Capítulo 4

3883 Palavras
O momento do almoço chegava ao fim e Cesar comeu tão devagar, parecia ser um total estranho ali, tão tímido. Estavam apenas ele, o seu irmão Waldir e o seu pai Cosme, o modo como estava sério, calado, para o pai, era incomum. — Cesar, você não conseguiu ver a Tainara ontem na igreja? Pode ver amanhã — disse Seu Cosme, o que fez Cesar olhá-lo com tristeza, pois, tocou justamente no assunto qual ele queria evitar. — Aconteceu alguma coisa, meu filho? — o pai ficou preocupado ao ver a expressão do filho. Logo em seguida, Cesar olhou para o irmão que havia parado de mastigar o seu feijão com arroz e carne para encará-lo também. Ele não queria falar sobre aquilo, também não iria chorar na frente dos homens, nem tinha mais lágrimas. Enfim, ele desviou os olhos dos outros e contou: — Eu terminei o namoro. — Por quê? Vocês brigaram? — Não, pai — disse Waldir —, ela deu corno nele. Seu Cosme engoliu em seco, pois, sabia mais que qualquer um daquela casa o que era uma traição. Cesar olhou para o seu irmão surpreso. — Você já sabia? — indagou Seu Cosme para Waldir. — Não sabia, mas deduzi pela cara dele, não é!? — Foi isso mesmo o que aconteceu, meu filho? — perguntou Seu Cosme e Cesar confirmou com a cabeça. — Eu vou afastar ela do g***o de jovens da igreja... — Não precisa fazer isso, pai — pediu Cesar de imediato. — Só preciso deixar isso tudo quieto, cada um vai viver a sua vida agora sem se preocupar um com o outro. Na verdade, eu quero esquecer essa menina, peguei ela no momento exato em que estava aos beijos com outro cara. Não quero nem lembrar para não ficar com raiva. — Rapaz, essas meninas de hoje não têm nada na cabeça — comentou Seu Cosme, mesmo sentindo, no fundo, que não tinha respaldo para fazer comentários contra aquilo, apenas queria dizer alguma coisa que para o momento seria importante. O silêncio predominou depois disso, Waldir jogou os talheres no prato o que fez ruídos e levantou-se bruscamente da cadeira. — Vamos, levanta — ordenou a olhar para Cesar. — Por quê? — quis saber Cesar sem ânimo algum. — Vamos sair. — Aonde vocês vão? — perguntou Seu Cosme quando Cesar levantou-se da cadeira. — Para qualquer lugar, ele precisa esquecer aquela v***a. — Olha essa boca, meu filho — avisou Seu Cosme. — Desculpa, meu pai — disse Waldir a calçar as sandálias e desceu às escadas acompanhado pelo irmão frustrado. — Vai com Deus e não voltem muito tarde — gritou Cosme da janela assim que os meninos saíram pelo da casa. — Amém! — gritaram os meninos de volta e em uníssono. *** Waldir e Cesar andaram por muitos minutos, pegaram um transporte público, depois andaram de novo e chegaram a um bar e restaurante. Eles entraram e acomodaram-se numa das mesas. — Waldir, o que estamos fazendo aqui? — perguntou Cesar com os dentes cerrados, ficou um pouco desconfortável com tanta gente a observá-los. — Esse lugar não é muito caro? Você tem dinheiro? — Espere e verás — disse Waldir. Em poucos segundos, um homem n***o e bem arrumado apareceu e sentou-se com eles, antes, saudou o Waldir com bastante afeto. — Meu amigo, você por aqui. Já faz uma semana que não aparece — disse o homem. "Uma semana?", questionou Cesar em pensamento. O modo como o homem falava parecia que havia anos que não se viam. — É sim. Eu estava bastante ocupado — falou Waldir. "Bastante Ocupado?", pensou Cesar ao olhar para o irmão de esguelha. — Certo, mas não deixe de vir aqui, cara, você sabe que você é uma das poucas pessoas que faço questão da amizade — o homem conhecia Waldir desde mais jovem, sempre estimou o