A noite chegou e Cesar e o seu pai estavam a se arrumarem para irem à igreja.
O local não era tão longe dali, por isso eles foram a pé. Demoraram um pouco para chegar, caminharam sem pressa, mas chegaram bem no horário, na verdade, cedo demais.
Não havia quase ninguém. Cesar decidiu ficar sentado perto da entrada caso Tainara aparecesse, ele poderia vê-la e chamar por ela. Contudo, a igreja foi enchendo de gente e Tainara não apareceu.
Que azar!
Ela nem foi para o culto e Cesar ficou decepcionado, não conseguiu prestar atenção em nada. Ele conhecia a mãe dela que estava lá, mas decidiu não importuná-la com um interrogatório.
Pouquíssimas pessoas falaram com ele por ter o reconhecido. Se ele estivesse sentado num banco da frente, quem sabe mais pessoas tivessem o saudado.
Quando voltaram acompanhados por alguns irmãos, um dos jovens chamou o Cesar para conversar e o convidou para participar de uma partida de futebol numa quadra ali por perto, pois, Cesar havia contado que voltou para a Bahia recentemente porque havia ido para o Rio de Janeiro para tentar a carreira como jogador de futebol, mas não deu certo.
Em casa, Leandro e o Waldir estavam a jogar video game e Seu Cosme ordenou que parassem, eram mais de nove horas da noite e não podiam ficar ali a noite toda. Se deixasse, podiam sim. Então, os meninos cancelaram o jogo e foram assistir a televisão.
Cesar foi diretamente para o seu quarto, frustrado, tudo o que queria era ver a sua amada. Então foi dormir.
***
Cesar acordou no meio da madrugada, três horas, e ele sentia muito frio porque estava descoberto, quem sabe isso o tenha despertado. O clima estava estranho naquele dia, nem parecia a mesma cidade. O jovem levantou-se aos tropeços da cama e foi para a cozinha beber água, a garganta estava seca.
Ele viu que os seus dois irmãos estavam a dormir com a televisão ligada, desligou a televisão, foi para o quarto, pegou cobertores, os enrolou, depois foi para a geladeira da cozinha e bebeu um copo cheio com água bem gelada.
Ainda estava com sono, então foi para o quarto e só então se deu conta de que a janela estava aberta. Não lembrou se havia a fechado ou não. Quando aproximou-se para fechá- la, observou que a janela da casa ao lado também estava aberta, e, de lá, uma luz fluorescente piscava de maneira lenta. Ele muito estranhou. Encostou-se na janela para bisbilhotar, não tinha esse costume, mas as vizinhas, quem quer que fossem, eram muito reservadas. De repente, uma garota apareceu da janela e Cesar se escondeu.
Ele se aproximou da janela de maneira cautelosa, mas não foi necessário, a garota havia fechado a dela e tudo voltou a ficar escuro, a noite estava silenciosa, ouvia-se apenas o som tranquilizante da natureza.
O garoto ficou pensativo, mas não demorou muito e se entregou ao sono, precisava acordar cedo para jogar futebol e iria aproveitar que a quadra era perto da casa de Tainara, faria uma visitinha de surpresa.
Cesar acordou pelas sete horas da manhã, a partida de futebol começaria às oito horas. Tomou um banho, ajeitou-se, preparou as chuteiras e as colocou dentro de uma mochila com alguns outros pertences. Seu Cosme lhe desejou boa sorte e mandou que ele pegasse a bicicleta para não ter que ir a pé.
Quando Cesar abriu o portão da casa e saiu com a bicicleta, ele pôs os óculos e enxergou uma jovem distante, ela era amarela, quase branca, tinha cabelos lisos, bem curtos e pretos, seus olhos eram grandes e as íris eram castanho-escuras, ela era baixinha e usava um vestido preto. Cesar tentou a reconhecer, mas não sabia quem era.
A jovem, que andava na sua direção, carregava algumas sacolas se supermercado no braço esquerdo, dobrou à direita e encaixou a chave na porta de metal do muro da casa ao lado. Era a vizinha. A casa era misteriosa, era murada e parecia desabitada, porém, também parecia ser de gente rica.
