Episódio 10:Inferno Particular

1638 Palavras
Benjamim Lancelloti Um mês de inferno particular Um MÊS. Trinta malditos dias. Trinta dias tentando não pensar naquela desgraçada da Victoria Savoia. No cheiro dela, na risada debochada, na forma como ela morde o lábio só pra me deixar louco. No gosto da pele. No som da voz suja de sarcasmo. No beijo que me queimou por dentro como gasolina em pele crua. Trinta dias fingindo que não sinto nada por essa mulher que exala pecado em cada passo que dá. Impossível. É impossível fingir que não estou sendo consumido vivo por ela quando passo vinte e quatro horas por dia, feito cão de guarda, sombra, escravo do inferno particular que essa mulher virou? Isso aqui não é trabalho. É tortura. É pior do que qualquer interrogatório com agulhas no Iraque. É um jogo psicológico onde ela me quebra em silêncio. Olho pro relógio do painel pela milésima vez. Três e quinze da madrugada. E onde é que eu estou? Dentro da p***a da SUV, estacionado em frente à mansão do filhinho de papai, o namorado dela, onde ela está passando a noite. Ou, como eu gosto de chamar mentalmente, a residência oficial do babaca de luxo. Enquanto eu fico sentado aqui como um bom cão de guarda, esperando... esperando ela sair depois de ser fodida por outro. Como se minha função fosse proteger, vigiar e, no final, assistir de longe enquanto outro homem encosta nela. Minha mandíbula trava. As mãos apertam o volante como se eu pudesse estrangular ele com isso. Ela tá lá dentro. Com ele. Gemendo. De pernas abertas. Com outro. Inferno. Quem eu tô tentando enganar? O estômago embrulha só de imaginar aquele babaca encostando nela, ouvindo os gemidos que deveriam ser meus. Dando a ela o que eu quero dar. Tô com ódio. Ódio puro. Ódio que me consome. Odeio esse merda. Odeio ela por me deixar assim. E odeio mais ainda o fato de querer estar no lugar dele. Não só querer... querer arrancar dela os gritos que ele nunca vai arrancar. Meus. Só meus. A buzina toca quando eu soco o volante, mas que se dane. Não me importo. Podem achar que é roubo, sequestro, assassinato. É só o som do meu limite quebrando. Abro a porta com brutalidade, saio e dou a volta, me encostando na lateral da SUV. Cruzo os braços, respiro fundo, tento parecer calmo. Mas por dentro? Sou dinamite. E então, ela sai. Lenta. Soberba. Provocante. Vestida como uma filha da p**a que sabe exatamente o que está fazendo comigo. Com aquele andar que balança o mundo. Com aquele olhar de quem acabou de se gozar no colo de outro homem. Mas o que mais me fode... É o sorriso. Um sorrisinho de canto, como se dissesse: "É isso mesmo, sombra. Tô aqui. Tô viva. Tô molhada. Mas não é por você." A p***a que não é. Ela diz algo. Me cutuca verbalmente. E eu mordo o próprio veneno, deixo ela acreditar que estou imune. Mentira. Pior mentira que já contei. (***) Nós nos afastamos porque faltou ar. Literalmente. O beijo que acabamos de trocar foi uma guerra — língua, dente, raiva, desejo. E agora, olhando pra ela ali, com os lábios inchados, os olhos arregalados, o peito arfando... tudo que eu queria era jogá-la no banco e fazê-la esquecer o nome daquele desgraçado que ela chama de namorado. Ela respira ofegante, os olhos me encarando como se pedissem mais. Como se dissessem: "Não para agora, filho da puta." Se ela soubesse... Se soubesse o quanto eu a quero... O quanto eu a desejo O quanto eu a odeio por me fazer querer assim. Um mês me fodendo por dentro, tentando ignorar essa tortura. E ela vem e me pergunta, com aquela boca suja e linda, se eu quero? Se ela soubesse o que se passa dentro da minha cabeça, não teria me feito a droga dessa pergunta. Caralho. É claro que quero. Como nunca quis ninguém. Como um viciado em abstinência. Como um animal faminto preso numa jaula. Mas eu não digo isso. Não sou o tipo que se ajoelha. Sou o tipo que quebra. Destrói. Possui. Ela ainda está ali, esperando, me encarando, os olhos dizendo mais que os lábios. Quer mais. Precisa de mais. E quer que eu tome. Que eu perca o controle. Que eu deixe o lobo sair da jaula. O silêncio entre nós está mais carregado que a arma no meu porta-luvas. Então f**a-se. E então solto, com a voz arranhada de raiva e t***o: — Quer ir pra outro lugar? A resposta dela vem sem hesitar: — Sim. Sem uma p***a de segundo sequer pra pensar. Merda. Sem pensar duas vezes, ajeito o cinto, piso no acelerador e o carro arranca como se carregasse dinamite. Dirijo em silêncio, a tensão espessa entre nós, como fumaça dentro da cabine. As mãos no volante tremem levemente, mas não é medo. É o autocontrole se esfarelando. No caminho, me pergunto se isso é certo. Se é isso que eu devia