seu comportamento. Ele olhou para Cesar e disse: — E quem é este aí? Seu irmão? — É sim — respondeu Waldir. — Cesar, este aqui é o Paulo Antônio, o dono deste bar. Meu amigo de infância — brincou, pois, não se conheceram quando crianças, o Paulo Antônio era bem mais velho do que ele. Ambos se cumprimentaram. — Rapaz, vocês são um a cara do outro. — Oxente? Sai daí, rapaz. Sou bem mais bonito — Waldir continuou a brincar. — Espera aí que vou pedir umas bebidas para vocês — disse Paulo Antônio. No entanto, Cesar arregalou os olhos, ele nunca bebeu antes e Waldir sabia disso, tomou a liberdade de falar pelo irmão. — Amigo, o meu irmão nunca bebeu antes. Teria alguma coisa mais leve para ele? Ele acabou de terminar com a namorada e não está muito bem com isso. — Poxa! — condoeu-se Paulo Antônio. Um homem experiente como ele já teve vários relacionamentos frustrados. — Vou pedir pra trazerem um vinho — ele olhou nos olhos de Cesar e assegurou. — Você vai gostar. Primeiro, Cesar bebericou o vinho, era doce e suave, dava um certo amargor do final. Depois tomou um gole e sentiu a acidez do álcool no seu esôfago e um fervor do seu estômago. No começo achou r**m, mas obrigou-se a não fazer careta e a beber tudo. Não desperdiçaria o vinho, nem passaria vergonha com a sua "primeira vez". O tempo passou e, enquanto os outros bebiam cerveja, Cesar já estava no terceiro litro de vinho. Era o mais barato e o dono não se importaria em pegar mais, ele poderia dar o mais caro, no entanto, pediram uma bebida mais leve. De qualquer forma, Cesar não havia alimentado-se direito e ficou bêbado logo. — Cesar, acho melhor você parar um pouco — aconselhou Waldir ao impedir que Cesar colocasse mais da bebida alcoólica no copo. — Sai — gritou Cesar com voz de ébrio. Mesmo embriagado, não errava quando despejava a bebida. Aquele gesto fez o Paulo Antônio rir muito. — Eu quero beber. — Pô! Waldir, o seu irmão é dos meus. Deixa ele beber. — Mas eu não posso levar ele para casa assim, meu pai vai me m***r. Ele nunca bebeu antes. — O seu pai não sai de casa? — Ah! Vai sair ainda, tem culto hoje. — Vixe! Seu pai é crente? — Pô! Antônio, você também está bêbado? Eu te falei isso um milhão de vezes. Meu pai é quase o pastor da igreja. — Eita, poxa! Olha, vocês ficam aqui até dar o horário que ele sai, aí depois vocês vão embora, eu peço até para o Júnior levar vocês — Paulo Antônio referia-se ao seu filho mais velho, tinha dezoito anos e aprendeu a dirigir carro b novo. — Olha, para um alcoólatra, até que você teve uma boa ideia. Mas Cesar tem que parar de beber agora, senão meu pai vai descobrir e vai brigar comigo, fora que ele nem comeu direito. — Entendi — Paulo Antônio pediu que preparassem umas sanduíches para eles e devoraram de uma maneira que tinham até esquecido que comeram. Depois de um tempo, Cesar sentiu uma v*****e enorme de urinar e Paulo Antonio pediu que Júnior o levasse até ao banheiro. Cesar saiu aos tropeços e a provocar risos de quem observava. — Não vá se mijar todo, hein!? — advertiu Júnior ao fechar a porta do banheiro para Cesar. Cesar ficou muito tonto, a sua bexiga ficou bem inchada e ele quase urinou nas calças quando finalmente conseguiu abrir o zíper e por o genital para fora, nunca tinha evacuado tanta urina como naquele dia, o alívio foi instantâneo. A visão dele ficava turva a todo momento, mesmo de óculos, e ele sintia ânsia de vômito a cada dez minutos, depois arrotava e se sentia melhor. Quando finalmente parou de urinar, ele ajeitou-se, lavou as mãos e colocou a mão na maçaneta para sair, mas, de