Honra e confiança

1830 Palavras
Era início do verão, Hunter recém havia completado seus dezessete anos. O príncipe estava sentado na grama um tanto seca da praça no centro do reino juntamente de Kayne, ambos haviam passado um pequeno momento em silêncio, aproveitando o sol e aquela brisa suave daquela tarde quente. — Kay, posso perguntar uma coisa? — Hunter começou, puxando as gramas secas sem olhar para o amigo diretamente. — Você já fez mais do que beijar com Roman? — Como assim? — perguntou curioso, olhando para o Byun com os olhos semicerrados, querendo ter certeza ao que ele se referia. — Assim, você sabe. — bufou. — Fazer tudo. Fazer mais do que trocar alguns beijos. Kayne olhou um tanto boquiaberto para o amigo, abrindo e fechando a boca diversas vezes sem saber o que dizer exatamente. — Não, amigo. Eu preciso esperar meu primeiro cio, como eu vou fazer essas coisas do nada? Não é certo. — Não é certo? Mas você não tem curiosidade ou vontade? — Hunter curvou os lábios, suas feições em uma mistura de tristeza e raiva. Pura indignação com o julgamento velado. — Não sei. Acho que não. Não sei. — bufou de igual modo. — Mas tô vendo que você tem bastante. — Eu não. Eu já matei minha curiosidade faz algum tempo. O Daves olhou boquiaberto para o amigo, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, viram os soldados do rei marchando em direção ao muro leste do reino. — O que está acontecendo? — acabou por perguntar ao Byun. — É a represa, ela está quase se rompendo. Todos os dias soldados da terra vão fazer o conserto, mas a erosão corrói as paredes mais rápido do que eles podem consertar. — Ouvi dizer que quem mora próximo ao muro leste está sentindo tremores de terra. É por isso que as luzes tem piscado em toda cidade? Hunter concordou, balançando a cabeça em afirmação. — É porque eles são burros demais, tem um jeito fácil de consertar isso, só soldados da terra não adianta, mas eles não sabem disso. — suspirou. — Que jeito? — Hunter crispou os lábios antes de responder ao amigo: — Você verá esta noite. Não durma, vou buscá-lo em casa. — Hunter… — É preciso. Isso ajudará a cidade toda. Kayne apenas bufou, sabia que não havia como discutir com o amigo. ✘✘✘ A noite chegou lentamente e assim que deu dez horas, o toque de recolher do palácio, Hunter saiu de seu quarto, descendo até o quarto de Charles, mas não com as mesmas motivações rotineiras. Abriu a porta do quarto, vendo o Park fazendo seus exercícios noturnos, já que ele não estava esperando ver o garoto ali. — Precisamos sair do palácio e ver uma coisa. Vou chamar o Kayne para ir com a gente. — disse sério, seu tom firme mostrando a urgência. — O que você tem em mente? — perguntou, mas não negando o pedindo. O Park começou a se vestir enquanto ouvia a ideia do namorado. — Precisamos arrumar a represa, eles não sabem como fazer, mas eu sei e preciso de vocês. Charles respirou fundo, sabia que boa coisa não viria daquela conversa, mas aceitou. Terminou de se vestir e saiu escondido do palácio junto de Hunter. A casa do amigo não era distante, já sabendo que o príncipe passaria em sua casa, Kayne o esperou escondido nas sombras do lado de fora. — Se eu me meter em encrenca, espero que assuma toda a responsabilidade. — resmungou. — Você vai salvar a cidade. Se a represa desmoronar, além da falta de energia, vamos ter alagamentos e deslizamentos de terra, você é crucial para que isso não aconteça. Passaram no celeiro real, Charles pegou seu cavalo e Hunter subiu em Abissal, dando a mão para que Kayne subisse com ele. — Eu guio o caminho, vocês não tem lanternas. — deu um sorriso debochado. — Fora das estradas, Charles ou eles irão ouvir os cavalos. O alfa concordou, seguindo Hunter que iluminava o caminho por dentro da floresta em direção ao muro leste. Demoraram poucos minutos para chegar até lá, era um caminho conhecido, já que o lago era um ponto de encontro frequente para Hunter e Charles. O Príncipe desceu do cavalo junto do amigo e amarrou Abissal na árvore, esperando Charles fazer o mesmo. — Kayne, olha bem pra mim. — Hunter ordenou, sério, um tanto frio. Os olhos do príncipe estavam brancos, tomados por Luz. — O que vamos fazer aqui hoje é muito sério. O Byun tirou de dentro de suas vestes um pequeno canivete prateado, não demorando a pegar a mão do amigo e fazer um corte bem no centro. Colocou sua mão sobre a do ômega, olhando em seus olhos. — Você vai jurar com seu sangue que nunca vai contar a ninguém o que aconteceu aqui essa noite. Você vai jurar a mim, futuro rei. — a luz de Hunter enrolou ambas as mãos como uma serpente. A respiração de Kayne era ofegante e ele parecia transtornado, sem saber o que fazer. — Eu juro. — respondeu de imediato, com medo do que poderia acontecer. Hunter voltou a sua forma normal, vendo os olhos do amigo em uma mistura de horror e confusão. — Você… você tem o dom da cura também? — perguntou surpreso, sem saber o que pensar após limpar o pouco sangue de sua mão na própria roupa e ver que já não havia corte algum. — Foi questão de treinamento, meu avô também tinha.