T O N Y
Assim que aterrissamos no gramado dos fundos do Instituto, vários estudantes se põem a nos observar com medo e surpresa. Eu desço antes mesmo da rampa estar completamente estável e, carregando o corpo imóvel da minha filha nos braços, eu caminho o mais rápido que consigo. Ela ainda está com minha armadura, que faz o possível para mantê-la viva, embora Sexta-feira não houvesse detectado qualquer tipo de reação anormal. Tirando o fato de seus olhos estarem vidrados.
Na porta, Logan surge rugindo e põe as garras de fora, provavelmente pensando que eu vim para forçá-los a aceitar a nova lei. Xavier surge ao seu lado com Jean, Tempestade e Bobby. Eles parecem ler o meu desespero — principalmente Xavier, que está lendo minha mente agora. Tenho certeza!
— Me ajudem. — peço ao chegar próximo às escadas de acesso a casa
O capacete da armadura se abre e então o rosto vidrado de Elena surge. Ela permanece do mesmo jeito.
— Você... — Logan rosna e tenta vir pra cima, mas Jean coloca sua mão em seu ombro
— Calma, Logan. — ela diz
— Foi um acidente. — T'Challa surge ao meu lado
— Levem-na para o subsolo dois. — Xavier comanda
A primeira coisa que pensei foi em vir para Westchester. Wanda é uma feiticeira poderosa que atingiu acidentalmente a cabeça de Elena. Preciso saber se a mente dela ficará bem depois disso.
Se eu não tivesse apavorado, até iria reparar na super mansão do aleijadinho e em todas as parafernálias tecnológicas que ele possui no Subsolo Dois. Aliás, quantos subsolos mais tem aqui? Pra cima são três andares, contando com o térreo. Como é que ele se sustenta? Como ele sustenta esse bando de adolescentes problemáticos poderosos?
Mas, como estou num nível alto de preocupação, deixarei os questionamentos e piadinhas para depois.
— Eu exijo levá-la a Wakanda. — T'Challa diz enquanto eu ando de um lado para o outro no corredor
— Como é que é? Você não pode me exigir nada. Aqui você não é rei, ela é minha filha! — olho para ele bufando e volto a andar de um lado para o outro
— Tony, aqui tem recursos, mas em Wakanda eu posso fazer muito mais.
— Recursos? Olha só, tá na cara que rola um segredo muito louco sobre o seu país, mas até então, Wakanda é de terceiro mundo. — digo — Seu único recurso caiu do céu e foi colocado na sua roupinha de gato.
— Seu pai não pensou duas vezes antes de ir até lá pegar minha solução milagrosa. — ele rebate e eu paro bruscamente para encará-lo
— E eu lá tenho culpa do meu pai ter sido fã e padrinho do Capitão América?
— Tony, eu preciso levar Elena até Wakanda! — ele diz nervoso — É caso de vida ou morte.
— Ela fica! Eu já disse que você não manda em nada aqui. Eu confio nessas pessoas.
— Não é questão de confiar. Eu exijo levá-la daqui imediatamente.
— Eu sou o rei aqui! — digo mais firme — Agradeço pelo que fez por ela, mas agora ela retornou e eu irei cuidar dela.
— Quem responde por ela ainda sou eu.
— Em questões heróicas, mas ela é a minha filha e, você querendo ou não, ela vai ficar aqui porque eu quero! — grito
— Os dois calem a p***a da boca.
A voz de Logan nos interrompe enquanto ele se aproxima com uma sacola em mãos e Ashley o seguindo. A loirinha me encara e eu a encaro de volta. O que ela faz aqui?
— Quem é você? — T'Challa o olha sério
— Te interessa? — Logan o olha com indiferença — Espere aqui, guria. Trago notícias em breve. — ele diz e continua caminhando, até que entra no laboratório de Hank e Xavier
— Oi, Ashley. — digo a olhando
— Olá, senhor Stark. — ela diz baixo e sem jeito
— Eu sou Tony, já disse. — a corrijo. Não gosto quando ela me trata com formalidade. Parece que está debochando de mim
— O que aconteceu? — ela pergunta e eu noto seu rosto um pouco vermelho, demonstrando vestígios de um choro anterior
— Wanda tentou m***r o Tony e ela entrou na frente. — T'Challa responde e se senta no chão, encostado na parede
— Então ela... — a voz de Ashley some e ela treme ao pensar no pior
— Não, não! — seguro suas mãos e a faço olhar para mim — Ela vai ficar bem.
