Febre da Lua

738 Palavras
Elara A primeira noite após decidir partir não trouxe descanso. Elara adormeceu exausta sobre a cama, ainda vestida, mas o sono foi leve e inquieto. O calor começou devagar, um incômodo sob a pele, como se a própria lua queimasse em suas veias. Virou-se de um lado para o outro, tentando ignorar a sensação. Não conseguiu. O suor umedeceu sua testa. A respiração ficou curta. Quando abriu os olhos, o quarto parecia girar lentamente. — Não… de novo não… — sussurrou. Ela conhecia febres. Já cuidara de muitas. Mas aquilo não era doença comum. O rompimento do vínculo deixava marcas, as anciãs sempre diziam. Ainda assim, ninguém falava sobre como realmente doía. A loba dentro dela se agitou pela primeira vez desde a rejeição. Não era força. Era inquietação. Elara levantou cambaleando e apoiou-se na mesa para não cair. Precisava de água. Ao tocar a jarra, sua mão tremeu tanto que quase a derrubou. Bebeu aos poucos, mas a sede não cessou. Então vieram as imagens. Primeiro, um som distante — água correndo. Depois, árvores altas demais para a floresta da Lua Prateada. O cheiro de terra molhada invadiu seus sentidos como se estivesse ali de verdade. E, por fim, olhos. Olhos prateados observando-a na escuridão. Elara soltou um suspiro trêmulo e levou a mão à cabeça. — Isso não é real… Mas a sensação era. O coração acelerou não por medo, mas por reconhecimento. Algo dentro dela respondia, como se uma parte esquecida estivesse acordando. A febre aumentou. Suas pernas cederam e ela caiu de joelhos no chão frio. A visão escureceu por um momento, e então o sonho — ou o que quer que fosse — a puxou completamente. --- Ela estava em pé na beira de um lago. A água refletia uma lua enorme e branca. Uma cachoeira caía entre pedras altas, criando névoa brilhante. O ar era fresco e carregado de vida. Elara sabia que nunca estivera ali… e ainda assim reconhecia cada detalhe. Um passo atrás dela quebrou o silêncio. Seu corpo reagiu antes da mente. Virou-se lentamente. Um lobo gigantesco estava a poucos metros. Maior do que qualquer um que já vira. Pelagem n***a com reflexos prateados sob a lua. Os olhos — os mesmos olhos — fixos nela. Ela deveria correr. Não correu. A presença dele não trazia ameaça. Trazia calma. Uma paz tão profunda que lágrimas encheram seus olhos sem motivo claro. — Eu… conheço você — sussurrou. O lobo aproximou-se um passo. O coração dela não acelerou de medo, mas de algo mais quente, mais intenso. O ar entre eles parecia vibrar. Quando ele ficou perto o suficiente, ela sentiu o cheiro: noite, chuva e poder antigo. Elara estendeu a mão, hesitante. Seus dedos tocaram o pelo macio do animal. No instante do contato, algo queimou em seu peito — não dor, mas ligação. Como se um fio invisível fosse amarrado entre suas almas. A visão se quebrou. --- Elara acordou com um sobressalto, puxando ar com força. Estava novamente na cabana, caída no chão. O corpo tremia, mas a febre diminuía lentamente. E o vazio… não era mais absoluto. Ela levou a mão ao coração. Ainda doía, porém não da mesma forma. Havia calor ali agora, um ponto suave pulsando no ritmo de sua respiração. — O que foi isso…? Não era lembrança. Não era apenas sonho. Ela levantou com esforço e abriu a porta. A noite ainda dominava a alcateia. A lua crescente pairava sobre as árvores. Pela primeira vez desde a rejeição, olhar para ela não trouxe desespero. Trouxe… chamado. Elara deu alguns passos para fora sem perceber. Seus pés a conduziam em direção à floresta. O vento soprou entre os troncos, e por um instante ela jurou ouvir um uivo distante, profundo, que fez sua pele arrepiar. Algo a aguardava além das fronteiras. Algo que a reconhecia. Ela parou antes de cruzar a linha do território. Ainda não. Não sem se preparar. Não sem aceitar o que significava. Mas a decisão dentro dela crescia. Voltou para a cabana e terminou de arrumar a pequena bolsa. Separou ervas cicatrizantes, raízes energéticas e um cantil. Cada movimento era mais firme que o anterior. A rejeição a destruíra. Mas aquele chamado… estava reconstruindo algo novo. Ao deitar novamente, o sono veio tranquilo pela primeira vez. E, muito longe dali, um homem de olhos prateados despertou abruptamente de seu próprio descanso, sentindo o coração bater após séculos de silêncio.
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