Zander Pepper
Quando adentrei em meu apartamento, as lembranças dessa noite tomaram minha cabeça, eu cheguei aqui pensando apenas no trabalho, no meu estágio e o futuro da minha carreira como enfermeiro, então conheci esse homem que hoje é meu vizinho, nos tornamos colegas e porque não dizer que estávamos num começo de uma amizade. Arthur se mostra ser uma pessoa arrependida, me pergunto o tamanho de seus erros e o que levou ele a ter tamanha tristeza rondando seus olhos.
Desencosto da porta e olho ao redor do meu apartamento, solitário para um homem na minha idade, não tenho muitos amigos pois o que fiz foram ficando para trás em algum momento, apenas tenho Paulo, mas nas maiorias das vezes me sinto só, ainda mais quando estamos muito sem nos falar, tenho que ligar para meu pequeno, mas, sim, sou um lobo solitário, obtenho sorrisos de todos ao meu redor, mas nenhum fica ao meu lado depois. É uma vida triste eu diria. Estou acostumado com isso, apenas levar bofetadas na cara serve para alguma coisa, nos fazer forte.
Quando você estende uma mão ao próximo, procura apenas o bem-estar da pessoa que precisa de ajuda, você nunca pede nada em troca, por isso que nenhuma ficou ao meu lado. Eles pegavam o que queriam de mim e me viravam as costas.
Com Arthur é diferente, ele não quer nada de mim, não quer ser ajudado, não aceitou a minha mão, e pelo que pude perceber, ele quer permanecer ao meu lado. Eu diria que essa situação é muito diferente do que estou acostumado, por isso me sinto meio perdido e com medo do que pode acontecer.
Sei que isso não se aplica a todos, uma hora alguém que foi ajudado lhe estenderia a mão também, mas nunca aconteceu comigo, e o Arthur é o primeiro que mostra interesse em mim, e não no que eu posso lhe oferecer. Falar sobre ser trans com ele me trouxe um pouco de medo. Esse assunto sempre é delicado pela sociedade em que vivemos, não sabemos que ao contar algo assim vamos ser recebidos com normalidade ou com pedras nas mãos. Apesar de que maioria das vezes que contei fui apenas recebido com olhares atravessados e muitas vezes com nojo, ser quem eu sou quer dizer lutar por minha vida vinte e quatro horas por dia, não posso baixar a guarda, isso pode significar minha morte, como posso me sentir seguro em morar num país que mais mata pessoas como eu? Me pergunto se algum dia, num futuro bem distante, seremos capazes de viver felizes sem ter medo de nossa própria sombra, quando não somos mortos á pauladas, chutes e murros, são as palavras odiosas que nos levam a cometer um crime contra nossa própria vida, já vi casos de pessoas trans que morreram ao serem espancadas, outra que se suicidaram por causa de palavras cheias de ódio. Por um breve momento, nos braços de Arthur, essa realidade me pareceu muito longe, sei que estou fantasiando demais, mas parece que meu mundo vira outro quando estou com ele, não há perigos, apenas seus braços quentes em volta de mim.
Enxergar quem eu realmente sou sem julgamentos foi o ato mais especial que alguém fez por mim. Seja lá quais foram os erros daquele homem, eu estou disposto a ouvi-lo falar sobre, e quem sabe entender seus sentimentos e aceitar seu passado assim como ele aceitou a mim.
Olhando para o meu passado eu até que tive uma vida digna, consegui ser o homem a qual nasci para ser, tenho um bom emprego, fiz uma voa faculdade. Tive pais ótimos, apesar do meu falecido pai não ter acompanhado minha vida, sinto que ele estaria ao meu lado, minha mãe me amou de todas as formas, eu tive muita sorte. E continuo tendo até mesmo hoje, quando encontro um homem que nem Arthur. Estou disposto a enfrentar todas as dificuldades que vierem se isso me manter ao lado dele.
Seus erros não podem ter sidos tão imperdoáveis não é mesmo? Somos humanos, estamos fadados a errar, mas também a nos arrepender e procurar por perdão.
Deixo esses pensamentos de lado, por enquanto e sigo em direção ao banheiro, tiro minhas roupas e entro embaixo do chuveiro, a água morna relaxa meus músculos, fazendo a dor quase inexistente, lavo meus cabelos sem pressa e saio do chuveiro com a toalha na cintura. Procuro por uma roupa e visto calças jeans brancas com uma camisa polo branca. Calço meus tênis e preparo minha mochila, volto para casa apenas as nove da manhã, levo algumas coisas que talvez eu precise ao longo da noite, arrumo meus cabelos e passo um perfume, saindo de casa bato na porta em frente a minha, que logo é aberta e sou recebido por um sorriso lindo que me deixa de pernas bambas e com um frio gostoso na barriga, Arthur ainda segue com a mesma roupa, apenas sem a camisa e descalço, ele parecia um pecado ambulante, pronto para me levar ao inferno, porque ali tinha muita luxuria e t***o, com toda certeza não seria permitido sua entrada no céu.