Um grito alto atinge nossos ouvidos. É Elena. As luzes começam a piscar, mostrando a oscilação de energia do local. Antes que tenhamos tempo de raciocinar, T'Challa se põe de pé e Jean passa como um furacão por nós. Solto Ashley e tento correr atrás dela, mas Visão surge e segura em meu braço.
— Ela está divagando entre seus piores medos. — ele diz com pesar
— Paaaaaai! — ela grita em meio à choro e desespero
— Me solta.
Corro até o laboratório e, pela janela de vidro, vejo os objetos da sala tremendo e sendo arremessados para todos os lados. Xavier está com as mãos na cabeça dela e parece tentar trazê-la de volta por meio da telepatia. Minha filha, já sem armadura, sem capa, sem botas e luvas, trajando apenas seu macaquinho de batalha, está se debatendo na maca. Logan está afastado, enquanto assiste tudo nervoso. Tempestade segura o braço do ranzinza enquanto parece igualmente nervosa.
— Não consigo segurá-la por muito tempo! — Jean grita — Suas cargas elétricas estão muito altas.
Percebo então que o estrago seria ainda maior se Jean não tivesse usando sua telecinese para contê-la um pouco.
Sinto a mão de T'Challa apertar o meu ombro, como se fosse um conforto. Encosto minha testa no vidro e fecho os olhos enquanto a ouço gritar desesperadamente por mim, Steve, Elliot... Silenciosamente, sinto o líquido morno descer pelo meu rosto e então percebo que estou chorando. Não sei exatamente quanto tempo passa, mas sei que estou imerso na minha própria mente.
— Do que você mais gosta de fazer?
Elena me pergunta enquanto eu estou regulando os propulsores da minha armadura. Ela está me observando trabalhar há uma hora e parece fazer uma anotação mental a cada movimento meu.
— Beber não conta? — pergunto brincando
— Não. — ela sorri
— Ah, eu não sei. Ser o Homem de Ferro? — a frase sai mais como uma pergunta do que como afirmação
— Se a Torre pegasse fogo, o que você salvaria?
— Tudo, porque eu tenho um ótimo serviço de emergência. — dou de ombros
— Não dá pra fazer esse tipo de jogo com gente rica. — ela resmunga e eu rio, ainda mexendo nos propulsores — Se me perguntasse o que mais gosto de fazer, eu diria que é comer.
— Mas se beber não vale, comer também não pode valer.
— Ok. Então vou trocar por ouvir música. — ela diz — Qual sua banda favorita?
— Não sei. Guns, AC/DC, Nirvana. São várias.
— Qual sua cor favorita?
— Não sei.
— Você não sabe nada sobre si mesmo ou está apenas tentando me fazer calar a boca?
— Agora você me deixou confuso. — comento
— Tá, eu vou ficar quieta. Prometo. Mas, antes farei a última pergunta. Espero que você saiba responder.
— Ok. — digo distraído
— Qual foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida?
Paro tudo o que estou fazendo e fico pensativo. Apóio as mãos na bancada e olho para ela, que me olha em expectativa. Seus olhinhos brilhantes, o sorriso, o jeito menina. Ser o Homem de Ferro foi ótimo pra mim — na maioria das vezes — e ter Pepper é incrível, mas não dá pra ignorar o fato de que a menina na minha frente é um grande acontecimento. Grande, revolucionário e inesperado.
O telefone toca.
— Te respondo isso logo. — digo indo atender a ligação
Você, Elena! Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. — minha mente grita agora e eu brigo comigo mesmo mentalmente por não ter dito isso à ela, naquele dia.
Respiro fundo e, após um bom tempo, noto que não há mais gritos. Abro os olhos e ergo a cabeça, não enxergando muito bem por conta das lágrimas. Passo a mão no rosto e vejo minha filha mais calma lá dentro. Agora, ela parece estar apenas dormindo. Há eletrodos em suas têmporas e uma máquina ligada ao seus batimentos cardíacos.
— Você pode ficar com ela, se quiser.
Xavier diz e eu noto que ele está ao meu lado. O vejo apenas pelo reflexo no vidro, pois não me virei para encará-lo.
— A mente dela vai ficar bem?
— Algumas partes do sistema nervoso foram afetadas, mas nada muito grave. Ela pode acordar sem muita coordenação motora e com o equilíbrio em risco, mas ficará bem logo. — ele explica
— Ela tá fora de perigo? — Ashley pergunta
— Sim, esta apenas dormindo. Eu já pedi para Tempestade preparar um quarto vazio para T'Challa e você, já que Visão retornou ao Complexo. Se quiser descansar, Tony, é só subir.
Me viro para ele e respiro fundo.
— Obrigado, mas quero ficar com ela um pouco. Obrigado por tudo, Charles.
