O Guardião na Floresta

1030 Palavras
Aiden A chuva diminuía, mas o cheiro ainda dominava a noite. Aiden parou no meio da mata. Não foi um som que o fez parar. Não foi um rastro comum. Foi o coração. O próprio peito apertou de repente, como se algo invisível tivesse puxado uma corda presa diretamente à sua alma. O lobo dentro dele se levantou em alerta — não agressivo, não em caça… reconhecendo. — Está perto… — murmurou para si mesmo. Ele havia seguido aquele chamado por horas. Não era um uivo comum, nem o de um invasor. Era mais profundo. Antigo. Algo que existia antes mesmo das fronteiras das alcateias. Desde o pôr do sol, sentia a inquietação crescer, obrigando‑o a deixar a patrulha e caminhar sozinho pela floresta. E agora… estava mais forte do que nunca. Aiden atravessou a última linha de árvores e viu o rio. A água corria veloz, refletindo a lua entre nuvens rasgadas. E ali, na margem oposta, deitada na grama molhada… Ela. Ele não respirou por um instante. O mundo pareceu parar. O vento cessou, os sons da floresta desapareceram, e tudo o que existia era a visão da jovem desacordada sob a luz lunar. O cabelo escuro espalhado na terra úmida, a pele pálida, o corpo tremendo levemente de frio e febre. O lobo dele não rosnou. Ajoelhou. Dentro de sua mente, a sensação foi clara e absoluta. Companheira. Aiden atravessou o rio sem hesitar. A água fria subiu até sua cintura, mas ele m*l percebeu. Seus olhos não saíam dela nem por um segundo, como se tivesse medo de que desaparecesse caso piscasse. Quando chegou à margem, aproximou‑se devagar. Ela estava viva. Mas por pouco. O cheiro da febre era forte, misturado a sangue leve vindo dos pés machucados. Havia também outra coisa — um aroma prateado, luminoso, diferente de qualquer loba que ele já conhecera. Ele ajoelhou ao lado dela. — Finalmente… — sussurrou. A mão dele pairou no ar antes de tocar seu rosto. O contato foi cuidadoso, quase reverente. O efeito foi imediato. A respiração dela, antes irregular, suavizou. Os músculos relaxaram. E dentro dele… o vazio que carregara por séculos ficou silencioso pela primeira vez. Aiden fechou os olhos por um segundo. Ele havia esperado. Durante anos demais. Durante luas demais. E ela estava ali. Frágil. Machucada. Sozinha. Uma raiva calma surgiu em seu peito — não direcionada a ela, mas a quem quer que tivesse permitido que chegasse naquele estado. Ele retirou o próprio manto e a envolveu cuidadosamente. Em seguida, a ergueu nos braços. Ela era leve. Leve demais. — Ninguém mais vai te ferir — murmurou baixo. A cabeça dela repousou contra seu peito inconscientemente, e por um instante os dedos dela se fecharam na túnica dele. Um gesto pequeno, automático… de confiança instintiva. O coração do Supremo Alfa acelerou. O lobo dentro dele ficou absolutamente alerta, mas não por defesa — por proteção. Ele começou o caminho de volta para sua alcateia. --- As sentinelas da fronteira ficaram rígidas ao vê‑lo surgir entre as árvores. — Supremo— Pararam ao notar quem ele carregava. — Preparem a curandeira — ordenou Aiden, sem parar de caminhar. — Agora. O tom não era alto. Nem precisava ser. A urgência em sua voz bastou para colocar todos em movimento imediato. Aiden atravessou o território diretamente para a casa principal. Não a enfermaria — sua própria residência. Ele a colocou com cuidado sobre a cama. A luz das tochas revelou melhor os ferimentos: arranhões, hematomas, pés feridos pela caminhada longa, pele quente pela febre. O peito dela subia e descia de forma irregular. A curandeira, uma loba mais velha chamada Maera, entrou apressada. Ela começou a falar… mas parou ao olhar Elara. — Pela deusa… — sussurrou. Aiden percebeu. — O quê? A anciã aproximou‑se lentamente, observando o rosto da jovem como se estivesse diante de algo impossível. — Há quanto tempo ela está assim? — Acabei de encontrá‑la. Maera tocou a testa dela e depois recuou levemente. — Não é apenas febre. — Então cure. — Estou tentando entender primeiro… — respondeu com cautela. — Há energia lunar nela. Antiga. Muito antiga. Aiden ficou em silêncio. Ele já sabia. Desde o primeiro segundo em que a viu. — Ela vai sobreviver? — perguntou. A curandeira o encarou por um momento, percebendo algo raro: preocupação real no Supremo Alfa. — Se você a tivesse encontrado algumas horas depois… não. O maxilar dele se contraiu. Maera começou a preparar compressas e ervas enquanto dava instruções. Aiden não saiu do quarto. Nem por um instante. Horas passaram. A lua cruzou o céu e começou a descer. Ele permaneceu sentado ao lado da cama, observando cada respiração dela. Sempre que ela se agitava, a mão dele repousava sobre a dela e o corpo dela imediatamente relaxava. Como se o reconhecesse. Uma vez, durante a madrugada, ela murmurou algo incompreensível e virou o rosto em direção a ele. — Você… veio… — sussurrou sem acordar. O peito dele apertou. — Eu sempre viria — respondeu em voz baixa. Ele não sabia se ela podia ouvir. Mas precisava dizer. O lobo dele permanecia desperto, vigilante. Qualquer ruído fora do quarto fazia um rosnado baixo vibrar em sua garganta. Nenhum guerreiro ousou se aproximar muito da porta naquela noite. Não era ordem direta. Era instinto do alfa. Proteção absoluta. Pela primeira vez em muito tempo, Aiden não pensava em território, alianças ou batalhas. Pensava apenas nela. Na maneira como respirava mais calma quando ele estava perto. No calor do vínculo recém‑desperto percorrendo seu peito. Na certeza silenciosa que não precisava de explicação. Ela era sua. Não posse. Destino. O amanhecer começou a surgir pelas janelas quando a febre dela finalmente baixou. Aiden percebeu antes mesmo da curandeira voltar ao quarto. A pele dela esfriou sob seus dedos, e a respiração tornou‑se estável. Ele soltou o primeiro suspiro relaxado da noite inteira. — Descanse — murmurou para ela. — Você está segura agora. E, pela primeira vez em séculos, o Supremo Alfa permitiu‑se fechar os olhos por alguns segundos… ainda segurando a mão dela.
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