O silêncio que se seguiu à ligação era cortante, quase sólido.
Giulia ainda falava, as mãos movendo-se freneticamente enquanto traçava planos de fuga que soavam como roteiros de filmes baratos. Mas eu não conseguia ouvi-la. Meus ouvidos ainda estavam sintonizados naquele ritmo de respiração que ecoara do outro lado da linha apenas alguns segundos atrás.
Pesada. Cadenciada. Terrivelmente familiar.
— Serena! — O grito de Giulia me trouxe de volta à realidade fria da minha sala. — Você me ouviu? Eu disse que tenho um primo que mora no interior, uma fazenda isolada. Você pode ficar lá por uns meses, até a gente decidir o que...
— Ele sabe, Giulia.
Minha voz saiu como um sussurro seco, desprovido de qualquer esperança. As palavras pareceram congelar o ar ao nosso redor.
Giulia parou de andar, os olhos arregalados, a boca entreaberta em um protesto que morreu antes de nascer.
— Não tem como ele saber, Serena. Você acabou de descobrir. A menos que... — Ela hesitou, olhando para o meu celular sobre a mesa como se fosse um objeto amaldiçoado. — A menos que ele estivesse vigiando você o tempo todo.
Um calafrio percorreu minha espinha, eriçando cada pelo do meu corpo.
Alessio Caruso não era apenas um homem rico e perigoso; ele era um estrategista meticuloso. Se ele destruiu minha família, foi porque planejou cada passo, cada golpe, cada queda.
Por que com o nosso “erro” seria diferente?
Ele não deixava pontas soltas.
E eu, infelizmente, era a maior delas.
— Eu preciso sair daqui — eu disse, levantando-me abruptamente. O sofá pareceu me repelir. — Se eu ficar parada, olhando para essas paredes, eu vou enlouquecer.
— Para onde você vai? É perigoso, Serena! Se ele sabe, ele pode estar lá fora agora!
— É mais perigoso ficar esperando o próximo sinal dele como uma presa acuada.
Peguei meu casaco e minha bolsa com mãos trêmulas.
Eu precisava de ar.
Precisava sentir o vento gelado no rosto para me convencer de que ainda era dona dos meus passos, mesmo que meus pés estivessem pesados como chumbo.
Giulia tentou segurar meu braço, mas eu já estava na porta, movida por um impulso desesperado de fuga.
A rua parecia diferente sob a nova luz daquela verdade.
Cada carro preto estacionado sob as sombras das árvores parecia uma ameaça oculta. Cada estranho que passava por mim, com o rosto escondido por um cachecol ou um chapéu, parecia carregar um segredo em nome dos Caruso.
A paranoia é uma doença silenciosa; ela se alimenta do medo e cresce nas frestas da incerteza até que você não consiga mais distinguir um vizinho de um carrasco.
Caminhei por vários quarteirões sem rumo, tentando focar apenas na minha respiração.
Inspira.
Expira.
Você ainda está no controle.
Eu repetia para mim mesma — um mantra mentiroso que meu coração desmentia a cada batida descompassada.
Parei em frente a uma pequena cafeteria de esquina.
Era um lugar que eu costumava frequentar justamente por ser barulhento e impessoal, onde ninguém olhava para ninguém.
Entrei, buscando o anonimato da multidão matinal.
Pedi um chá de camomila — o café, que eu tanto amava, agora me provocava náuseas instantâneas — e me sentei em uma mesa nos fundos, de frente para a porta.
Sempre de frente para a porta.
Uma lição de sobrevivência que aprendi cedo demais, logo após o nome Caruso ser escrito com sangue na história da minha família.
O tempo passava de forma distorcida.
Eu observava as pessoas ao redor: casais discutindo baixo, estudantes compenetrados em seus laptops, idosos lendo jornais amassados.
Eram vidas normais. Rotinas seguras que não abrigavam monstros à espreita.
Levei a mão à barriga de forma inconsciente, um gesto protetor que me assustou assim que o percebi.
Ainda estava plana, mas eu sentia a mudança vibrando sob a pele.
Era como se houvesse uma bomba-relógio ali dentro, e os segundos estivessem escorrendo entre meus dedos.
— O chá está esfriando, Serena.
A voz veio de trás de mim, baixa e carregada de uma autoridade que não precisava de gritos.
O mundo parou.
O tilintar das colheres, o chiado da máquina de expresso, o burburinho das conversas… tudo se transformou em um ruído branco e distante.
Eu conhecia aquele timbre.
Era profundo, rouco, possuindo uma elegância letal que escondia a violência por trás de cada sílaba pronunciada.
Lentamente, como se estivesse presa em um pesadelo de movimentos lentos, eu me virei.
Ele estava lá.
Alessio Caruso.
Ele não vestia um terno completo, o que o tornava, de algum modo, ainda mais intimidador.
Usava uma camisa social preta com os primeiros botões abertos, revelando a base do pescoço, e as mangas estavam dobradas até os cotovelos, expondo as tatuagens escuras que subiam pelos seus pulsos fortes.