repente, ele sentiu uma efêmera, porém, pesada, v*****e de dormir, a luz do banheiro se apagou, depois foi acendendo vagarosamente, não mais incandescente, sem transmitir aquele efeito ensolarado, mas com um tom azulado, bem incomum. Cesar estranhou. O que mais o surpreendeu foi que os sintomas da embriaguez haviam sumido. Todos. Era como se ele nunca tivesse bebido. "Oxente?", indagou Cesar já incomodado. Ele não queria ficar mais um segundo ali, ainda com a mão na maçaneta tentou abrir a porta, mas saiu dali de uma modo surpreendente, ele atravessou a porta como uma fantasma. No bar, as pessoas transitavam e conversavam livre e tranquilamente, estaria tudo comum se não fosse pelo tom azulado de luz lá dentro — como no banheiro, como nos seus sonhos — e se todas as pessoas não estivessem fumegantes. Uma fina fumaça vermelha evaporava ao redor dos corpos, como uma aura. Cesar não fumegava, e a parte mais intrigante era que ele estava perto de uma parede com espelho e não via o seu reflexo. "Ai, meu Deus!", gritou Cesar assustado. Ele correu de volta para o banheiro, iria trancar-se lá dentro até tudo voltar ao normal, mas a maçaneta estava não girou, nem para um grau. Ele virou-se desesperado. O que faria? Teria que sair dali. Cesar andou apressadamente pela salão do bar e restaurante a procurar pelo seu irmão, pois, a mesa qual estavam não havia ninguém, apenas os cascos das cervejas e as garrafas de vinho. Então ele correu para sair do estabelecimento. Por que aquilo estava acontecendo? Ninguém podia explicar? Ele só queria ir para casa, quando, parou para ver uma das garçonetes sair da cozinha, era uma jovem n***a, pequena, simpática, as suas sobrancelhas eram pintas e o seu cabelo afro estava amarrado no topo da cabeça, ela tinha uma aura diferente da de todas as outras pessoas, dela, emanava uma fumaça branca e reluzente como feixes de luz na neve. O jovem encantou-se, ainda não tinha visto uma aura daquela cor. Necessitou de ir falar com ela, parecia ser o correto. A garçonete estava a anotar um pedido — aparentava ser uma adolescente, mas para trabalhar naquele local, no mínimo, tinha dezoito anos —, quando Cesar tentou falar com ela. "Oi! Com licença! Pode me dizer aonde foi o seu patrão?", foi aí que Cesar percebeu que a sua voz soou duplicada, ou ecoada. Teve consciência de que tudo não passava de um sonho. Além de a garçonete não o ter ouvido ela virou-se e andou, o atravessou completamente. "Vixe! Que calafrio!", exclamou a garçonete. Cesar ficou parado, impressionado, sem saber o que fazer. Ele observou a única pessoa com aura diferente entrar na cozinha do bar e restaurante para levar e trazer pedidos. Nesse átimo, olhou para fora e avistou uma criança a vagar pela frente do estabelecimento, também era a única que tinha uma aura diferente da dos demais. A aura da criança era azul. Cesar não fazia ideia do que era aquilo tudo e por que algumas pessoas tinham auras de cores diferentes. Cesar, dominado pelo instinto e já mais calmo, teve ímpeto de sair do local e seguir a criança. Assim que o fez, percebeu que a criança andava para lá e para cá, em frente ao bar. Ele viu que se tratava de um menino n***o, estava sem camisa e descalço. Quando o menino voltou, olhou para Cesar que o encarava fixamente, sorriu de maneira bem rápida e se aproximou. "Moço, você viu a minha mãe?", perguntou o menino. Estava bem triste. Ele tinha, aparentemente, uns onze anos, mas era bem magro, não se sabia ao certo. "Você consegue me ver?", perguntou Cesar de volta. O menino pegou na mão de Cesar, tão