Seguiram de volta para casa, deixando os cavalos no estábulo como antes.
Hunter e Charles acompanharam Kayne até em casa antes de seguir o próprio caminho, entrando escondido no palácio novamente.
— Boa noite. — disse Charles, seguindo para seu próprio quarto, mas ao contrário do que esperava, Hunter não foi em direção as escadas para seguir seu próprio caminho. — O que está fazendo?
— Vou para seu quarto com você. — sorriu.
— Nem pensar, já está muito tarde. Volte para seu quarto! — ordenou.
— Mas Charlie… — o príncipe fez um pequeno bico. — Eu estou com saudade de você. Toda aquela adrenalina só me fez ter vontade de beijar você, deixa eu ficar aqui essa noite, por favor.
— Não, nem pensar.
— Eu vou pro meu quarto bem cedinho.
— Não. Já aprontamos demais para uma noite. Vá para seu quarto. — bufou, cansado de ter que convencer o namorado a não se arriscar o tempo todo.
— Charlie, eu quero muito. Eu quero muito mesmo. — o garoto disse baixinho, mordendo o lábio inferior. — Eu quero demais.
— Hunter… — o seu tom ao chamar o namorado já demonstrava que havia perdido e o príncipe teria o que queria.
O ômega sorriu satisfeito, pondo as mãos no peito do Parker e o puxando para um beijo.
— Aproveitar a noite comigo é sempre uma escolha perfeita. — sorriu, entrando no quarto com o alfa e fechando a porta.
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Aquela era uma tarde agradável e no intervalo das aulas os alunos foram almoçar no pátio da escola, sentando nas grandes mesas que estavam ali dispostas.
Hunter e os amigos como sempre sentaram em uma mesma mesa. Charles chegou um pouco depois, pois estava mais distante na fila da cantina que os demais.
Assim que chegou o alfa sentou no espaço vago entre Hunter e Kayne.
— Você sempre foi tão quente assim? — o Daves resmungou, fazendo Charles se sentir constrangido.
Era nítido que Kayne não havia ficado bem com a descoberta do seu segredo, ainda que fosse por um motivo tão necessário. O Parker sabia do grande preconceito que os alfas do fogo sofriam, mas não sabia o que fazer quanto aquilo.
Hunter sabia que o amigo era naturalmente ranzinza, ainda assim entortou os lábios em desagrado antes de respondê-lo.
— Sim, sempre bem quente. Isso é o que eu mais gosto. — respondeu com um sorriso ladino e um claro tom de malícia.
O tom da resposta fez a atenção dos demais na mesa, Luna e Luen, levarem a conversa com outro sentido.
— Você já fez, não fez? — Luna perguntou seria, crispados lábios como uma mãe que sabe que o filho está aprontando.
A pergunta não era explícita, mas deixava no ar de modo que todos entendessem do que se tratava.
O príncipe deu de ombros e sorriu antes de responder.
— É óbvio.
— Hunter! — Charles xingou, dando um cutucão no namorado.
— Mas é verdade, por que eu negaria? — perguntou com deboche enquanto comia seu almoço.
— Porque é algo íntimo e não devia sair falando assim. Já imaginou se corre por aí e o seu pai fica sabendo? Ele vai me matar. Vai cortar um pedaço meu fora e dar para os cães.
Hunter novamente deu de ombros.
— Eu fiz e não me arrependo de ter feito, pelo contrário, farei muito mais. — riu.
— Hunter! — Charles novamente chamou a atenção do namorado.
Pela primeira vez o Parker sentia suas bochechas quentes de vergonha, estava constrangido com a sinceridade do namorado em falar sobre i********e daquela forma.
— Você é louco! — Kayne disse com um ar cansado e estava pronto para sair de mesa, mesmo sem ter terminado seu almoço.
O que o impediu foi Roman e Thomas chegarem com seus almoços e acompanhados de um novo amigo, Jett Johnson, sentando à mesa com eles.
— Nós ouvimos hein, conta essa história direito, Parker. Você não é mais virgem e nem comenta com seus amigos. — brincou Roman, gargalhando e deixando o alfa ainda mais envergonhado, escondendo o rosto nas próprias mãos.
— E faz tempo que não. — Hunter riu também, olhando para o namorado todo tímido.
