Arthur Allbertilli
Sinto um estranho aperto no peito desde que acordei, aquele sonho parecia real demais, era como se aquela criança fizesse parte de mim. Eu não saberia explicar, só sei que sinto uma culpa tão grande que ficou difícil voltar a respirar normalmente depois que acordei, essa sensação r**m está me deixando tonto.
Levanto-me devagar da cama e sigo a passos pequenos até o banheiro, escovo os dentes, tomo um banho, lavando os cabelos e tentando não pensar no sonho estranhamente perturbador, mas ao mesmo tempo reconfortante. Respiro fundo e levanto a cabeça, deixando a água cair diretamente em meu rosto.
Estou me sentindo exausto.
Saio do box e enrolo a toalha em minha cintura, paro de frente a pia com um pequeno espelho acima dela. Vejo meus olhos azuis idênticos ao de papai. Nos meus vejo medo, fragilidade, no dele via apenas ódio.
Como posso descrever o que estou sentindo nesse momento? Coloco minhas mãos e me inclino sobre a pia. Me sinto vazio.
Como posso sentir falta do que nunca tive? Toda a minha vida eu busquei por amor, mas as duas principais pessoas que deveriam me dar, foi as que menos demostraram qualquer sentimento para comigo.
Só queria ter uma família, mas mesmo tendo meu pai sempre ao meu lado, ele nunca esteve lá, era como se fosse um fantasma dele, um r**m que se apossou de seu corpo e de suas emoções.
Levanto minha cabeça, e noto pequenas lágrimas, mas não dou atenção a elas, saio do banheiro e sigo para onde deixei minha mochila ontem, pegando a roupa que sempre deixo de reserva para qualquer precisão no hospital, sendo elas, uma calça social preta e uma camisa botões azul, muito normal, mas confortável.
Penteio meus cabelos com meus produtos que também carrego na mochila, e logo estou saindo do quarto, depois de arrumar a cama, coloco a mochila no ombro e logo estou chegando sala, que é dividida com um balcão da cozinha, e logo vejo Alberto também pronto andando de um lado a outro enquanto parece fazer o café da manhã.
- Bom dia. – Ele me olha e sorrir.
- Bom dia. – Ele diz, e tira duas xícaras da pia, colocando sobre a mesa, onde tem pães, algumas frutas, biscoitos dentre outras coisas deliciosas. Ele aponta para a segunda cadeira da pequena mesa de dois lugares, sentando-se a minha frente quando me sento sobre a cadeira. – Dormiu bem? – Pergunta me empurrando uma das xícaras e atacando um pão com manteiga.
- Dormi o quanto deu. – Digo sem muito entusiasmo, bebendo um grande gole do café morno, que desce esquentando tudo.
- Como assim? Não conseguiu dormir?
- Meio que tive um pesadelo, - Digo em dúvida. – Bom, não diria que foi um pesadelo, mas era muito angustiante.
- Deve ser por tudo que você tem passado, seu subconsciente está tentando dizer que está sobrecarregado. – Solto uma risadinha.
- Desde quando é especialista na mente humana? – Ele rir de volta.
- Apenas dando minha opinião, i****a.
- Deve ser besteira.
- Nada que esteja relacionado com nossa mente é besteira, Arthur. – Pode não gostar do que vou dizer agora, mas acho que você precisa de terapia.
- Estou tendo sonhos, Alberto, não ficando maluco. – Vejo o exato momento que ele revira os olhos.
- p***a, Arthur, você é médico, sabe mais do que qualquer outro ser humano, que quando temos uma doença, procuramos tratamento, não nos sentamos na sala de casa de b***a para cima e esperamos por um milagre divino.
- Muitos acreditam que Deus cura sim.
- Arthur, vamos levar isso a sério. Não acredito em Deus, mas sei que ele ajuda alguns de seus fiéis a ter força em situações de dor, mas nunca devemos deixar de procurar um especialista se tivemos uma doença, isso serve para a mente também. Deus nos dar oportunidades, não o milagre em nossas mãos.
- Para quem não é cristão, está pregando demais.
- Só estou constatando o obvio. Agora termina logo esse seu café, vai se atrasar e me atrasar também.
- Sim senhor! – Lhe mostro a língua.
- Uma criança você, Arthur!
Quase cinquenta minutos depois estou estacionando meu carro no estacionamento do hospital.
Sigo pelos corredores, onde já se podem ver algumas pessoas esperando atendimento, essa área aqui é exclusiva para consultas e atendimentos e tem alguns quartos para quando pacientes precisam ser internados, no segundo andar ficam as salas de cirurgias e uma enfermaria, e já no terceiro ficam as salas dos cirurgiões, no último e quarto andar, a sala do médico chefe que manda em tudo aqui.
