Capítulo 3

2260 Palavras
Arthur Allbertilli Olho o relógio sobre minha mesa de madeira em meu consultório, faltam exatamente vinte minutos para que eu possa deixar o hospital e ir finalmente para a casa do meu amigo. Atendo meu último paciente do dia, uma mulher dizendo que estava muito m*l, a ponto de morrer com vômitos constantes, e olha só, era apenas uma gravidez, a encaminhei para o obstetra do hospital e tudo resolvido. -Senhor. - Escuto a voz da recepcionista do meu andar do outro lado da linha ao telefone de fio. -Mais algum paciente? -Não Arthur. -Ótimo, estou saindo, de mim você já está livre. - Escuto sua risada ao longe, e desligo o telefone. Me recosto sobre minha cadeira e jogo minha cabeça para trás, trabalhei o dia todo, quase não tive tempo de comer, então não tive tempo de pensar no peso que minha vida é, nem mesmo pensei nas palavras do meu pai. Mas agora todo o fardo dia cai sobre minhas costas, a sinto literalmente pesadas, meus ombros doem pela tensão. Quero dormi e pensar que toda a minha vida não passou de um horrível pesadelo. Desligo meu computador, arrumo todos os meus pertences e coloco dentro da minha mochila, retiro meu jaleco e deixo sobre o encosto da cadeira, sigo para um pequeno banheiro que tem ali na minha sala e lavo o rosto e minhas mãos. Logo saio e pego minha mochila saindo da minha sala fechando a porta atrás de mim, passo pela recepcionista, ela é uma mulher linda, no auge dos seus trinta e sete anos, cabelos pretos cacheados, sua pele n***a faz um belo contraste com o uniforme branco. -Tchau Amanda. - Passo me despedindo, ela me dirige um sorriso lindo a qual retribuo. - Ah, não era pela manhã que os novos residentes iriam chegar? - Fiquei esperando o dia todo pelo novo médico que eu iria ficar responsável. -Houve uma mudança nas datas, desculpe, esqueci de lhe avisar, eles iram vir daqui dois dias. - Ela diz visivelmente se culpando por esquecer de me avisar. -Tudo bem, eu também nem ao menos me dei ao trabalho de lhe perguntar o porquê da demora do novo médico o dia todo. Erramos os dois. - Sorrio para ela que me retribui. -Durma bem, Amanda. -Espero que durma bem senhor Arthur. - Com um maneio de cabeça entro no elevador e desço para o estacionamento. Entro no meu carro, e logo sigo para o apartamento do meu amigo, uns quarenta minutos depois estou tocando sua companhia. Alberto me recebe apenas de shorts de moletom, ele tem uma cara de sono. Sorrio para ele passo para dentro do apartamento, me jogando sobre o sofá e deixando minha mochila num lugar qualquer no chão. Escuto a porta sendo fechada e logo Alberto coloca minha cabeça para cima, sentando-se sobre o sofá e colocando minha cabeça sobre suas cochas, ele faz um carinho gostoso em meus cabelos. Seus olhos castanhos quase mel focam no meu rosto. -Você está bem. - Me viro e enfio minha cabeça na sua barriga enquanto ainda contínuo deitado no sofá. -Vou ficar bem. - Minha voz sai abafado por minha boca está em contato com sua pele. Alguns minutos passa e ficamos apenas ali em silêncio, sua mão ainda fazendo um carinho gostoso em minha cabeça, estou quase dormindo. -Ei, você não tem um apartamento perto do hospital? - Ele diz baixinho. Eu suspiro. -Sai apressado que nem me lembrei dele, mas o apartamento foi meu pai que comprou. Estou pensando em vender, pois está no meu nome. E lá seria o primeiro lugar que eles iriam me procurar, caso ainda achem que tenho concerto. -Não fale como se fosse uma máquina quebrada, Arthur! - Ele me repreende. - Tem razão, se eles fossem lá atrás de você, e te encontrassem, tenho certeza de que você voltaria com eles. Melhor ficar aqui mesmo. - Isso causa um sentimento r**m em mim. Eu sou tão fraco assim? Seus olhos estão em mim, e ele me olha com amor. - Desculpa falar assim, mas é a verdade. Você sempre foi submisso aos desejos e comandos do seus pais, o seguia como um cachorro segue ao seu dono. - Me levanto de seu colo e me coloco sentado de cabeça baixa, me agarro a uma almofada ali presente. -Não era porque eu queria. - Digo, tentando me defender. -Não estou falando que você