— Ai! — gritou Sarah. — Que susto, teve queda de energia?
Conjuraram o fogo e os seus bastões se assemelharam a tochas.
— Parece que no — disse Alejandro ao olhar pela janela de vidro as luzes da cidade não muito distante deles. — Afuera todo sigue encendido.
— É verdade, Alejandro — confirmou Valéria — está tudo aceso lá fora. Acho que alguém mexeu no medidor de energia daqui.
— Ninguém aparece aqui a uma hora dessas — explicou Sarah. — Aqui só tem mato.
— É o que vamos descobrir — Valéria tomou a iniciativa de se levantar do sofá para ir para fora da cabana, mas foi impedida por Alejandro quando ele se adiantou e passou na sua frente.
— Déjalo conmigo — ele andou para fora da casa e Valéria o seguiu.
Ela ficou na entrada apenas a observar por algum tempo.
— Tem alguma coisa estranha — suspeitou Valéria.
Sarah apagou a chama e se aproximou de Valéria.
— O que será que houve?
— Não sei — respondeu Valéria, depois perguntou as horas para Sarah, pois, não sabia decifrar os ponteiros.
— Faltam dois minutos para às sete.
— Acho que vou conjurar logo o encantamento, vou mandar Alejandro entrar... — Valéria hesitou no final da frase, foram pegas de surpresa com o som de raios cósmicos e sabiam que vinha do bastão de Alejandro. — Sarah, fique aqui e tome conta da casa — gritou Valéria e correu para saber o que houve.
***
Alejandro havia saído com a "tocha" na mão. Não estavam preocupados se alguém visse, estavam longe de testemunhas oculares. Ele andou para o lado da cabana onde se encontrava o contador de energia para ver qual foi o problema.
Ele acionou o interruptor para cima, mas nada aconteceu, depois para baixo e tudo continuava escuro. Em seguida, apertou o interruptor para cima e para baixo várias vezes até ouvir o som de alguém a correr pela grama e parou. Apontou o bastão rapidamente em uma direção qualquer a fim de enxergar melhor.
— Hola ¿Quien esta ahí? — perguntou o mexicano.
Não demorou muito, os seu olhos se arregalaram quando, lentamente, saiu de detrás da cabana uma criatura extremamente branca como ** de arroz, alta, muito desnutrida e de roupão branco, sujo, e totalmente rasgado.
A criatura parecia ameaçadora, todo o corpo era um esqueleto com pele desnutrida, a cabeça era um crânio sem olhos, nariz, orelhas, lábios e dentes, ela correu para atacar o Alejandro, mas ele a atingiu com uma bola de fogo que a arremessou para longe e a deixou em chamas como uma fogueira.
A criatura em chamas iluminou a área qual havia caído e revelou que várias outras estavam a se aproximar — elas apareciam do nada —, fora não ter morrido, apenas se levantou do chão e o fogo se apagou. Alejandro não perdeu tempo e correu para a entrada da cabana e se bateu com Valéria.
— Alejandro, o que foi?
— Valéria, corre, vuelve adentro. Estamos siendo atacados — gritou o rapaz desesperado.
— Pelo quê? — Valéria não conseguia enxergar no escuro, mas não pôde esperar para ver, pois, Alejandro a puxou para a entrada da cabana.
Assim que chegaram à entrada, Sarah gritou para Valéria,as foi tarde, uma criatura a pegou pelo braço tomado pela escuridão e a puxou para longe até ela cair no chão, ela a atingiu com uma bola de fogo que a arremessou para longe. Outras criaturas cercaram Alejandro, e Sarah teve que descer os degraus da escada para ajudar a espantá-las.
— Valéria — gritou Alejandro.
Ele e Sarah começaram a atacar as criaturas com fogo, mas as criaturas não se consumiam. Elas simplesmente levantavam e as chamas se apagavam aos poucos.
Valéria se levantou do chão, estava cercada pelas criaturas que se aproximavam devagar para capturá-la, as mãos delas começaram a soltar algumas faíscas e estavam se conectando e formando um círculo de faíscas ao redor da Allogaj, ela apenas se defendia com o fogo conjurado no bastão e apontava para tudo quanto era lado, pois, já tinha novato do que queriam, mas não parecia ser coisa boa.
