Chegaram em casa e se acomodaram, estava perto das onze horas da noite e Seu Cosme tinha que devolver o carro ao dono no mesmo dia, voltaria a pé e sozinho, o dono do carro residia a dez minutos de caminhada de onde ele morava. Como Cesar e Waldir não tinham nenhum compromisso no dia seguinte como os outros, acompanharam o pai.
Depois de tudo resolvido, voltaram tranquilamente pelo caminho iluminado pelos postes de luz, Cesar observava a cada poste e se perguntou: "Será que a luz é viva?"
O que era aquela Luz que ajudou o garoto Rafael? Era a mesma no fim do túnel? Aquela Luz o conhecia. Sabia onde ele estava e provavelmente o atraiu para a casa de Sócrates que morava razoavelmente perto da casa de Rafael.
Cesar queria respostas, não aguentava mais pensar tanto e não chegar a conclusão alguma. Se não estivesse a dormir quando lhe ocorreu essas coisas, poderia enlouquecer.
— Cesar? — falou Seu Cosme bem alto.
— Oi, pai — respondeu Cesar ao voltar em si.
— Não ouviu eu te chamar antes? Você está bem estranho ultimamente.
— Estou? Foi m*l, pai, estou mesmo bem distraído esses dias... Ah! — Cesar se lembrou de um assunto que queria tratar com o seu pai. — Eu queria saber se o senhor já liberou a Tainara da quarentena?
— Ainda não.
— Pai, libera ela, por favor — pediu.
— Por quê? Ela te pediu para você falar comigo?
— Pediu, mas eu havia falado com o senhor antes que não precisava fazer isso.
— Ela errou, Cesar...
— Porque é humana, não é uma santa. Se fosse afastada por cada erro ninguém na igreja faria mais nada. Se vocês evangélicos esperam que...
— Cesar — interrompeu Seu Cosme em tom de repreensão. — Já disse para não criticar a minha religião assim.
Cesar ficou sem jeito.
— Desculpa, meu pai.
— Depois eu resolvo esse assunto, queria te dizer que uma amiga sua te procurou hoje mais cedo. Eu disse que você havia saído e só apareceria pela noite. Então ela foi embora e voltou minutos depois com uma carta para te entregar.
— Hum! — insinuou Waldir que ouviu a conversa. — Cartinha de amor.
— Amiga? — indagou Cesar. — Que amiga? Ela disse o nome?
— Disse que o nome dela é Talita — respondeu Seu Cosme. — Nunca vi aquela menina antes.
— Nossa! — Cesar ficou surpreso. — Ela é a nossa vizinha. Nunca imaginei que ela fosse me procurar.
— Espera aí, meu filho — gritou Waldir. — A vizinha? A nova vizinha?
— Shhh! — exclamou Seu Cosme. — Fala mais baixo, Waldir.
— É ela mesma — respondeu Cesar.
— Cara, você está pegando ela? Os meninos da rua, todos, querem pegar.
— Não estou pegando. Ela só me pediu açúcar e eu dei, aí a gente ficou, meio que, interessando um no outro. Eu acho.
— Caramba! O que é que você tem que as mina fica tudo afim de você?
— Que linguagem é essa, menino? — repreendeu o pai.
— Desculpa, meu pai — continuou Waldir a falar com Cesar. — Infelizmente você foi namorar logo com uma traíra.
— Nem me lembra.
— Se você namorar com ela, eu vou contar para os meninos, quero que fiquem com raiva. Já basta você jogar bola muito bem, vão ficar com mais raiva ainda.
— Meu Deus — Seu Cosme deu risadas. — Esses jovens de hoje...
Entraram na casa e Seu Cosme entregou a carta para Cesar, estava em cima da geladeira. Cesar foi para o quarto lê-la, e descansaria depois.
Na carta, apenas estava escrito para Cesar aparecer no dia seguinte às sete horas da noite na porta da casa ao lado. Ele teria que bater na porta três vezes de maneira lenta e ela atenderia, era um código. Tipicamente juvenil.
Cesar foi dormir ansioso para que chegasse logo o momento. Certamente, queria namorar a garota Talita e se dar bem, apesar de sentir seu coração fechado para o amor, pois, recentemente, saiu de um relacionamento frustrado, tudo o que queria era acertar. Era tão difícil.
