Capítulo 10

3201 Palavras
Cesar desceu para a cozinha, era uma casa grande e luxuosa. Ele ainda queria saber como elas tinham tanto dinheiro? Será que usavam magia para terem as coisas? "Vai saber." Quando ele chegou na cozinha, viu que o almoço estava na mesa, faltava apenas as garotas descerem para a refeição, contudo, Talita não estava lá, em lugar nenhum da casa, quando foi para a sala, ainda a procurá-la, uma bola de cristal reluzente flutuou em sua direção. — Eita! — exclamou. — O que é isso? — Cesar, então, fez o que o seu intuito mandou e tocou no objeto. Automaticamente, ele ouviu a voz de Talita avisar que foi para a casa dele e o aguardava lá, depois mandou que ele guardasse o objeto, mas ele não sabia o que fazer e colocou dentro do armário. Cesar se apressou para sair daquele lugar. Nem pensou na possibilidade de Layra saber e ele ouvir vários sermões dela por longos tempos. Quando chegou na sala da própria casa, encontrou Talita a tomar um café no sofá da sala com Seu Cosme. — Cesar, por que não me contou que está trabalhando com esta menina adorável? — perguntou o pai. — Pai... Eu... — Cesar olhou rapidamente para Talita que arregalou os olhos ainda a sorrir, para mandar-lhe um sinal de que não dissesse nada comprometedor — Eu... — ele não fazia ideia do que dizer, provavelmente ela inventou alguma coisa e ele não podia falar nada que contradissesse as suas palavras. — Não precisa se justificar — tranquilizou Seu Cosme a sorrir. — Ela já me falou que você pensou que eu não iria permitir por causa da profissão e das viagens. Eu sei, meu filho, agência de modelos é assim mesmo. — Oi? — indagou Cesar, mas Talita arregalou os olhos para ele novamente, dessa vez como repreensão. — Sim, Cesar — Talita tomou a fala —, eu contei para ele que você era perfeito para ser o modelo que procuramos. — Quem diria? Meu filho um modelo — disse Seu Cosme. — Queria ser jogador de futebol e bastou uma garota bonita dizer que ele tinha jeito para ser modelo e agora vai viajar para o exterior. Talita ruborizou. — Que isso, Seu Cosme, eu sou os seus olhos. — Você é um colírio, minha querida — Seu Cosme levantou-se do sofá. — Eu vou aqui preparar o seu almoço, filho, você não comeu nada ainda — ele se voltou para Talita. — Quer almoçar, minha jovem? — Sim, senhor — respondeu Talita. Quando Seu Cosme se retirou completamente, Cesar sentou-se no sofá e sussurrou para a garota. — Modelo? Sério? — Foi o que deu para raciocinar depois da rápida conversa que tivemos — ela sussurrou de volta. — Por que você veio para cá falar sobre isso? — Eu ouvi você chegar, Cesar, eu subi para ficar a par do assunto e fiquei escondida quando ouvi você dizer que as ordens do seu pai eram mais importantes que os nossos problemas. Limpar igreja? Ficou doido? — Não foi isso que eu disse. — Não importa, só sabia que não ia acabar nada bem o final daquela discussão, então, num ato de desespero tomei a iniciativa e vim procurar pelo seu pai, antes deixei uma mensagem para você na bola de cristal. Você guardou ela? — Sim... Espera, você sabia que eu ia te procurar? — Não, menino, se eu pudesse prever o futuro eu seria perfeita. Apenas improvisei, tenho uma intuição muito forte. — Nossa! — E então? Pelo visto não te obliteraram, obviamente. Que fim levou a discussão? Me conta. — Intuição forte mesmo... Olha, eu pedi para conversar com você antes de tomar qualquer decisão na minha vida em r*****o a vocês. — Graças a Deus — Talita levantou as mãos para o céu. — E qual era a novidade que você havia trazido para a gente? — Que eu vi a aura branca de uma menina de lá da igreja e nem precisei ficar desacordado. — O quê? — indagou Talita de maneira bem audível. Nesse exato momento, Seu Cosme apareceu na sala. — Eita! A conversa está boa, não é!? Olha, a comida está na mesa. Pode ficar à v*****e, Talita, eu vou votar para a igreja que ainda tenho uns assuntos pendentes. — Que rápido, hein, pai? — disse Cesar. — É sim, filho, e Cesar, quando eu voltar, conversaremos sobre as suas viagens — ele se despediu e foi embora. — O seu pai é um amor de pessoa — falou Talita. — Infelizmente é muito religioso. Não que isso tire as suas qualidades, mas... Acho que você entendeu. — Sim, entendi e espero que você não tenha jogado nenhum feitiço em meu pai. — Não precisei, garoto. Saiba que o seu pai nunca quis que você fosse