Ano de 2103, 18 anos do príncipe.
Charles acordou e se remexeu levemente na cama, usando a mão esquerda para passar no rosto e tentar espantar a preguiça. Seu braço direito estava comprometido, sendo utilizado como travesseiro para Hunter, que ainda dormia.
Com certa preguiça o Parker piscou os olhos algumas vezes, olhando para a janela e percebendo que o dia já estava começando a clarear. Devagar, começou a se desvencilhar do Baynes.
— Nem pensar! — Hunter parou o namorado, colocando sua mão direita sobre o peito nu dele, o impedindo de continuar a tentativa de sair da cama.
— Você nem abriu os olhos ainda, não viu que está amanhecendo. Preciso ir para meu quarto, Hunter.
— Por quê? — o garoto perguntou em tom manhoso, se remexendo e aconchegando mais no peito do alfa.
— Por que seu pai pode acordar a qualquer momento e perceber que estou aqui. Sabe que ele ainda é contra, não importa o que diga.
Hunter suspirou e abriu os olhos, olhando para o namorado.
— Ele sempre será, isso não quer dizer que vai me impedir de alguma coisa. — sorriu. — Eu vou me casar com você, independente da decisão do rei. E como meu futuro marido, trate de ficar na minha cama e bem agarradinho a mim.
Hunter virou-se de costas, puxando a mão do alfa para sua cintura, se aconchegando mais a ele para voltar a dormir.
Charles sorriu, apertando forte seus braços ao redor do corpo miúdo, dando alguns beijinhos no ombro desnudo e raspando os dentes em pequenas mordidas sem pressão.
— Está me provocando? — Hunter perguntou de olhos fechados, um sorriso ladino se abrindo.
— Precisamos mesmo voltar a dormir? Já que não me permite sair do seu quarto, talvez possamos aproveitar esse tempo antes das aulas.
Hunter abriu os olhos e olhou para o namorado por cima do ombro, as sobrancelhas erguidas em completa descrença.
— Sério?
— Seu cheiro está tão gostoso… — Charles respondeu sem jeito, voltando a afundar o rosto no pescoço do namorado. — Me faz te desejar mais do que o normal. — sorriu.
— Você sabe o que isso significa…
— Eu sei. Seu primeiro cio está próximo. — concordou. — Mas irei tomar muito cuidado, não se preocupe. Por enquanto não vamos fazer nenhum próximo príncipe. — riu, beijando o namorado em seguida.
Hunter virou-se em direção ao namorado.
— i****a! — riu, beijando-o novamente, ficando sobre o corpo dele.
O sorriso de Hunter era doce, sem malícia, desarmado. Seus olhos brilhavam ao encarar o alfa e o tempo pareceu parar por um momento, admirando o namorado que tanto amava. Seus dedos tocaram com suavidade o rosto dele, acariciando-o e afastando um pouco os cabelos do rosto dele. Aquele contato era repleto de ternura e demonstrava tudo o que sentia de forma singela.
— Você é muito i****a. Mas eu gosto disso. Eu amo você.
— Eu também amo você. — sorriu, dando vários beijinhos no rosto de Hunter.
✘✘✘
Por mais que tentassem não demorar, levavam muito tempo entre carícias e beijos antes de chegar a qualquer clímax e isso levava algum tempo. Charles levantou rápido da cama quando percebeu quão tarde estava, pegando suas roupas que estavam em uma cadeira próximo a cama e se vestindo. Parecia prever o que viria.
— Hunter, por que a porta está trancada? — A voz do rei era ouvida do outro lado da porta, a maçaneta sendo forçada diversas vezes.
— Você sabe porquê! Já vou abrir. — o príncipe bufou, terminando de se vestir e indo abrir a porta para o pai.
O rei riu com escárnio, olhando o alfa de cima a baixo.
— Que bom encontrá-lo aqui, senhor Parker. Sabe que o ministro Oh me informou que precisa de ajudantes na limpeza da cidade hoje? Sabe como é, a limpeza dos cavalos.
— Sim senhor, irei me aprontar e encontrar o ministro. — curvou-se diante do rei.
— Todo o trabalho em Ashara é digno, papai. Castigar Charles o fazendo limpar dejetos de cavalo não vai me fazer parar de me deitar com ele. — o garoto franziu o cenho e os lábios, olhando para o pai com certo desdém. — Se aceitasse como as coisas vão funcionar seria mais fácil. Todos em Ashara são dignos, todos são iguais, ninguém tem mais ou vale mais. Não foi isso o que me ensinou? Não entendo porque não me quer ao lado de Charles, isso não tem sentido.
— Você sabe porquê. Ele não é como outros em Ashara. — disse entre dentes. — Como você acha que vão ser os filhos dele?
— Podem ser da luz, da terra, da água. Não tenho como saber. Os pais dele são diferentes dele e eu sou diferente da mamãe. Não temos como saber como é algo que não aconteceu. — bufou. — E já que estamos falando disso, a mamãe também tinha uma ligação eterna com o senhor, você sofre todos os dias por ter pedido ela, por que está desejando esse destino pra mim?