Cesar andou bem devagar com a bicicleta antes de montar e sair a pedalar. Ele queria saber sobre o pessoal da casa ao lado. Não era uma pessoa muito curiosa, principalmente quando se tratava de vizinhos, mas aquela casa o instigava a querer conhecer, como se, inexplicavelmente, algo muito forte o chamasse. A garota, a girar a chave para destrancar a porta, olhava para Cesar de maneira prosaica. Ele a saudou com um "bom dia", porém a jovem entrou tão depressa que nem deu tempo de ouvir para responder.
— Nossa! — exclamou Cesar.
Antes que ele montasse na bicicleta, identificou um brilho diferente no chão, bem perto da porta de metal. Ele foi até lá e pegou o objeto, era a coisa mais estranha que Cesar já vira.
O objeto era mais ou menos do tamanho da palma de uma mão, parecia um graveto, porém, contornado, e tinha alguns relevos pequeninos, bem artesanal. Na ponta superior do objeto pendia um cristal, dali que viera o brilho. Era um objeto pesado para o tamanho e parecia ser valioso. Cesar nunca viu nada igual.
Ele pensou muito se devolveria naquele mesmo dia, naquela mesma hora, ou deixaria para depois.
Era melhor que devolvesse logo, ele nem estava com tanta pressa assim, só que ele queria deixá-la preocupada um pouco, somente pelo fato de ela ter o esnobado.
Cesar decidiu bateu na porta o mais forte que pôde até perceber que havia uma campainha no muro. Ele a apertou. Não demorou muito até uma voz feminina gritar do lado de dentro:
"Quem é?"
— Eh... — Cesar não sabia direito o que dizer. — Sou eu, o vizinho. Você deixou uma coisa cair aqui — ele ouviu o som da porta a ser destrancada.
A mesma garota que ele avistou no início foi quem o atendeu. Cesar mostrou o objeto e a garota ficou surpresa. Ela pegou o objeto bem rápido e sentiu um alívio como se tivesse tomado um remédio para dor de cabeça e que o efeito fosse instantâneo..
— Muito obrigada — a garota o agradeceu. Agora ela parecia mais simpática. — Obrigada mesmo.
— Deve ter caído quando você pegou a chave.
— Sim, deve ter sido isso — ela olhou para Cesar nos olhos, não mais de maneira prosaica, e depois apertou os olhos como se estivesse a tentar enxergar alguma coisa. — Você... — ela queria lhe fazer uma pergunta, depois desistiu e agradeceu mais outra vez antes de pedir licença para fechar a porta.
— Hum! Bonita, porém, estranha — finalmente, ele montou na bicicleta e foi embora.
***
Cesar chegou à quadra de futebol depois das oito horas, repleta de garotos, e conhecia a metade e cumprimentou praticamente a todos. Logo em seguida, encontrou-se com o jovem da igreja do dia anterior.
O jogo começou. Cesar do time do Bahia que jogava contra o time do Vitória. Teve que retirar os óculos para não correr o risco de danificá-los. jogou extraordinariamente bem, tanto que começou a chamar atenção de quem assistia.
"Vai Cesar", gritava alguns.
Ele fez cinco gols e o jogo durou quarenta e cinco minutos. Cinco contra dois foi o placar. O time do Bahia venceu e a torcida comemorou como se estivessem num campeonato.
— Cara, você fez todos os gols — falou o jovem da igreja. — Sabia que era pra ter colocado você como atacante. O pessoal não queria, mas agora viram. Já queremos você no próximo jogo.
— Valeu, cara — eles apertaram as mãos num gesto fraternal.
— É sério, preto, você joga demais, e olha que estava sem os óculos. Você tem talento.
Cesar agradeceu novamente e se preparou para ir para casa, mas antes passaria na casa da namorada.
Na hora de ir embora, alguns meninos olharam para o Cesar de maneira hostil, para tentar intimidá-lo. Ele nem se importou, isso era tão corriqueiro, já se envolveu em tantas brigas desnecessárias que depois que amadureceu, tornou-se uma pessoa mais tranquila.
Assim que Cesar, todo feliz por fazer essa surpresa à sua namorada, chegou à casa de Tainara, deparou-se com ela aos beijos com outro rapaz atrás de uma árvore do lado da própria casa. Ele não podia enxergar de perto, mas de longe ele enxergava perfeitamente.
O seu sorriso converteu-se numa expressão de nojo e por fim de tristeza.
"Eu não acredito que ela fez isso comigo", pensou Cesar. De onde ele estava não dava para verem-no, senão ela poderia não ter sido pega de surpresa.
Cesar queria ter ido agredi-los, teve ímpeto de jogar a bicicleta no chão e partir para cima deles dois. Mas não fez nada. Esperou que eles terminassem.
Quando o rapaz foi embora e Tainara entrou na casa, Cesar respirou fundo e foi com a sua bicicleta até lá, bateu na porta e esperou alguém atender.
A própria Tainara fora quem o atendeu e arregalou os olhos quando o viu, ficou em transe, depois hesitou tanto que quase perdeu o ar, enfim lançou um sorriso amarelo e foi abraçá-lo.
— Meu amor... — antes que pudesse mesmo terminar a frase, Cesar estendeu a mão contra o peito dela e a interrompeu, ela já estava com os braços erguidos.
— Para com isso, Tainara, eu acabei de ver você aos beijos com outro cara.
Tainara ficou extremamente preocupada.
— O quê? Cesar você acabou de chegar...
— E você não sabia, senão jamais teria feito o que fez. Para de ser cínica.
— Cesar, do que você está falando?
— Que des... — Cesar respirou fundo. — Olha, está tudo acabado entre nós. Adeus! — ele virou-se para partir, mas Tainara correu para a sua frente o impedindo de se retirar.
— Espera, Cesar, você entendeu tudo errado. O menino que você me viu conversando era o meu primo, ele...
— Que m***a! Cala essa boca, minha filha. Não está vendo que você não vai me convencer? Acha mesmo que eu sou algum i****a para cair na conversa de uma crente s****a como você... — Cesar fez uma careta quando lágrimas silenciosas caíram dos olhos dela e ele se odiou pelo que disse. É certo que Tainara o traiu, mas Cesar era muito respeitador, não podia se dar ao luxo de se curvar à pressão do momento, não era igual aos outros e foi acalmando-se vagarosamente. — Olha, me desculpa. Só me deixa ir embora, por favor.
Novamente, Cesar estava para partir quando Tainara gritou:
— O que você queria que eu fizesse? Você sumiu por dois anos. Pensou mesmo que eu ia ficar aqui esperando você se divertir com várias garotas? Eu não sou santa, Cesar.
— Se isso é sinônimo de santo, então eu sou, porque não me envolvi com ninguém por ser fiel a você, por te amar, na verdade e por ter caráter. Volta para o teu "primo" e me deixe em paz — finalmente Cesar subiu na bicicleta e partiu.
Ao chegar em casa, ele correu para o seu quarto. Waldir estava a jogar video game, como sempre, e o Leandro e a Adriana estavam se arrumando para se encontrarem com alguns colegas da escola pública do bairro qual estudavam, estavam de recesso escolar.
Cesar trancou a porta do quatro e jogou-se na cama, chorou silenciosamente, chorou de raiva, chorou de arrependimento, chorou e nem sabia mais pelo quê. A dor da traição é uma coisa que destrói a pessoa de dentro para fora.
Finalmente, pegou no sono de tanto chorar.
***
Cesar estava diante de uma loja, a mesma qual ele havia sonhado pela primeira vez, a Vehra Magic Shop. O mesmo tom de azul predominava a tudo o que ele via e o mesmo aspecto fantasmagórico e azulado estava o seu corpo.
"Ah! Não, de novo não", pensou.
Cesar não conseguia mexer a boca, não conseguia mover-se. Não podia fazer nada a não ser ficar ali parado.
De repente ele estava dentro da loja. Ele viu a mesma garota qual era a aniversariante no sonho antigo. Ao redor dela evaporava uma fumaça preta bastante intensa e a mesma energia sombria de antes pulsava do seu ventre. A garota estava atrás de um balcão e jogava búzios para outra garota, parecia uma jovem qualquer, dela evaporava uma fumaça vermelha.
