Elara
A primeira noite após decidir partir não trouxe descanso.
Elara adormeceu exausta sobre a cama, ainda vestida, mas o sono foi leve e inquieto. O calor começou devagar, um incômodo sob a pele, como se a própria lua queimasse em suas veias. Virou-se de um lado para o outro, tentando ignorar a sensação. Não conseguiu.
O suor umedeceu sua testa. A respiração ficou curta. Quando abriu os olhos, o quarto parecia girar lentamente.
— Não… de novo não… — sussurrou.
Ela conhecia febres. Já cuidara de muitas. Mas aquilo não era doença comum. O rompimento do vínculo deixava marcas, as anciãs sempre diziam. Ainda assim, ninguém falava sobre como realmente doía.
A loba dentro dela se agitou pela primeira vez desde a rejeição.
Não era força. Era inquietação.
Elara levantou cambaleando e apoiou-se na mesa para não cair. Precisava de água. Ao tocar a jarra, sua mão tremeu tanto que quase a derrubou. Bebeu aos poucos, mas a sede não cessou.
Então vieram as imagens.
Primeiro, um som distante — água correndo. Depois, árvores altas demais para a floresta da Lua Prateada. O cheiro de terra molhada invadiu seus sentidos como se estivesse ali de verdade. E, por fim, olhos.
Olhos prateados observando-a na escuridão.
Elara soltou um suspiro trêmulo e levou a mão à cabeça. — Isso não é real…
Mas a sensação era. O coração acelerou não por medo, mas por reconhecimento. Algo dentro dela respondia, como se uma parte esquecida estivesse acordando.
A febre aumentou. Suas pernas cederam e ela caiu de joelhos no chão frio. A visão escureceu por um momento, e então o sonho — ou o que quer que fosse — a puxou completamente.
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Ela estava em pé na beira de um lago.
A água refletia uma lua enorme e branca. Uma cachoeira caía entre pedras altas, criando névoa brilhante. O ar era fresco e carregado de vida. Elara sabia que nunca estivera ali… e ainda assim reconhecia cada detalhe.
Um passo atrás dela quebrou o silêncio.
Seu corpo reagiu antes da mente. Virou-se lentamente.
Um lobo gigantesco estava a poucos metros. Maior do que qualquer um que já vira. Pelagem n***a com reflexos prateados sob a lua. Os olhos — os mesmos olhos — fixos nela.
Ela deveria correr.
Não correu.
A presença dele não trazia ameaça. Trazia calma. Uma paz tão profunda que lágrimas encheram seus olhos sem motivo claro.
— Eu… conheço você — sussurrou.
O lobo aproximou-se um passo. O coração dela não acelerou de medo, mas de algo mais quente, mais intenso. O ar entre eles parecia vibrar.
Quando ele ficou perto o suficiente, ela sentiu o cheiro: noite, chuva e poder antigo.
Elara estendeu a mão, hesitante. Seus dedos tocaram o pelo macio do animal.
No instante do contato, algo queimou em seu peito — não dor, mas ligação. Como se um fio invisível fosse amarrado entre suas almas.
A visão se quebrou.
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Elara acordou com um sobressalto, puxando ar com força. Estava novamente na cabana, caída no chão. O corpo tremia, mas a febre diminuía lentamente.
E o vazio… não era mais absoluto.
Ela levou a mão ao coração. Ainda doía, porém não da mesma forma. Havia calor ali agora, um ponto suave pulsando no ritmo de sua respiração.
— O que foi isso…?
Não era lembrança. Não era apenas sonho.
Ela levantou com esforço e abriu a porta. A noite ainda dominava a alcateia. A lua crescente pairava sobre as árvores. Pela primeira vez desde a rejeição, olhar para ela não trouxe desespero.
Trouxe… chamado.
Elara deu alguns passos para fora sem perceber. Seus pés a conduziam em direção à floresta. O vento soprou entre os troncos, e por um instante ela jurou ouvir um uivo distante, profundo, que fez sua pele arrepiar.
Algo a aguardava além das fronteiras.
Algo que a reconhecia.
Ela parou antes de cruzar a linha do território. Ainda não. Não sem se preparar. Não sem aceitar o que significava.
Mas a decisão dentro dela crescia.
Voltou para a cabana e terminou de arrumar a pequena bolsa. Separou ervas cicatrizantes, raízes energéticas e um cantil. Cada movimento era mais firme que o anterior.
A rejeição a destruíra.
Mas aquele chamado… estava reconstruindo algo novo.
Ao deitar novamente, o sono veio tranquilo pela primeira vez.
E, muito longe dali, um homem de olhos prateados despertou abruptamente de seu próprio descanso, sentindo o coração bater após séculos de silêncio.