— Talvez não fosse tão r**m ser obrigado a casar com você, Baynes. Todo o tormento teria vantagens. — Thomas debochou, arqueando as sobrancelhas.
Luen o olhou indignado, dando um cutucão com o cotovelo no namorado.
— É assim que você pensa?
— É brincadeira, amor. Relaxa. Mas é um fato, o rei teria nos casado se Charles não tivesse feito nada. Sou filho do ministro da guerra, é um homem muito importante para o rei.
Hunter concordou, suspirando em seguida.
— Ainda bem que não aconteceu. Nada contra você, Thomas, somos bons amigos. Mas eu ia sofrer demais se não pudesse ficar com quem eu amo. — sorriu docemente, olhando para Charles, que o retribuiu com um olhar carinhoso, ainda em silêncio pela vergonha.
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Depois da escola, os ômegas foram para o palácio junto de Hunter, precisavam fazer um trabalho juntos e o quarto do Baynes além de silencioso, era espaçoso e confortável.
Os quatro estavam sobre a grande cama do príncipe, cada um com seu caderno, fazendo alguns rascunhos da matéria e do que poderiam usar no trabalho.
— Você não tem medo de engravidar? — Luna perguntou sem olhar o amigo, continuando a olhar para a matéria e fazer anotações.
— Não, eu sei como me cuidar direitinho. — riu. — Olha, vocês sabem que existem contraceptivos feitos de intestino de animais no reino. Imagino que pra vocês conseguir algo assim pode ser complicado, a madame quem pegou alguns para mim. Além disso, ela me ensinou uma tabelinha também que eu posso usar depois que tiver meu primeiro cio, assim posso fazer sem proteção sem medo de engravidar. — sorriu animado.
— Meus deuses. — Kayne negou com a cabeça. — E você já fez sem também? — O olhar de Kayne era um julgamento explícito para todos ali.
Talvez para Luna e Luen ele estivesse apenas criticando as ações do amigo de ter feito isso cedo demais, mas Hunter sabia que ia muito além disso, vinha da classe de filhos que eles teriam juntos.
— Sim, Kayne. Eu fiz com, fiz sem, fiz até de cabeça pra baixo. — respondeu em tom sério e frio. — Desde hoje cedo você está criticando o Charles e eu não gosto desse tom, você pode discordar das minhas atitudes, eu entendo isso, mas não quer dizer que eu vá aceitar esse tom comigo ou com ele. Charles é um homem maravilhoso, Ele é doce e gentil, quantas vezes ele já não ajudou você?! Não use mais esse tom crítico com ele ou vou considerar uma ofensa.
— Gente, calma. — Luna parou de escrever, estendendo as mãos em frente aos amigos como se fosse precisar separar eles. — Hunter, ele apenas ficou espantado, você realmente é bem pra frente. Não é um julgamento, mas ficamos surpresos.
— Eu sei, Luna. Como eu disse, entendo julgar minhas ações. Eu sei que fiz escolhas que vocês não fariam e Charles também não faria, no início ele não queria ser apressado assim e ontem mesmo ele não quis me deixar dormir com ele, mas há algo entre mim e o Kayne, e eu sei que esse tom dele vai além de criticar se transo ou não com meu namorado. — disse irritado.
— É, sabe mesmo. Sabe que nas entrelinhas estou dizendo que você está fazendo a maior burrada da existência do mundo. Isso é perigoso e destrutivo. Imagina se o seu pai descobre uma coisa dessas. — disse igualmente irritado.
— Também não é pra tanto, Kayne. Ele não é uma criança. — Luen franziu o cenho, achando a atitude do amigo exagerada.
— Ele sabe, Kayne. Ele sempre soube, não há nada que possa ser feito escondido de um rei. Ele sempre soube. — Hunter tinha um tom ameno e baixo olhando sério nos olhos do amigo.
O Daves engoliu em seco, abrindo e fechando a boca diversas vezes, tentando formular alguma frase, mas demorando a conseguir algo conclusivo.
— Como ele pode? Como ele pode deixar você fazer isso? Isso…
Hunter estendeu a mão para que ele parasse com o assunto antes que falasse demais.