— Não há motivos para agradecer. — ele sorri gentil
— Foi muito r**m? — pergunto me referindo aos delírios mentais de Elena
— Você é um bom homem, Tony. Elena sabe disso. — ele diz ainda sorrindo gentil — Não se preocupe com a mente dela. É normal as pessoas temerem a perda de quem elas amam.
E L E N A
Uma grande luta estava acontecendo, Resistência versus Vingadores. Eu não sabia de que lado deveria ficar, mas um momento foi decisivo. Steve e Tony, lutando e eu parada, sem saber o que escolher, mas quando Bucky apareceu, eu temi pelo meu pai. Corri até eles, mas era tarde. Bucky, com seu braço metálico, conseguiu atravessar a armadura e, por consequência, o corpo do meu velho. Os olhos do meu pai se esbugalharam e eu consegui chegar a tempo de ampará-lo por trás, caindo junto com ele, no chão. Meu pai estava morto.
— PAAAAAAAAAAAAAAAAII! — gritei
1... 2... 3...
Não dá pra abrir os olhos agora. Vamos lá, de novo...
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Droga! Fui nocauteada por um cavalo!
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Espera! Tem alguém mexendo na minha mão...
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Agora vai!... Espera, não foi!
1... 2... 3...
Quando abri meus olhos, o mundo ao meu redor parecia se retorcer. Fechei os olhos de novo. Respiro fundo e abro os olhos, desta vez, disposta a mantê-los abertos. O mundo já parou de se retorcer, mas a atmosfera ao meu redor parece leve como uma pluma. Um grão de areia. Parece não haver gravidade.
Ao meu lado, vejo Logan. Ele segura minha mão e espera pacientemente que eu me estabilize. Meus lábios estão grossos como rochas.
— Água... — sussurro
Ele se afasta um pouco e eu olho para o teto, que parece estar amassado. O que está acontecendo com minha cabeça? Quando Logan retorna, está com uma esponjinha na mão e um copo de água gelada. Ele mergulha a esponja e a aperta contra meus lábios. A sensação é maravilhosa. Ficamos assim até a água do copo acabar e eu estar saciada.
— Meu pai? — pergunto com medo da resposta
— Está bem. — sorri — Está ali.
Ele se esquiva um pouco e eu o vejo com a cabeça encostada na parede enquanto tira um cochilo. Ao seu lado, em outra cadeira, Ashley tem têmpora encostada no ombro dele e seus braços agarrados no dele, pela alta temperatura do laboratório.
— Só assim pra esses dois se darem bem. — sorrio
— Você está bem?
— Não tô conseguindo pensar direito. Mentalmente, parece que fui nocauteada.
***
Após exames e um bom banho, Ashley empurrava minha cadeira de rodas pelos corredores da mansão. Meu equilíbrio e minha coordenação estavam afetados, então ficar de pé ainda era um pouco complicado. Eu me sentia sem gravidade, é terrível.
Muitos alunos que viram minha chegada hoje de tarde estavam preocupados, então tive que convencer muita gente de que estou bem.
— Elena, podemos conversar?
Meu pai me encontra no corredor com uma cara não muito boa. Atrás dele, T'Challa está me lançando um olhar de aviso. Faço um aceno com a cabeça confirmando e ele toma o lugar de Ashley, passando a me empurrar pela mansão, até chegarmos no jardim. A noite está fresca e a brisa fria entra em contato com a minha pele, fazendo com que eu me arrepie. Meu pai pega a colcha que está em minha perna e me enrola com ela. Minha temperatura está instável.
— Eu quero saber da verdade. — ele diz sem rodeios, enquanto ficamos olhando para um grande carvalho
— Sobre? — olho para ele
— Eu sinto que não estou sabendo de muita coisa.
— Nós já conversamos sobre isso. Eu iria te contar o que fosse necessário para você.
— Não, Elena! Não! — ele se altera — Eu quero saber da verdade. Aquela crise que você deu não era só ansiedade. Você tinha medo. O que aconteceu durante esses três anos?
Respirei fundo. Meu pai queria saber sobre a Resistência. Eu não podia falar sobre a Resistência. O único jeito de tirar a Resistência da berlinda era trazendo o foco para mim.
— Eu sou alcoólatra.
O silêncio paira entre nós e eu não consigo olhá-lo nos olhos, mas sei que ele está me encarando sem acreditar.
— Não, Elena. — ele diz
— É verdade, Tony. — peço sentindo meus olhos arderem em lágrimas — Me desculpe por não ter contado antes. É que muitas coisas foram acontecendo, aí depois teve Ross, depois a chegada de Elliot e agora Wanda.