— Vim apenas dizer que estou indo. — Em contraste com todo esse monumento em minha frente, seus olhos têm uma nuvem escura, seu corpo parece tenso, isso me preocupa. — Está tudo bem? — Ele sorri, abaixando a cabeça, mas logo levanta e me encara com um olhar doce, a nuvem pesada se esvai, mas se ele pensa que isso m engana está enganado. Estava pronto para falar isso a ele, quando um corpo se choca contra o meu, a princípio tomo um susto e meu corpo entra em alerta, mas logo reconheço os cabelos loiros em meu peito quando me puxa para um abraço desajeitado, sorrindo, agarro o pequeno homem contra mim, olhando para Arthur, noto seu olhar desconfiado e arredio contra Paulinho.
— Meu amor! Não me procurou ou ligou! — Ele faz um bico fofo e aperto sua bochecha, desviando os olhos de Arthur, que parece incomodado com o corpo do meu amigo colado ao meu. — Esqueceu do seu maninho?
— Claro que não meu amor, estava apenas ocupado, e você tem seu namorado para cuidar de você. — Olho de relance para Arthur e ele parece mais relaxado, teria gargalhado se não fosse Paulo voltando a falar.
— Aquele bruto me amarrou em casa depois daquele episódio, viajamos e praticamente tivemos nossa lua de mel, eu tinha uma noção, mas não tanta de como era bom dar o cu. — Ele solta a língua e minhas bochechas queimam quando Arthur solta uma gargalhada, Paulo tem suas bochechas vermelhas também ao que parece notar a presença do meu na...ficante? somente agora. Meu Deus, que tipo de amigo eu tenho? — Meus Deus! — ele exclama me soltando do seu aperto e cobrindo a boca com as duas mãos em espanto. — Eu não o vi aí. — Quando ele parece avaliar de perto o rosto de Arthur, reconhecimento recai sobre seu rosto e ele sorri, parecendo esquecer do constrangimento anterior. — Você é o Arthur. — Fala com um sorriso gigante.
— Sim, vejo que me conhece. — Ele me olha com um sorrisinho convencido. i****a! — Alguém deve ter falado demais sobre mim.
— Ah, ele fala, oh se fala. Você é muito mais bonito pessoalmente. — O cretino sorri ainda mais, todo galante ele responde meu amigo.
— Nada que se compare a sua beleza. — As bochechas coram ainda mais de Paulo, olho Arthur e vejo ele pelo que parece ser a primeira vez, ele parece mais solto, mais relaxado, mesmo que eu não tenha esquecido que antes ele parecia com problemas.
— Bom, esse é meu amigo, melhor amigo, Paulo. E Paulinho, esse é o Arthur, trabalhamos juntos. — Arthur me direciona um olhar questionador. O que eu deveria falar? Dou de ombros olhando em seus olhos. Vejo o relógio e me dirijo ao meu amigo. — Paulo, tenho que sair agora para o trabalho, me acompanha até lá embaixo ou fica no meu apartamento? Chego amanhã mais ou menos as sete.
— Vou descer com você. Vim para te atualizar sobre minha vida, não pensei muito em seu trabalho, eu te ligo e marco um outro dia. — Ele se volta para Arthur. — Foi um prazer, nos vemos numa próxima. — Ele sorri e aperta a mão de Arth, logo se afastando indo em direção ao elevador, Arthur aproveita e deixa um beijo casto em meus lábios.
— Nós vemos amanhã.
— Até amanhã.
Sorrio e sigo atrás de Paulinho, quando o elevador chega, vamos conversando amenidades e ele solta pequenas coisas do que fizeram durante a viajem. Mas logo nos despedimos na entrada do prédio, entrei no uber que tinha chamado e segui meu caminho para mais uma noite de trabalho, segui com todos os meus serviços, apenas checar alguns pacientes que Arthur tinha designado para mim durante a estadia dos mesmos no hospital. Passava das quatro horas quando finalmente o hospital se encontrava bastante calmo, aproveitei disso e segui para a cafeteria, no balcão pedi um bolo de chocolate e um café preto meio amargo, segui para uma das mesas perto das grandes janelas de vidro que se podia ver as ruas, comi duas pequenas garfadas do meu bolo, dei um gole no meu café quando uma senhora muito elegante com roupas de marca sentou em minha frente na mesa, levei um pequeno susto, mas logo passou ao que seus olhos cheios de soberba e de um ódio m*l disfarçado focou nos meus.
— O que senhora deseja? — Pergunto tentando parecer gentil, levando em consideração sua ousadia e falta de educação ao sentar-se na mesa sem antes perguntar se podia. Agora olhando melhor para mulher, seus cabelos castanhos tinham um tom idênticos aos de Arthur, por um momento fiquei em choque ao imaginar quem poderia ser a mulher a minha frente.
