Elara
A noite chegou silenciosa.
Não houve despedidas, nem anúncio, nem coragem suficiente para olhar para trás enquanto o sol ainda existia. Elara esperou até que a alcateia dormisse — até que as fogueiras se tornassem apenas brasas e as vozes cessassem — para finalmente se permitir respirar de verdade.
A pequena cabana onde morava parecia ainda menor naquela noite.
Ela não tinha muitas coisas.
Algumas roupas simples, uma manta antiga, um pequeno medalhão de prata que não lembrava de quem havia sido — apenas sabia que sempre esteve com ela. Colocou tudo dentro de uma bolsa de couro gasto. Suas mãos tremiam, mas não por medo do caminho.
Era medo do que sentiria ao sair.
Porque, pela primeira vez, seria real.
Ela parou no meio do quarto.
O silêncio pesava.
Ali estavam todas as memórias: os dias em que acreditava que Kael sorria para ela de forma diferente, as vezes em que esperou perto do campo de treinamento só para vê‑lo passar, a noite da cerimônia… e a rejeição ecoando diante de todos.
Seu peito apertou.
— Chega… — sussurrou para si mesma.
Se continuasse ali, nunca teria coragem.
Elara abriu a porta devagar.
O ar frio da madrugada a envolveu imediatamente. A lua estava alta, redonda e branca, iluminando o território da alcateia como se observasse cada passo dela.
Por um instante, ela hesitou no batente.
O vínculo ainda existia — fraco, dolorido — como uma linha fina conectada ao coração dela.
Ele estava ali.
Kael.
Dormindo a poucas construções dali.
Ela levou a mão ao peito.
— Me desculpa… — murmurou, sem saber exatamente para quem dizia.
Então deu o primeiro passo para fora.
E algo dentro dela doeu de verdade.
Não era físico.
Era como arrancar uma raiz profunda do próprio coração.
Cada passo longe da cabana parecia mais pesado. O território, as árvores conhecidas, os caminhos de terra… tudo parecia tentar segurá‑la ali.
Um galho quebrou sob seu pé.
Ela congelou.
Esperou.
Nenhum som de alerta. Nenhum guarda.
Ela continuou.
Passou pela cozinha coletiva, pelo pátio de treinamento e finalmente pelas últimas cabanas. Agora só restava a fronteira — marcada pelas árvores mais antigas e pelo cheiro dos lobos da alcateia.
O vento soprou mais forte.
E com ele veio o cheiro de Kael.
Elara fechou os olhos por um segundo.
Seu coração reagiu antes da razão.
Um impulso quase a fez voltar correndo.
Quase.
Mas então lembrou do olhar dele no dia da rejeição — frio, decidido, público.
Ela deu mais um passo à frente.
— Adeus… — sussurrou.
No mesmo instante, uma dor atravessou seu peito.
Ela levou a mão ao coração, ofegando. O vínculo reagia como se protestasse. Seus olhos arderam e, por um segundo, a visão ficou turva.
A lua brilhou mais forte entre as árvores.
O vento mudou de direção.
Algo… chamava.
Não atrás dela.
À frente.
A floresta fora do território era mais escura. Mais profunda. O cheiro da própria alcateia desaparecia a cada passo.
E com ele… o vínculo enfraquecia.
Ela tropeçou numa raiz e caiu de joelhos na terra úmida. A respiração saía irregular.
— Eu consigo… — sussurrou, tentando se levantar.
Mas a febre voltou.
Seu corpo queimou de dentro para fora. Seus dedos se contraíram e um gemido escapou de sua garganta. A transformação tentou começar, mas parou no meio — como acontecia desde o lago.
Metade instinto. Metade dor.
— Não aqui… por favor…
A chuva começou.
Primeiro fraca, depois pesada. As gotas frias tocaram sua pele quente e ela caiu sentada na terra, ofegando. O mundo girava.
Então ela ouviu um uivo.
Distante.
Profundo.
Não era de sua antiga alcateia.
Seu coração respondeu imediatamente.
Não com medo.
Com reconhecimento.
Ela não sabia explicar por quê… mas aquele som não parecia ameaça. Parecia… direção.
Elara reuniu forças e se levantou novamente, apoiando‑se em uma árvore. Suas pernas tremiam, mas cada passo seguindo o som parecia aliviar um pouco a dor.
O cheiro da floresta mudou — mais água, mais pedra, mais vida selvagem.
Ela andou por horas.
A chuva não parou.
Seus pés sangravam, a roupa pesava e o frio finalmente alcançou seu corpo febril. A febre e o cansaço começaram a vencer.
Ao longe, o som de água corrente apareceu.
Um rio.
Ela chegou à margem cambaleando. A correnteza refletia a lua por entre as nuvens abertas e a visão a fez parar.
Bonito.
Livre.
Ela deu mais um passo… e suas pernas falharam.
Elara caiu na grama molhada.
A respiração era fraca agora. Seus olhos começaram a fechar. A consciência escorria como água entre os dedos.
— Eu consegui… — murmurou quase sem voz.
O vínculo com Kael estava quase silencioso.
E algo novo… surgia.
Quente.
Estável.
Pela primeira vez desde a rejeição, a dor no peito diminuiu.
Ela não viu a sombra que surgiu entre as árvores do outro lado do rio.
Não viu os olhos dourados observando em silêncio.
Mas sentiu.
Uma presença.
Não invasiva.
Protetora.
Seu corpo relaxou involuntariamente, como se reconhecesse segurança que sua mente ainda não compreendia.
O vento soprou suave sobre ela, afastando a chuva de seu rosto por um momento.
— Você… — ela murmurou, sem acordar totalmente. — Finalmente…
E então apagou completamente.
A floresta ficou em silêncio, como se esperasse.
A lua apareceu inteira entre as nuvens.