O almoço começou como quase todos os outros, mas dentro de mim nada estava exatamente no lugar. O restaurante já tinha aquele cheiro conhecido de comida quente, alho refogado, carne selando na chapa, arroz recém-feito soltando vapor. Um cheiro que sempre me trouxe conforto, desde menino. Era como entrar num espaço onde tudo fazia sentido, onde cada coisa tinha seu tempo, sua função, sua ordem. Talvez por isso eu gostasse tanto de estar ali. Talvez por isso aquele conflito interno me incomodasse ainda mais — porque ali, justamente ali, eu sempre me sentia inteiro. Ângela estava perto, como quase sempre ficava. Não grudada, não invasiva. Apenas presente. A presença dela era assim: suave, constante, quase silenciosa, mas impossível de ignorar. Ela ajudava minha mãe com os pratos, conversava