fraco que quase não se sentiu. "E me tocar?" "Moço, por favor", o menino choramingou. "Já tenho três dias aqui, ninguém quer falar comigo. Eu preciso ver a minha mãe." O coração de Cesar se partiu. Ele ajoelhou-se e segurou as mãos do menino que fumegava uma aura azul, bem forte. "Não se preocupe, eu vou procurar a sua mãe. Qual é o nome dela?" "Elma." "E onde você mora?" "Em São Caetano, não sei o nome da rua." "Muito longe daqui. Ninguém quis te ajudar? n******e pegar um ônibus? Olha, tenho um irmão que mora lá, eu posso te levar e procurar pela sua casa, está bem!?" O garotinho afirmou com a cabeça, então Cesar falou para ele se acalmar, passou a mão pela cabeça dele e sentiu o seu dedo médio passar por um buraco, os cabelos do garoto estavam muito grandes e não dava para perceber. "O quê?", indagou Cesar e ele procurou ver atrás da cabeça da criança, contudo, uma voz o chamou: "Cesar!" Ele virou-se para ver, era a do seu irmão, mas ele não estava em lugar algum. Cesar sentiu um frio na barriga e entendeu que estava a voltar. Tentou ver o buraco na cabeça da criança mais uma vez, porém, o seu irmão o gritou novamente: "Cesar, acorda!" Uma força levou o rapaz de volta para o seu corpo e ele despertou. Estava deitado de qualquer maneira num sofa aconchegante de uma sala bem arrumada. *** De súbito, Cesar levantou-se do sofá preto, estava ofegante. — Oxente! — exclamou Waldir. — Calma aí, irmão. — Waldir? O que aconteceu? — Cesar estava muito tonto e com dor de cabeça. Sentiu a falta dos óculos e a sala estava com a lâmpada apagada, o seu irmão era um borrão no escuro. — Cadê os meus óculos — Calma, estão aqui — Waldir retirou os óculos de Cesar do bolso das calças e os entregou ao dono. — Eu vi que você estava demorando demais no banheiro, então fui te chamar e você não respondeu. Por curiosidade, abri a porta e você estava caído, desmaiado no chão. Daí, o Paulo Antônio e eu te carregamos até aqui, só que está tarde e a gente precisa ir embora. Consegue se levantar? Está tranquilo? Cesar arregalou os olhos e se levantou do sofá com bastante pressa e sem se importar com o peso que sentia no cérebro por ter bebido tanto. — O garoto! — ele gritou. Cesar abriu a porta e desceu às escadas, em seguida, abriu o portão e saiu para ver a frente da loja. Cesar colocou as mãos na cabeça em sinal de preocupação. Atrás dele, Waldir apareceu com o coração acelerado. — Oh, rapaz. Ficou doido? Como é que você sai assim? Que garoto é esse... Espera aí, como você andou pela casa dos outros deste jeito se você nunca veio aqui antes? — Waldir, tinha um menino aqui, não viu? — Cesar demorou para raciocinar que estava de noite e os pontos de comércio estavam perto de serem fechados. O bar e restaurante do Paulo Antônio já havia fechado. — Que menino, cara? — Uma criança, Waldir, ele estava descalço e sem camisa. O coitado já estava há três dias aqui. Wladir deu risadas. — Cara, você está muito bêbado. Vamos logo para casa. Você sonhou enquanto estava desmaiado. *** Cesar ficou muito sério na volta para casa, Júnior os levava no carro como prometeu Paulo Antônio. Ele não aguentava mais aqueles sonhos, estavam a perturbá-lo, eram muito reais. Aquele menino ficou na sua mente e ele precisava fazer alguma coisa para ajudá-lo, sentia isso. Chegaram em casa quietos, não podiam arriscar se o pai deles estivesse em casa, mas como previram, ele havia ido para a igreja. — Graças a Deus ele foi para o culto — disse Waldir. — Olha, Cesar, se o pai perguntar, a gente deu uma passeio por aí e comemos alguma coisa numa lanchonete. — Você