***
O sono de Cesar foi tranquilo. Sem sonhos estranhos, ou pesadelos, sem espíritos, sem atravessar paredes, sem mediunidade. Não sonhou nada. O que o deixou impressionado, de fato, foi que ele havia acordado às onze horas da manhã. Geralmente, acordava às sete espontaneamente, pois, tinha costume de sair cedo para trabalhar.
— Eu preciso de um emprego — falou consigo próprio.
Cesar se organizou assim que tomou um banho, o almoço estaria pronto em alguns instantes, ele sairia para fazer uns currículos. Não queria perder mais tempo, tinha certeza de que começaria a namorar e precisava de dinheiro.
Ele saiu de casa bem arrumado a abotoar a manga longa da camisa social e ajeitar os óculos de grau, queria parecer bem importante, não entregaria currículos de qualquer maneira, de repente, se deparou com Talita, ela também estava de saída e ele andou em sentido à casa onde ela morava apressadamente.
O coração dele acelerou. Cesar sorriu e acenou para ela com a mão, ela sorriu de volta, mas ele ficou encabulado quando ela se aproximou. O rapaz imaginou que ela iria falar sobre a carta, provavelmente um encontro às escondidas.
— Oi, Cesar.
— Oi, Talita. Vai para o lado de lá?
— Vou sim. Quer me acompanhar? Estou indo ao mercado, como sempre — Talita fez uma rápida análise do garoto. — Está bonito.
— Obrigado! — Cesar ruborizou. — E você está sempre bonita. Eu teria que falar isso todos os dias, se eu te visse mais vezes. A propósito, eu recebi a sua carta ontem pela noite. Eu havia saído.
— Sim, o seu pai me contou. E então, você vem?
— Com certeza, minha princesa.
— Gostei deste pronome possessivo.
— Mas é só o pronome mesmo. Eu sou mais tranquilo.
— Eu sei, gosto do modo como os baianos falam — com os olhos, Talita o mediu da cabeça aos pés com mais atenção. — Para onde vai deste jeito? Entrevista de emprego?
— Quase isso. Vou entregar currículos.
Talita bufou.
— Você não vai precisar disso.
— Oxente? Como assim? — Cesar ficou confuso pelo comentário da garota.
— Te convidei para ir à minha casa hoje justamente porque quero te fazer uma proposta.
— De emprego?
— Digamos, de trabalho.
"Que d***a!" pensou Cesar, ele queria trabalhar, mas também queria que aquele encontro à noite fosse romântico, não que se tratasse de negócios.
— Que tipo de trabalho?
— Só posso te falar lá e na hora.
— Qual o problema em falar aqui?
— Lá é mais seguro.
O que Talita dissera para o Cesar fez os cabelos da sua nuca se eriçarem. O que era tão sigiloso daquele jeito? Cesar não se permitiria envolver-se com bandidagem.
— Pelo amor de Deus, garota. Não me diga que você trabalha com tráfico? Sinto muito, mas não devo me envolver.
— Tráfico? — Talita gargalhou. — Não é nada disso. Vá lá hoje à noite que na hora eu te explicarei tudo. Você vai entender.
Cesar pôde ficar mais aliviado.
— Oh! Do jeito como você falou... Eu pensei que fosse t***************s.
Talita gargalhou outra vez e Cesar sorriu com ela. Era graciosa demais.
— É algo muito maior e melhor.
— E o salário?
— A combinar.
— Você trabalha com isso, seja lá o que for?
— Com muito orgulho e por amor.
— Se é assim, então está bem.
Cesar e Talita conversaram bastante, acabou que ele nem foi imprimir os currículos.
Com o tempo, voltaram. Agora que tinha companhia, Talita pôde comprar e trazer mais coisas.
— Talita, por que só você sai para comprar as coisas para a sua casa? E as outras meninas? — questionou Cesar quando estavam perto das suas residências.
— Elas têm medo de sair.
— Medo do quê?
— Se eu te explicar agora, vou ter que mentir.
— Sério? Mas, gente, por que tanto segredo? O que vocês são? Estou com uma curiosidade danada.
Talita olhou para Cesar bem séria.
— Você sabe, elas... — Talita corrigiu-se. — Nós somos a mesma coisa que você — quando respondeu, estavam diante da porta do muro, ela pegou a chave para abri-la.
Cesar parou vacilante, quase derrubou as sacolas no chão, depois engoliu em seco.