jogador de futebol. — Sério? — Cesar pensou por alguns segundos. — Por que será que ele nunca me disse nada? — Porque era o seu sonho e ele jamais iria se intrometer nisso. Cesar ficou pensativo sobre isso, pois, ela tinha razão. Seu Cosme era um homem muito paciente e às vezes condescendente, mas os seus filhos nunca lhe deram dor de cabeça quando faziam alguma coisa por conta própria. Eles se tornavam responsáveis pelos próprios atos a cada dia que se passava, mesmo ainda a serem dependentes do pai, e o pai amava tudo aquilo. Jamais se voltaria contra a v*****e dos filhos por coisas que estavam determinados a conquistarem, mesmo, no fundo, não concordando. — Vamos almoçar? — falou Cesar. — Não posso deixar essa comida aí, senão o meu pai pode ficar chateado e também estou azul de fome. — Claro que vamos, o cheiro está bom demais. Eu preciso aprender a fazer comida baiana. — Esqueci que você é mineira. Pode vir aqui quando quiser, meu pai é um ótimo cozinheiro e um ótimo professor. Agora... Você não tem sotaque de Minas. — Cresci em São Paulo, nunca consegui me apegar ao sotaque de Minas graças aos meus pais, nada contra, mas os meus pais viviam dizendo que eu não deveria me apegar ao modo como os mineiros falam. — Achei isso bem preconceituoso. — Foi preconceituoso. — Tudo bem, Dona Preconceituosa, vamos logo antes que a porta-voz dê falta da gente. Talita riu pelo apelido, depois se levantaram e foram para a cozinha se deleitarem com a simples refeição. *** Cesar e Talita ficaram a conversar durante a refeição e quase se esqueceram de que tinham o que fazer. Tiveram que sair às pressas e ainda deixaram os pratos sem lavar. Quando Cesar voltasse, levaria... Ou não. Assim que entraram na casa, encontraram Layra sentada no sofa de couro cor de creme com a bola de cristal nas mãos. Ela se levantou e colocou o objeto em sua base na mesa de centro. — Então, já se resolveram com o patriarca? — perguntou com as sobrancelhas arqueadas. — Ah... — por um instante, Talita não sabia o que dizer, francamente, estava a esperar um sermão daqueles, mas pareceu que Layra ficou despreocupada no momento, quem sabe fosse apenas questão de tempo. — Sim... Nada que um bom diálogo não resolva. — Ou uma bela mentira — rebateu Layra. — Enfim, espero que já tenham se alimentado. — Sim, porta-voz. — Neste caso, Cesar, você pode seguir direto à minha esquerda e no fim do corredor pode abrir a porta e entrar porque a Bris está te esperando e Talita, suba comigo para a gente poder conjurar a luz, hoje é seu dia. Ambos obedeceram a porta-voz sem hesitar, não podiam mais vacilar com ela que fazia de tudo para mantê-los bem e a salvo... Da maneira dela. Cesar seguiu até a porta e a garota Bris estava lá, bem acomodada num sofá a ler um livro. Ela fechou o exemplar e se ajeitou no estrado acolchoado. — Olá, Cesar, meu nome é Bris, pode se sentar — ela apontou para um sofá menor à sua frente e ele se sentou. — Qual o seu nome verdadeiro, Bris? — perguntou casar. — Tenho muita curiosidade. — Vou contar, mas não deixa a porta-voz saber, o meu nome verdadeiro é Brisanctis — ela olhou para o relógio na parede que estava tão silencioso que nem parecia funcionar. — Onde você estava? Por que demorou tanto assim para aparecer? — Agora, fui resolver umas coisas com o meu pai — Cesar encarou a garota. — Gostei do cabelo... Quero dizer, do corte. — Sim, obrigada! Na minha região, mulheres com cabelo raspado são consideradas muito fortes, apesar de haverem poucas por lá. — Que intrigante! De onde você é? — Do Reino das Libélulas em Syanastiah, governado pela rainha Metrimna, uma meio-elfo. Provavelmente você não conhece nada disso, então, vamos ao que interessa, o seu dom. Me conte quando começou a aflorar. — Começou no início deste ano. — No início deste ano? Qual a sua idade mesmo? — Dezenove, mas já vou fazer vinte. Eu sei que foi muito tarde, Layra já me falou. — Nossa! Tarde mesmo, mas continue falando sobre isso. Espero não se incomodar com interrupções. — Não me incomodo. Enfim, a primeira vez que eu me projetei de maneira astral, eu estava diante de uma loja, lá dentro vendia objetos, parecia de lembranças, ou feitiçaria, sei lá, e depois eu estava de frente para algumas pessoas. Atrás delas emanava uma fumaça, algumas pretas, outras vermelhas. Quero entender isso direito, apesar de já ter uma