Ele parecia relaxado.
Quase casual.
Mas os olhos…
Aqueles olhos eram de um predador que finalmente havia encurralado a presa que tanto perseguiu.
Sem pedir permissão, ele puxou a cadeira à minha frente e sentou-se.
Alessio nunca pedia nada; ele simplesmente tomava o que queria — por direito ou por força.
— O que você quer, Alessio? — Minha voz tremeu, uma traição do meu próprio corpo, apesar do meu esforço hercúleo para parecer indiferente.
Ele inclinou a cabeça levemente, observando-me com uma intensidade predatória que fazia minha pele queimar sob o casaco.
— Você parece pálida, Serena. Fugindo de fantasmas ou de si mesma?
— Fugir de você já seria o suficiente para qualquer pessoa sã.
Um meio sorriso, gélido e desprovido de qualquer vestígio de humanidade, surgiu nos lábios dele.
— Engraçado. Eu tive a nítida impressão de que você estava fugindo de algo muito mais… específico. Algo que você carrega.
Meu coração martelou com tanta força contra as costelas que temi que ele pudesse ouvir.
Ele sabia.
Tinha que saber.
A ligação sem resposta, a presença súbita dele ali, o tom de voz carregado de subtexto… tudo era uma confirmação de que meu segredo havia sido violado.
— Eu não tenho nada para tratar com você — eu disse, reunindo o que restava da minha dignidade para tentar me levantar.
No mesmo instante, a mão dele disparou como uma serpente e segurou meu pulso sobre a mesa.
O aperto não foi forte o suficiente para deixar marcas roxas, mas era firme, inegável e absoluto.
Uma promessa silenciosa de que eu não iria a lugar nenhum.
— Sente-se — ele ordenou.
A voz não passou de um sussurro, mas carregava o peso de uma sentença.
Eu me forcei a sentar, sentindo o calor da palma da mão dele contra a minha pele fria.
Era o mesmo calor daquela noite maldita.
A mesma eletricidade perversa que eu odiava por ainda conseguir me afetar, mesmo depois de tudo.
— Você sumiu por duas semanas, Serena. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem.
Ele se inclinou para frente.
O cheiro de perfume amadeirado e tabaco caro me atingiu em cheio, nublando meus sentidos.
— Mas o silêncio fala mais do que as palavras desnecessárias. Especialmente quando esse silêncio vem acompanhado de visitas repentinas a farmácias de plantão durante a madrugada.
Senti o chão sumir sob meus pés.
O pânico subiu como uma maré alta, sufocante.
Ele estava me vigiando.
Cada passo. Cada compra. Cada momento de desespero.
— Você é um doente, Alessio.
— Eu sou um homem que cuida com zelo do que lhe pertence.
A voz dele baixou, sombria e possessiva.
— E você, Serena… você tem algo que é meu. Sangue do meu sangue.
Eu tentei puxar meu braço com violência, mas ele manteve o controle com uma facilidade irritante.
— Eu não sou sua. Nunca fui e nunca serei.
— Eu não estou falando de você — ele disse, frio. — Estou falando do herdeiro que você está carregando.
Os olhos dele desceram por um breve segundo para o meu ventre… e voltaram.
— Um Caruso não nasce em qualquer lugar. E certamente não será criado longe de mim.
O ar parecia ter sido sugado para fora da cafeteria.
— Como você…
— Eu te disse uma vez, Serena: eu controlo as variáveis.
Ele soltou meu pulso.
Mas o peso da presença dele continuava esmagador.
— Agora, você tem duas opções simples.
Ele se levantou, projetando uma sombra longa sobre mim.
— Você pode vir comigo agora e fazer as coisas do meu jeito… com conforto e segurança.
Uma pausa.
— Ou eu posso tornar a sua vida, e a dessa criança, um inferno tão profundo que você não terá outra escolha a não ser implorar pela minha proteção.
Ele deixou um cartão preto sobre a mesa.
O material fosco contrastava com o emblema dourado da família Caruso.
— Eu te dou exatamente uma hora para pegar o que for essencial.
A voz veio calma. Fria.
Definitiva.
— Meus homens já estão posicionados na porta do seu prédio. Se você não descer por vontade própria… eu mesmo subirei para buscar o que é meu.
Um leve inclinar de cabeça.
— E garanto que não serei gentil na segunda vez.
Ele se virou e saiu da cafeteria com a confiança absoluta de quem já venceu a guerra antes mesmo de disparar o primeiro tiro.
Eu fiquei ali.
Paralisada.
Encarando o cartão dourado.
Minhas mãos tremiam tanto que precisei escondê-las sob a mesa.
O jogo tinha mudado.
De forma irreversível.
A fuga tinha sido uma ilusão infantil.
Eu não era mais apenas a mulher que o odiava com todas as forças.
Eu era a mãe do filho do homem que destruiu meu mundo.
E, no império de Alessio Caruso…
isso significava que eu acabara de me tornar sua propriedade mais valiosa.