Episódio 9: SOMBRAS, PECADO E PROVOCAÇÕES

1713 Palavras
Victoria Savoia Trinta dias. Trinta longos, insuportáveis dias desde aquela madrugada quente e amaldiçoada na piscina. Desde que a boca de Benjamim — meu segurança — tocou meus s***s com uma ousadia que queimou minha pele como ácido. Trinta dias desde o beijo que me fez esquecer meu próprio nome, e ainda assim... ainda sinto o gosto dele na minha boca. Ainda sinto o toque dele entre minhas coxas como se tivesse acontecido ontem. Desde então, faço de tudo para ignorá-lo. Fingir que ele não existe. Que é só mais um homem pago para me seguir, me proteger e ficar calado. Um segurança. Simples assim. Que era só esquecer e pronto... A realidade, não era bem assim. Eu tentei esquecer. Juro por Deus, tentei. Transas com o Enzo. Bebidas. Compras. Viagens. Uma noite em Paris. Outra em Capri. Mas nada... nada arrancou de mim a memória do gosto dele. Nada tirou do meu corpo a maldita tatuagem invisível que ele deixou com os lábios. Benjamim, meu maldito segurança. Ele é perigoso. É o tipo de homem que você olha e sente medo, t***o e curiosidade ao mesmo tempo. Ombros largos, pele marcada por cicatrizes que parecem sussurrar segredos, olhar escuro como o pecado, maxilar travado de tanta raiva contida. Um inferno ambulante com porte de general e cheiro de pecado caro. E ele está destruindo o que restava da minha sanidade. Me viro devagar na cama de lençóis caros de Enzo, e vejo o corpo dele estendido ali, dormindo de cueca preta, respirando pesadamente, os músculos definidos que ele ostenta como troféus de academia. É bonito. É influente. Mas não me afetam, nunca me afetaram. Transamos ontem à noite. Foi bom. Razoavelmente bom. O tipo de transa que satisfaz o corpo, mas não toca a alma. Não me fez sentir viva como aquele beijo do Benjamim me fez. Como aquele toque rouco e sujo no escuro, sem promessas nem limites. Me levanto em silêncio. Os pés tocam o chão gelado de mármore branco. O quarto de Enzo é digno de uma revista de luxo: espelhos fumê, armários italianos, tapetes persas e cortinas cinza-chumbo balançando levemente com o vento da varanda. A casa dele é luxuosa. Muito. Mas ainda assim não chega aos pés da mansão do meu pai. Esqueci de dizer — Enzo é filho de um dos deputados mais influentes da Itália, um dos principais cachorrinhos do meu pai. Um parasita que meu pai ajudou a colocar no poder, em troca de alguns favores... e de algumas mortes. Não é segredo pra mim. Ele pensa que sou uma bonequinha que não sabe de nada. Mas eu sei. Sei que meu pai já mandou matar inocentes. Que os jantares políticos da nossa casa escondem cadáveres entre as garrafas de vinho. Sei que minha família é um império construído com sangue. E isso me destrói um pouco a cada dia. Vivo cercada de luxo, mas por dentro sou só um campo minado de culpa. Entro no banheiro. O vapor quente toma conta assim que ligo o chuveiro. Deixo a água cair sobre mim como se pudesse lavar a lembrança dele. Mas não lava. Nunca lava. Passo sabonete lentamente pelo corpo, lembrando do toque de Benjamim. Da raiva com que ele me segurou. Do beijo quente, carregado de ódio e t***o, que fez meu corpo implodir por dentro. Fecho os olhos, suspiro. Quase me toco. Mas não. Não dou esse poder pra ele de novo. Ainda não. Saio do banho, me seco com a toalha felpuda e vazo da suíte antes que Enzo acorde e queira repetir a dose. Visto uma calça justa preta e uma blusa de gola alta. Prendo o cabelo com raiva. Desço pelas escadas de vidro temperado da casa de Enzo, o salto ecoando no chão impecável de mármore branco. A sala está vazia, fria, estéril como o resto da vida dele. Quando abro a porta... ele está ali. Benjamim. Encostado na lateral da SUV preta. Óculos escuros, braços cruzados, olhos cravados em mim como se me devorasse de dentro pra fora. A roupa preta apertada no corpo, as veias saltadas nos braços, os olhos sem paciência. O ar à nossa volta parece mais pesado. cara de quem não dormiu. Cara de quem ficou aqui a noite toda. Puts... — Merda... — murmuro, me lembrando que ele é minha sombra. Meu cão de guarda particular. — Ficou aqui a noite toda?