— suspirou. O torpor de Kayne pareceu passar depois de alguns segundos. — Não poderia ter apenas me pedido segredo? O que vamos fazer de tão errado que precisava dessa ameaça? Eu sou seu amigo. Hunter olhou para Charles de canto de olho, vendo o namorado em silêncio, apenas observando. O cenho franzido demonstrava que o alfa era contra aquelas atitudes, mas não iria desobedecer o príncipe, sabia sua posição acima de tudo e não estava ali como um namorado. — Você verá. Mas se não fosse tão urgente, tão importante, eu não faria. O príncipe respirou fundo e caminhou em direção a lateral da represa, que fazia uma ponte entre o rio e o muro leste de Ashara. O barulho da queda d'água era alto e seria difícil conversar, precisavam ficar juntos e ter muito cuidado para não acabar caindo e sendo arrastados pela força da água. Hunter foi em direção a escada enferrujada, descendo vagarosamente, podendo estar de frente com as rachaduras que haviam na barragem, esperando os amigos. — Estamos aqui, o que você quer fazer? — perguntou Charles por fim. — Derreta as rochas. — O quê? — Faça isso, derreta as rochas. Quando a lava solidificar, serão duras e irão parar de rachar com a força da água, mas o Kayne vai moldar para que ninguém perceba. Por isso precisava de ambos. — Espera. Como o Charles derreteria as rochas? Não trouxemos nenhum equipamento. — Kayne perguntou confuso, no fundo não queria acreditar que aquilo seria possível. — Não podemos perder tempo, guardas podem encontrar a gente, faz isso agora, Charles. — Hunter deu um tapa no braço do namorado. Sem muita escolha, o Parker torceu os lábios, se concentrando em deixar uma chama crescente sair de sua mão, então a arremessando contra a parede da barragem com toda a sua força. O fogo não demorou a começar a derreter a rocha, transformando em lava e fazendo uma grande fumaça quando a água tocava a lava ardente, resfriando e ajudando a solidificar a pedra ao passo que evaporava com o calor. Hunter fez uma pequena barreira com o uso de seu dom, não deixando a lava escorrer antes da solidificação. Charles parou quando achou suficiente e entendeu porque precisava de Kayne para esconder o trabalho, a roxa perdeu o tom terroso, ficando preta e com um formato não compatível com o anterior, seriam facilmente descobertos se alguém com dom da terra não consertasse. — Ótimo. Sua vez Kayne. A contra gosto, o Daves moldou uma fina camada de rocha por cima da anterior, escondendo o ajuste de forma que não parecesse que foi mexida. — Pelo menos funcionou. — Comentou Charles, vendo agora a parede sem rachaduras e vazamentos. — Foi uma boa ideia. — Eu sei, tenho pensando nisso desde que começou a vazar. Agora vamos embora. Os três rapidamente voltaram para a escada velha, subindo com cuidado até o topo da estrutura, de volta a ponta, não indo mundo longe antes de ver cinco guardas do rei parando em sua frente. — O que estão fazendo aqui uma hora dessas da noite? — a voz do homem era profunda e fria. Hunter engoliu em seco vendo o guarda do rei, que além de ser o braço direito de seu pai, era o pai de Charles. — Boa noite, senhor Parker. — Hunter tomou a frente, ficando na frente dos amigos — Sabemos dos problemas que nossa cidade tem enfrentado com a barragem e viemos consertar, eu sabia como meu poder iria ajudar no conserto e a verdade é que… Charles manifestou seus dons do ar e estava aqui para nos auxiliar. — Isso não é trabalho para crianças. — o homem engoliu em seco, mantendo a postura firme, pois de uma coisa tinha certeza, Hunter estava mentindo. — Mas a barragem está consertada. Por favor, senhor. Converse isso diretamente com meu pai amanhã, eu aceito a punição, mas não vamos fazer uma cena aqui. O senhor Parker entendeu o pedido do príncipe, não era apenas um garoto com medo de encrenca, ele estava tentando proteger Charles, para que outros não acabassem por descobrir seu verdadeiro dom. — Voltem imediatamente para casa, nada de quebrar o toque de recolher novamente. Ficarei de olho senhor Baynes. — Sim, senhor. Os três fizeram uma pequena reverência e rapidamente correram em direção a seus cavalos. — Por pouco não me meteu em encrenca. — ralhou Kayne. — Você me pediu um favor que vale pra vida inteira, espero que não peça nada outra vez. O garoto estava bravo, ainda assim subiu no cavalo com Hunter para que pudessem voltar para casa. O príncipe entendia a mágoa, não era pelo favor, era pela ameaça e pela necessidade de precisar guardar um segredo que lhe custava a própria vida. — Obrigado, Kayne. — agradeceu durante o caminho. — Espero que entenda que apesar das minhas atitudes avessas, eu o amo e confio tanto em você, que revelei o meu maior segredo. Eu amo Charles, jamais o colocaria em perigo. Escolhi você para me ajudar e não Roman ou qualquer outro, porque confio em você. Obrigado por honrar a minha confiança. O Daves respirou fundo, ainda irritado com o amigo, mas tocado com a declaração, palavras que nunca imaginou que ouviria do príncipe. — Hm, tá. Mas nunca mais me peça nada, nem pra copiar a lição de casa. — Certo, combinado. — sorriu.
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