idéia. — Bem, Cesar, essa fumaça que você viu era a aura da pessoa. A aura mágica, na verdade. A fumaça preta representa as trevas e a branca representa as luzes, ainda tem a cinza que representa as cinzas mesmo, mas é raro de se ver. Quando você vê uma pessoa que não é mágica, você vê a cor vermelha, que representa as pessoas vivas e as azuis que representa as pessoas mortas mesmo sendo mágica. Ainda tem aquelas que não tem aura, não estão nem vivas nem mortas, não são nem das trevas nem das luzes, como os Vinte e Quatro Anciões, depois você saberá quem são. Quando você se projeta, também não aparece a sua aura, porque você entra no estado de nem vivo, nem morto. — Agora tudo faz sentido, só não entendi uma coisa, por que eu preciso estar desacordado para me projetar? Hoje não precisei. — Para se projetar tem que este inconsciente, porque a sua própria alma está fora do corpo, agora, Cesar, você é um caso muito curioso, deve ser por isso que a Layra desconfia de você. Olha, quem tem o dom da projeção astral pode ter a capacidade de se projetar e ainda estar consciente, ou sóbrio, às vezes é só a visão, só a audição ou só a voz, mas isso ocorre com quem tem o, pelo menos, décimo segundo grau de magia, nesse caso, você deveria ter na faixa dos quarenta e cinco anos no meu mundo, isso com muito estudo e muita prática. — Sério, por que eu consigo usar o meu dom sem saber de nada? — Não sei como é possível? Ou você está mentindo ou tem algum conhecimento internalizado, ou é um Immortalis ou um Potensis. São muitas as opções. — Eu não estou mentindo — afirmou Cesar exasperado. — Não precisa se irritar, eu sei que não está, uma das nossas sabe dizer se alguém está a mentir ou não. Talvez você já tenha sido obliterado uma vez, ou tenha recebido informações indiretamente de parentes mágicos. Como eu disse, são muitas as hipóteses, mas de uma coisa temos certeza, você é feiticeiro das luzes. Se tivéssemos alguém com o dom de Identificar, não precisaríamos de pesquisar tanto. — Entendi, de qualquer forma, eu me lembro muito bem da minha vida, não sei se eu posso ter sido obliterado, só pode ter sido algum dos meus parentes. Mas quem? — Há hipóteses de terem mudado as suas lembranças também, depois resolveremos isso, agora, fale mais sobre a sua experiência com o seu dom. — Bem, quando eu vi essas pessoas, uma delas tinha a maior aura, era muito grande, e tinha mais fumaça que os outros, eu perguntei para mim mesmo o que era aquilo e pareceu que fui ouvido, porque perguntaram quem estava ali e a mesma pessoa perguntou de novo da segunda vez que me projetei... — Olha, deixa eu raciocinar por partes. Você viu uma pessoa com uma aura muito grande, isso significa que ela é muito poderosa, depois uma mesma pessoa questionou as suas indagações nas duas vezes que você se projetou para até elas, isso quer dizer que essa pessoa não te viu, mas te ouviu, ela tem o dom de ouvir os pensamentos. Quando você se projeta de maneira astral, a sua consciência e os seus pensamentos vão com você, por isso ela pôde te ouvir, e o dom dela só permite ouvir pessoa vivas, mesmo no seu estado nem vivo nem morto, enquanto que o seu dom lhe permite ver e ouvir até mesmo pessoas mortas, apenas o tato e o olfato falham, quem sabe o cérebro produza uma simulação, mas não passa disso. — E por que eu tive dois sonhos com a mesma pessoa? — Ia te responder agora. Geralmente, isso acontece quando o Universo cria uma ligação entre você e a pessoa, você se autoprojeta para ela involuntariamente. Um dom funciona assim, ele aflora quando você não quer, e pode ser controlado quando você quiser. O Destino reservou algo para vocês dois, por isso você sonhou com ela duas vezes, o complicado é que ela ouve os seus pensamentos. — Na verdade, eu senti que tinha uma ligação com a garota que tinha a maior aura de todas, não é a mesma pessoa. — Nossa! Então não sei o que afirmar. — Uma hora descobriremos. — Espero. — Então — continuou Cesar, — depois de um tempo eu fui num bar com o meu irmão e eu bebi muito, desmaiei e acabei me projetando. Eu encontrei a alma de um menino morto por um policial e ajudei ele a se resolver com a sua mãe, me pareceu que ela não queria deixar ele ir. — Isso mesmo, muitos fantasmas existem porque os seus parentes devem ter alguma ligação muito forte com eles quando vivos e essa ligação impede que