A brisa salgada entrava pela sacada aberta e me atingia o rosto enquanto eu observava Ângela, a pele clara dela brilhando sob a lua prateada refletida no mar. Permaneci em silêncio por longos minutos, como se cada onda que se quebrava nas pedras arrancasse um pouco da tensão que eu carregava desde o dia em que abandonei o altar. Era o primeiro fim de semana depois de eu ter oficialmente renunciado ao sacerdócio, e o ar vibrava com algo que nenhum de nós ousava nomear. Ângela virou-se para mim; o tecido leve do vestido um pouco curto agitava-se contra as cox4s dela, sem pudor algum. Meu olhar percorreu aquele contorno como se eu já conhecesse cada centímetro escondido — e talvez conhecesse mesmo, em desejo reprimido. Quando nossos olhares se encontraram, não houve necessidade de palavras.

