Capítulo 14

3027 Palavras
Cesar foi acordado pelo seu pai, eram mais de dez horas da manhã. Seu Cosme não queria ser indelicado, ele via que o seu filho chegava tarde em casa e desgastado, mas os outros ele acordava cedo sem nenhuma dó. — Oi, pai — respondeu Cesar com bastante sono. Queria continuar a dormir. — Acordando tarde deste jeito, não toma café direito, vai acabar emagrecendo, filho — preocupou-se Seu Cosme. — Pense no seu trabalho. — Eu vou tomar café, pai, só preciso de mais cinco minutos — Cesar bocejou. — Eu só te acordei porque tem um rapaz aí te procurando, disse que é um amigo do colégio e queria muito te ver. Cesar despertou no mesmo instante. — Qual o nome dele? — Acho que é Eusébio — Seu Cosme tentou lembrar-se do nome. — Eusébio? — Cesar levantou-se da cama e pegou os seus óculos quadrados. O astigmatismo o impedia de enxergar de perto. — Sim, esse mesmo, nunca vi esse menino aqui — Seu Cosme tentou se lembrar dele. — Pede para ele esperar, por favor. Seu Cosme saiu do quarto a confirmar. Em poucos minutos, Cesar desceu às escadas da casa de bermuda e camiseta para o portão e o abriu a pedir que o seu amigo entrasse. Há muito tempo que não se viam. — E aí, Zebra — cumprimentou Cesar ao seu amigo com um apelido que o colocaram durante o ensino médio. — E aí, irmão — respondeu Eusébio no mesmo entusiasmo, era um jovem n***o da idade de Cesar que também usava óculos, eles se abraçaram. — Há quanto tempo, hein, cara? — Verdade. Está fazendo o que por aqui? Cadê a Tia Márcia? — referiu-se à mãe de Eusébio, uma mulher elegante e cheia de pompa. — Mainha está em casa, irmão. Rapaz, quando eu soube que você tinha voltado de viagem, eu pensei que precisava vir aqui te ver. Como você está, rapaz? Me parece ótimo. Cesar acabou expressando um pouco de desalento, não pela visita do amigo, mas pela situação. Ele estava começando a conhecer a magia e, no fundo, sentia que não podia compartilha aquilo com as pessoas, mesmo ninguém ter-lhe alertado sobre isso. Pessoas comuns provavelmente não entenderiam, raciocinou ele. — Bom, entra aí — assim que entraram, Cesar o convidou para tomar um café e Eusébio aceitou no mesmo instante. — Irmão — disse Eusébio durante a refeição —, está acontecendo alguma coisa? — Como assim? — questionou Cesar. — Não sei, estou te achando um pouco diferente. — É, todo mundo está falando isso. Olha, é que eu arranjei um emprego. — Nossa, que bom! Vai trabalhar com o quê? — Vou ser modelo. Eusébio engasgou com o café. Cesar torceu para que ele não perguntasse em qual agência trabalharia, afinal, não sabia nada sobre aquilo, e a conhecer o amigo que tinha, provavelmente não perguntaria, provavelmente ele também não sabia nada sobre aquilo. — Sério, cara, modelo? — Sim, uma das... — Cesar nem sabia como mentir. — Das... Daquele pessoal lá que descobre talentos, enfim, ela disse que eu tenho potencial e me convidou. Eusébio o analisou dos pés à cabeça e concluiu. — Eh! Parece que você tem perfil mesmo. Mas você não tinha ido para o Rio de Janeiro para tentar ser jogador de futebol? O que aconteceu? Mudou de ideia assim de um espremo para outro. — Não, é uma longa história. Não deu muito certo eu ser jogador de futebol. De qualquer maneira, a agência vai me pagar bem e eu preciso de dinheiro. — Pelo certo, irmão, eu aceitaria qualquer emprego agora, não estou passando por uma fase muito boa — Eusébio hesitou, tinha algo que ele queria falar e estava enrolando. Cesar entendeu que algo o incomodava. — Amigo, eu vim aqui por um motivo, você lembra do meu pai, o Fagner? Ele gostava muito de você. Quando você ia lá em casa para fazer os trabalhos escolares, ele te elogiava bastante e dizia que você era um dos poucos amigos mais educados que eu já tive. — Lembro sim, muito gente boa. O que tem ele? — Ele morreu, amigo. Cesar ficou abalado por alguns segundos. — Cara, sinto muito. O que aconteceu, quando foi isso? — Sofreu um acidente ontem a noite, foi atropelado e não resistiu ao impacto — Eusébio falava de uma maneira triste, apesar de não parecer que iria chorar. Para Cesar, Eusébio forçava parecer triste. — Meus