Lacunas

1083 Palavras

Eu levanto a voz pela primeira vez desde que tudo começou a desandar naquela madrugada. Não é um grito descontrolado, é pior: é firme, carregado, cansado. Um tom que eu nem reconhecia em mim mesmo até então. Um tom de quem chegou no limite. — Chega, Ângela. — digo, sentindo o peito arder. — Para de gritar comigo como se eu fosse o errado aqui. Ela ainda está na porta da sacada, o corpo tenso, o cabelo bagunçado pelo sono interrompido, os olhos faiscando de raiva. O vento da madrugada entra no quarto, balança a cortina, mas o clima ali dentro está pesado demais pra qualquer brisa aliviar. — Quem é Dom? — pergunto, dando um passo à frente, ainda segurando o celular dela. — Quem é esse cara que te liga no meio da madrugada, fala como se fosse teu dono e menciona “mercadorias”? Que mercador

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