— O mesmo que eu? Como assim?
Talita nem chegou a abrir a porta para encarar o rapaz.
— Desculpe, você sabe ou não sabe o que você é?
Cesar arregalou os olhos. Será que aquela garota sabia sobre ele? Sua espiritualidade? Ou seja lá o que fosse? Ele não queria parecer ignorante, então deu uma resposta a esperar que ela não fizesse mais perguntas:
— Claro que eu sei — Cesar tentou não oscilar a voz, nem hesitar no comportamento. Na verdade, não sabia nada sobre aquilo.
Como aquela garota, que, quando se mudou para aquela rua ele nem estava lá para ter visto, sabia sobre ele? Será que ela era medium também? Nem se questionou se podia usar o "também". O que ele era, afinal de contas?
***
Logo que entrou em casa, Cesar foi para o seu quarto e ficou deitado de costas para a cama, com os olhos bem abertos a olhar para o teto, ficou pensativo. Pensou tanto que nem viu as horas passarem.
Alguém bateu na porta.
— Oi — disse Cesar de maneira prolongada e indiferente.
— Cesar, são quase seis horas — falou Seu Cosme do lado de fora do quarto. — Você nem almoçou.
— Estou sem fome, pai... Espera aí — Cesar sentou-se na cama de súbito. — O senhor disse que já são quase seis horas?
Cesar pegou o celular Nokia e checou o horário, eram cinco e cinquenta e três. Ele correu. Comeu um pouco de feijão com e arroz e carne de galinha, depois escovou os dentes, duas vezes, e finalmente tomou um banho demorado depois de fazer as suas necessidades fisiológicas, não podia ter gases com o nervosismo.
O rapaz sabia que não estava a se aprontar para um encontro, mas queria estar bem apresentável. Toda esse preparamento terminou às exatas seis e cinquenta. Em uma hora estaria pronto. Borrifava o perfume pelo seu pescoço quando Adriana apareceu na porta aberta do quarto. Cesar estava diante do espelho do guarda-roupas.
— Olha só — comentou Adriana —, se arrumando para um encontro.
— Não é um encontro, é uma reunião de negócios — avisou Cesar.
Waldir apareceu andando atrás de Adriana com um copo com suco na mão a dizer:
— É um encontro, sim.
— Ouviu? — insinuou Adriana.
Cesar se virou para a irmã e pôs as mãos na cintura.
— Por que você pensa que é um encontro? — perguntou, mas Adriana o olhou cheia de sarcasmo. — Tudo bem, não deveria ter perguntado — ele começou a guardar as suas coisas.
— Cesar, por que está escondendo o jogo? — questionava Adriana ao se aproximar para deixar a conversa mais reservada. — Sabe que pode me contar qualquer coisa, não é!? Depois do que aconteceu em São Caetano...
— Eu sei, minha irmã, mas desta vez, sinto que não devo contar nada... — Cesar olhou para a sua irmã com expressão misterioso. — Por enquanto — concluiu.
— Uau! Eu nunca ouvi você falar deste jeito. Você voltou bem diferente do Rio.
— Já estou me acostumando em ouvir isso.
— Até mais — disse Adriana ao sair do quarto a rebolar desnecessariamente.
Estava na hora do encontro... Da reunião de negócios.
***
Às exatas sete horas da noite Cesar bateu três vezes na porta de metal do muro da casa vizinha, mesmo a saber que a casa tinha campainha, mas era dessa maneira que Talita havia requerido na carta.
Talita abriu a porta, não muito. Ela apenas pôs o rosto para fora.
— Nossa! Às exatas sete horas — comentou ela. — Entra! — ordenou, mas Cesar ficou parado a olhar para ela que ainda permanecia na passagem, apenas com o rosto para fora. E a porta... Continuou entreaberta.
Cesar limpou a garganta e Talita manifestou-se, saiu da passagem, mas a porta permaneceu, praticamente, meio aberta. Cesar tomou cuidado ao passar para não abarrotar a roupa.
— Hei! — Cesar tomou um susto ao ver onze garotas, aparentemente comuns, porém, sérias, paradas e alinhadas ombro a ombro e de costas para a casa, estavam no extenso gramado da residência que parecia ser rica. Todas usavam túnicas brancas com quase imperceptíveis detalhes dourados, como uma farda, apenas Talita estava com roupas convencionais. — Que m***a é essa? — falou Cesar por entre os dentes para Talita que era a décima segunda garota.