sentimentos. Como está o pessoal, a sua irmã? Já sabem quem o atropelou? — Não descobriram quem foi o autor, ele fugiu. O pessoal de lá de casa está bem, foi a minha mãe que pediu para te chamar para a sentinela hoje às dez da noite. Você pode? Cesar queria muito ir, mas não sabia se podia por causa das meninas que eram muito exigentes. — Olha, vou fazer o possível. Tudo bem? A pessoa que me contratou para trabalhar como modelo precisa de mim todos os dias, mas acho que ela abriria uma exceção. — Faça mesmo, amigo. Ele gostava muito de você. Cesar apenas sorriu, um sorriso triste, sem mostrar os dentes, depois puxaram outros assuntos e passaram a manhã a conversar sobre coisas triviais, quando, antes do meio-dia, que Eusébio estava no portão da casa a se despedir do amigo, Talita apareceu. — Cesar, preciso falar com você — avisou a garota. Os olhos de Eusébio se iluminaram quando viram a menina e Cesar percebeu, a garota que não deu muita atenção. — Oi, coisinha. Tudo bem? Talita olhou para o rapaz com indiferença e indagou: — Coisinha? — Modo de falar — Eusébio estendeu a mão e Talita o cumprimentou. — Meu nome é Eusébio, mas pode me chamar de Zebra. A jovem baixinha sorriu. — Meu nome é Talita, agente de modelos, agente do Cesar. — Então é verdade, não é, amigo? — disse Eusébio para Cesar, que estava cheio de ciúmes, mas não queria demonstrar. — Eu não sabia que jovens tão lindas como ela tinham um cargo tão popular no mundo da moda. — Não sou tão jovem — respondeu Talita, cheia de graça. Cesar olhou para as mãos deles que ainda estavam seguradas, então ele a pegou pela outra mão e a chamou para dentro. — Pode conversar comigo lá dentro, Talita, Eusébio já está de saída, não é, amigo? Talita soltou a mão de Eusébio e entrou. — Estou subindo então. Tem alguém aí? — Perguntou Talita. — Não. Quero dizer, só o meu pai. Eusébio observou a Talita subir às escadas e mordeu o lábio inferior. — Que coisinha mais linda! — ele olhou para o seu amigo. — Cara, você vai ter que me arranjar um emprego nessa agência. Eu quero essa figura para mim. — Aí você fura o meu olho, e entra na fila porque o meu irmão também quer uma vaga — disse Cesar. Ele não queria ser rude com o amigo, afinal, não tinha nada com a Talita... Ainda... E Eusébio só estava dando uma de macho alfa. Eusébio ficou surpreso com o que o amigo falou. — Cara, foi m*l, desculpa aí, pensei que você estava namorando a Tainara. — A gente terminou. — Ué! Por quê? Eram tão apaixonados. — Longa história também — Cesar decidiu terminar logo aquele diálogo. — Olha, não é uma promessa, mas vou fazer o possível para ir ao velório do seu pai. É na sua casa mesmo? — É sim. Olha, cara, desculpa aí. — Não tem problema. — Leva ela com você, para você não se sentir só. — Vou chamar. Por fim, Eusébio se despediu do amigo e Cesar entrou para conversar com a Talita que o aguardava. Lá em cima, Talita, sentada no sofá, conversava com Seu Cosme que se retirou quando o filho apareceu. Era uma jovem muito cativante, sorte dele o Waldir não estar no momento, senão já estaria a assediando. Ele imaginou que sofreria muita dor de cabeça por causa dela. — O que quer conversar? — perguntou Cesar. — Na verdade não é uma conversa, é que eu vou para a rua trocar ouro por dinheiro e quero que você vá comigo. Quem ia sempre era a Naty ou a Layra, Naty é a que melhor fala a nossa língua, ela é linguista e poliglota, fora saber latim e esperanto, mas elas sempre tinham tarefas. — Tudo bem, eu vou, só não entendi por que você me deu essas informações sobre a Naty. — Para mostrar que ela é perfeita e eu quero chegar nesse patamar algum dia. Vista a sua melhor roupa, como aquela que você usou para entregar currículos, para irmos. — Tudo bem. Ah! — Cesar lembrou-se do seu amigo. — Antes que eu me esqueça, o meu amigo me chamou para prestigiá-lo hoje no velório do pai dele. — Que horas? — Às dez da noite. Tem algum problema se eu for? — Acredito que não e, sinto muito pelo Eusébio. Vou falar com a porta-voz. — Ele quer que você vá também. — Por quê? Ele acabou de me conhecer. — Sério que você não percebeu que ele estava flertando contigo? — O