O celular vibrava sobre a mesa.
Uma vez.
Duas.
Três.
Eu ignorei todas.
Fiquei sentada no sofá, encarando o nada, enquanto minha mente rodava em círculos, presa na mesma realidade impossível.
Grávida.
A palavra ainda parecia errada.
Pesada demais.
Distante demais.
Mas real.
Infelizmente real.
Levei a mão ao rosto, pressionando os olhos com força, como se isso pudesse me acordar daquele pesadelo.
Mas não era um sonho.
E o pior… eu estava completamente sozinha.
O celular voltou a vibrar.
Dessa vez, com mais insistência.
Soltei um suspiro irritado, pegando o aparelho sem nem olhar direito.
Giulia.
Claro que era ela.
— O que foi? — atendi, a voz mais seca do que eu pretendia.
— Uau, bom dia pra você também — a voz dela veio carregada de sarcasmo. — Você sumiu ontem. Eu mandei mensagem, liguei… achei que tinha morrido.
Quase ri.
Quase.
— Tô viva — respondi, sem humor.
Silêncio.
Giulia me conhecia bem demais.
— O que aconteceu?
Engoli em seco.
Por alguns segundos, considerei mentir.
Dizer que estava tudo bem.
Que era só cansaço.
Que nada tinha acontecido.
Mas a verdade estava presa na minha garganta, pesada demais para ser ignorada.
— Eu… — minha voz falhou. — Eu preciso falar com você.
Do outro lado da linha, o tom dela mudou na mesma hora.
Sério.
Preocupado.
— Tô indo aí.
— Não precisa—
— Serena — ela me interrompeu. — Eu tô indo.
A ligação caiu.
Fechei os olhos por um instante.
Ótimo.
Era exatamente o que eu não queria… e o que eu mais precisava.
Giulia entrou no meu apartamento menos de vinte minutos depois, como um furacão.
— Você tá me assustando — disse, fechando a porta atrás de si e já vindo na minha direção. — O que aconteceu?
Eu fiquei em silêncio.
De pé no meio da sala.
Sem saber por onde começar.
Sem saber como dizer aquilo em voz alta.
Porque, no momento em que eu dissesse…
Se tornaria ainda mais real.
— Serena — ela chamou de novo, mais suave dessa vez. — Fala comigo.
Respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
E então soltei:
— Eu tô grávida.
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor.
Giulia ficou parada.
Me encarando.
Processando.
— Você… o quê?
— Grávida — repeti, sentindo a palavra pesar ainda mais agora que estava no ar.
Ela piscou.
Uma vez.
Duas.
E então passou a mão pelo cabelo, claramente tentando organizar os próprios pensamentos.
— Tá… tá bom — disse devagar. — Ok… a gente resolve isso. Quem é o cara?
Meu estômago afundou.
Eu não respondi.
Não consegui.
E foi exatamente isso que fez Giulia perceber.
Os olhos dela se arregalaram lentamente.
— Não…
Eu fechei os olhos.
— Serena… — a voz dela saiu mais baixa agora, quase incrédula. — Não me diz que…
— É dele.
As palavras saíram como um corte.
Rápidas.
Secas.
Dolorosas.
O silêncio voltou.
Mais pesado.
Mais sufocante.
— Alessio Caruso? — ela perguntou, como se ainda precisasse confirmar.
Assenti devagar.
E isso foi o suficiente.
— Você enlouqueceu?! — ela praticamente explodiu, começando a andar de um lado pro outro. — Como isso aconteceu? Não, espera— eu sei como acontece, mas… com ELE, Serena?!
— Eu sei! — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Eu sei, Giulia!
Passei as mãos pelo rosto, tentando segurar as lágrimas que insistiam em aparecer.
— Foi um erro, ok? Uma noite. Só isso. Eu nunca quis que—
— E agora você tá carregando um filho dele! — ela interrompeu, apontando pra mim.
O impacto daquelas palavras me fez recuar um passo.
Porque ouvir aquilo em voz alta…
Doía mais.
Muito mais.
— Eu não sei o que fazer — sussurrei.
E pela primeira vez desde que ela chegou…
Giulia parou.
Me olhou de verdade.
E viu.
Viu o medo.
O desespero.
A confusão.
Ela suspirou, se aproximando mais devagar.
— Ele sabe?
Balancei a cabeça rapidamente.
— Não.
— E não pode saber — ela disse na mesma hora, firme.
Meu coração apertou.
Porque eu já sabia disso.
Mas ouvir outra pessoa dizer… tornava tudo mais sério.
Mais real.
— Se Alessio descobrir isso — Giulia continuou — você acha que ele vai simplesmente… aceitar?
A resposta era óbvia.
Não.
Alessio Caruso não aceitava.
Ele tomava.
Controlava.
Decidia.
— Ele vai te prender naquela vida, Serena — ela disse, mais baixa agora. — Você nunca mais sai.
Engoli em seco.
Porque, no fundo…
Esse era o meu maior medo.
— Então ele não vai descobrir — falei, tentando soar firme. — Eu vou dar um jeito.
Giulia me encarou por alguns segundos.
Como se estivesse avaliando.
— Você não tá pensando direito — ela murmurou. — Isso não é algo que dá pra esconder pra sempre.
Talvez não.
Mas por enquanto…
Era tudo que eu tinha.
— Eu preciso tentar.
O silêncio caiu entre nós mais uma vez.
Pesado.
Incerto.
Até que—
Meu celular vibrou.
De novo.
Franzi a testa, pegando o aparelho.
Número desconhecido.
Meu coração deu um salto estranho.
— Atende — Giulia disse, desconfiada.
Hesitei por um segundo.
E então deslizei o dedo na tela.
— Alô?
Silêncio.
Do outro lado da linha, ninguém respondeu.
Mas eu ouvi.
Respiração.
Baixa.
Controlada.
E então… a ligação caiu.
Fiquei olhando para o celular, o coração acelerando de novo.
Uma sensação estranha subiu pela minha espinha.
Fria.
Incômoda.
Errada.
— Quem era? — Giulia perguntou.
Engoli em seco.
— Eu não sei…
Mas, por algum motivo…
Eu tive a sensação de que sabia.
E isso só piorava tudo.