— Relaxa, menino — Talita o pegou pelo braço e o levou para mais perto delas, ele foi um pouco relutante. — Meninas, este é o rapaz qual havia comentado para vocês. O nome dele é Cesar.
— Boa noite — Cesar as saudou com um pequeno gesto com a mão e um sorriso amarelo.
As meninas não moveram um músculo, permaneceram sérias. Ele observou que todas elas eram negras, ou mestiças, exceto a última, do canto direito, era loira e tinha olhos azuis, parecia ser alemã, a penúltima, que esbanjava melanina de tão n***a.
A mais alta delas estava no centro e tinha olhos pequenos, puxados e delineados, seus cabelos estavam alisados e as pontas eram da cor azul-royale.
— Devo apresentá-las? — perguntou Talita à garota do meio que suspirou e afirmou com a cabeça.
Talita explicou para Cesar que a garota qual ela dirigiu a palavra, a do meio, era a porta-voz do g***o, uma espécie de líder, e o seu nome era Layra; do lado direito dela estava a sua, justamente, braço-direito, chamada Naty, tinha cabelos curtos, cacheados e as pontas eram vermelhas, era uma das mais inteligentes do Castelo de Ic; as outras do lado direto eram a Fama, a menor de todas, porém, um pouco maior que Talita; a Terza, a mais magra, quase anoréxica; a Lubini, a de tranças, tão grandes que chegavam aos joelho; e a Aina, que era a mais rechonchuda, a mais bela. As outras, do lado esquerdo da porta-voz, eram a Bris, que tinha o cabelo raspado, como os meninos do exército; a Vesta, a única das negras que tinha olhos cor de âmbar; a Dulca, que quase não tinha sobrancelhas, era m*l encarada e parecia ser agressiva, o seu cabelo afro estava cortado em estilo moicano; a Bala, tinha um rosto redondo, e dentes falhados, os seus cachos eram os mais volumosos e a sua pele era mais escura que a das demais, também a única que sorria; e por último, Zera, a branca e loira.
— Que nomes estranhos! — comentou Cesar. — Vocês são de qual país africano? — perguntou para as meninas, mas nenhuma delas respondeu. — Falam a minha língua? — ainda sem resposta. — Fazem parte de alguma seita religiosa?
Layra bufou.
— Tem certeza que este i****a é feiticeiro das luzes? — perguntou a olhar para Talita.
— Uou! — exclamou Cesar. — Quê? i****a? Espera aí, feiticeiro das luzes?
— Se ele não fosse, não entenderia o que você falou agora há pouco — respondeu Talita, mas ela olhou para Cesar com curiosidade. — Hei! Como assim "feiticeiro"?
— É o que estou querendo saber — rebateu Cesar.
— Eu perguntei para você se tinha parentes feiticeiros, você me disse que sim, depois perguntei se você sabia o que você era, você também respondeu que sim.
— Eu sou medium — a resposta de Cesar fez as meninas ficaram intrigadas, fora a porta-voz, a braço-direito e a Talita, pois, pareciam que tinham conhecimento sobre o que ele acabara de revelar; para Cesar, eram as únicas que tinham cara de brasileiras.
— Como assim? — perguntou Talita.
Cesar ficou nervoso, mas não gaguejava quando tentava explicar as coisas, contudo, falava mais rápido que o normal.
— Olha, eu viajei para outro estado para me tornar jogador de futebol, não consegui e fiquei dois anos trabalhando lá para me manter até decidir voltar para a Bahia, mas antes de voltar, eu comecei a passar por coisas sinistras, estava em um lugar, depois estava em outros, vi e conversei com almas penadas, vejo umas fumaças coloridas saírem dos corpos das pessoas e... É isso aí. — Cesar ofegou, esperou alguma coisa acontecer, mas, do jeito que elas estavam, ficaram.
— Talita — disse a porta-voz Layra —, admito que você possui dons incríveis, mas eles ainda não te permitiram que você veja através das pessoas. Ele não é feiticeiro. Será obliterado e mandado de volta para casa.
— Epa! — protestou Cesar. — Eu vou ser o quê? Obliterado? Vão me fazer esquecer esse momento? Como? Nossa! — ele fez uma careta. — Até eu enjoei das minhas próprias perguntas, é que não estou entendendo nada.