Ele se abaixa na minha frente e segura minha mão fria com suas mãos quentes e acolhedoras.
— Olhe para mim.
Ele pede. Ergo o olhar em sua direção e passeio os olhos por todos os detalhes de seu rosto, antes de chegar em seus olhos.
— Me explique.
— Eu estava péssima. Não tinha minha mãe, não tinha você, nem tia Amélia, Ashley ou qualquer um da minha família. Depois da gravidez, piorou ainda mais. Steve fazia o possível, mas eu estava m*l. Sempre fugindo, sempre correndo. Me escondendo.
— Aí a bebida apareceu como aliada. — ele conclui
— Eu sinto muito. — digo baixando a cabeça e sentindo lágrimas inundarem meus olhos — Foi um desastre. Eu estava sempre bebendo, já não dormia mais. Mas já tem três meses que não bebo nada alcoólico. T'Challa me contou sobre minha reintegração e impôs isso. Fez eu me encarar de frente. Eu tenho algumas pequenas crises de abstinência, mas não sucumbi à vontade.
— Enfrentar é o passo mais importante e você o realizou com êxito. — ele segura em meu rosto e sorri — Vou estar com você para o que precisar. Vamos entrar nessa juntos.
***
Sentada na minha cama, respirei fundo enquanto amamentava meu filho. Eu estava de ressaca. Na madrugada, Natasha me flagrou numa situação extremamente humilhante, vomitando sobre o vaso. Eu estava prestes a desmaiar, quando ela me amparou, me deu banho e me colocou pra dormir. Eu não queria acreditar que eu tinha um problema e rezava para que Steve não soubesse que eu tinha um problema. Nem mesmo o pequeno em meus braços era capaz de me fazer parar.
— Ei. — ouvi me chamarem e sequei as lágrimas, ao ver Wanda entrando no meu quarto, segurando uma caneca de café fumegante
— Ei. — respondo
— O pequeno está mastigando seu mamilo de novo? — Nat pergunta ao entrar em seguida e fechar a porta
— Não, não é por isso o choro. — fungo
— Trouxemos café pra você. — Wanda se senta na minha cama e me entrega a caneca de café
— É, nada melhor pra curar uma ressaca. — bebo um gole — Obrigada. — a devolvo, vendo-a colocar na mesa de cabeceira
— Steve percebeu alguma coisa? — Nat pergunta, se sentando também
— Eu fingi que estava dormindo, quando o ouvi chegar e não o vi sair. Ele está muito ocupado com as vigílias.
— Eu o vi, de madrugada. — Wanda diz — Estava dando uma mamadeira pro Elliot, disse que você estava tão cansada que não o ouviu.
— É, parece que também sou uma péssima mãe. — resmungo
— Não diz isso, Elena. — Nat me olha — Você tem um problema, que claramente foi passado de forma biológica pra você.
— Eu disse que não estava pronta pra isso. — digo me entregando as lágrimas — Essa separação, ficar longe do meu pai, maternidade. Ah, meu Deus!
— Ei, não faz isso consigo mesma. — Wanda se arrasta para o meu lado, beijando minha bochecha e secando minhas lágrimas
— Você é uma mulher forte, Elena. — Nat segura a minha mão — Isso não diminui você em nada. O alcoolismo não te torna menos digna.
Respiro fundo, tentando controlar as lágrimas e meu filho solta meu peito, dormindo. Natasha o pega do meu colo, com cuidado, e o coloca em seu berço. Wanda me faz deitar e me cobre. Elas duas deitam ao meu lado, me deixando no meio e seguram minhas mãos. Ficamos observando o teto juntas.
— Vamos fazer uma promessa? — Wanda dá ideia
— Que promessa? — Nat pergunta
— Não sei se consigo honrar nenhuma promessa, agora. — murmuro
— Vamos apenas prometer que o mundo pode estar um caos, mas nós três não estaremos. — Wanda diz — Independente do que acontecer, nós sempre estaremos bem e sempre estaremos juntas.
— Isso é brega. — Nat resmunga — Mas eu gostei.
— Eu também. — digo
— Então vocês prometem? — Wanda pergunta
— Eu prometo! — dizemos juntas
Pedi para ficar sozinha na biblioteca, mas fui levada ao laboratório, pois T'Challa queria ter uma conversa confidencial comigo. Já imagino o que ele irá falar.
— Você sabia disso, não sabia?
T'Challa diz me mostrando o exame que mostra o Beta HCG Reagente. Respiro fundo e confirmo levemente com a cabeça.
— Você está grávida, Elena.