Eu observo de longe antes de tomar coragem. Ela continua sentada, a postura elegante demais pra alguém que levou um bolo, mas o jeito como brinca com o guardanapo denuncia a inquietação. Ruiva, olhos verdes intensos, vestido sóbrio, caro, daquele tipo que não grita riqueza — sussurra. Não é cliente comum. Não é presença comum. E, ainda assim, há algo nela que parece… deslocado, como se aquele restaurante não fosse exatamente onde ela queria estar naquela noite. Respiro fundo e me aproximo. — Está tudo bem por aqui? — pergunto, num tom natural, o mesmo que uso com qualquer cliente, ainda que algo dentro de mim esteja mais atento do que deveria. Ela levanta o olhar devagar. Quando nossos olhos se encontram, percebo um brilho contido, quase um misto de frustração e orgulho ferido. Um sorri