quê? — Talita bateu a mão na sua fronte. — Eu sou péssima com isso. Mas eu vou com você, se você quiser, só não quero nada com ele. "Graças a Deus" pensou ele. — Venha, é bom que me faz companhia. A família vai estar completa e eu só conheço três pessoas: Eusébio, a irmã e a mãe. — Como ele pode flertar nessa situação? — Talita se levantou do sofá. — Eu vou indo já que não precisei me justificar muito, você é bastante compreensível. Esteja pronto daqui a uma hora, vamos pegar o nosso táxi na frente da minha porta, o caminho é longo. Nós temos um carro, mas Layra não deixa usarmos nunca. É o brinquedinho precioso dela. — Vamos para onde? — Para a Dois de Julho. — Na Tuiuti Lojas, não é!? — Sim! Como você sabe? — Meu pai já me levou lá duas vezes para vender umas peças de ouro do pastor da Igreja, ele era o tesoureiro. — Muito legal — Talita se levantou às pressas e foi embora a se despedir. — Espera — disse Cesar consigo próprio, ficou intrigado —, elas têm um carro? *** Cesar se arrumou e ele saiu de casa no mesmo instante que Talita. — Além de complacente é pontual — comentou Talita. — Quais são as suas outras qualidades? Ele sorriu, não sabia se era mesmo para responder, preferiu se calar. Não saberia falar de si próprio em questão de qualidades. Ele a escaneou com os olhos, a observar cada detalhe da roupa dela. — Está muito elegante. Ela usava uma espécie de terno feminino, os seus cabelos cortados estavam penteados para trás, estava de salto, não muito alto, e segurava uma maleta preta qual mandou que Cesar segurasse. Além da maleta, ela tinha uma bolsa se couro com uma marca chique estampada que parecia ser italiana. — Você também — retribuiu Talita. O rapaz estava simplesmente belo. Roupas sociais o deixava tão atraente quanto ele podia ser. Talita virou o rosto e mordeu o lábio inferior, mas não permitiu que ele percebesse, principalmente porque foi por causa dele. Nesse momento, o táxi apareceu e os levou para o destino. Nada falaram no carro durante o percurso. Chegaram na Tuiuti Lojas, a recepcionista já conhecia a Talita, era a cliente mais rica dali e sempre trazia lucros para a empresa, vendia peças de ouro que eram revendidas bem mais caro. Outras duas atendentes estavam no recinto e lhes saudaram. Apenas um cliente estava na loja a apreciar algumas peças. — Boa tarde, senhora — saudou a recepcionista, uma mulher branca, loira e estava com as mãos dentro dos bolsos do seu blazer, sorria simpaticamente, mas desfez o sorriso ao ver o Cesar a acompanhar. — Ele está com a senhora? — ela apontou para Cesar com o dedo indicador. — Sim, estou — respondeu Cesar, bem sério. — Já pode guardar o seu dedo no bolso. A mulher ficou desconsertada. — Eu avisei que viria acompanhada — disse Talita, da maneira mais hostil. — Há algum problema? — Não, senhora — respondeu a recepcionista um pouco nervosa. — Me perdoe. Ela pegou uns papéis e uma caneta e pediu que Talita e o acompanhante assinassem para registro. Depois destravou a portinhola do balcão e pediu que eles passassem e seguissem pelo corredor à direita onde ela já sabia, e que entrassem numa sala no final, o dono iria atendê-los em breve. Ambos passaram e a ignoraram como se ela não significasse nada. Talita foi na frente, já conhecia aquela parte da loja, exceto Cesar, era para quem faria grandes negócios com o proprietário. — Você viu a hostilidade daquela mulher? — indagou Cesar quando entraram numa sala mobiliada. Sentaram-se em uma poltrona, cada, e esperaram. — Eu vi sim, e me segurei para não xingar ela — respondeu Talita, depois bufou. — Tenho certeza que foi racismo. Cesar pensou na discriminação, mas já estava acostumado com aquilo. Em poucos minutos, apareceu um homem branco pomposo para atendê-los, estava também com uma maleta na mão. O seu nome era Dr. André Vieira de Campos. Ele cumprimentou primeiro a Talita, a sua cliente, depois Cesar, o acompanhante. O homem esfregou as mãos como um maníaco e Cesar segurou uma risada. — Deixe-me ver as belezuras — disse o Doutor. Talita colocou a maleta na mesa, virou para o lado dele e a abriu a revelar algumas gargantilhas de ouro