— Sou Hanna, Hanna Allbertilli. — Meus ainda se abrem em espanto com a confirmação. — Peguei meu orgulho por alguns segundo e o deixei no fundo da gaveta e resolvi vir aqui. — Engulo em seco.
— Por quê? — Apenas pergunto, querendo saber como que rapidamente ela chegou até mim. Ela tem um sorriso convencido em seus lábios cheios com minha pergunta.
— Conhece o sobrenome de nossa família, acha que tem algo que não conseguimos fazer? Fui informada que meu filho anda de muito grude com um certo homem que entrou no hospital, e olha minha surpresa ao ter suas informações sobre a mesa e descobrir que nem ao menos é um homem de verdade. — Sua cara enojada me deixa tremulo.
— Não pode falar isso, eu sou um homem, não é suas palavras que vão mudar isso. — Digo firme, tentando não transparecer que suas palavras me machucaram. Ela não dar importância as minhas palavras. Apenas continua jogando seu veneno.
— O que acham que vão falar quando descobrirem que alguém do nível do meu filho está se relacionando com alguém que nem mesmo pode me dizer se é homem ou mulher. — Suas falas deixam um buraco em meu peito, minha reação seria abaixar a cabeça e aceitar suas palavras ofensivas? Eu aguentaria tudo isso por muito tempo para continuar ao lado de Arthur? m*l começamos algo e sua família já me tem como uma aberração.
— Não me dirija essas palavras, a senhora pode ser presa, sabia disso?
— Acha que me prenderiam? Sou alguém importante demais para me colocarem atrás das grades por causa de um ser como você. — Minha garganta se fecha, meus olhos ardem pelo choro que quer sair. Até quando ouviria palavras como aquelas.
— Me diga o que quer. Diga o que quer para deixar meu filho em paz. — Encaro seus olhos, um sorriso cheio de deboche estampando meus lábios.
— Arthur saiu de casa por vontade própria, a mesma coisa aqui, só sairei da vida dele quando assim ele desejar, e nem por um momento desde que começamos algo ele demostrou essa vontade, então não se meta em nossas vidas, suas palavras podem serem baixas e cheia de preconceito, mas elas nunca me afastaram de Arthur.
— Você não tem noção do que o pai dele é capaz de fazer por causa disso. — Pela primeira vez desde que estive em sua presença, ela demostra por alguns segundos medo. — Ele seria capaz de matar meu filho. — Sua voz treme nesse momento, mas logo seu rosto volta a ficar duro e cheio de soberba. — Se afaste dele, deixe que ele viva longe desse pecado, que ele fique longe do perigo, me diga e te darei qualquer coisa. — Analiso cada pedacinho de seu rosto, eu poderia dizer que ali tem uma mãe que ama seu filho, ela não o entende, muito menos o aceita, mas o ama, não é confuso? Os pais são mais difíceis de lidar do que qualquer outra coisa, só tenho a agradecer por ter conhecido o amor desde que nasci e me entendi como homem. Mamãe sempre esteve ao meu lado, papai me amou até seus últimos minutos com vida, mas essa mulher em minha frente, ama sem saber amar, sem saber mostrar isso, acha que seu filho se manterá seguro longe de mim.
— Senhora, você está tentando mudar algo que não pode, não devia estar aqui pedindo que eu deixasse seu filho, não pediria isso ao ver que posso ser o único momento de paz e luz em sua vida, pode soar meio convencido de minha parte, mas eu vi nos olhos dele a tristeza ao falar de você, mas vi a felicidade nos mesmos olhos ao me olhar enquanto estou em seus braços, você devia tentar mudar os pensamentos ridículos seus e de seu marido, não mudar quem Arthur é. — Suspiro fundo quando seus olhos não perdem o brilho da esperança em me ver longe de seu filho, ela realmente pensou que eu deixaria Arthur por alguns números em minha conta? — Não dinheiro, não há nada que me afaste dele. Espero que isso entre em sua cabeça e nos deixe viver em paz. — Me levanto, deixando meu delicioso bolo e meu café para trás, perdi a fome, nesse momento preciso apenas me distanciar dessa mulher.
— Mas...
Ela ainda tenta falar, não lhe dou ouvido e sigo indo embora da cafeteria depois de passar no balcão e pagar o que peguei.
Entro no banheiro e me sento sobre o vaso. Passo a mão em meu rosto me sentindo cansado, exausto. Suas palavras maldosas ainda rondam minha cabeça, me deixando tonto e com vontade de chorar. Mas a preocupação de como Arthur vai se sentir se eu lhe contar o que houve deixa um aperto em meu coração. Devo contar a ele? Ou esquecer esse episódio?