Então ela fez o que fazia de melhor, bateu a ponta do bastão do chão e o fogo atingiu as criaturas ao seu redor. O impacto derrubou até os seus amigos, mas não estavam perto o bastante para se machucarem.
As criaturas afogueadas se levantaram lentamente do chão e as chamas se apagavam.
— Essas criaturas não queimam — gritou Valéria para Sarah.
— Valéria — Gritou Sarah de volta —, são Espíritos Atormentantes em forma de avatares, foram materializados. Somente um feitiço acaba com eles.
— Qual, mulher?
— Malfari Avataro.
No átimo em que as criaturas correram desenfreadamente para pegarem a Valéria, eram dezenas que circundavam-na, Valéria gritou o feitiço e bateu novamente o bastão no chão com tanta intensidade que todos as criaturas se consumiram como pólvora e o impacto foi tamanho que a vegetação ao seu redor foi arrancada, os seus amigos foram lançado para longe desmaiados e o seu bastão se partiu no meio.
Valéria caiu exausta no chão, no centro daquela marca de terra ferida, e a energia elétrica voltou, as lâmpadas iluminaram o ambiente novamente. Ela se levantou do chão, deixou o seu bastão quebrado para trás. Se aproximou devagar dos seus amigos desacordados, estendeu uma mão para cada um e pronunciou:
— Excitare! Excitare! Excitare!
Logo após, Alejandro e Sarah acordaram eufóricos e se levantaram do chão com a mão no peito.
— Ai, que dor — reclamou Sarah.
— Foi m*l, gente, eu não controlei o meu poder.
— Sentí que mi alma abandonaba el cuerpo — disse Alejandro.
Valéria se sentou no chão com eles.
— Temos muito tempo desacordados? — questionou Sarah.
— Não, acabei de despertar vocês — respondeu Valéria. — Acho melhor vocês entrarem, se aquelas coisas voltarem, não quero que se machuquem.
— Olha, eu concordo com você.
Sarah e Alejandro se levantaram do chão com pouca dificuldade e depois levantaram a Valéria.
— ¿Está todo bien con el bebé?
— Sim, não se preocupem. Agora, o meu bastão quebrou, alguém vai ter que me dar o seu. Não vou poder conjurar a magia de p******o.
— Yo te doy — ofereceu Alejandro.
— Certo — falou Valéria —, vá pegar o meu quebrado antes que apareçam mais criaturas daquelas.
Alejandro retirou a Pedra de Vírnam do seu bastão e o entregou para Valéria que pegou a sua pedra e o conectou com o objeto mágico. Depois, conjurou o feitiço de p******o que durou uns três minutos para envolver toda a cabana. Por fim, entrou e se acomodou no sofá.
— Agora, podemos dormir tranquilos.
Alejandro e Sarah estavam sujos e descabelados, olhavam para Valéria a esperar que ela tocasse no assunto.
— Não vai dizer nada? — indagou Sarah.
— Fomos atacados por Espíritos Atormentantes materializados, ué.
— E isso é normal para você?
— Relaxa, ninguém vai invadir esta casa comigo aqui.
— Valéria, é necessário magia obscura para materializar um Espírito Atormentante. Eu te avisei, alguém está invocando os Treumilas. Mesmo sendo Allogaj, você corre perigo.
— ¿Qué es lo que quieren? — perguntou o mexicano.
— Querem ela, Alejando, não sabemos se viva ou morta.
— Gente, quando as criaturas me cercaram, elas conectaram as mãos e começou a surgir umas fagulhas, como se estivessem abrindo um...
— Um portal — completou Sarah. — Valéria, alguém está te chamando. Te querem viva, menos m*l. Como conseguiriam abrir um portal interplanetário, se os portais estão suspensos em Dorbis por causa da batalha no Reino de Ic? E quem será? Não deve ser Kanahlic, ela não invoca os Treumilas, também é adepta dos Trealtas.
— São muitas perguntas — disse Valéria. — Uma hora a gente vai ter que descobrir.
