O pátio da alcateia estava cheio naquela manhã.
Guerreiros treinavam perto do campo de terra, o som de madeira contra madeira ecoando enquanto espadas de treino se chocavam. O cheiro de suor, terra e pinho enchia o ar. Era um dia comum para todos.
Menos para Elara.
Ela caminhava devagar pelo corredor externo das cabanas, carregando um balde de água que parecia mais pesado do que realmente era. Seus passos eram silenciosos, os ombros curvados, e os olhos — antes tão vivos — agora evitavam qualquer contato.
Ela não estava fraca apenas fisicamente.
Ela estava vazia.
Os membros da alcateia a observavam discretamente. Alguns cochichavam, outros fingiam não ver. Ninguém falava diretamente com ela, exceto quando era necessário para tarefas.
— A rejeitada — sussurrou uma loba jovem ao passar.
Elara ouviu. Fingiu não ouvir.
Ela havia aprendido rápido: doía menos quando fingia que nada a atingia.
O problema era que atingia.
Sempre atingia.
Ela deixou o balde próximo à cozinha coletiva e se virou para sair antes que alguém pedisse mais alguma coisa. Seu corpo estava cansado demais para discussões ou ordens extras.
Então ela sentiu.
O vínculo.
Como um fio invisível puxando suavemente seu peito.
Ela parou.
Seu coração acelerou — não por felicidade, mas por antecipação. Ela já sabia quem era antes mesmo de levantar os olhos.
Kael estava no outro lado do pátio.
O alfa a observava.
Os olhos dourados fixos nela.
Ele não desviou quando ela percebeu.
Antigamente, aquilo teria feito o coração dela disparar de alegria. Ela teria corado, talvez tropeçado, talvez sorrido sem perceber.
Agora…
Nada.
Apenas um aperto silencioso e cansado dentro do peito.
Elara desviou o olhar primeiro e tentou continuar andando.
— Elara.
A voz dele a alcançou antes que ela desse três passos.
Ela parou.
Não se virou imediatamente.
Respirou uma vez, lenta, como quem cria coragem para atravessar uma porta que sabe que vai machucar.
Só então se virou.
— Alfa.
Ela não disse “Kael”.
Ele percebeu.
O pequeno detalhe atingiu mais forte do que esperava.
Ele caminhou até ela, cada passo firme, mas por dentro algo o incomodava. Desde o lago, desde os olhos prateados, desde a noite em que sentiu o vínculo pulsar mais forte do que no dia da cerimônia… nada parecia certo.
E ela parecia distante.
Distante demais.
— Precisamos conversar — disse ele.
Elara assentiu levemente.
— Pode falar.
Ele franziu a testa.
— Não aqui.
— Aqui está bom.
As pessoas ao redor fingiam não escutar, mas todos escutavam.
Kael percebeu… e pela primeira vez, isso o incomodou.
Antes ele não ligaria.
Agora ligava.
— Caminhe comigo — ele pediu, mais baixo.
Ela hesitou um segundo… então concordou.
Seguiram para trás da casa do alfa, onde o barulho do treinamento ficava distante e as árvores começavam a cercar a área. O vento movia as folhas e trazia o cheiro da floresta.
Elara parou a uma distância respeitosa.
Kael demorou a falar.
Ele não sabia por onde começar.
Aquilo nunca acontecia.
Ele era o alfa. Comandava batalhas. Tomava decisões de vida e morte sem hesitar.
Mas diante dela…
As palavras simplesmente não vinham.
— Você… — ele começou, então parou. — Você não está bem.
Ela ficou em silêncio por um momento.
— Estou viva. Isso é o suficiente.
A resposta foi calma.
Calma demais.
— Elara… — ele deu um passo à frente.
Ela recuou automaticamente.
O movimento foi pequeno.
Mas foi como uma lâmina atravessando o peito dele.
— Não precisa chegar perto — disse ela baixinho. — Não há mais necessidade.
O lobo dentro dele rosnou, inquieto.
— Eu não te machucaria.
Ela levantou os olhos para ele pela primeira vez.
Não havia raiva.
Nem amor.
Pior.
Havia aceitação.
— Já machucou.
O silêncio caiu entre os dois.
O vento soprou mais forte, balançando seus cabelos.
Kael sentiu algo estranho — como se estivesse perdendo controle de uma situação que não entendia.
— O que aconteceu no lago… — ele falou. — Seus olhos… aquilo não é normal.
— Eu também não sou mais — ela respondeu.
— Está doente?
Ela sorriu fraco.
— Rejeição não é doença, alfa. É consequência.
Ele fechou a mandíbula.
— Eu fiz o que precisava fazer pela alcateia.
Ela assentiu.
— Eu sei.
Sem acusação.
Sem discussão.
Isso o irritou mais do que se ela tivesse gritado.
— Você não vai discutir?
— Discutir o quê? — perguntou suavemente. — Você já escolheu. Eu só aceitei sua escolha.
Ele abriu a boca… e não encontrou resposta.
Porque era verdade.
— O vínculo… — ele falou mais baixo. — Ainda está aí.
Ela ficou imóvel.
— Eu sinto quando você sofre — ele continuou. — Eu sinto sua dor.
Ela olhou para o chão.
— Eu não sinto mais você — disse ela.
E aquilo…
Aquilo o abalou.
Mais do que qualquer coisa.
— Isso não é possível — murmurou.
— Para mim é — respondeu. — O que quer que você tenha quebrado… levou algo junto.
Ele se aproximou de novo, devagar.
Desta vez ela não recuou.
Mas também não reagiu.
Ela apenas ficou parada.
Vazia.
Kael ergueu a mão com cuidado e tocou o rosto dela.
O toque que antes faria o coração dela disparar… não causou nada.
Nenhum arrepio. Nenhum calor. Nenhum conforto.
Elara apenas fechou os olhos — não de emoção… mas de cansaço.
O lobo dele entrou em pânico.
Porque pela primeira vez…
Ela não respondeu ao toque dele.
— Elara… — a voz dele ficou rouca. — Olhe para mim.
Ela abriu os olhos lentamente.
— O que foi, alfa?
Não havia Kael naquela palavra.
Só distância.
E naquele instante ele entendeu algo que não queria admitir:
Ele não a estava perdendo.
Ele já tinha perdido.
Ela apenas ainda não tinha ido embora fisicamente.
— Você pensa em sair da alcateia? — perguntou de repente.
Ela demorou para responder.
O silêncio foi a resposta antes mesmo das palavras.
— Aqui não é mais meu lugar — disse por fim.
O peito dele apertou.
— A floresta fora do território é perigosa.
— Mais do que ficar onde não sou desejada? — perguntou suavemente.
Ele não conseguiu responder.
Porque não havia resposta.
O vento soprou novamente, mais frio.
E pela primeira vez o alfa da alcateia sentiu algo que nunca havia sentido em batalha alguma:
Medo.
Não de inimigos.
Mas de uma verdade simples.
Se ela fosse embora…
Ele não conseguiria trazê-la de volta.