De trás do balcão havia uma porta e de lá saiu a garota loira do sonho anterior, Cesar hesitou. Uma fumaça preta também saía do corpo dela, porém, não tão intensa como a outra que lia búzios.
"Quem é a próxima?", perguntou a loira. O som da voz parecia duplicada, ecoada.
"Sou eu", respondeu uma pessoa que apareceu de algum lugar que Cesar não pôde ver, a sua aura era uma fumaça vermelha também.
Tudo aquilo era bastante intrigante, a garota loira pegou nas mãos da, provavelmente, cliente e fechou os olhos, como se fosse uma cigana a ler mãos.
"O que está acontecendo aqui?", questionou Cesar.
"O quê?", perguntou a loira.
"Oi?", indagou a cliente.
"Disse alguma coisa?", continuou a loira.
"Você deveria saber", respondeu a cliente de modo grosseiro. "Não disse que ia ler a minha mente?"
A loira ficou intrigada. Ela olhou significativamente para a outra da aura de fumaça preta gigante que correspondeu a olhadela.
"Olha, vou devolver o seu dinheiro, não estou me concentrando direito. Precisamos fechar a loja daqui a pouco..."
"Que doideira é essa?", pensou Cesar no momento em que a loira falava. Curiosamente, ela hesitou e olhou para a direção de Cesar.
"Quem é que está aí?", a loira perguntou para ninguém, não podia ver o Cesar, mas estava nítido que ela podia ouvir os seus pensamentos.
Imediatamente, uma força puxou Cesar de volta para o seu corpo e ele acordou.
***
Uberlândia — 11 / Janeiro / 2006
Quatro meninas saíam da loja Vehra Magic Shop à tarde e Sarah fez o favor de trancar a porta do estabelecimento. Trocou a placa de aberto para fechado.
Ela fechou todas as janelas, certificou-se de que não havia ninguém na loja e desligou todas as luzes. Andou para atrás do balcão e depois passou pela porta. Estava numa área de estoque de mercadorias e no canto esquerdo havia uma escada, ela subiu, passou por outra porta e encontrou duas garotas sentadas à mesa a esperar pelo almoço.
A parte de cima da loja era a residência luxuosa de Valéria. Com o tanto de ouro que tinham, deu para comprar a parte de cima do estabelecimento que pertencia a outra pessoa, fora, usarem magia para arrumarem tudo como queriam. Pétala era quem estava com a Valéria, a única Immunus entre eles, e conversava sem parar. Alejandro estava na cozinha e preparava um delicioso e rico ensopado.
— Eu me bati com ela no Shopping — continuou Pétala o que estava a contar. — Ela me pediu... Pediu não, implorou para que eu voltasse para casa. Os meus pais são tão legais, me deixaram vir na maior tranquilidade. Por que a Pérola tem que ser tão insuportável? Está dando uma de...
— Pétala — interrompeu Sarah quando Alejandro apareceu com a comida e sentou-se com elas —, não queria cortar a sua conversa, mas eu pedi para fecharmos a loja nesse horário porque eu preciso contar uma coisa muito importante.
— Sarah, por que está tão preocupada com isso? — perguntou Valéria ao acariciar a barriga. — Tenho certeza que foi um mero fantasma, ele deve estar procurando o caminho do Além e você precisa se controlar, assustou as nossas clientes hoje.
— De novo aquilo do aniversário? — questionou Pétala. — Eu fiquei chocada. Todo mundo parou para te olhar.
— Gente, eu ouvi os pensamentos de alguém que não estava aqui fisicamente — esclareceu Sarah. — Isso não e comum. Não se ouve pensamentos de fantasmas e eles podem tentar se aparecer, ou se comunicar, para qualquer pessoa. Por que só eu ouvi?
— Estou ficando com medo — confessou Pétala.
— ¿Y qué sugieres que esté pasando, Sarah? — perguntou Alejandro.
— Eu acredito que alguém está nos espionando — respondeu Sarah de maneira sigilosa.
— Como fariam isso? Estamos protegidos, lembra, quando conjuramos um feitiço de p******o? — disse Valéria.