sabe que não sou bom com mentiras — avisou Cesar ao se arrastar para o seu quarto. — Então deixa que eu falo. Vá dormir e nunca toque no assunto. Se ele tocar, diz que foi passear. E beba café. — Antes de ir dormir? Ai é que vou ficar sem dormir a noite toda. — Bebe, rapaz. Você vai ficar de ressaca e vai entregar tudo. Cesar obedeceu o irmão mais velho. Bebeu café pela metade do copo, estava meio amargo, e foi se deitar. Ainda estava com dor de cabeça, não conseguiu dormir. O mundo a sua volta não parava de girar e o seu estômago roncava, não de fome, mas da digestão do que consumiu. Pensou em um monte de paranoias até se levantar da cama, pôr os óculos e ir para a sala assistir um pouco de televisão. Nesse exato momento, Seu Cosme chegou da igreja acompanhado com os outros filhos que se dispersaram para irem dormir. Seu Cosme parou de frente para o seu filho, ao lado da televisão, com as mãos na cintura, e perguntou: — Onde está o seu irmão? Aliás, nem precisa responder, eu aposto que está no quarto jogando video game — o garoto apenas sorriu e gesticulou. Seu Cosme suspirou a fazer ruídos. — Cesar, você bebeu? Cesar não podia esconder nada do seu pai. — Olha, pai, não brigue com ele, eu sou de maior, tenho dezoito anos, e bebi porque eu quis. Eu precisava... — Para que, meu filho? Para ter uma falsa sensação de felicidade? — Oh, meu pai — Cesar choramingou, era o efeito do álcool ainda no organismo. — Eu não acredito que o senhor vai brigar comigo por causa disso. — Eu vou brigar com o você e com o Waldir. Todos os dias eu peço a Deus para que vocês não se transformem em alcoólatras. — Não somos alcoólatras por beber um pouco de vinho ou cerveja. — Um pouco? Cerveja? — Pai, por favor — diante dessa súplica de Cesar, Seu Cosme se aquietou e pôs a mão na fronte em sinal de decepção. Nem de longe pareceu que eles brigaram, não tinham esse costume e eram bem calmos quando geravam uma discussão. — Olha, meu filho, eu sei que você está muito decepcionado com a Tainara, você até pediu que eu não fizesse nada contra ela, mas eu a afastei do g***o dos jovens. Enfim, você não vai mudar nada com bebidas. Espero que seja a ultima vez que você tenha feito isso. — Poxa, pai. Por que o senhor nunca cobrou isso de Sócrates e de Waldir? — Porque você é diferente, na verdade, você está diferente. Veio mudado do Rio de Janeiro. Percebi que tinha um brilho no rosto, como eu nunca tinha visto antes em ninguém. — Não fala assim, pai, eu não sou perfeito, não posso ser o exemplo. — Mas é o bastante para percebermos o quanto você é bom. Cesar se emocionou. Ele levantou-se do sofá e deu um abraço apertado no seu pai. — O senhor sabe que te amo, não é, pai!? — disse Cesar. — Eu sei, meu filho, você diz isso desde que aprendeu a falar. Agora, vai tomar um banho e escovar os dentes porque o café não resolveu o seu problema. Cesar acatou a sugestão do pai e por fim foi para o seu quarto dormir, o seu dia foi agitado, contudo, foi dormir a pensar naquele menino descalço e sem camisa. *** Cesar sonhou que estava numa floresta pela noite, a lua estava muito grande e exibia um brilho azul, ao seu redor havia várias árvores secas e mortas, como se toda a água estivesse sido evaporada delas, ao derredor, as outras árvores estavam bem vivas e saudáveis, contudo, existia apenas uma, a mais peculiar, árvore de raias que brilhavam como luz neon. Nessa árvore, uma luz vermelha passeava para todo lado como pequenos roedores, percorria desde as raízes até aos mais finos ganhos. Cesar, azulado e transparente, como nos outros sonhos, aproximou-se da árvore e a tocou, jamais viu algo parecido. De repente, de algum lugar da floresta, surgiu uma mulher esbelta, tinhas longos cabelos lisos e platinados. Ela estava acompanhada por alguns homens de preto e a vestimenta de todos eram medievais. A mulher esbelta que se destacava naquela floresta usava uma coroa e tinha um cetro dourado na mão, havia um cristal oval encaixado na parte superior do cetro, encaixado numa flor de lótus de ouro. A mulher, obviamente uma rainha, também estava acompanhada por outra mulher, porém, preta e muito grande, pelo fenótipo, parecia ser africana, e usava roupas que a deixava hipersexualizada, segundo a observação de Cesar. Ela tinha os olhos vermelhos-neon iguaizinhos às raias neons da árvore peculiar. A rainha olhou para a africana, que era a mulher mais bela que Cesar já viu, e disse que ela estaria livre para se vingar, apontou o seu cetro real para a árvore, falou algumas palavras que ele não entendeu e por fim, um raio cósmico saiu do cetro e atingiu a árvore. Demorou alguns segundos. Assim que terminou, a rainha e quem estava com ela sumiu em uma fumaça preta e cheia de centelha que surgiu de lugar nenhum, e uma fumaça neon saiu da árvore e tomou a mulher africana. Depois disso, a mulher começou a se transformar numa gigantesca tigresa-dente-de-sabre. A criatura rugiu e as suas patas flamejaram, depois começou a correr pelos ares. A tigresa parecia ser feita de madeira carbonizada e soltava muita fuligem e centelha. Roncava como uma poderosa felina gigante e os seus olhos vermelhos-neon estavam carregados de ódio. Cesar seguiu a criatura a flutuar pelos ares, nem sabia como estava a fazer aquilo. Aquele sonho era tão real quanto os outros, porém, não estava tudo azulado, não enxergava as auras das pessoas, nem ouvia sons duplicados ou ecoados. A tigresa chegou a uma pequena savana, e se aproximou de um pedregulho, atrás dele havia uma gruta. Estava vazia. A tigresa farejou e seguiu o cheiro por outro caminho. Rosnou e continuou com a viagem pelos ares. Bem depois da savana, existia um extenso campo de margaridas lilases. E alguns outros felinos gigantes andavam por ali, quando perceberam a presença da tigresa feita de fuligem e centelha, correram para tudo quanto era lado. A tigresa perseguiu o maior deles e o encurralou, ele tinha apenas um olho. — Finalmente, Leo Spelaea, eu terei a minha vingança — disse a tigresa com voz feminina, suave e profunda, contudo, sedenta. Ela era o dobro do tamanho dele. — Onarah — gritou o leão desesperado. — Não é necessário que tudo se acabe desta maneira, cheguemo-nos a um acordo? — Tu quebrastes o acordo quando traiu e assassinou o meu amado pai. A tua história acaba hoje e aqui. — Não, clemência... — gritou o leão e curvou-se como um gato assustado, mas a tigresa lançou-lhe pela boa uma bola de fogo tão intensa que transformou o leão em carbono, as flores ao seu redor quemaram-se antes mesmo dele. A tigresa, chamada Sai Onarah, olhou para trás e viu que os outros leões assistiam de longe ao momento. Eles correram, mas a tigresa os alcançou, um por um. Não deixaria um leão vivo. Curiosamente, e finalmente, depois de ter matado todos os leões, a tigresa olhou para Cesar, não podia vê-lo, mas parecia que sentia a sua presença, e sem mais nem menos, ela lançou sobre ele uma bola de fogo. *** Cesar gritou ao sentir aquele calor intenso e acordou completamente suado. Estava na faixa de umas nove horas da manhã. — Meu Deus! Esses sonhos um dia vão me m***r.
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