fazer. Mas a essa altura? Certo e errado já viraram ruído branco. Victoria bagunçou tudo em mim. Minutos depois, estaciono em frente ao meu prédio, um edifício antigo de fachada de pedra, colunas neoclássicas e porte de bunker urbano. Luxuoso, discreto, e cercado por câmeras escondidas. Meu apartamento fica no último andar. O elevador tem reconhecimento de retina. Não entra ninguém sem minha permissão. Desço do carro sem olhar pra ela, dou a volta e abro a porta do passageiro. Ela sai. Devagar. Com os olhos dançando em mim como se não confiasse. — Calma. Não vou fazer nada que você não queira. — digo com um cinismo amargo na voz, mais por autopreservação do que por gentileza. Ela sorri. Aquela p***a daquele sorrisinho que me quebra inteiro. E responde, baixinho: — Isso é uma promessa? Filha da p**a. Ela não sabe o que tá pedindo. Ou sabe — e por isso provoca. A minha risada é baixa. Seca. Sombria. — Não, docinho... isso é um aviso. E então, sem mais palavras, eu aperto o botão do elevador. Porque se ela entrar comigo... Ela não sai de lá a mesma. Mas agora é tarde. Ela entrou na minha casa. E ninguém sai ileso da minha casa. *** O elevador parou com um bip seco no último andar, estávamos em completo silêncio, o tipo de silêncio que engole tudo. Ela não disse uma palavra — nem eu. Mas eu podia ouvir a respiração dela. Curtinha. Rápida. Inquieta. Deslizei o cartão de acesso e a porta metálica do meu andar exclusivo se abriu com um rangido baixo. Dei espaço pra ela entrar primeiro, observando enquanto Victoria cruzava a soleira com passos lentos, olhos curiosos, e o que parecia uma mistura de desafio e desejo contido. Ela adentrou meu mundo. E meu mundo era o oposto do dela. O apartamento era grande. Amplo. Aberto. Mas frio. Frio como o interior de um cofre. Ou uma mente que não descansa. Paredes de concreto bruto, sem pintura, como se o acabamento tivesse sido propositalmente deixado inacabado — e foi. Nada de cor. Nada de vida. O piso era de cimento queimado, polido, liso como gelo. As janelas altas, cobertas por cortinas blackout pesadas, deixavam a escuridão dominar o ambiente mesmo com a cidade acesa lá fora. Era meu bunker particular. Moderno. Sim. Equipado com o melhor que o dinheiro pode comprar. Mas sem alma. Sem afeto. Funcional como um esconderijo. Cru como a verdade. Seguro como um cárcere. No canto direito, uma cozinha americana em aço escovado, com armários de linhas retas, minimalistas. Uma geladeira inox trancada com código. Um cooktop que nunca foi usado. Um balcão preto separava a área da sala. Tudo brilhava como se nunca tivesse sido usado — e talvez não tivesse mesmo. A mesa de jantar era de ferro pesado, industrial, com cadeiras estofadas em couro preto, alinhadas milimetricamente. Ao lado, uma estante baixa de madeira escura — a única — exibia armas. Muitas. Pistolas, rifles, facas. Tudo perfeitamente organizado. A estética da destruição. Nada de quadros. Nada de plantas. Nada de lembranças. Nem uma maldita foto. No centro da sala, um enorme sofá de couro preto — daqueles que afundam e envolvem, mas não convidam — repousava diante de uma televisão gigante, desligada, como se fizesse parte do cenário de um interrogatório. — Porra... — ouvi ela murmurar baixinho, analisando o ambiente com os olhos bem abertos. — Isso aqui parece um esconderijo de serial killer. — E é — respondi, sem hesitar. Fui até o bar no canto da sala — uma estrutura de concreto com garrafas finas cuidadosamente alinhadas, quase todas de uísques caros, contrabandeados ou de colecionador. Peguei uma garrafa de Glenfiddich 21 anos, servi dois dedos em dois copo baixo de cristal. O salto dela estalava no chão liso. Ela explora o lugar como se estivesse invadindo um museu de um homem morto. Os dedos deslizam pela bancada. Os olhos vasculham sem medo, observou a prateleira de pistolas e fuzis sem esconder o interesse. Quando olhou pra mim, os olhos brilhavam de curiosidade e algo a mais. — Você mora mesmo aqui? — pergunta, erguendo uma sobrancelha enquanto olha minhas armas. — Não. Eu sobrevivo aqui — digo com a voz seca, jogando o corpo no encosto do sofá. — Lar é um conceito superestimado. Ela me encara. Intensa. na frente da estante de armas, com um dedo sobre a coronha de uma Glock preta. Como se pedisse permissão. Ou como se provocasse. Ou os dois. Estendo o copo a ela. — Se vai brincar no inferno... melhor estar preparada — digo, minha voz baixa, carregada de algo entre ameaça e convite. Ela se aproxima devagar. Pega o copo. E sorri. Um sorriso que me fode inteiro. Um sorriso que diz: ela quer brincar. E sabe o risco.
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