— Sim, mas eu não estou ficando louca. Se esqueceram do meu dom? Essa pessoa deve ser muito poderosa.
— ¿Más poderoso que Valeria? — Alejandro bufou. — Imposible.
— Muito bem! Quem faria isso e por quê? Conte-nos a sua teoria — quis saber Valéria.
— Quando eu ouvi a voz pela primeira vez, eu senti uma magia diferente. Eu acredito que algum feiticeiro poderoso está te procurando, Valéria — Sarah voltou-se para a referida. — Você sabe que está famosa em Umnari. Quem sabe até mesmo em Dorbis inteira, a única Allogaj existente. É a primeira vez que o castelo real do Grande Rei Ic perde uma batalha. As notícias se espalham bem rápido. Vão querer saber tudo sobre você, dependendo das ideias, quem sabe até te exterminarem. O traidor dos Luvas-de-Prata ainda está foragido. Ele tentou te m***r atravéz de Biatriz por várias vezes e aproveitou que a Kanahlic tinha sido capturada para atacar diretamente.
— Aposto que Anne estaria entendendo tudo agora, porque eu não estou entendendo nada — comentou Pétala.
— Deixa esse feiticeiro me encontrar, como você disse, eu sou uma Allogaj. Alguém pode contra mim? — retrucou Valéria. Ao perceber que a sua amiga ficou bastante aflita, suspirou e a acalentou ao apertar a sua mão. — Mas você tem razão, amiga. Estou grávida e não quero ter complicações na gravidez por causa de ataques de algum feiticeiro que provavelmente não é páreo para mim. Amanhã mesmo vou procurar alguma magia de p******o bem forte e esse feiticeiro nunca mais vai aparecer aqui, seja lá como ele esteja fazendo isso.
— Debe tener um don — explicou Alejandro. — Sarah fue capaz de escuchar sus pensamientos, por lo que debe haber sido proyección astral.
Valéria olhou para Alejandro com curiosidade.
— E eu pensei que já ouvi de tudo. Que diabos é projeção astral?
— Sé lo que es, pero no puedo explicarlo.
Ao aproveitar a situação, Sarah resolveu explicar:
— Lembra daqueles feitiços que as estriges fizeram para a prova na Casa dos Cem Amaldiçoados?
— Lembro — confirmou Valéria.
— Por meio de uma poderosa magia, as estriges induziram as nossas almas a saírem do corpo e manifestarem-se num avatar. Uma alma n******e ficar muito tempo fora de um corpo, senão pode haver a consequência de cair no limbo, isso ocorre quando o corpo perde vitalidade por ficar muito tempo sem a alma. Todo aquele procedimento que as estriges fizeram era bastante seguro para...
— Eu sei de tudo isso, pode ir direto para a conclusão, minha querida? — pediu Valéria já sem paciência e a tentar não soar tão grosseira.
— Bom, quem tem o dom da projeção astral consegue fazer a alma vagar por qualquer lugar por horas ou dias, sem qualquer procedimento mágico e sem se preocupar em pousar num avatar. Ele só não poderá chegar em lugares quais estiverem sob uma forte magia de p******o. Contudo, se alguém m***r o corpo enquanto a alma estiver a vagar por outros lugares, ele pode parar no limbo também, mas isso é só uma hipótese.
— Existe um Primevo, esqueci o nome dele, mas ele é chamado de o Grande Feneco. Ele concede o desdobramento. Não é a mesma coisa?
— Olhe, a magia pode conceder a projeção astral, a magia pode até mesmo imitar os dons, mesmo assim com limites, porém, o desdobramento é algo que somente o Grande Feneco pode conceder e nenhum contra-feitiço funcionará. Existem sete dimensões, Valéria, quem pode projetar a sua alma para fora do corpo consegue alcançar apenas a quarta dimensão, a depender do grau de magia, o que não é possível para um feiticeiro sem esse dom ou sem um seguro procedimento mágico. Entretanto, quem tem o dom do desdobramento pode chegar à sexta dimensão, a mesma que os Vinte e Quatro Anciões.
Valéria engoliu em seco.