a alma se vá, isso só acontece quando muitas pessoas intensas ainda querem conexão com a pessoa morta, é raro uma pessoa só emitir tanta intensidade. Esses parentes precisam se desapegar, mesmo que seja um mísero resquício de desapego, já é o suficiente para a alma partir e encontrar o Além. E aí, você o ajudou? — Com certeza. Ainda bem que a mãe dele morava perto da casa do meu irmão, eu fui até lá e mandei o recado do filho assassinado. — Nossa, Cesar, isso é muito lindo e triste também. Que bom que você ajudou. Se todo mundo fosse como você não haveria tantos conflitos. Cesar ruborizou. — Que isso! Não sou o "Senhor Generosidade", eu só quis ajudar. — Por isso mesmo. Não se acanhe com elogios, você merece, e os seus olhos são lindos. — Obrigado! Puxei da minha mãe. — Muito bem. Agora, me diga, o menino foi para o Além. — Sim, na verdade, ele disse que foi para um Lugar Melhor, e que uma Luz o ajudou. — Sim, entendo. A Luz ajuda aqueles que são considerados com pouca ou nenhuma Mácula, os demais que lutem. Isso tudo é muito fascinate, por isso eu amo estudar os dons. — Falar em fascinação, por que ficaram maravilhadas quando eu disse que eu ouvi a voz da Luz. Brisanctis ficou séria e abriu os olhos ainda mais, ela tinha os maiores olhos que ele já viu. — Não lembro de ter ouvido isso. Cesar, apenas o Sumo Sacerdote consegue ouvir a Luz, não era para o seu dom te levar a tanto. — Sério? E agora que você falou, estou me lembrando de um sonho, não parecia que estava me projetando... — Por que? — Porque não estava tudo azulado. Nem sei por que tudo fica azul. — Como eu disse, a projeção astral leva a sua alma para o outro plano, para a quarta dimensão, lá é azulado mesmo, não se sabe ao certo o porquê, talvez pelo fato de o azul representar a falta de vida, contudo, apenas a sua consciência pode ser projetada com a sua alma e você pode ver tudo naturalmente, como no seu sonho, enfim, conte como foi esse. — Nesse sonho, eu tinha visto uma mulher muito bonita de cabelos platinados acompanhada por alguns rapazes numa floresta, ela se aproximou de uma árvore fluorescente e libertou o poder de um espírito que era uma tigresa gigantesca feita de carvão em brasa e ela matou vários leões falantes, parecia que ela conseguiu se vingar por alguma coisa. Brisanctis ficou deslumbrada com o relato do sonho. — Eu não posso acreditar. Cesar, você sonhou com a atual rainha do Reino de Ic e, principalmente, com a Animacae mais poderosa de Dorbis. Por que o Universo vai destinar um encontro entre vocês? Pelos Trealtas! Eu estou muito impressionada... — Brisanctis expressou um susto e se interrompeu subitamente. — Espera um segundo, tem certeza que o seu dom só aflorou no início deste ano? — Com toda a certeza deste mundo, eu nunca tive isso antes. — Mas esse fato só aconteceu, basicamente, ano passado. — O que isso significa? — Que o seu dom não te permite se projetar apenas para o presente, mas também para o passado e quem sabe para o futuro. Cesar, em todos os meus anos de estudo sobre dons eu nunca ouvi nada parecido, sempre alguém tem uma coisa ou outra, nunca tudo. Você teria que ter, no mínimo, o décimo oitavo grau de magia para que isso ocorra, você deveria ter uns setenta anos de idade — ela se aproximou dele e o olhou no fundo dos seus olhos. — Você é um Immortalis? — Eu não sei. O que é isso? Tem a ver com imortalidade? Brisanctis ficou pensativa, depois procurou alguma coisa desesperadamente e encontrou um pequeno livro e o entregou a Cesar. — Cesar, Naty teve a liberdade de traduzir este exemplar para Talita, leia que você vai gostar e vai te ajudar a entender algumas coisas sobre Animacaes — ela se levantou. — Se importa se você ficar aqui sozinho por um tempinho? — Não, por quê? — questionou o rapaz intrigado com a repentina atitude da jovem n***a. — Eu preciso falar com a porta-voz. Você quer comer alguma coisa? — Não, eu almocei antes de vir para cá. Obrigado! — Tem certeza? Não quer um suco, umas guloseimas? — Olha, pensando bem, eu aceito sim se não for incomodar. — Imagina — Bris se retirou dali o mais depressa possível. — Não sai daí — disse antes de fechar a porta. Cesar deu de ombros e abriu o pequeno livro, no título estava escrito "Criaturas Mágicas e Animacaes". Se interessou imediatamente e começou a ler.
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