O Silêncio da Alcateia

1026 Palavras
Elara O amanhecer chegou frio demais para o início do verão. Elara percebeu antes mesmo de abrir os olhos. A cabana onde sempre vivera — pequena, de madeira clara e com o cheiro constante de ervas secas penduradas no teto — parecia diferente. Vazia. Não fisicamente, mas de algo mais profundo. Como se a própria energia do lugar tivesse sido arrancada junto com o vínculo. Seu peito doía. Não era apenas lembrança. Era uma pontada constante, lenta, como uma ferida que se recusava a fechar. Ela levou a mão ao coração e tentou respirar fundo. O ar entrou difícil. A loba dentro dela não respondia como antes; estava quieta, recolhida, quase adormecida. — Eu sei… — sussurrou para si mesma, com a voz rouca. — Eu também sinto. Ela demorou para se levantar. As pernas pareciam fracas, e por um momento teve medo de cair antes mesmo de chegar à porta. Quando finalmente saiu, o sol recém-nascido iluminava o pátio central da Alcateia Lua Prateada. E então vieram os olhares. Primeiro discretos. Depois evidentes demais para fingir não notar. Duas jovens que carregavam cestos de frutas cessaram a conversa ao vê-la. Uma delas inclinou a cabeça, cochichando algo perto do ouvido da outra. O murmúrio chegou até Elara, baixo, mas suficiente. — É ela. — A rejeitada. Elara manteve o rosto neutro e continuou andando. Ela já esperava comentários, mas não esperava o silêncio. Lobos que a cumprimentavam todos os dias desviavam o olhar. Um guerreiro que sempre lhe pedia bandagens quando voltava dos treinos passou por ela como se fosse invisível. Até as crianças — as mesmas que corriam até sua porta para ganhar biscoitos de mel — foram puxadas pelas mães para o outro lado do caminho. Como se ela fosse uma doença. O estômago revirou. Ela seguiu até a casa das curandeiras, onde ajudava desde a adolescência. O cheiro familiar de lavanda e hortelã normalmente a acalmaria. Naquele dia, porém, encontrou as duas anciãs conversando em voz baixa. Elas pararam quando Elara entrou. — Bom dia — disse, tentando soar normal. Uma delas, Anciã Mereth, respondeu com um aceno curto. — Você deveria descansar mais. — Eu estou bem. Posso preparar as infusões e separar as ervas para o treino dos guerreiros. A outra anciã trocou um olhar com Mereth. — Não será necessário hoje. Elara franziu a testa. — Mas… sempre faço isso. — Hoje não — repetiu Mereth, evitando encará-la diretamente. — Talvez seja melhor permanecer em sua cabana por alguns dias. O significado atingiu como outra lâmina. Não era preocupação. Era afastamento. — A senhora… está me proibindo de ajudar? — perguntou baixo. Nenhuma respondeu imediatamente. O silêncio confirmou tudo. — Alguns acreditam — disse por fim a segunda anciã, cautelosa — que o rompimento do vínculo pode deixar resquícios de energia instável. Até entendermos melhor… é mais prudente manter distância. Elara sentiu a garganta fechar. Ela dera anos àquele lugar. Cuidara de ferimentos, febres, partos. Passara noites acordada ao lado de lobos feridos. Agora era tratada como risco. — Entendo — mentiu. Virou-se antes que as lágrimas surgissem. Do lado de fora, o ar parecia ainda mais pesado. Ela caminhou sem destino pelo território, tentando ignorar o vazio crescente dentro do peito. Cada passo a levava inevitavelmente ao centro da alcateia — o campo de treino. O som de espadas de madeira colidindo ecoava. E ele estava lá. Kael Blackwood movia-se com segurança, orientando guerreiros mais jovens. O sol destacava seus cabelos escuros e o brilho dourado dos olhos. Ele parecia… normal. Intacto. Como se a noite anterior não tivesse acontecido. Elara parou sem perceber. Por um breve instante, Kael a viu. O olhar dele endureceu. Não houve dor, nem saudade — apenas incômodo. Como alguém que observa algo inconveniente demais para enfrentar. Uma loba de cabelos claros se aproximou dele logo depois, entregando-lhe água. Ela tocou o braço de Kael de maneira íntima demais para ser casual. Ele não se afastou. O coração de Elara falhou uma batida. Os guerreiros notaram sua presença e o treino diminuiu. Cochichos começaram outra vez. O calor da vergonha subiu por seu rosto. Kael falou alto o suficiente para todos ouvirem: — O treino terminou por hoje. Mas ele não foi até ela. Ele virou as costas. A mensagem foi clara. Elara saiu antes que alguém dissesse algo pior. O caminho até sua cabana pareceu mais longo do que nunca. Cada passo confirmava a verdade que ela tentava negar: não tinha mais lugar ali. Ao entrar, finalmente permitiu que as lágrimas caíssem. Não houve soluços, apenas um choro silencioso e exausto. Sentou-se no chão, encostada na porta fechada, abraçando os joelhos. Horas passaram. O sol subiu alto e começou a descer quando percebeu algo novo — frio demais dentro do próprio corpo. Tremores leves começaram em suas mãos. A dor do vínculo rompido piorava. Ela tentou beber água, mas suas mãos tremiam. A respiração ficou irregular e imagens confusas surgiram em sua mente: olhos desconhecidos, uma floresta escura, a sensação de estar sendo chamada por algo distante. — Não… — murmurou. Não sabia se era febre, loucura ou a lua ainda ligada a ela de alguma forma. Anoiteceu rapidamente. A lua crescente apareceu entre as árvores, branca e silenciosa. Elara se aproximou da pequena janela e a observou por longos minutos. Na noite anterior, ela acreditara que a lua havia sido c***l. Agora, pela primeira vez, pensou outra coisa. Talvez não fosse punição. Talvez fosse empurrão. Ela virou o olhar para o interior da cabana: a cama simples, a mesa, os frascos de ervas, as lembranças de uma vida inteira construída ali. E percebeu. Nada daquilo ainda era dela. A alcateia não a expulsara oficialmente… mas também não a queria mais. O silêncio dizia tudo. Elara limpou o rosto, respirou fundo e abriu o pequeno baú aos pés da cama. Separou algumas roupas, um manto grosso e poucas ervas que poderiam ajudá-la a sobreviver fora do território. Se ficasse, morreria aos poucos. Se partisse… ao menos escolheria sua própria dor. Pela primeira vez desde a rejeição, seu coração não pesou tanto. Ela não sabia para onde iria. Mas sabia que não ficaria.
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