— Está aí outra novidade. Eu aprendi que a Organização dos Vinte e Quatro Anciões é um g***o de vinte e quatro Senhores que passaram do limite dos graus de magia, se tornaram entidades e têm a função de orientar os feiticeiros do mundo mágico o caminho da sabedoria. Eles também são responsáveis por controlarem a Magia Universal. Quem foi abençoado com o Desdobramento pelo Grande Feneco chega ao patamar deles?
— Sim, e quem sabe vá até mesmo além do que eles, já que estão fadados a não deixarem a Organização no centro do continente Sabanthera, porém, só não poderá mexer com a Magia Universal.
— Você não falou sobre a sétima dimensão.
— É onde ficam os deuses, nenhum humano mágico ou meão, imortal ou mortal, vivo ou morto, poderoso ou langoroso, ninguém pode chegar à sétima dimensão, a não ser o sumo-sacerdote deles.
— Primeiro, me explique o que é fadado, um meão e um langoroso para que eu entenda, meu amor. Não sou tão inteligente assim.
— Estar fadado é estar designado, ou condenado a alguma coisa, meão e uma pessoa comum e langoroso é uma pessoa fraca.
— Obrigada! — agradeceu Valéria. — Mas agora, me bateu uma curiosidade. Existe alguém que foi agraciado com o desdobramento?
— Sim, apenas uma pessoa foi classificada. É uma mulher do continente Sipritiah, o nome dela é Nabyla.
— Fico impressionada por você saber de tanta coisa — comentou Pétala. — Então, podemos comer?
Valéria autorizou que começassem a almoçar e cada um colocou um pouco de ensopado no próprio prato.
— Enfim — concluiu Sarah ao olhar para Valéria —, acredito que alguém pode estar tentando te espionar. Se for uma alma de um corpo morto você pode estar correndo sérios perigos...
— Já lidei com criaturas mortas — interrompeu Valéria.
— E se for a alma de um corpo vivo, o que é mais provável, ainda temos chances de te proteger. E se for alguém com projeção astral, como sugeriu Alejandro, podemos localizá-lo e acabar com ele.
— Qual a diferente da alma de um morto para a alma de um vivo? — perguntou Pétala.
— Se for a alma de um vivo, é projeção astral. Se for a alma de um morto, é necromancia.
Valéria e Alejandro param para encarar a Sarah. Apenas Pétala ficou confusa.
— ¿Por eso estás tan angustiado? — questionou Alejandro. — Tiene sentido.
— Amanhã bem cedo eu começo com a magia de p******o — assegurou Valéria. Não ficou mais confortável depois daquela informação.
— O quê? O que, gente? — insistia Pétala. — Ainda não sei o que é esse negócio aí.
— Necromancia é a arte de invocar, ou de mexer com os mortos para descobrir o futuro ou para que eles trabalhem para quem os invocou. Não podem morrer e podem m***r, muitos reis gostariam de ter um exército de mortos se não fossem ter que se envolverem com seres sombrios — respondeu Sarah. — É magia obscura, a famosa magia n***a, mas esse termo é usado de outra maneira em Dorbis.
— Mas vocês não são feiticeiras das trevas? Não é a mesma coisa?
— Claro que não, magia das trevas é apenas uma magia diferente criada pelos deuses Trealtas. Eles criaram as trevas e as luzes. No entanto, outros seres, com inveja dos Trealtas, criaram a magia obscura, e quando ela é praticada, eles são praticamente invocados. É por isso que há perigo de...
— Shhh! — exclamou Valéria para que Sarah não continuasse a contar mais.
— Termina — pediu Pétala. — Deixa, Valéria, eu quero saber.
— Você n******e saber dessas coisas ainda — explicou a Allogaj.
— Por quê? — questionou Pétala quase a choramingar.
— Você pode ficar louca, mulher. Não vamos mais falar sobre isso enquanto você estiver ouvindo.
— d***a! — xingou Pétala entristecida e voltou a comer.
Não poderia m***r a sua curiosidade naquele instante, realmente existiam informações que poderiam perturbar as suas funções cognitivas, principalmente por ela ser uma pessoa despreparada e sem magia.
Eles continuaram com a refeição, agora em silêncio.