gostava, estou constatando esse fato e fico feliz que tenha se livrado dos seus pais. Sei que tudo o que fez e suportou, foi apenas por medo. Mas passou da hora de você tomar o controle da sua vida. Você é um homem adulto agora, Arthur, pode tomar suas próprias decisões. -Eu sei disso. Não sei como explicar, mas era como viver preso na minha própria mente também, talvez no fundo eu tinha esperanças dos meus pais mudarem e começarem a me tratar como filho deles. Que eles começassem a me enxergar como sou. Mas estava errado, nunca vou passar de um objeto para eles. - Suspiro fundo, segurando as lágrimas com toda as minhas forças. Alberto me puxa para um abraço apertado. -Sinto muito que tenha perdido seus pais assim. - Ele me solta e deixa um beijo em minha testa. -Acho que nunca os tive de verdade. E isso me deixa muito triste. – Eu me encontro acabado nesse momento, queria sumir por uns dias, não ver ninguém, mas agora preciso me sustentar e ter dinheiro para ter um espaço apenas para mim, então não posso me dar ao luxo de não trabalhar, então tenho que encarar tudo de frente e seguir firme. -Acha que eles podem te procurar no hospital? – Alberto pergunta preocupado. Eu bufo irritado. -Eles não fariam isso, presam demais pela vida social deles, eles não apareceriam por lá para fazer uma cena. Pelo menos eu acho que não. Se eles forem lá, não sei o que fazer. -Pena que não trabalho lá, eu poderia ajudar você se caso eles aparecessem. – Um sorriso desponta em meus lábios. -Tenho certeza de que você me ajudaria, você sempre me ajuda. – Olho para ele com um sorriso, ele me olha igual. Sua mão vem até meus cabelos num carinho gostoso, que até mesmo fecho meus olhos, eu sou muito carente de amor, isso sim! E a única pessoa que me dar isso é esse meu amigo aqui na minha frente, e eu o amo demais por isso. Não tenho palavras para descrever o valor dessa amizade, na verdade, não tem preço ou dinheiro nesse mundo que se aproxime do valor que Alberto tem em minha vida. – Eu te amo amigo, demais. – Deixo que isso saia de me pela primeira vez, nunca fui de demonstrar sentimentos, não fui criado assim, mas agora quero ser um novo Arthur, nunca vou deixar de expressar os meus sentimentos para as pessoas que estão ao meu lado verdadeiramente. Vejo um sorriso verdadeiro se abrir em seus lábios. -Eu também te amo, sabe que você é como se fosse meu irmão mais novo que não tive a oportunidade de ter. – Ele me puxa para seus braços em um abraço apertado. Me afasto dele e o olho. -Não é para tanto, temos quase a mesma idade. -Ainda assim, você continua sendo mais novo que eu, logo vou ter trinta, e você tem apenas vinte e sete. – Suspiro sofrido. -Vinte e sete anos vividos que foram jogados no lixo, quando eu não estava sendo um escroto, estava sob as ordens dos meus pais. Falar a verdade, não sei como eu vou viver agora. -Você vai apenas viver, faça o que apenas tem vontade, faça tudo que não pode e sempre quis. – Alberto diz alegre e isso vai me contagiando. -Talvez eu comece fazendo uma lista de tudo que sempre quis fazer. -Só digo uma coisa, viva! – Ele levanta e deixa um beijo em meus cabelos. – Vou deitar-me, amanhã me levanto cedo, você fica no quarto da segunda porta no corredor, tem roupas limpas lá e toalhas no banheiro, sinta-se em casa. Te amo. – Ele diz enquanto vai sumindo pelo corredor. -Boa noite. – Digo e escuto sua porta bater se fechando. Olho todo o cômodo e decido que vou tomar um banho e dormi também, tenho que ir ao hospital cedo amanhã. Pego minha mochila esquecida num canto da sala e sigo até a porta que ele me indicou, assim que a abro sinto o cheiro de produto de limpeza, vejo as paredes brancas, um pequeno guarda-roupas num canto e no meio do quarto a grande cama de casa, com um pequeno móvel na cabeceira, assim que adentro o quarto, vendo as paredes num tom branco, noto a porta do banheiro, em cima da cama, vejo um amontoado de roupas e presumo ser a roupa para me dormi. Fecho a porta atrás de mim e deixo a mochila ao pé da cama, tiro minha camisa e sigo para o banheiro. Tomo um banho quente, relaxando meus