— Deve ser outro g***o de feiticeiros. Devem estar escondidos, ninguém que cultua os Treumilas tem coragem de se apresentar como tal.
— Então, querem o meu poder — sugeriu Valéria —, assim como desde o momento em que eu apareci no mundo mágico.
— Está pensando em ir com eles?
— Estou curiosa.
— Valéria, por tudo o que é mais sagrado, nem pense em ir com eles. Você está grávida, pode ser perigoso. E se estiverem planejando a sua morte?
— Então eu vou m***r todos antes — gargalhou Valéria.
— Você, a cada dia que passa, fica mais sádica. Nem sei por que me preocupo.
— Não deve se preocupar mesmo, eu sou a feiticeira mais poderosa de Dorbis.
— Mas não é imortal...
De repente, as lâmpadas começaram a piscar. De súbito Valéria se levantou do sofá e foi até a porta. Os demais a seguiram.
Valéria abriu a porta e uma criatura estavam de pé, a poucos metros, esperando por ela. A criatura começou a correr e antes que chegasse nos degraus da entrada, uma barreira translúcida e azulada se formou e a criatura se consumiu como pólvora. As luzes pisaram novamente.
Estavam a salvos por enquanto, no entanto, do nada, várias criaturas começaram a surgir e a observar que alguns que se aproximavam da casa se desintegravam, até que pararam de andar e ficaram apenas paradas.
— E agora? — sussurrou Sarah.
— Acho que não vão ficar aí a noite toda — respondeu Valéria. — São criaturas do escuro, pelo menos, sei que quando amanhecer não ficará uma. Só quero saber, como elas conseguem abrir um portal para cá? Portais de Dorbis para a Terra estão suspensos.
— Por meio de duas coisas: ou é por um portal clandestino, como a Caverna de Agolar, ou é por meio de um sacrifício. Bem provável que houve um sacrifício.
Valéria fixou os olhos em Sarah.
— Me explica.
***
— Espera que vou te explicar — disse Bris de pé, de frente para Cesar que estava acomodado numa poltrona, no mesmo quarto onde fizeram a reunião. — O que eu te disser para fazer, você faz. Tudo bem? — ela esperou ele confirmar. — Muito bem. Levante a cabeça, feche os seus olhos e respire fundo. Sinta o seu corpo, sinta todo ele. Vá percebendo as batidas do seu coração, se você acredita que está acelerado, tente relaxar e deixe-o mais tranquilo. Agora perceba o sangue correndo pelas suas veias. Sinta a leveza. Sinta o seu corpo relaxado e leve. Agora, perceba os seus olhos, estão mais pesados que o normal, porém, relaxados, estão tão pesados que afundaram. Agora os seus olhos se tornaram leves como uma nuvem, eles estão subindo de volta para as pálpebras. Você não verá mais o mundo físico, você verá o mundo imaterial. Você ainda tem total controle sobre o seu corpo, contudo, os olhos serão dominados pelo seu dom. Vou conta de um até três, e você vai abri-los rapidamente, certo!? Não responda, é somente para você ficar ciente. Se prepare: um, dois, três. Abra os olhos.
Ele abriu os olhos e enxergou tudo azulado, agora os seus olhos podiam ver o mundo imaterial.
— Nossa! Deu certo — maravilhou-se Cesar e se levantou da poltrona, Bris recuou. — Estou vendo a sua aura, Bris — Cesar percebeu que Brisanctis ficou séria e um pouco apreensiva. — O que houve?
— Os seus olhos. Não sei se era para ficarem assim.
— Assim como? Tem espelhos aqui?
— Os seus olhos têm apenas as escleras.
— Sem íris, sem pupila, sem cristalina, nada? Só a esclera?
— Sim, o que acabei de dizer e, na verdade, está mais branco que o normal. Parece estar brilhando.
— Meu Deus. Eu quero ver.
— Tem um espelho ali — Bris apontou para o lado de uma estante de livro.