— Não importa, ele sabe. Charles é meu alfa e por mais que não queira a gente namorando, meu pai não tem muito o que fazer. Eu amo demais o Charles. Mais do que imaginei que amaria um dia. E qualquer coisa além disso é insignificante.
— Vamos voltar ao trabalho e deixar esse assunto pra lá. — Luen voltou a prestar atenção em seu caderno. — Temos um trabalho para entregar.
Hunter respirou fundo, ainda que sentisse vontade de chorar. Kayne era o amigo que mais confiava, que mais amava ter por perto e sentia que tinha o perdido com aquele segredo que para sempre os consumiria.
No fim, aquele era o grande dever de um rei, colocou o bem estar de todos acima de seus próprios desejos. Colocou o povo de Ashara acima de sua amizade, acima da segurança de Charles e por mais que fosse certo, aquilo doía.
Pela primeira vez descobriu que a responsabilidade de um rei era dolorosa e por mais óbvias que parecessem as respostas para os problemas, não eram simples.
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Hunter estava sentado no jardim do palácio, aproveitando o fim daquele dia de sol e pensando um pouco. Seus nervos ainda estavam à flor da pele depois da discussão com Kayne, mas também estava profundamente triste.
Tudo que disse aquela noite para o amigo era verdade. Confiava muito nele e, no fundo, esperava que ele não fosse como os outros. Hunter sabia que todos naquele reino tinham preconceito estrutural com relação aos alfas do fogo. A maioria das pessoas naquele reino nunca haviam conhecido um, ainda assim, pelas histórias contadas, já os detestavam.
Esperava que Kayne pudesse confiar nele e saber, pelos anos de convivência, que Charles não era como os monstros descritos nos livros.
— Seu pai nos chamou para conversar. — Charles disse calmo, se aproximando devagar e tirando Hunter de seu devaneio.
— Até que demorou, não acha?
— Acho que ele esperou dar certo. — Charles deu um pequeno sorriso. — Depois de perceber que a atitude foi acertada, ele vai xingar só por termos feito isso escondido.
Hunter concordou, balançando a cabeça.
— Também acho. — respirou fundo. — Ainda assim é um saco ter que ouvir.
Hunter levantou do banco e seguiu com Charles até a sala do trono onde o rei os esperava e como imaginaram, assim que chegaram o rei começou a disparar xingamentos.
— Como puderam ser tão irresponsáveis?! E se alguém tivesse visto?! Quem ajudou vocês a moldar a terra?! Meu Deus, você quer ser executado como traidor, Hunter? — gritou com o filho.
— Não pense que foi fácil para mim, papai. Não pense que tomei uma decisão leviana. Mas a minha preocupação foi a cidade, foi o que poderia acontecer se a merda da barragem estourasse e lavasse Ashara. Eu não fiz isso de forma egoísta e mesquinha, fiz isso porque amo meu reino, meu povo, e pensando como rei escolhi o melhor para o povo. Quem ajudou foi o Kayne, que nunca vai falar nada a ninguém sobre Charles e o custo disso foi perder o meu melhor amigo. Nada mais vai ser igual. Mas a cidade está segura agora. — Hunter tinha lágrimas nos olhos, mas tentava ser firme em frente ao pai. — Me castigue, fiz algo arriscado, mas não menospreze o meu esforço. Eu fiz por Ashara.
O rei bufou, levantando de seu trono e andando até a varanda, olhando para o reino.
De uma coisa sempre teve certeza, Hunter seria um bom rei e aquelas palavras o deixou sem dúvidas disso.
— Chega, vai para seu quarto. Sem o Charles, não quero vocês dois juntos por aí. — disse por fim, abanando a mão para que os dois saíssem.
Derek não tinha mais o que dizer a respeito e preferiu manter a postura rígida.
Hunter concordou em silêncio e saiu da sala do trono, mas obviamente não obedeceria o pai, por isso entrelaçou seus dedos aos de Charles na hora de puxá-lo a contragosto para seu quarto.
Havia sido um dia difícil e só queria deitar na cama e abraçar o corpo do Parker, sentia-se aconchegado em seu calor e deixaria que as lágrimas evaporassem de seu rosto.
Era difícil admitir aquela verdade, perdeu seu grande amigo. Perdeu a amizade que tinham, mas escolheu o certo. Escolheu seu povo.