— Bom — continuou Layra —, ele me compreende porque eu posso falar a língua dele. Também, me parece que de alguma forma, ele recebeu energia por se envolver com algum feiticeiro, ou feiticeira, isso é bem possível. Procure por pessoas próximas a ele, quem sabe alguma delas seja feiticeira. Ainda, ele pode ter algum livro mágico em posse. Você conhece o termo "feitiçaria passiva"? Tem efeito efêmero, mas pode prejudicar o espírito de um Immunus. Por isso que muitos enlouquecem.
— Layra — reclamou Talita —, é sério? Como você não consegue sentir essa energia que vem dele? — ela olha para as outras meninas. — É dele, gente, não foi transmissão, eu tenho certeza absoluta que ele é feiticeiro das luzes, sim.
— Eu consigo sentir — falou Bris, a do cabelo raspado. — E esse testemunho que contou só revela que ele possui um dom.
— Qual? — perguntou Naty, a braço-direito. — Projeção Astral?
— Exato. Ele tem o dom da Projeção Astral, porém, está nítido que ele não sabe disso, nem mesmo sabe que é feiticeiro — Bris era especialista em dons, sabia muito, era tão fissurada que já categorizou um novo, e foi condecorada pelo seu próprio Reino.
— Se ele não sabe de nada, de que servirá para nós? — perguntou Layra.
— De que servirá? — indagou Aina, a rechonchuda. — Esse é um dos dons mais cobiçados pelo Castelo. A garota que foi abençoada com o Desdobramento não é vista por quase ninguém e só ajuda a quem já fez algo por ela, o mais próximo do dom dela é o dom da Projeção Astral. E quantos com o dom deste rapaz você já viu se revelar em Dorbis?
— É, praticamente nenhum — Layra respondeu de maneira relutante.
— Então, Layra — insistiu Talita —, deixa ele ficar, pode ser útil. É um Feiticeiro Oprimido.
— Mas pelo que podemos deduzir, ele não sabe de nada. É um isolado. Não teve contato com nada, nem ninguém mágico e até onde sabemos, o seu dom passou a aflorar recentemente — Layra olhou para Cesar. — Qual a sua idade, rapaz?
— Dezoito... Faço dezenove em menos de dois meses — respondeu Cesar.
— Ouviram? Ainda acreditam que ele possa ajudar? Provavelmente, o grau de magia dele deve ser três. Vão ter empenho para ensiná-lo, fora terem que treinar magia ao mesmo tempo?
Fizeram silêncio, mas alguém decidiu se manifestar.
— Oh, amigas, deixem ele ficar — disse Bala, a dos dentes falhados. — Nós somos Prodígios, temos mais que capacidade para ensinar alguém. Cada uma de nós é especialista na sua área de estudo, a Naty é um caso à parte, pois, sabe de tudo. Somos inteligentes, poderosas, hábeis e este rapaz realmente tem muita energia, fora ter usado o próprio dom sem saber de nada. Eu acredito que ele tem potencial, fora que um Feiticeiro Oprimido tende a ser poderoso.
— Vamos votar, a maioria vence — sugeriu Layra. As outras respeitavam-na como líder, respeitavam a hierarquia, mas não deixavam de usar da democracia. — Quem concorda com a inclusão deste menino desconhecido e ignorante em nosso meio, levante a mão?
Talita foi a primeira a levantar com bastante entusiasmo, depois a Bala, e as outras ficaram acanhadas pela forma como a líder Layra perguntou.
— Ele nos doou os quilos de açúcar — informou Talita com tom de cinismo na voz.
Todas as outras levantaram as mãos, menos, obviamente, a líder e Dulca, a quase sem sobrancelhas e que parecia ser agressiva.
— Ah! — resmungou Layra ao dar as costas. — Que seja! — Ela caminhou para entrar na casa e falou para Talita sem mesmo olhar para trás. — Ele será sua responsabilidade, Talita, e faça o favor de informá-lo sobre algumas coisas.
Ela entrou e as outras a seguiram para dentro, nem mesmo deram as boas-vindas. Somente a Bala o abraçou com meu bastante entusiasmo.
Finalmente ficaram a sós, Cesar e Talita, no gramado dos limites daquela casa fabulosa, porém, sigilosa.