músculos, e lavando meus cabelos, saindo do box, a toalha no armário presente embaixo da pia que tem um pequeno espelho sobre ela. Me seco, e enrolo a toalha sobre minha cintura, saindo do banheiro com uma outra em mãos secando meus cabelos, não fica totalmente seco, mas serve, abro a pequena embalagem entre as roupas na cama onde tem três pares de cuecas, me visto com uma e coloco a camisa e um shorts moletom, me sinto confortável, volto ao banheiro e penduro a toalha sobre os objetos preso a parede, volto para o quarto e me deito sobre a cama macia e travesseiros mais ainda, sinto o peso do dia corrido cair sobre meus ombros, com as luzes apagadas e apenas a meia luz de um abajur sobre o móvel ao lado da minha cama, eu adormeço, caindo numa escuridão confortável. -Papai, você não me pega. – Uma voz infantil grita e sinto meus pés correndo em direção a ela. Tudo ao meu redor tem uma forte luz branca, mas que logo se torna um jardim cheio das mais coloridas flores, eu nem mesmo sei o nome de todas, acho até que tem algumas que nunca vi em minha vida, meus pés ainda correm sobre agora a terra, olho para baixo sentindo meus pés descalços em contato com a terra, noto as roupas brancas, muito diferente das que vesti antes de dormi. – Papaiii, você não vai me achar nunca? – Sinto meu coração acelerar, junto com uma dor absurda, que faz lágrimas virem aos meus olhos ao escutar a voz infantil novamente. Me sinto fraco de repente, e isso faz com que meus passos apressados parem, meus joelhos tremem, e vou com eles de encontro ao chão de terra. Levo minhas mãos ao meu rosto e choro, apenas choro sentindo uma dor insuportável. – Está tudo bem papai. Você não precisa me encontrar, eu vim até o senhor. – A voz fala agora mais próximo e com um ar risinho. Quando meu choro se acalma, olho para cima, vendo uma linda menina que aparenta ter uns cinco anos, seus cabelos castanhos e olhos num castanho ainda mais forte, ela me lembra alguém, mas quem? Me encontro confuso, mas a dor no coração intensifica ao que os olhos lindos da menina que está vestido num lindo vestido branco se conectam com os meus. -Quem é você? – Minha voz sai fraca. Ela nada responde, apenas sorri para mim e me estende sua pequena mão, a qual pego sem hesitar. Seus pés estão descalços também, ela sai me puxando, até que chegamos num lugar onde tem uma linda arvore com um balanço, e ao redor, ficam as lindas flores coloridas. Ela solta minha mão, e sinto um vazio terrível no lugar, ela se senta sobre o balanço e me olha com um sorriso que me faz sorrir junto. -Me balança papai? – Sua voz angélica, chega aos meus ouvidos, me acalmando, a passos pequenos, vou até ela, me colando atrás dela e começo a balançar, sua risada gostosa preenche todo o lugar. -Por que está me chamando e papai? – Pergunto de repente, sentindo meu coração calmo. Era como se eu soubesse a resposta, só não quisesse ver. -Porque você é meu papai hora, assim como papai Alec. – Minhas pernas tremem, e as lágrimas continuam caindo pelo meu rosto. - Me sinto tão culpado que estou fantasiando isso? Sonhando com isso para me autopunir? – As lágrimas caem mais forte. - Por que acha que isso é uma punição? – Ela pergunta, o balanço continua a balançar, um vento passando pelos seus cabelos e os bagunçando. - O que mais isso seria? Sonhar com uma menina que diz ser minha filha e de Alec, meu subconsciente que me punir por ter sido o pior dos seres com Alec. – Meu corpo treme, sentindo frio de repente. O balanço para e ela desce, vindo até mim. Seus olhos brilhosos em minha direção. -Pelo contrário papai, estou aqui para que você se perdoe. -Eu não consigo fazer isso! – Sinto uma dor sufocante, e tudo ao meu redor trêmulo, minhas vistas voltam ao enxergar tudo preto. -Apenas se perdoe papai, queira se perdoar, e você irá me ver novamente, então a gente pode começar tudo de novo, sem dor, sem magoas. – Sua voz delicada vai ficando cada vez mais baixinha. E quando me dou conta, acordo suado e chorando sobre a cama do quarto de hospedes do meu amigo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR