Uma hora.
Sessenta minutos exatos.
Eu nunca soube que o tempo poderia ser tão curto e, ao mesmo tempo, tão c***l.
As mãos de Giulia tremiam tanto quanto as minhas enquanto ela me ajudava a socar o mínimo de roupas possível dentro de uma mala de mão.
Eu não conseguia pensar no que levar.
O que se veste para entrar na cova do leão?
O que se carrega quando você está perdendo a própria vida?
— Serena, você não pode ir. A gente liga para a polícia, a gente… — Giulia começou.
Mas a voz dela morreu quando olhou pela janela.
Eu me aproximei.
E vi o que ela estava vendo.
Dois sedãs pretos estacionados exatamente em frente ao prédio.
Homens de terno escuro, com posturas militares e rostos de pedra, estavam parados na calçada.
Eles não escondiam as armas sob os paletós.
Eles não precisavam.
O nome Caruso era a única arma de que necessitavam para afastar qualquer pessoa que pensasse em intervir.
— Se a polícia vier, Giulia, eles vão apenas escoltar o carro dele — eu disse, fechando o zíper da mala com um puxão violento. — Alessio não quebra a lei. Ele é a lei nesta cidade.
Despedir-me de Giulia foi como me despedir da última versão de mim mesma que ainda era livre.
O abraço dela foi apertado.
Desesperado.
— Eu vou dar um jeito de te tirar de lá — ela sussurrou no meu ouvido.
Eu não respondi.
Não queria dar a ela falsas esperanças.
Quando saí do prédio, um dos homens deu um passo à frente.
Ele não disse uma palavra.
Apenas pegou a minha mala… e abriu a porta traseira do carro.
O couro do assento estava frio.
O cheiro de carro novo se misturava com o medo que exalava dos meus poros.
O trajeto até a Villa Caruso foi feito em um silêncio sepulcral.
Eu olhava pela janela, vendo Milão desaparecer e dar lugar às estradas sinuosas e arborizadas da periferia nobre.
Quanto mais subíamos as colinas, mais eu sentia o peso da opressão.
Então, os portões de ferro apareceram.
Altos. Imponentes.
Com o brasão da família forjado em metal n***o.
Eles se abriram lentamente…
como as mandíbulas de uma b***a faminta.
A villa era magnífica.
Uma construção de arquitetura clássica, cercada por jardins impecáveis e estátuas de mármore.
Mas, para mim…
cada estátua parecia um guarda.
E cada janela, um olho atento.
O carro parou.
A porta foi aberta.
Eu saí, sentindo o ar mais rarefeito ali em cima.
Alessio estava parado no topo da escadaria de entrada.
Ele já não usava a camisa casual da cafeteria.
Agora, vestia um paletó de corte impecável, que acentuava a largura de seus ombros.
Ele parecia um rei observando seu novo domínio.
— Bem-vinda ao seu novo lar, Serena — disse ele, a voz ecoando pelo pátio de pedra.
— Isso aqui não é um lar, Alessio. É uma prisão de luxo.
Ele desceu os degraus lentamente.
Parou a apenas um centímetro de mim.
O domínio que ele exercia sobre o espaço ao redor era absoluto.
— Chame do que quiser… contanto que se lembre de que, aqui dentro, as regras são minhas.
Ele olhou para a minha mala pequena e solitária no chão.
— Isso é tudo o que você trouxe?
— Não pretendo ficar tempo suficiente para precisar de mais.
Um brilho de diversão perversa cruzou os olhos cinzentos dele.
— Sua esperança é admirável… mas inútil. Venha. Vou te mostrar onde o herdeiro dos Caruso vai passar os próximos meses.
Ele colocou a mão na base das minhas costas.
O toque foi possessivo.
Um lembrete constante de que eu agora fazia parte do seu inventário pessoal.
Ele me conduziu para dentro da mansão.
O mármore polido refletia meu rosto pálido e assustado.
Subimos uma escadaria monumental até o segundo andar.
Ele parou diante de uma porta de carvalho maciço e a abriu.
O quarto era enorme.
Decorado em tons de creme e dourado, com uma varanda que dava para os jardins.
Era o quarto de uma rainha.
— Este é o seu quarto — ele anunciou. — Há uma governanta à sua disposição. Médicos virão semanalmente. Você terá tudo o que pedir…
Uma pausa.
— Exceto uma coisa.
Eu me virei para ele, o queixo erguido.
— Minha liberdade.
— Sua saída desta propriedade sem a minha autorização — ele corrigiu, a voz fria. — Meus homens têm ordens claras. Se você tentar fugir, Serena… as consequências não cairão sobre você.
Uma pausa calculada.
— Cairão sobre as pessoas que te ajudarem.
O rosto de Giulia me veio à mente.
Senti uma náusea súbita.
Ele sabia exatamente onde me golpear para me manter quieta.
— Você é um monstro.
— Eu sou um pai protegendo o que é dele — ele retrucou, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse sentir sua respiração no meu rosto. — Comece a se acostumar, Serena.
A voz dele baixou.
Sombria.
— De agora em diante, seu mundo começa e termina nestes portões.
Uma batida de silêncio.
— E em mim.
Ele se virou para sair…
mas parou no batente da porta.
— O jantar será servido às oito. Não se atrase.
Uma pausa.
— Eu não gosto de esperar o que me pertence.
A porta se fechou com um clique pesado.
Eu estava sozinha.
Corri até a varanda e olhei para baixo.
Guardas circulavam o perímetro.
Câmeras estavam em cada canto.
Levei a mão à barriga.
Sentindo o pequeno segredo que tinha me trazido até aquele inferno.
— Eu sinto muito — sussurrei para o bebê. — Sinto muito por quem é o seu pai.
Mas ali…
no silêncio daquele quarto luxuoso…
eu soube de uma coisa.
Se Alessio Caruso achava que eu seria uma prisioneira dócil…
ele estava prestes a descobrir que uma Lombardi ferida…
é mais perigosa do que qualquer exército.