Cesar andou até o lugar que Bris apontou e parou de frente para o espelho. Duas coisas o assustou, os seus olhos e o tamanho da sua aura. Era tão grande que batia no teto, ele parecia um pavio fumegante de uma vela colossal. Não pôde se observar por mais tempo porque Layra entrou de repente no quarto a perguntar se Cesar já estava pronto. Quando ele se virou para ela, ela se assustou e os olhos de Cesar voltaram ao normal.
— Ah! — exclamou Cesar. — Passou o efeito.
— O que foi isso nos seus olhos? — perguntou Layra.
— Eu não sei. Bris me ensinou a projetar apenas a minha visão e os meus olhos ficaram assim.
Layra nem soube o que comentar. Ela ficou em silêncio até deixar o clima desconfortável, depois limpou a garganta e voltou a falar.
— Bem, eu não entendo sobre dons — ela encarou a Bris. — Isto é comum?
— Eu não sei, porta-voz, é a primeira vez que vejo isso, este Cesar é mesmo especial. Zera ainda está preparando o encantamento no sangue dele para saber se ele pertence a alguma família de poderosos feiticeiros?
— Tenho certeza que ele não é mais especial que todas nós. Se for, provavelmente é algum filho bastardo de algum ou alguma sangue-azul — ela se voltou para ele. — Suba, vamos continuar nossas discussões diárias e te apresentar os nossos planos.
Cesar acatou e tanto ele quanto Bris subiram para o andar de cima.
— O que é um sangue-azul? É algum tipo de título da nobreza? — murmurou Cesar para Bris.
— Sim, para ser mais específica, apenas aqueles que são descendentes de reis e rainhas, príncipes e princesas, têm o sangue da cor azul. Os demais títulos, e, ou, bastardos, têm o sangue na cor comum mesmo.
— Ah! O sangue deles é literalmente azul? Que interessante!
— Isso gerou mais polêmicas que qualquer outra coisa no meu mundo. Sempre que os Vinte e Quatro Anciões aprovam alguma coisa em r*****o a realeza de Dorbis, há várias discussões e vários conflitos.
— Depois você me explica melhor sobre esses Vinte e Quatro Anciões?
— Conheço muitas coisas sobre eles, mas uma das meninas pode te ensinar melhor. Depois eu peço para conversar com você.
— Obrigado!
— Não há de quê.
***
Todas as meninas, e Cesar, estavam sentadas em círculo no chão da sala do andar de cima. Cesar ficou um pouco desconfortável, não tinha aquele costume de ficar sentado em almofadas como elas. Precisava se acostumar, agora era um aprendiz das Feiticeiras Prodígios de um castelo num mundo mágico medieval.
Dessa vez, ele pôde ver que a Talita usava uma túnica como as outras. Será que ele usaria algo parecido?
Elas conversavam sem parar até Layra chamar atenção e todas se calarem.
— Então, meninas, quero que todas dêem as boas-vindas ao Cesar, não podíamos fazer uma recepção melhor porque não podemos confiar cegamente em qualquer alguém que acabamos de conhecer. No entanto, ele se mostrou uma pessoa talentosa e ainda curiosa. Ele tem um dom tão completo e complexo que impressionou a própria Bris.
— Estou perto de considerar o dom dele muito raro, nem sei até onde ele pode chegar — considerou Bris.
As meninas ficaram impressionadas pelos poucos relatos sobre aquele jovem e atraente rapaz.
— Estamos quase cogitando a ideia de que ele seja de linhagem real — continuou Layra —, contudo, Zera está preparando um encantamento para saber sobre a genealogia dele, vai demorar um pouco, como sabemos, nossa mágica é retardada aqui na Terra. Enfim, ele precisa saber sobre os nossos planos, ficar a par de tudo para chegar em Dorbis pronto para enfrentar qualquer coisa.
— Porta-voz, pensa em algum momento levar ele para ficar com o g***o dos meninos? — perguntou Dulca.
— Ainda não. E nós os encontramos primeiro, se ele tiver muito poder, pode nos ajudar a sermos condecoradas. Sei que não quis ele conosco no começo, mas agora parece que nossos planos podem tomar rumos diferentes.
— Por quê? — Perguntou a garota chamada Fama, a menor de todas.
— Por que ele pode enxergar a aura mágica das pessoas.
Houve murmúrios.