Capítulo 4

979 Palavras
Uma hora. Sessenta minutos exatos. Eu nunca soube que o tempo poderia ser tão curto e, ao mesmo tempo, tão c***l. As mãos de Giulia tremiam tanto quanto as minhas enquanto ela me ajudava a socar o mínimo de roupas possível dentro de uma mala de mão. Eu não conseguia pensar no que levar. O que se veste para entrar na cova do leão? O que se carrega quando você está perdendo a própria vida? — Serena, você não pode ir. A gente liga para a polícia, a gente… — Giulia começou. Mas a voz dela morreu quando olhou pela janela. Eu me aproximei. E vi o que ela estava vendo. Dois sedãs pretos estacionados exatamente em frente ao prédio. Homens de terno escuro, com posturas militares e rostos de pedra, estavam parados na calçada. Eles não escondiam as armas sob os paletós. Eles não precisavam. O nome Caruso era a única arma de que necessitavam para afastar qualquer pessoa que pensasse em intervir. — Se a polícia vier, Giulia, eles vão apenas escoltar o carro dele — eu disse, fechando o zíper da mala com um puxão violento. — Alessio não quebra a lei. Ele é a lei nesta cidade. Despedir-me de Giulia foi como me despedir da última versão de mim mesma que ainda era livre. O abraço dela foi apertado. Desesperado. — Eu vou dar um jeito de te tirar de lá — ela sussurrou no meu ouvido. Eu não respondi. Não queria dar a ela falsas esperanças. Quando saí do prédio, um dos homens deu um passo à frente. Ele não disse uma palavra. Apenas pegou a minha mala… e abriu a porta traseira do carro. O couro do assento estava frio. O cheiro de carro novo se misturava com o medo que exalava dos meus poros. O trajeto até a Villa Caruso foi feito em um silêncio sepulcral. Eu olhava pela janela, vendo Milão desaparecer e dar lugar às estradas sinuosas e arborizadas da periferia nobre. Quanto mais subíamos as colinas, mais eu sentia o peso da opressão. Então, os portões de ferro apareceram. Altos. Imponentes. Com o brasão da família forjado em metal n***o. Eles se abriram lentamente… como as mandíbulas de uma b***a faminta. A villa era magnífica. Uma construção de arquitetura clássica, cercada por jardins impecáveis e estátuas de mármore. Mas, para mim… cada estátua parecia um guarda. E cada janela, um olho atento. O carro parou. A porta foi aberta. Eu saí, sentindo o ar mais rarefeito ali em cima. Alessio estava parado no topo da escadaria de entrada. Ele já não usava a camisa casual da cafeteria. Agora, vestia um paletó de corte impecável, que acentuava a largura de seus ombros. Ele parecia um rei observando seu novo domínio. — Bem-vinda ao seu novo lar, Serena — disse ele, a voz ecoando pelo pátio de pedra. — Isso aqui não é um lar, Alessio. É uma prisão de luxo. Ele desceu os degraus lentamente. Parou a apenas um centímetro de mim. O domínio que ele exercia sobre o espaço ao redor era absoluto. — Chame do que quiser… contanto que se lembre de que, aqui dentro, as regras são minhas. Ele olhou para a minha mala pequena e solitária no chão. — Isso é tudo o que você trouxe? — Não pretendo ficar tempo suficiente para precisar de mais. Um brilho de diversão perversa cruzou os olhos cinzentos dele. — Sua esperança é admirável… mas inútil. Venha. Vou te mostrar onde o herdeiro dos Caruso vai passar os próximos meses. Ele colocou a mão na base das minhas costas. O toque foi possessivo. Um lembrete constante de que eu agora fazia parte do seu inventário pessoal. Ele me conduziu para dentro da mansão. O mármore polido refletia meu rosto pálido e assustado. Subimos uma escadaria monumental até o segundo andar. Ele parou diante de uma porta de carvalho maciço e a abriu. O quarto era enorme. Decorado em tons de creme e dourado, com uma varanda que dava para os jardins. Era o quarto de uma rainha. — Este é o seu quarto — ele anunciou. — Há uma governanta à sua disposição. Médicos virão semanalmente. Você terá tudo o que pedir… Uma pausa. — Exceto uma coisa. Eu me virei para ele, o queixo erguido. — Minha liberdade. — Sua saída desta propriedade sem a minha autorização — ele corrigiu, a voz fria. — Meus homens têm ordens claras. Se você tentar fugir, Serena… as consequências não cairão sobre você. Uma pausa calculada. — Cairão sobre as pessoas que te ajudarem. O rosto de Giulia me veio à mente. Senti uma náusea súbita. Ele sabia exatamente onde me golpear para me manter quieta. — Você é um monstro. — Eu sou um pai protegendo o que é dele — ele retrucou, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse sentir sua respiração no meu rosto. — Comece a se acostumar, Serena. A voz dele baixou. Sombria. — De agora em diante, seu mundo começa e termina nestes portões. Uma batida de silêncio. — E em mim. Ele se virou para sair… mas parou no batente da porta. — O jantar será servido às oito. Não se atrase. Uma pausa. — Eu não gosto de esperar o que me pertence. A porta se fechou com um clique pesado. Eu estava sozinha. Corri até a varanda e olhei para baixo. Guardas circulavam o perímetro. Câmeras estavam em cada canto. Levei a mão à barriga. Sentindo o pequeno segredo que tinha me trazido até aquele inferno. — Eu sinto muito — sussurrei para o bebê. — Sinto muito por quem é o seu pai. Mas ali… no silêncio daquele quarto luxuoso… eu soube de uma coisa. Se Alessio Caruso achava que eu seria uma prisioneira dócil… ele estava prestes a descobrir que uma Lombardi ferida… é mais perigosa do que qualquer exército.
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