Como o residente que chega hoje vai ser minha responsabilidade, talvez eu fique durante boa parte comigo em minha sala, e na outra maioria, na enfermaria aqui de baixo, já que não sei se ele vai ser um contrato depois que sua residência acabar, se ele se sair bem, consegue um cargo permanente aqui.
Passo pela mesa de Amanda.
- Bom dia, Amanda.
- Bom dia doutor Arthur.
- Muitos pacientes hoje? – Ele se levanta de sua cadeira e me acompanha até minha sala. Sento-me em minha cadeira, vendo-a de pé em frente minha mesa.
- Muitos, o senhor tem um dia cheio, sem contar se tiver emergências. – Sinto meus ombros doerem já. – Chegaram os exames do paciente, Arnaldo. – Pego os papais a quais ela me estende. Analiso tudo ali.
- Ainda bem que minhas suspeitas não se confirmaram. – Digo baixinho. – Pode ligar para ele por favor e marcar uma nova consulta?
- Claro doutor. Licença. – Diz e logo está saindo da minha sala, mas antes que a porta se feche eu lhe faço parar e pergunto.
- Tem hora exata para o médico chegar? – Ela olha o relógio em seu pulso fino.
- Em mais ou menos uns cinquenta minutos. – Balanço a cabeça em concordância.
- Obrigado. – Ela fecha a porta e escuto seus passos no piso, até que tudo volta a ficar em silêncio.
Abro meu notebook e procuro por hospitais longe daqui onde talvez possa ter uma vaga, quero sair daqui, não vou esperar que meu pai fique mais bravo, e venha me procurar, acabo não encontrando muitas opções de emprego longe, pagam bem, mas tenho que levar em conta que ainda não achei um lugar para morar. Falando nisso, tenho que entrar em contato com uma corretora, vender meu apartamento e quem sabe comprar outro ou até mesmo uma casa num bairro aqui por perto ou perto de um desses possíveis hospital que eu possa vir a cogitar trabalhar.
Queria fazer uma pós em medicina, mas agora para cirurgião geral, será que pode dar certo? É algo que sempre me fascinou, talvez eu possa ver se me adapto bem e gosto realmente.
Papai queria que eu fizesse para ser cirurgião plástico, mas consegui desviar disso e fazer apenas medicina, e vim para nesse hospital, onde uma consulta, custa quase meu rim.
Atendo um paciente que tenho que transferir para uma cirurgia, nada muito complicado, o acompanhamos a semanas, e hoje estava marcada a cirurgia para a retirada de um pequeno tumor que estava sendo tratado com quimioterapia, e tudo funcionou muito bem para ele, nesse momento ele deve estar indo para a sala.
Ouço um toque na porta e digo que pode entrar, quando a porta é aberta, ainda continuo com os olhos no meu computador.
- Qual paciente é agora, Amanda? – Pergunto e levanto meus olhos, que se fixam em olhos heterocromáticos, o esquerdo azul, e o direito verde, uau, é a primeira vez que vejo algo tão lindo e assustadoramente adorável. O rosto do homem a minha frente é quase que um convite a felicidade eterna, digo isso pelo sorriso gentil e que parece verdadeiro, seus cabelos pretos, muito comportados no topo de sua cabeça, camisa e calça social com o jaleco por cima. Seu corpo mesmo com as roupas cobrindo mostra ser magro, mas com curvas generosas e cochas grossas, é realmente belo espécime de homem a frente.
- Desculpa ir entrando assim, Amanda disse que estava tudo bem, espero que não tenha te atrapalhado. – Ele sorri gentil, gentil até demais eu diria, sua felicidade chega a me causar uma certa inveja. Mas trato logo de lhe devolver o sorriso.
- Tudo bem, você seria...? – Deixo a pergunta no ar.
- Oh, desculpe, eu sou Zander Pepper, o residente.
- Ah sim, sou Arthur Allbertilli, prazer. – Falo me levantando e lhe estendendo a mão, a qual ele aperta, como eu imaginei, reconfortante, ele parece ser o tipo de pessoa que é agradável de ter por perto. – Então vai se especializar apenas como médico geral? Tinha tantas opções para seguir. – Digo enquanto aponto a cadeira, ele deixa a mochila que notei agora em suas costas, no chão e senta-se na cadeira a frente da minha mesa.
- Eu apenas quis, não saberia explicar, mas, não gosto de coisas complicadas, e sendo apenas um médico geral, vou poder ajudar outras pessoas do mesmo jeito. – E lá está aquele sorriso, aquele diz: “apenas aceito o que a vida me dá, olha só, paz e amor” Não saberia dizer se isso é uma qualidade boa ou r**m dele.