— Eu quero proteger você, Hunter. Como pode ser tão cego? Você deveria me obedecer porque eu sou o rei, sou seu pai, mas acima de tudo entender que eu faço tudo para te proteger.
— Eu não quero essa proteção, eu sei o que é melhor para mim. Charles é o melhor pra mim. E eu não vou desistir disso.
— Se eu soubesse no que isso daria, independente da promessa que fiz… eu nunca o teria deixado viver. — disse com um tom triste e frio, deixando os jovens para trás.
✘✘✘
Hunter estava sentado em sua carteira de costume na escola. Sua mente distante com todos os acontecimentos. O príncipe estava com a mão esquerda apoiando a sua cabeça, enquanto a direita segurava o lápis que rabiscava a folha em um desenho sem forma.
— Em algum momento vocês vão contar o que aconteceu? — Luen sentou na cadeira ao lado Hunter, colocando seu material sobre a mesa e despertando o garoto de seus devaneios.
— Do que está falando? — perguntou, suspirando e largando o lápis, olhando para o amigo.
— De você e Kayne. Sério, faz meses que isso tá assim, esse lance esquisito. Cara, vocês eram colados desde criança, sabe. Muito estranha essa reação do nada. — Luen suspirou. — No começo a gente achou que vocês tinham brigado por alguma coisa i****a, por algo que ele falou a respeito do Charles, mas que ia passar e não passou.
Hunter balançou a cabeça em concordância, olhando para o outro lado da sala, onde Kayne estava sentado com Luna, conversando. Aquilo ainda doía e queria que fosse diferente, queria poder apagar aquela noite da mente do amigo, mas não podia.
— É muito difícil. Mas a culpa é minha. Precisei tomar uma decisão que… eu escolhi errado, eu deveria ter pensado melhor.
Hunter tentou abrir um sorriso, mas não era capaz de fingir bem com uma coisa que ainda lhe machucava. Na verdade se culpava diariamente por aquilo.
E se tivesse chamado outra pessoa? E se tivesse confiado no pai de Charles? E se tivesse deixado as rochas como estavam? Agora tinha ciência que haviam inúmeros “e se” naquela equação, mas naquela época, no ano anterior, não tinha esse pensamento. A pessoa que mais confiava, o seu amigo mais leal, uma das pessoas que mais amava, era Kayne e tinha certeza que aquele sentimento era recíproco e então ele entenderia sua escolha e ousou até mesmo pensar que ele o apoiaria, entenderia sua decisão… mas se enganou.
O preconceito com o desconhecido falava mais alto do que a confiança naquela amizade de uma vida inteira.
— Poderia ter confiado em mim também. Eu entendi que é algo sério, mas eu também sou seu amigo e você poderia confiar em mim para dizer o que tá rolando de verdade. — Luen bufou. — Esquece isso, vamos fazer trabalho em dupla. Luna e eu vamos revezar com vocês, somos amigos de ambos.
O príncipe sorriu e concordou. Sabia que o Lu estava magoado, compreendia isso e por um momento pensou de lhe dizer a verdade. Mas aquela equação estava repleta de “e se”.
E se Luen também o abandonasse?
Era melhor deixar as coisas como estavam, a mágoa um dia iria se dissipar, mas o peso daquele segredo seria para sempre.
As horas pareciam se arrastar, apesar de Luen e Luna serem seus amigos há tanto tempo quanto Kayne, o grupo já não era o mesmo, estavam os quatro juntos, mas não como antes, sempre havia um elefante na sala.
O sinal tocou para que voltassem à aula, que seria de educação física. Hunter fechou a tampa de seu pote com o almoço quase intocado.
— Podem ir na frente. Eu me troco depois de qualquer jeito e não tô me sentindo muito bem.
Luen levantou junto de Luna e Kayne, concordando em silêncio. Não questionou o motivo do amigo não se sentir bem, imaginando que seria o clima pesado do almoço.
Hunter esperou alguns minutos antes de ir para o vestiário e trocar de roupa para a educação física. Estava se sentindo cada vez pior, uma cólica forte em sua barriga, uma falta de ar e tontura.
Sentou no banco que havia no vestiário, apoiando seu rosto nas mãos, sentindo-se até um pouco enjoado.
— O treinador está procurando você. — Kayne abriu a porta do vestiário, seu tom era de desgosto e má vontade.
— Diz que eu não vou pra aula, vou para casa. — respondeu um tanto ofegante.
— Você está bem? — o tom dessa vez era preocupado, entrando no vestiário e se aproximando do Baynes. — Onde está o Charles?
— Tá tudo bem, eu só estou me sentindo m*l hoje. Obrigado.
— Tá, mas onde ele está?
Hunter suspirou, seu rosto ainda escondido entre as mãos, sem olhar para o amigo.
— Limpando esterco. Meu pai o deixou de castigo de novo.
Kayne engoliu em seco e tocou a testa do amigo.
— Você está ardendo em febre, está com cólicas?
— Sim, acho que sim. É uma sensação estranha na minha barriga sabe. Não sei explicar bem essa sensação.
— Hunter, acho que a gente tem que ir pra casa. — Kayne gaguejou. — Precisamos chamar Charles agora.
— Por que? O que foi? — perguntou assustado.
— Você está tendo o seu primeiro cio.