puro com um pingente de diamante que nunca se viu igual. O Doutor André de Campos babou pelo brilho do objeto e o pegou com todo o cuidado, como se fossem frágeis, mas eram mais resistentes que eles três juntos. — Lindos, não são? — falou Talita. — Você sempre me trouxe os melhores — disse a homem rico a admirar cada centímetro do colar. — Por que a Senhora Margarida quer se desfazer destas obras de arte? — A minha Senhora é uma mulher independente e sem filhos, só quer curtir a vida, já que o marido rico faleceu, como já havia te contado — explicou Talita. — Sim, nunca me canso de ouvir essas histórias — finalmente, o Doutor despertou-se dos devaneios e guardou as joias na maleta e o retirou da mesa, em seguida, colocou a sua maleta na mesa e a abriu a mostrar várias cédulas de cem reais, Cesar nunca viu tanto dinheiro ao vivo, mas era humilde, não se permitiu transparecer a surpresa. — Aqui está — o homem fechou a maleta para que Talita a pegasse, ela imediatamente a entregou a Cesar. — É sempre um prazer fazer negócios contigo — disse Talita a se levantar. — Devo dizer que o prazer é todo meu. Quando poderei conhecer a Senhora Margarida, a sua patroa? — Em breve. Agora, sugiro trocar a atendente na recepção, ela não nos tratou com o devido respeito. O Doutor André ficou estupefato. — Quem, a Bárbara? — Ela mesma — Talita, tão pequena, porém, tão imponente, deu as costas e andou a deixar que os homens a seguissem. — Eu vou resolver isto, minha querida, eu prometo. — Ótimo. Talita fez questão que Cesar destravasse a portinhola para ela passar, a recepcionista nem os vira chegar de tão depressa que foi, e saíram sem mais nem menos. O Doutor encarou a recepcionista Bárbara de modo que a fez se sentir diminuta e a chamou para uma reunião importante. Assim que Cesar e Talita entraram no carro, um olhou para o outro e ambos riram da situação. Por fim, o motorista deu partida e foram embora. — Você precisa me explicar isso direito — pediu Cesar. — Eu explico quando chegamos em casa. *** Quando chegaram, Talita abriu a porta de metal da sua residência e entraram, ficaram no gramado a conversarem. — Cesar, como você deve ter imaginado, eu forjei documentos falsos e uma história falsa para vender nossas joias de Dorbis aqui na Terra — disse Talita. — Aquele homem acredita que eu trabalho para uma viúva riquíssima que quer vender todas as suas joias para curtir a vida. Como é uma senhora muito rica e a*******e, jamais pisaria os pés naquele bairro. Não fico confortável com toda essa mentira e falsificação, mas é necessário fazer isso para termos dinheiro suficiente para comprarmos o que quisermos. Ah! — lembrou-se Talita de algo e retirou da sua bolsa uma sacola de tecido preto e aveludado, ela abriu a maleta no chão, pegou um montante de notas de cem, o colocou dentro da sacola e o entregou a Cesar. — Toma, aqui é o seu primeiro pagamento. Cesar pegou a sacola, porém, boquiaberto. — Quanto tem aqui? — Tem muitos mil reais — respondeu Talita a brincar. — Eu sei lá, Cesar, depois você conta. Vá se trocar que você não vai receber aula assim, e quando voltar, traga roupas para você tomar banho aqui. — Por quê? — O enterro, esqueceu? — Ah! É mesmo. Talita sorriu. — Ficou desnorteado por causa do dinheiro? — questionou ao abrir a porta de metal. — É que eu nunca ganhei tanto dinheiro assim. — Acostume-se — Cesar saiu, mas antes que Talita fechasse a porta, entregou uma chave a ele. — Tome, você é confiável o bastante. É uma cópia da chave que Layra mandou fazer para te entregar. Parece que você está ganhando o coração dela. Cesar ficou feliz, mas antes de ir, comentou sobre uma coisa. — Vocês são tão ricas, deviam montar uma agência de modelos de verdade. — Esse não é o nosso propósito aqui, e nós ainda repartimos com os meninos prodígios do Castelo. Alguém sempre vem buscar. Nenhum deles é deste mundo e não sabe como nós funcionamos. — Eu ouço vocês falarem sobre eles. Por que estão separados? Onde eles estão? — Depois você vai entender tudo — por fim se despediram. Cesar teria que voltar em trinta minutos.
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