— murmuro, erguendo uma sobrancelha. Ele apenas assente com a cabeça, sem mexer um músculo do rosto. — Sim — ele responde seco, como se fosse óbvio. Um veneno começa a ferver dentro de mim. Eu devia entrar no carro, e fingir que nada disso me afeta. Mas não resisto. Quero vê-lo quebrar. Quero sentir que ele ainda está preso em mim como estou presa nele. E então eu faço o que faço de melhor: provoco. — Então deve ter ouvido meus gemidos enquanto meu namorado me fodia gostoso — sussurro com um sorriso provocante, cruzando os braços e arqueando levemente o quadril, desafiadora. O maxilar dele trava. Os olhos escurecem mais. Ele me encara como se pudesse me rasgar com o olhar. Quando fala, a voz é baixa, mas afiada como uma navalha. — Não ouvi nada. Acho que ele não te comeu direito... m*l deu pra ouvir alguma coisa. Mal gemeu. Filho da p**a. Ardeu. Mentalmente, eu o xingo em três idiomas diferentes. Quero socá-lo. Quero beijá-lo. Quero que ele me quebre inteira. Dou um passo à frente, ficando a poucos centímetros dele. Ele continua parado. Uma rocha. Uma sombra. Uma p***a de maldição que eu mesma provoquei. Minha voz sai rouca, suja de provocação: — Então você me foderia melhor? — pergunto, a voz baixa, carregada de veneno e desejo. Benjamim se aproxima. Ele se aproxima mais. A tensão entre nós é densa como fumaça de pólvora. e eu prendo a respiração. Os rostos quase colados, os narizes quase se tocam, e o calor do corpo dele me engole inteira. Sua resposta vem com uma promessa que queima mais que o inferno: E ele fala... com a voz rouca, maldita, imunda: — Se eu te comesse, Vic... Você não andaria por dias. Não conseguiria sentar sem lembrar de mim. Meu coração dá um salto. A calcinha, molhada. Encharcada. Inferno, esse homem fala como se fizesse amor com palavras. Mas não. Isso não é amor. É guerra. É fogo cruzado. É t***o acumulado no fio da navalha. Eu sorrio, safada. Viro de costas como se nada tivesse acontecido. Mas por dentro? Tô tremendo. Tô quente. Tô viva. Maldita seja essa sombra com voz de pecado. (***) Entro no carro sem dizer uma palavra. A SUV preta é grande, espaçosa, confortável. Mas naquele instante, parecia uma maldita cela de vidro. O couro do banco frio toca minhas coxas enquanto me jogo no assento traseiro. O som da porta se fechando ecoa no silêncio da madrugada, e logo em seguida ouço a porta do motorista abrir e fechar com firmeza. Benjamim entra. Não diz uma palavra. Liga o carro com um clique seco. O motor ronca. O rádio permanece desligado. Tudo permanece em silêncio. Um silêncio pesado. Carregado. Quase sufocante, pior que qualquer barulho de buzina ou sirene. É denso. Cortante. Cheio de tudo que a gente não pode dizer. Aquela cabine fechada parece menor do que deveria. Como se o carro estivesse encolhendo ao nosso redor, consumido pelo calor sufocante do que ainda não aconteceu. O carro começa a se mover pelas ruas de Roma, ele mantém os olhos na estrada, as mãos grandes e firmes no volante, mas eu sei. Sei que está me observando pelo retrovisor. De vez em quando, ele me encara por milésimos de segundo e desvia, como se estivesse tentando manter o controle. Como se fosse difícil. E é. Porque eu também estou à beira do colapso. Eu, Victoria Savoia, criada em meio à manipulação e controle, estou me desmontando por dentro por causa de um segurança. Um homem pago para me proteger. Um homem que nem deveria estar aqui. Mas está. Com seu cheiro de perigo, sua pose de lobo, sua voz que me fode só de existir. E eu não aguento mais. — Encosta o carro — digo, firme, tentando parecer casual, tentando enganar a mim mesma. Ele não responde. Finge que não ouviu ou só quer me fazer perder a paciência. O silêncio continua. E isso me consome por dentro, me incendeia, me desestrutura. — Eu disse: PARA O CARRO! Para essa droga de carro agora! A voz sai num grito explosivo, impulsivo, como se rasgasse meu próprio peito. Ele pisa no freio com um tranco seco e o carro encosta no acostamento de uma estrada deserta, cercada por árvores e escuridão. Tudo está escuro lá fora, mas a tensão aqui dentro brilha como fogo. Ele gira o corpo devagar e me encara pelo retrovisor. Os olhos fixos nos meus. Duros. Penetrantes. — O que foi? — ele pergunta, com a voz grave, arranhada, rouca de algo que não tem nome. Ele não está irritado. Não está curioso. Ele está à beira de um abismo, exatamente onde eu também estou. Me remexo no banco traseiro, o coração batendo tão alto que posso ouvir. Meu corpo inteiro parece pulsar. Minhas mãos tremem. E então... eu solto. Porque sou impulsiva. Porque sou louca. Porque estou cansada de fingir que não quero. — Você me quer? O silêncio entre nós vira pólvora. Ele ergue uma sobrancelha, como se a pergunta fosse perigosa demais pra ser feita. Mas não responde. Então eu me inclino pra frente, olhando diretamente pra ele, e repito, com a respiração trêmula: — Você me quer, Benjamim? Os olhos dele queimam nos meus. Sem aviso, sem permissão, sem espaço pra dúvida, ele solta o cinto, gira o corpo e se estica até mim. Sua mão me agarra pela nuca com força, puxando-me pra frente como se eu fosse dele. Como se sempre tivesse sido. E ele me beija. Forte. Sujo. Furioso. É um beijo de raiva. De desejo. De todas as noites que fingimos que não sentíamos nada. É um beijo que corta, que exige, que me consome. E entre um beijo e outro, a respiração dele roça meus lábios quando ele murmura: — Isso responde? Sim. Responde. Mas também destrói.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR